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Akaashi suspirou, observando o salão repleto de pessoas fantasiadas e figuras misteriosas, enquanto tentava se acostumar com sua fantasia de Docinho das Meninas Super Poderosas. Foi convencido por Oikawa e Sugawara, que estavam determinados a formar um trio temático e o arrastaram para aquela que chamavam de “A melhor festa de Halloween da cidade”. Ele ainda se sentia um pouco deslocado, parado num canto do salão de pedra escura, iluminado apenas pela luz suave dos candelabros antigos.
O castelo onde acontecia a festa era uma das construções mais antigas e preservadas da cidade. Situado no alto da colina, abria suas portas apenas na noite de Halloween, e todos aguardavam ansiosos por isso. As janelas altas e os arcos de pedra conferiam ao lugar um ar de mistério. Ninguém sabia muito sobre a sua história, mas ele parecia ter uma presença própria, guardando segredos sob cada sombra.
Akaashi observava a multidão, sem perceber que, do meio da pista de dança, um par de olhos intensos o observava. Uma figura alta e esguia, vestida como um vampiro, sorria para ele. Bokuto parecia se destacar na multidão com uma energia contagiante, e quando os olhares de ambos se cruzaram, ele deu um passo à frente. Akaashi sentiu um arrepio pelo corpo ao olhar nos olhos do desconhecido.
Bokuto se aproximou, e estendeu a mão.
— Dança comigo?
Akaashi hesitou, mas havia algo inexplicavelmente familiar naquele olhar, naquele sorriso, algo que o fazia aceitar a mão estendida.
— Eu… não sei dançar. — ele murmurou, um pouco envergonhado.
Bokuto sorriu, os olhos brilhando à luz suave das velas. Havia algo encantadoramente antiquado em seu jeito, como se ele já estivesse ali há muito mais tempo do que qualquer um no salão. Sem soltar a mão de Akaashi ele se inclinou ligeiramente e sussurrou:
— Não se preocupe. Só precisa me acompanhar.
Com um aceno encorajador, Bokuto começou a guiá-lo pelo salão, os passos seguros e cheios de ritmo, como se cada movimento fosse uma coreografia que Akaashi já conhecia sem saber. Aos poucos, ele foi relaxando, deixando que Bokuto o conduzisse pela pista. Tudo ao redor parecia perder o sentido: a música, as risadas distantes, o mundo ao seu redor… Tudo desaparecia, exceto o toque firme da mão de Bokuto na sua.
Em um giro sutil, Bokuto o puxou para mais perto, os dois agora dançando como se fossem as únicas almas no castelo.
— Sabe… — começou Akaashi, enquanto eles giravam suavemente — tem algo estranho nisso tudo.
Bokuto ergueu uma sobrancelha, mas manteve o sorriso.
— Estranho, como? — perguntou ele, a voz suave, porém intensa.
— É como se… — Akaashi parou por um instante, tentando encontrar as palavras — …como se eu já tivesse te encontrado antes.
O sorriso de Bokuto se aprofundou, e seus olhos brilharam com uma tristeza suave.
— Talvez tenha mesmo. Alguns encontros são muito especiais para serem esquecidos — ele respondeu, quase sussurrando, enquanto continuava a dançar com Akaashi. — E alguns encontros… bem, são feitos para serem lembrados. Pelo menos por uma noite.
A música foi diminuindo, e Bokuto o guiou até uma das varandas do castelo, onde o céu escuro e estrelado se abria acima deles. Sentindo o vento frio, Akaashi se aproximou da borda da varanda, observando a cidade pequena lá embaixo, enquanto Bokuto parava ao seu lado, o rosto agora mais sério.
— Akaashi — começou Bokuto, sua voz ligeiramente trêmula, quase como se ele estivesse prestes a quebrar um segredo milenar — preciso te contar algo.
Akaashi se virou para ele, intrigado.
— O que foi?
Bokuto olhou para o céu por um momento antes de encarar Akaashi com uma sinceridade desarmante.
— Eu sou amaldiçoado. Esse castelo, essa festa… são o único momento em que posso estar aqui. Na maioria dos dias, estou preso ao meu castelo, invisível, intocável, como uma sombra. Apenas no Halloween, uma vez por ano, eu posso aparecer… e te encontrar novamente.
Akaashi ficou em silêncio, o coração acelerado, tentando absorver o que acabara de ouvir. Ele sentia o peso daquelas palavras, a intensidade da situação, mas ao mesmo tempo não conseguia afastar a sensação de que aquilo, por mais impossível que fosse, fazia sentido.
— O que acontecerá agora? — Akaashi perguntou, sua voz tremendo.
— Você encontrará outros Halloweens — Bokuto garantiu, a voz cheia de emoção. — E quem sabe, um dia poderemos nos encontrar novamente.
Bokuto respirou fundo, parecendo ponderar antes de continuar.
— A maldição que carrego é antiga. Fui amaldiçoado em meio leito de morte por um feitiço que me prendeu em solidão, me isolando em meu castelo, invisível para o mundo. Somente na noite de Halloween, quando o véu entre os mundos é mais fino, posso me materializar e sentir a presença dos outros. É por isso que eu espero todos os anos por essa noite, por você. A cada Halloween, o meu amor por você crescia, e eu acreditava que, talvez, um dia você se lembrasse de mim.
Akaashi sentiu o peso das palavras de Bokuto, uma mistura de tristeza e esperança preenchendo seu coração. Ele não conseguia imaginar a dor que o vampiro enfrentou, viver sozinho enquanto aguardava ansiosamente uma única noite por ano.
— Não é justo — murmurou Akaashi, lágrimas já escorriam por seu rosto. — Ninguém merece passar por isso.
— Eu sei — Bokuto respondeu, a tristeza em seus olhos intensificando — mas estou determinado a quebrar essa maldição. O amor verdadeiro tem poder, e eu sei que, se o nosso amor for forte o suficiente, conseguirei me libertar. Acreditar em nós é o primeiro passo.
Bokuto deu um passo à frente, segurando o rosto de Akaashi com as mãos, seus olhares se entrelaçando. Então, sem pensar, Akaashi puxou Bokuto para um beijo suave, mas intenso, repleto de emoção e desejo. O tempo parecia parar enquanto seus lábios se encontravam, um momento que parecia durar uma eternidade.
E ele queria que durasse a eternidade.
Quando se afastaram, Bokuto começou a desaparecer lentamente, seu corpo se desvanecendo aos poucos na bruma da noite. Akaashi se desesperou, estendendo as mãos.
— Não! Espere! Não me deixe! Eu prometo que vou me lembrar de você! Vou voltar todos os anos!
Bokuto sorriu, um sorriso triste e cheio de promessas, enquanto sua forma etérea se tornava cada vez mais indistinta.
— Até a próxima vida, Akaashi. Lembre-se de mim e do nosso amor.
E então, Bokuto se foi, deixando Akaashi sozinho na varanda, o eco da música ainda ressoando em seus ouvidos. A festa continuava, mas o mundo ao seu redor havia mudado para sempre.
Akaashi ficou parado, lágrimas escorrendo pelo rosto, mas, em seu coração, havia uma certeza: ele não havia perdido Bokuto para sempre. Ele voltaria àquela festa todos os anos, cada Halloween se tornando uma promessa silenciosa, uma busca por uma única noite com seu amor perdido.
Os anos passaram, e Akaashi tornou-se um frequentador assíduo da festa. Ele sempre buscava Bokuto, determinado a reviver aquele amor, mesmo que por uma breve noite.
Com o tempo, a saúde de Akaashi começou a se deteriorar, e a sombra da morte passou a acompanhar.
Um dia, sentindo ser seu último, a respiração estava pesada, o corpo difícil de aguentar. Mas Akaashi estava determinado a tentar algo.
Ele juntou suas poucas forças, e decidiu retornar ao castelo. Não era noite de Halloween, mas tinha a esperança de ao menos sentir a presença de Bokuto. Com lágrimas nos olhos e o coração apertado, ele sussurrou o nome de Bokuto, desejando que, em algum lugar entre os mundos, o vampiro o ouvisse.
E então, em meio à bruma da escuridão, Bokuto apareceu. Era como se o tempo não tivesse passado, ele ainda tinha aquele sorriso acolhedor.
— Akaashi! — Bokuto exclamou, os olhos brilhando com emoção.
— Eu nunca esqueci de você — Akaashi respondeu, a voz falhando. — Sempre voltei, sempre prometi que voltaria.
Com lágrimas escorrendo, eles se abraçaram, um calor e uma conexão indescritíveis os envolvendo. Bokuto segurou o rosto de Akaashi com ternura, e juntos, eles sentiram a força de seu amor começando a quebrar as correntes da maldição.
— Eu sinto você tão perto — Bokuto sussurrou, seu coração pulsando com esperança. — O amor verdadeiro tem poder, e o que sentimos é forte o suficiente para mudar tudo.
Akaashi sorriu, mesmo em meio à dor, e declarou:
— Nós sempre seremos um, não importa a vida em que estejamos.
E assim, com essa promessa de amor eterno, o vínculo que compartilhavam começou a dissipar a escuridão da maldição. Akaashi partiu junto de Bokuto. Os dois sentindo a presença um do outro, Akaashi aos braços de Bokuto finalmente sentindo o calor da sua pele se dissipando aos poucos. Em seu coração, ele sabia que, onde quer que estivessem, seu amor os uniria novamente, quebrando as barreiras do tempo e espaço.
Naquele noite, em um momento que desafiou a lógica, os dois puderam dançar novamente, como se não houvesse limites, como se o mundo tivesse se curvado à força do seu amor.
