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Foi por conveniência

Summary:

Gina sabe, ela sempre soube.

Notes:

É a segunda vez que eu torno minha escrita publica, e a primeira que eu escrevo sobre Harry Potter, sejam gentis comigo.
Sintam-se livres para comentar, qualquer sujestão e crítica construtiva será bem vinda, eu escrevi tudo de uma vez então pode estar levemente confuso.
Eu não tenho nenhum compromisso com a verdade ou com a coerência, só estou dando espaço para as vozes da minha cabeça se divertirem.
Harry Potter não me pertence
PS: Nessa história em particular a Lily é bem mais nova que os irmãos, eu imagino que ela tenha uns cinco anos. Alvo e Scorpius tem 12 ou 13.

Chapter 1

Notes:

É a segunda vez que eu torno minha escrita publica, e a primeira que eu escrevo sobre Harry Potter, sejam gentis comigo.
Sintam-se livres para comentar, qualquer sujestão e crítica construtiva será bem vinda, eu escrevi tudo de uma vez então pode estar levemente confuso.
Eu não tenho nenhum compromisso com a verdade ou com a coerência, só estou dando espaço para as vozes da minha cabeça se divertirem.
Harry Potter não me pertence
PS: Nessa história em particular a Lily é bem mais nova que os irmãos, eu imagino que ela tenha uns cinco anos. Alvo e Scorpius tem 12 ou 13.

Chapter Text

"Aonde você estava?" Ginevra Potter pergunta ao marido que acabou de sair da lareira, ela estava sentada no sofá, só com uma camisola branca de seda fina, às três da manhã ela não poderia estar usando outra coisa. Os cabelos vermelhos escorriam como uma cascata, ondulados por seus ombros, entre os dedos de sua mão direita repousava uma taça de vinho quase vazia, a julgar pelo rubor que cobria seu corpo não era a primeira.
Harry Potter bate a fuligem das vestes e levanta os olhos para a esposa, sua expressão gradualmente escurece adquirindo um fundo de tensão enquanto ele baixa os olhos. Ele é lindo, pensa Gina, injustamente lindo. Alto e forte, os cabelos escuros e rebeldes emoldurando o rosto esculpido, fazendo um belo conjunto com a pele escura e os olhos esmeralda. A capa que ele segura junto ao ombro o faz parecer um modelo masculino, saído das revistas que Gina gostava na adolescência, e aquela expressão...ele já a olhou assim, tenso, com o corpo rígido em concentração, só que naquela época havia mais desejo envolvido, e menos roupas também.
"Eu estava no trabalho, precisei fechar um caso, arquivar a papelada" sua voz parece exasperada, ele pendura a capa no gancho ao lado da lareira e desabotoa os primeiros botões do uniforme, ele nem se digna a dar a ela um segundo olhar antes de subir as escadas.
Ela fica lá, segurando uma taça de vinho vazia, os olhos azuis marejados, vidrados na lareira de onde ele saiu, enquanto ela se lembra da vida que uma garota sonhou que teria ao se casar com um maldito herói.
*****
Harry sabe exatamente como isso começou, foi uma carta de Alvo, ele nunca havia escrito, não desde que decidiu que ser filho de Harry Potter era a pior coisa que poderia ter acontecido com ele. Por isso, Harry abre a carta com avidez, não era o que ele esperava, sem xingamentos, sem briga ou raiva, ao invés disso desespero e tristeza, seu filho o fez um pedido.
"Scorpius não tem comido ou dormido" Alvo escreve "Ele não faz nada além de ficar esparramado na cama, ele tem medo de ficar órfão, diz que perdeu o pai no segundo em que enterrou a mãe. Por favor, eu não posso perdê-lo"
Contra seu melhor julgamento, Harry vai até a mansão Malfoy, anos depois ele admite para si mesmo e para o marido que não foi o desespero do filho que o levou até lá, mas seu próprio desejo, buscando a mesma sensação de seus dias de escola, a loucura e a intensidade que só Draco podia proporcionar, o desejo de dobrá-lo até a submissão só para remontá-lo novamente. Por enquanto, ele caminha pelos imensos jardins acreditando ser movido pelo puro altruísmo heroico.
Harry para na soleira de pedra branca encarando as majestosas portas a sua frente, as proteções da mansão são fortes, soando tão antiga quanto o próprio tempo, estranhamente, não são hostis. Antes que ele possa bater nas portas elas se abrem, num deslizar suave e silencioso, como se o convidasse a entrar.
O hall de entrada é enorme, cada detalhe grita dinheiro, exatamente como ele se lembrava, contudo, um ar de tristeza paira sobre a casa.
É diferente da impessoalidade que ele se lembra da adolescência, os sofás ainda são caros, as decorações ainda são mármore e pedras preciosas, mas agora parece aconchegante, com luzes amareladas, almofadas e tapetes felpudos, com um suave suspiro Harry percebe que agora a mansão parece um lar.
"O que você está fazendo aqui? " A voz suave o tira do topo, Harry se vira para encarar Malfoy e quase se assusta, ele sempre foi magro, mas agora parece doentio, o loiro está apoiado na coluna na base da escadaria central, suas mãos pálidas se agarram a ela como se fossem a única coisa que o mantém de pé. Ele está usando uma túnica azul clara de algodão que desce até o meio de suas coxas pálidas, o cabelo louro branco escorre liso, parece opaco e ressecado, Junto com os olhos pálidos assombrados ele parece um fantasma, etéreo e estranho, como se pudesse sem dissipado por uma brisa.
"Meu filho Alvo me enviou uma carta, ele tem estado preocupado com Scorpius, seu filho teme pela sua vida. Eu vim aqui na intenção de tranquilizá-los, mas acho que ele tem motivos para temer, você está horrível" Harry esboça um sorriso leve, na intenção de descontrair. Malfoy o encarar por um segundo e pisca antes de virar as costas e subir as escadas.
Eles construíram uma relação cordial depois da guerra, levou tempo, claro, mas eles conversaram, se desculparam e chegaram a um entendimento. Hoje Harry poderia vê-los quase como colegas, talvez, seja isso que o faz seguir Draco escada acima.
Não é difícil alcançá-lo, seus passos são lentos e instáveis pelo corredor, Harry o pega antes que ele possa tocar a maçaneta da primeira porta, e segura seu pulso. A primeira coisa que ele nota é a magreza, o pulso é fino como um galho, como se pudesse se partir ao menor esforço, por um segundo Harry se lembra de si mesmo, e de quando passava fome em um quartinho mofado debaixo de uma escada. A segunda coisa que ele nota é o contraste que suas peles fazem juntas, uma pálida e a outra escura, ele se pega hipnotizado por um momento, mas logo balança a cabeça, se forçando a se concentrar. Ele olha para o loiro e encontra um par de olhos cinzentos arregalados, Malfoy o encara parecendo assustado, as olheiras azuladas o deixam com um aspecto meio macabro, sua respiração está presa e ele permanece imóvel como uma estátua de mármore.
Harry o solta devagar, como se estivesse lidando com um animal acuado, imediatamente Draco solta a respiração, ele parece murchar como um balão de festa. Sua expressão se suaviza quando ele fala.
"Eu escreverei para Scorpius" sua voz é pequena, tão frágil quanto ele parece "Obrigado pelo aviso, você pode ir agora."
Harry olha para a casca de homem a sua frente e se lembra do quão diferente ele costumava ser, ele pensa no menino marrento e sorridente que conheceu em Hogwarts, de pelo rosada e bochechas gordinhas, depois do homem nos eventos de gala, com cabelos compridos e brilhantes, sorridente ao lado da esposa tão bonita quanto ele. Eles fazem, faziam, um casal lindo, pareciam tão felizes, faz sentido que ele esteja tão abalado.
" Malfoy, você realmente não parece bem, talvez seria bom consultar um medimago"
"Eu sou um medimago, Potter. Um muito bom, e digo que estou bem" ele parece vazio.
Harry sente a raiva crescer, por alguma razão a apatia de Malfoy irrita o menino que sobreviveu, o loiro sempre teve esse talento, despertar as piores partes de Harry.
"Olha, se você quer tanto assim morrer, vá em frente, só tenha a decência de fazer isso rapidamente, quem sabe assim seu filho pode seguir em paz e deixar de perturbar o meu."
Nada, o loiro nem se quer se move, ele simplesmente fica ali parado, entre Harry e a porta, a apatia faz com que o moreno queira empurrar ainda mais.
"Faz sentido que sua esposa tenha..." ele não consegue terminar a frase antes que o punho de Malfoy atinja seu queixo, eles caem no chão, presos juntos enquanto os punhos do loiro acertam qualquer ponto que consigam encontrar. Como um mago puro sangue, claramente luta física não era o forte dele, de modo que, mesmo com tantos socos ele não consegue causar nenhum dano real. Quando Harry pensa em atacar seu olhar encontra os olhos cinzentos de Draco, eles estão úmidos, vítreos com as lágrimas, o menino (agora um homem) que sobreviveu fica ali, parado enquanto os punhos de Malfoy o atingem, quando ele cansa de bater, se encolhe no peito do moreno e chora ruidosamente, por fim ele para e se levanta, os olhos estão inchados e vermelhos assim como seu rosto, ele bate a poeira invisível de sua túnica de algodão e estende a mão para Harry ainda no chão.
"Quer chá?" Sua expressão é cansada
Harry segura a mão estendida, se apoiando nela para levantar.
"Eu vou aceitar"
Eles descem a escadaria e viram a esquerda, entram em um cômodo grande, uma cozinha enorme, completa e profissional, em tons de branco e azul, contudo, o que mais surpreende Harry são os eletrodomésticos trouxas de inox prateado, completamente integrados ao design da cozinha.
Malfoy se move pela cozinha com facilidade praticada, abrindo e fechando armários, juntando ingredientes e em menos de dez minutos há duas xícaras fumegantes com líquido avermelhado na ilha de pedra, o loiro pega uma e se escora no fogão acenando com a cabeça pra instigar Harry a se sentar, o moreno beberica o chá, surpreso com o sabor rico.
"O que você pretendia vindo até aqui?" O loiro pergunta, sua apatia está de volta, mas seus olhos ainda estão vermelhos.
"Eu confesso que estava curioso. Alvo sempre foi propenso ao drama, mas dessa vez a preocupação dele soou tão genuína que eu não pude deixar de investigar. Nosso relacionamento não tem sido o melhor, pensei que, se eu ajudasse o amigo dele, talvez ele me visse como menos horrível."
Malfoy desvia o olhar para as portas no final da cozinha enquanto o rubor tinge seu rosto, ele aperta a xícara entre seus dedos e franze os lábios.
"Alvo é muito doce em sua preocupação, eu não sabia que estava preocupando tanto os garotos, escreverei para Scorpius para tranquiliza-los"
"Eu não sabia que você conhecia Alvo..."
"Ele costuma vir pra casa com Scorp nos finais de semana, a cada quinze dias. Sua esposa autorizou"
Isso deveria surpreender Harry, mas não o faz, ele não conversa com Gina sobre as crianças, ele não conversa com ela sobre nada na verdade, na maioria das vezes ele só volta pra casa depois que ela já dormiu, e mesmo quando ela estava acordada eles não se falavam realmente, o que era realmente muito estranho, considerando que eles deveriam ser marido e mulher, pensa o moreno.
"Eu acho que a melhor forma de os tranquilizar seria realmente melhorar, sério Malfoy, você parece muito mal, já pensou em conversar sobre isso?"
A expressão do loiro azeda, ele ainda está olhando para a porta.
"Não quero falar, e se eu quisesse, não teria ninguém para ouvir"
"Onde estão seus amigos? Digo, você sempre estava cercado pelos outros puro sangue, poderíamos confundir você com uma celebridade, ou com um príncipe."
Pela primeira vez desde que chegou Harry sente os olhos de Malfoy sobre ele, há tanta dor por trás daquele vitral azul que o moreno tem dificuldade de sustentar o olhar, ele desvia.
"É difícil sabia?" A voz do loiro é baixa, dolorida. "Oferecer a alguém algo que você nunca teve, eles tentaram me confortar, mas nenhum deles é bom nisso. Amor sempre foi um conceito abstrato em nosso meio, metade de nós nem se quer acredita que ele existe. Lealdade? Companheirismo? Sim, mas amor? Não... nenhum deles saberia o que é isso, eu por muito tempo não soube." Ele baixa os olhos para a xícara em sua mão, perdido em pensamentos.
Harry olha para a imagem à sua frente, um homem magro e sem vida, os cabelos opacos, a pele doentiamente pálida, os olhos tão doloridos e vazios... Ele parece triste, triste e sozinho. É fácil para Harry se imaginar naquela mesma situação, ele já foi assim, talvez seja isso que o faz estender a mão.
"Me parece que que você precisa de um amigo" o moreno sorri "Me disseram que eu sou ótimo no papel, o que me diz? "
Malfoy o encara surpreso por um momento, os olhos arregalados quase comicamente, ele solta a xícara devagar sobre a ilha e segura a mão de Harry, sua pele é macia, quente e delicada, suave contra a palma calejada do moreno.
Eles passam a noite em um silêncio estranho, bebericando chá e comendo biscoitos. Quando Harry vai embora, ele passa pelas proteções mágicas da mansão Malfoy e pode jurar que sente um puxão caloroso em sua magia, quase como um agradecimento.
É estranhamente fácil cair em uma rotina com Malfoy, com os meninos em Hogwarts e Lily na creche bruxa Harry não tinha muitos motivos pra voltar para casa (se ele fosse honesto consigo mesmo diria que isso era justamente o que ele evitava), então ele saia todos os dias do trabalho e ia direto para a mansão Malfoy. No começo ele encontrava Draco espalhado no sofá, quase sempre apático, demandava um pouco de esforço e na maioria das vezes algumas lágrimas, mas eles sempre acabavam na cozinha, com chás, chocolate quente e biscoitos. Eles conversavam sobre tudo e sobre nada, passavam horas sentados se entupindo de doces e biscoitos, com o tempo Harry passou a ansiar por esses encontros e principalmente pelo do brilho nos olhos do loiro sempre que Harry dizia alguma coisa.
Quando Harry viu Draco rir de verdade pela primeira vez ele entendeu porque a maioria das garotas eram loucas por ele. Eles estavam sentados na ilha da cozinha, duas grandes xícaras de chocolate quente fumegavam sob a pedra, o loiro mordiscava um bolinho enquanto Harry falava sobre o caso em que estava trabalhando, de repente há um estalo alto bem ao lado de Harry, seus reflexos agem rápido, ele salta com a varinha em punho, contudo seus pés se emaranham e ele cai, derrubando a xícara e a bandeja com os bolinhos, Draco explode em gargalhadas, o som suave Harry nunca o viu parecer tão leve, seu coração falha uma batida, e se aquece.
Harry sai do topor ao perceber que, de pé ao seu lado há uma pequena elfa doméstica, com grandes olhos dourados, ela o encara nem um pouco impressionada em seguida desliza o olhar para Draco.
"Senhor?"
"Tudo bem, Minsy." Ele responde, sua gargalhada se reduziu a um pequeno sorriso. "São as cartas de Scorp, não é? Pode deixá-las aqui"
O elfo acena, coloca o pacote sobre a ilha e em seguida desaparata num "pop". Draco se vira para Harry, o sorriso se alargando enquanto estende a mão.
"Até quando pretende aquecer meu chão, ó corajoso auror?" Ele arqueia uma sobrancelha platinada em escárnio divertido, o moreno segura a mão macia, se apoiando nela para levantar.
"Em minha defesa, eu nunca vi mais nada vivo aqui, achei que erramos só nós.
"Tenho cinco elfos, mas eles vivem na ala leste, só vêm aqui para pequenas tarefas. Autoria dizia que uma casa só se torna um lar com o trabalho das próprias mãos" seu sorriso ganha um ar de melancolia.
Harry não diz nada, distraidamente ele acena a mão, consertando as porcelanas quebradas.
"O que foi isso?"
"Hm? Ah isso?" O moreno pergunta, apontando para as xícaras. "Magia sem varinha?"
"Desde quando você faz isso?"
"Sempre, eu acho"
Draco revira os olhos
"Francamente, as vezes eu me esqueço que você é o maldito salvador. Vamos para a sala, herói. Não há como cair de um sofá com dois metros de largura.
Por fimm, visitar Draco acabou se tornando parte fundamental da rotina de Harry, todas as tardes após o trabalho ele aparatava direto para a mansão Malfoy, eles conversavam, bebiam, e se entretinham com jogos trouxas, o loiro tinha uma coleção surpreendentemente grande.
"Tory gostava, costumávamos jogar nas noites da família" ele responde dando de ombros quando Harry pergunta.
A intimidade e cumplicidade entre os dois cresceu num ritmo alarmante, as vezes Harry se pegava pensando a mansão Malfoy como algo perigosamente próximo de lar. Talvez seja isso que acontece quando você vê as piores partes de alguém em primeira mão e ainda assim escolhe ficar, Harry pensa.
Uma noite, eles estão sentados em frente a lareira crepitante, há petiscos dispostos na mesa de centro junto à duas taças de vinho meio vazias. Draco está inclinado na direção de Harry, ele está falando alguma coisa, mas o moreno não presta atenção, ele so consegue se concentrar nos lábios tingidos de vermelho, há um rubor saudável tingindo as bochechas do outro e uma sugestão de sorriso no canto de seus lábios, a cortina de cabelos louro branco cai suavemente pelos ombros estreitos, Harry se pega pensando em como parecem macios, num movimento involuntário o moreno estende a mão e segura uma mecha branca entre os dedos e olha para ela com admiração, o contraste entre o cabelo claro e sua pele escura é incrível, e a textura é exatamente como ele imaginou, tão suave. Ele brinca com o cabelo entre os dedos até perceber que Draco havia parado de falar, Harry levanta os olhos e encontra o olhar cinzento do outro, que o encara com a cabeça inclinada, olhando-o de maneira curiosa.
"O que foi?" Pergunta o homem fim cicatriz, o loiro pisca e em seguida responde
"Nada" Ele desliza pelas almofadas até descansar a cabeça no colo de Harry, o moreno desliza a mão entre os cabelos do outro, arranhando o couro cabeludo com cuidado. Eles ficam assim por um longo tempo, em silêncio, em algum momento pegam no sono.
Harry acorda com a luz do sol banhando seu rosto, a cabeça de Draco ainda descansa em seu colo, e todo o corpo dele está enrolado no maior.
"Draco" o moreno chama suavemente, o loiro se mexe e resmunga, mas não acorda, ele enterra o rosto no peito de Harry, sua respiração quente faz com que a pele escura se arrepie, o moreno ri e leva a mão até o cabelo comprido.
"Vamos, gatinho. Temos que trabalhar" a menção ao trabalho faz Draco despertar, ele abre os olhos ainda sonolento e pisca para Harry, em um movimento sorrateiro ele desliza uma das mãos para os cachos rebeldes, agarrando-os em um puxão rápido e doloroso.
"Eu não sou um gatinho, sou a porra de um dragão." Ele solta o cabelo escuro e se prepara para levantar, Harry ri se sentando para calçar as botas.
"Se você diz"
O moreno se levanta acenando os dedos distraidamente para chamar a capa que descansava no braço do sofá.
"Exibido" murmura Draco, escorado no pilar na base da escadaria, o moreno gargalha de verdade, o outro nunca deixava de se impressionar com magia sem varinha
"Até amanhã, Draco"
Se Harry fosse remotamente preocupado com o próprio casamento, teria percebido que dormiu fora de casa, aquela foi a primeira vez, não foi a última.
Quando o aniversário de Draco chega, eles têm um episódio estranho. Harry aparatou para a mansão como de costume, ele carregava um embrulho de presente levemente mal feito, ele nunca foi muito de trabalhos manuais, mas por alguma razão sentiu necessidade de embrulhar o presente de Draco por si mesmo. Ele entra na mansão desabotoando a capa do uniforme, completamente a vontade no ambiente, ele já está pendurando-a no gancho quando escuta.
"Pai? O que está fazendo aqui?"
Alvo está parado logo atrás de Harry, ao lado dele está uma versão fofinha de Draco, Scorpius.
"Ele vem ver meu pai" Scorpius responde antes que Harry consiga pensar. "Eles são amigos agora"
"Hm...sim. Eu trouxe um presente para Draco, temos nos encontrado algumas vezes na semana desde que você me escreveu"
"Você sabia disso?" Seu filho se vira para o amigo com uma sobrancelha arqueada.
"Sim, papai me escreve toda semana, ele me contou. Nós temos uma política de nenhum segredo entre família".
O menino loiro lança um olhar estranho para Harry, ele se sente estranhamente intimidado, o que é ridículo considerando que o garoto tem doze anos.
"Está explicado o motivo de você mentir tão mal." Alvo responde, Scorp vira para ele com os olhos estreitos, mas não provoca de volta, ao invés disso ele responde
"Vou ajudar meu pai com o bolo, espero vocês na cozinha"
Harry pode jurar que ele belisca Alvo ao sair, soltando um murmúrio que soa perigosamente com "conversem"
Pai e filho ficam parados por minutos a fio, alterando o peso de um pé para o outro, nenhum deles sabe o que dizer, mas no fim é Alvo que quebra o silêncio.
"Obrigado, por ajudar. De verdade" O menino abraça o pai pela cintura e sai correndo antes que Harry possa compreender o que aconteceu.
Passam-se minutos antes que Harry consiga reagir, caminhando em direção a cozinha com uma calma praticada, ele encontra Draco e Scorpius decorando um bolo redondo com diversas flores de açúcar coloridas, o loiro mais velho abre um sorriso largo quando vê Harry.
"Os meninos disseram que você tinha chegado, pensei que tinha sido abduzido pelo tempo que demorou. Isso aí é para mim?" Ele pergunta acenando com a cabeça na direção do embrulho.
"É sim"
"Parece que foi atropelado por uma manada de hipogrifos"
"Ei! Me dá um desconto! Eu nunca embrulhei nada na vida! Para a primeira vez até que está bom." Harry controla a ilha e segura a cintura de Draco com um dos braços, pousando um beijo leve em sua têmpora. O loiro suspira e em seguida o empurra levemente com o quadril.
"Sente-se, estamos quase terminando o bolo."
O moreno mais velho passa para o outro lado a ilha e se senta no banco, completamente alheio ao olhar questionador das duas crianças. Alvo solta um barulho de engasgo, o que chama a atenção de seu pai.
"O quê?" Harry pergunta
"Nada" o menino tem um sorriso de canto no rosto, Alvo nunca sorri pra ele, estranho, Harry pensa, e ainda assim maravilhoso.
Eles passam a noite se empanturrando de besteiras, salgadinhos, chocolate quente e por fim o bolo. Em algum momento Scorp arrumou um tapete de twister, eles jogaram em duplas até se esgotarem.
No meio da madrugada Draco abre os presentes, Alvo dá a ele uma cesta cheia de doces junto com uma coleção de polaroides surpreendente dos três juntos, o loiro mais velho sorri docemente para o menino e bagunça os cachos escuros, Alvo cora em deleite, Harry se surpreende, Draco Malfoy era mais próximo de seu filho do que ele mesmo.
O próximo presente a ser aberto foi o de Scorpius, ele deu ao pai uma partitura para piano, uma música de sua própria autoria, com grandes olhos de cachorrinho ele implora ao pai para tocar para eles.
"Você toca?" Harry pergunta incrédulo
A voz de Alvo interrompe antes que Draco possa responder.
"É claro que sim" suas bochechas estão estufadas em indignação "Draco é o melhor pianista do mundo"
"Eu agradeço a bajulação, Al. Mas não é para tanto"
"Agora eu quero ouvir" Harry encara os olhos de Draco com intensidade, os olhos dele são como possas de prata líquida. "Toca para mim?"
Draco solta o ar pela boca lentamente, Harry consegue sentir o calor quando encontra seu queixo, o alto dele cheira a chocolate. Quando o loiro mais velho fala, sua voz sai como um suspiro.
"Venham comigo"
Draco os guia pela mansão até entrarem em um grande cômodo no segundo andar, é uma sala ampla com grandes portas de vidro no fundo, as portas estão abertas de modo que a luz da lua se infiltra por elas deixando o cômodo banhado em uma luz azul suave. Vários instrumentos musicais estão dispostos pelo lugar, mas a estrela é sem dúvidas o piano de cauda preto no fundo da sala, colocado bem em frente às portas de vidro.
Draco se dirige ao piano carregando a partitura de Alvo enquanto os três se acomodam nas almofadas, o loiro mais velho se senta de costas de modo que Harry só possa ver seus cabelos sedosos escorrendo como uma cascata prateada e seus braços balançando enquanto ele se prepara para tocar. Banhado à luz pálida da lua ele parece angelical, etéreo. Quando ele finalmente começa Harry prende a respiração, definitivamente divino, se o paraíso existe ele deve soar exatamente assim.
Quando ele termina a peça, com uma única nota longa, todos podem estar chorando um pouco. Scorp corre até o pai e se joga nele, abraçando-o apertado, Harry os encara com vontade mal disfarçada, discretamente Alvo desliza para o lado do pai e segura sua mão, apertando forte, o moreno lança ao filho um olhar lateral, levantando a outra mão para bagunçar os cabelos escuros, tão semelhantes ao seu.
O último presente a ser aberto é o de Harry, Draco grita quando desfaz o pacote horrendo e encontra um pijama, um macacão felpudo azul escuro em formato de dragão, ele se joga no moreno gargalhando com um sorriso radiante, ele segura as bochechas escuras com força e encara os olhos de Harry intensamente, eles se encaram em silêncio, Draco abaixa o rosto encostando suas testas, o moreno aperta a cintura estreita do loiro com força.
"Obrigado" Draco sussurra suave "Eu adorei"
As crianças voltam para Hogwarts pela lareira quando está quase amanhecendo, Harry e Draco se despedem com carinho, Alvo solta um "tchau" estranho e meio gaguejado quando o loiro mais velho o solta de um abraço apertado, seu rosto está completamente tingido de vermelho.
Enquanto Harry acena para a figura do filho queimando pelas chamas da lareira, ele não pode deixar de perceber que essa foi a melhor interação que ele já teve com Alvo desde que ele aprendeu a falar.
Draco frequentemente tinha recaídas, de volta a seu estado de depressão profunda, elas se tornaram menos frequentes com o tempo, mas ainda aconteciam. Uma em especial foi determinante para o desenvolvimento do relacionamento deles. A crise veio no pior dia possível, Harry estava estressado, ele e Gina tinham brigado na madrugada anterior, ela estava brava pelo horário que ele chegou em casa, sua desculpa padrão era um caso particularmente difícil, ela não estava satisfeita, eles tinham uma festa da alta sociedade para ir, festa essa que o moreno tinha deixado bem claro que preferia morrer à comparecer. Eles gritaram um com o outro por horas, cercados de feitiços sonoros para não acordar Lily no andar de cima, por fim ele foi dormir no quarto de hóspedes, estranhamente, ele não se sentiu mal ao ouvir Gina chorar do outro lado da parede.
Harry chega na mansão no horário costumeiro, mas não encontra Draco, o moreno fica parado na sala sem saber o que fazer até ouvir um "pop" de aparatação.
"O senhor infelizmente não poderá entretê-lo hoje, senhor Potter. Minsy, a chefe da equipe dos elfos diz.
"Ele está em casa?"
"Sim senhor"
Ela parece hesitante, nervosa alternando o peso entre ambos os pés, se balançando de um lado para o outro, ela para como se considerasse alguma coisa, de repente sua expressão se torna severa, ela assente para si mesma e firma o corpo, como se tivesse tomado uma decisão.
"Ele está na sala de música, senhor Potter. Minsy vai guia-lo."
Eles sobem a escadaria juntos, Minsy vai já frente, navegando por corredores ricamente decorados até que param na frente de uma porta branca.
"Seja gentil, senhor. Hoje não é um bom dia para o lorde." Minsy desaparata, deixando Harry sozinho em frente a porta, ele respira fundo antes de girar a maçaneta.
Ele já esteve nessa sala, na noite do aniversário de Draco, hoje ela parece bem menos majestosa, a escuridão total deixa a sala macabra, as portas de vidro no fim da sala parecem portais para escuridão infinita. Draco está escorado nos pés do piano ao fundo da sala, vestindo vestes leves de algodão, seus cabelos estão presos em um coque meio bagunçado, seus joelhos puxados até o peito e ele os abraça forte, ao seu lado há uma garrafa de firewisky quase vazia.
Harry de aproxima devagar, e silenciosamente se agacha ao lado dele, ele chama o loiro suavemente, os olhos dele estão perdidos, fixados além de Harry sem se desviar um único momento. Draco não parece notar a presença do moreno até o toque. Ele se vira na direção de Harry, seu olhar está nublado, perdido.
"Tory" Sua voz sai quebrada
"Não...sou eu, Harry"
"Tory..." Os olhos dele marejados de repente. "Não... Harry. Harry... ela...ela" antes que possa concluir o pensamento, Draco colapsa, tomando em direção ao chão, o moreno o pega antes que possa se machucar. Antes que Harry entre em desespero Minsy aparece ao seu lado.
"O que aconteceu com ele?" Harry pergunta
"Depois da morte da senhora, esse costumava ser o estado comum do lorde. Melhorou depois que o senhor começou a vir."
De repente o desespero de Alvo fez muito mais sentido
"Vou levar o lorde para o quarto agora" Ela estende a mão na direção de Draco como se fosse pega-lo, inconscientemente Harry o aperta mais forte contra o peito.
"Me mostre o caminho, eu o levarei."

Minsy faz uma careta, mas concorda com a cabeça. Harry se levanta, trazendo o corpo do outro consigo, ajeitando-o contra o peito com cuidado, Draco é leve, muito mais do que Harry achava que seria.
Minsy guia o moreno até um quarto grande, estranhamente impessoal, todo em tons de azul e cinza, confortável, mas sem vida. Harry deita o Draco na cama macia com cuidado, e coloca o branco atrás da orelha delicada com cuidado, assim que se prepara para sair uma mão delgada segura sua camisa com força.
"Por favor...fique" a voz de Draco é tremula "Não quero ficar sozinho."
Harry olha pra Minsy em busca de orientação, mas nota que está sozinho com Draco no quarto. A mão do loiro aperta a camisa de Harry com mais força.
"Tudo bem"
Harry tira as botas e desabotoa os primeiros botões da camisa antes de se deitar ao lado de Draco, seu corpo é tenso, ele se sente estranho, seu coração bate desesperadamente e seus pensamentos correm a mil por hora sem formarem uma única linha coerente, antes que ele possa efetivamente surtar Draco se aconchega nele, seu corpo é fresco, e se encaixa no de Harry com perfeição, como se lá fosse exatamente o lugar ao qual ele pertence.
Harry acorda lentamente, com a leve claridade batendo no seu rosto, ele está deitado de lado, o corpo de Draco ainda encaixado no seu, suas mãos antes firmemente enroladas na cintura do loiro, sobem de leve pelas laterais do corpo delgado. Objetivamente, Harry sabe que não deveria estar tão confortável aconchegado com uma pessoa que não seja sua esposa, mas no momento ele não consegue achar forças para se importar, afinal essa foi a melhor noite de sono que ele já teve em semanas. Draco cheira bem, uma mistura de perfume francês chique com um toque de doçura no fundo, o moreno enterra o rosto no cabelo macio e respira fundo, contente. É nesse momento que Draco acorda, seus movimentos são leves e sonolentos, ele resmunga e choraminga, se recusando a abrir os olhos enquanto se aconchega mais no peito de Harry, fazendo com que seu cabelo macio faça cócegas no rosto do outro. Harry ri levemente, mas não se mexe, eles ficam assim, quietos até Draco resolver realmente acordar, ele se vira devagar, ficando de frente para o moreno, estendendo as mãos e enrolando-as no pescoço de Harry num abraço aconchegante, ele enterra o rosto no peito escuro como um cachorrinho e suspira.
"Bom dia"
"Bom dia" Harry responde apertando a cintura estreita, ele pondera por um segundo antes de continuar "Você quer falar sobre ontem?"
Contrariando todas as expectativas Draco assente levemente com a cabeça, ele não tira o rosto do peito de Harry, mas começa a falar.
"Eu quero falar, sinto que isso está me comendo por dentro, criando raízes em mim e aumentando como um câncer. Eu quero falar, mas não sei se você me entenderia, gosto do que está acontecendo, não quero que você me veja como um monstro." A voz dele é baixa, Harry consegue sentir cada palavra sendo articulada contra seu peito, os lábios de Draco são quentes e macios.
"Eu não acho que possa ver você como um mostro" ele acaricia os cabelos louros suavemente "Não somos mais adolescentes Draco, eu aprendi a muito tempo que o mundo não é preto e branco quanto o meu eu adolescente imaginava"
Draco faz um barulho, algo como um riso de deboche.
"Você é um herói, Harry. Você sacrificaria todos aqueles que você ama e a si mesmo, se isso significasse a salvação do mundo. Eu não sou assim, eu sinto que seria capaz de queimar o mundo inteiro se isso me permitisse vê-la saudável uma última vez" Suas mãos estão meio trêmulas, ainda envolvidas no pescoço de Harry, mesmo que levemente frouxas.
"Foi por isso que eu me tornei medimago, sabia? Eu era arrogante, confiante demais. Eu acreditava que podia encontrar uma cura. Eu revirei cada canto do mundo, magias escuras e claras de qualquer natureza em busca de uma cura, ganhei prêmios, títulos, renome, e mais dinheiro que eu poderia gastar em vinte gerações, tudo isso, mas nenhuma solução, nenhuma cura.
Harry se lembra de um episódio do tipo, um jantar na casa de Rony e Hermione, uma revista bruxa no tampo da mesa, o rosto de Draco estampado dele com uma legenda apelativa, o artigo na revista elogiando sua inteligência, algo sobre como ele estava revolucionando a medicina bruxa. O moreno volta os olhos parado corpo encolhido em seu peito, ele não diz nada, mas aperta a cintura estreita levemente.
"Eu sempre soube que ela morreria, antes mesmo de nos casarmos" sua voz está mais baixa "No começo eu...não me importava, eu estava até...satisfeito em não passar o resto da minha vida preso com alguém que eu não conhecia.
Nós puro sangue não somos como vocês sabe, nós não nos casamos por amor, ele tende a ser algo raro em nosso meio. Eu pensei que poderia cumprir minha obrigação com a minha família, e depois que que ela morresse eu poderia ser livre para encontrar, o amor, a felicidade."
Draco faz um som estranho, um riso de escárnio. "Como eu era tolo, não se procura amor, ele cresce em você, como erva daninha, antes que você perceba se torna grande demais para resistir, ele crava as garras em seu coração e passa a fazer parte do seu próprio ser, ao ponto de você se tornar uma casca oca quando privado dele.
Eu estava tão quebrado, e ela foi tão doce, tão gentil e paciente. Eu nunca havia visto alegria em coisas tão pequenas, ela me ensinou a cozinhar, sabia? Eu era um desastre completo, levei três meses para não explodir bolos. Eu não percebi antes, um dia eu olhei para ela, a vi sorrir e percebi que a amava. Aí começou o desespero, eu busquei soluções desesperadamente, até ela me dizer que não queria viver pensando na morte o tempo todo. Quando descobrimos que ela estava grávida ficamos tão felizes... e então o medimago disse que seria melhor tirar o bebê, a maldição por si só estava minando o corpo dela, a gravidez só adiantaria sua morte eminente. Foi a primeira vez que brigamos de verdade, eu disse a Tory... eu queria... eu disse a ela que interrompesse a gravidez, eu a vi tão brava, ela me disse que eu não tinha direito de escolher, era o corpo dela e, portanto, sua escolha. No começo nada mudou, e então começou, a fraqueza, os desmaios. Eu não queria perde-la em nome de uma criança que eu não conhecia. Ela me bateu, um tapa, ela estava tão decepcionada comigo. Eu levei um tempo para entender porque ela o queria tanto, e francamente eu tive medo, medo de não conseguir amar aquele bebê, medo de olhar para ele e só conseguir enxergar o assassino da minha esposa. Quando eu o senti chutar pela primeira vez... eu chorei tanto, eu falei com Tory sobre meus medos, choramos juntos por horas. Ela me disse que também tinha medo, mas sabia que morreria jovem desde os treze anos, ela me disse que queria um bebê, porque tinha medo de me deixar sozinho." Draco ri sem humor
"Às vezes eu me pergunto se isso foi uma punição por todas as coisas horríveis que eu fiz"
Harry não diz nada, honestamente ele nem sabe o que dizer, ele aperta o corpo de Draco contra o seu e pousa um beijo no topo da cabeça dele. Eles ficam abraçados em silêncio até o loiro se remexer levemente, ele se desvencilha dos braços de escuros e se levanta, Harry se apoia nos antebraços e olha para o rosto de Draco, seus olhos são vermelhos e inchados.
"Toma banho comigo?" O loiro pergunta "tem coisas que só uma hidromassagem pode resolver"
Uma voz irritante no fundo da mente de Harry insiste em dizer que ele não deveria aceitar, ele pensa na esposa, na casa para a qual ele se esforça ao máximo para não voltar, ele olha para Draco, de pé olhando para ele com olhos cinzentos grandes e expectantes, mesmo com o rosto inchado e avermelhado ele ainda parecia lindo, o coração de Harry falha uma batida, ele devia sentir remorso, ele se força a pensar em Gina mas volta a trás, essa é uma lata de vermes que ele não está disposto a abrir, e no fundo ele sabe exatamente o porquê.
Ele se levanta da cama e segura a mão de Draco estendida na sua direção, o sorriso que ele recebe apaga toda e qualquer dúvida em sua mente. Eles caminham até o banheiro anexado ao quarto, é amplo e com azulejos de pedra, o cômodo é claro, iluminação amarelada traz um ar de aconchego, no canto direito do banheiro, bem ao lado de uma grande janela, há uma hidromassagem redonda, grande o suficiente para duas pessoas, Draco caminha até ela e a aciona, em segundos há água fumegante borbulhando suavemente. Harry observa enquanto o loiro desliza a túnica pelos ombros, logo em seguida desliza as roupas íntimas pelas coxas roliças, ele entra na hidro e se senta devagar, soltando um suspiro contente. O moreno o encara por alguns minutos antes de tirar as próprias roupas e acompanhar o loiro para dentro da banheira, sem pensar muito ele senta atrás de Draco, puxando as costas pálidas contra o próprio peito, o loiro está quase sentado em seu colo, Harry sente as nádegas fofas roçarem seu pau macio, e o sente começar a enrijecer, ele sabe que Draco sente, apesar disso nenhum dos dois está realmente incomodado, o loiro balança os pés na água suavemente e suspira quando Harry massageia seu couro cabeludo, umedecendo os cabelos brancos.
"Qual a sua coisa com o meu cabelo?"
"Não sei, é que parece tão bonito, como uma cortina de seda macia. Além do mais, você derrete feito um gatinho quando eu toco nele"
Draco o lança um olhar fulminante, mas não diz nada, Harry ri e o puxa mais forte contra seu peito pousando um beijo contra a têmpora rosada.
"Harry?" Draco chama enquanto eles estão se secando, após saírem do banho
"Sim?"
"Obrigado, mesmo. Eu não me sinto assim a muito tempo sabe, tão...vivo"
Harry sorri e o puxa para um abraço, ambos estão nus e não se importam nem um pouco. O moreno é levemente mais alto, então a cabeça de Draco repouso em seu queixo, os braços tonificados enrolam-se na cintura de Harry, que delicadamente segura as bochechas rosadas, levantando o rosto do outro levemente pousando um beijo suave na testa pálida.
Quando Harry vai embora naquela noite, ele passa pelas proteções mágicas da mansão e sente um puxão doloroso em sua magia, como se tivesse deixado uma parte essencial de si para trás.
Em casa, depois de fazer sexo com sua esposa Harry olha para o teto pensativo, ele se vira para olhar Gina, o ela é linda, o corpo bonito, curvilíneo e delicado, a pele leitosa, os cabelos cor de fogo escorrendo pelos ombros estreitos e sardento. Ele busca dentro de si mesmo o sentimento caloroso que ele reconhece por amor, e não encontra nada, exasperado ele percebe que nunca existiu, ao menos não pela mulher dormindo ao seu lado.
Draco tinha razão, você não percebe amor até que ele te tome por completo. O moreno leva as mãos a boca, sufocando um soluço, isso não impede que um turbilhão de lágrimas escorra de seus olhos, ele pensa em seus filhos, seu filho mais velho, James, tão bonito e destemido, o herdeiro dos marotos, tão galante. Ele pensa em Alvo, seu menino inteligente, tímido e tão rápido em odiar e ainda mais em amar. E por fim em sua pequena princesa, Lily, tão doce e amorosa, Merlin, ele vai destruir a vida dessas três crianças tão preciosas.
"Harry?" Gina chama, a voz dela arranca um soluço do fundo do peito dele "O que aconteceu?" Ela se apoia no antebraço e se inclina na direção do moreno, os olhos azuis celestes estão cheios de preocupação ainda que meio sonolentos, o rosto dela é lindo, mesmo que amassado pelo travesseiro. Harry procura novamente por algum sentimento, nem que seja uma fagulha de paixão, nem que seja um mísero resquício de calor, nada... nem uma única faísca. Carinho? Sim, mas nem uma pequena fração de amor romântico.
"Harry, por favor. Fale comigo"
Ele não pode, ele nem se quer consegue, sua mente está em um completo turbilhão, ele intercala entre respirar desesperadamente e não consegue respirar. Gina o abraça, o corpo pequeno pressionado com força na lateral do deu corpo maior, ela não se encaixa tão bem, não tanto quanto ele... Merlin. Treze anos, ele está casado com Gina a treze anos, e ainda assim ele nunca a amou, e além disso, ele estava apaixonado... não, ele amava Draco Malfoy.
***** Harry pensou que visitar a mansão Malfoy depois de se descobrir apaixonado por Draco seria estranho e desconfortável, ele estava errado, tudo parecia exatamente igual, talvez até um pouco melhor, ser sincero consigo mesmo realmente faz milagres, ele conseguia aproveitar cada segundo do tempo deles sem aquele peso no peito residual. A risada, as bochechas coradas, os olhos cinzentos e brilhantes completamente focados no moreno, ele parece tão bonito, perfeitamente imperfeito, aconchegado em seu pijama de dragão. Harry está em cima dele antes que possa processar, derrubando-o sob o sofá felpudo, Draco o encara com curiosidade, apenas esperando seu próximo movimento, sua respiração é pesada, ele parece estar lutando para se manter imóvel. Harry o beija, pressionando os próprios lábios contra os de Draco, eles são frios e macios, ele quer mais. O moreno aperta a cintura do loiro com força fazendo-o suspirar, Harry desliza a língua pelo lábio inferior de Draco que abre a boca em resposta, levantando ambos os braços para apoia-los nos ombros do moreno, suas línguas se entrelaçam úmidas e quentes, o loiro tem gosto certo, de lar. Draco solta um gemido suave, derretendo nos braços de Harry enquanto responde o beijo languidamente, sem luta ou protesto.
É o moreno que quebrar o beijo, ele separa suas bocas, mas não seus corpos, pressionando suas testas juntas enquanto solta a respiração.
"O que foi isso?" Draco pergunta, seus olhos ainda estão fechados, suas mãos massageiam o couro cabeludo de Harry suavemente
"Não sei, só estou com vontade"
"Hm, é bom"
Harry ri, colocando a cabeça no pescoço pálido, ele se sente tão leve que questiona a possibilidade de estar dopado, ele sente seu pau quente latejando na lateral do quadril de Draco e se esfrega nele lentamente, se perguntando se beijar o loiro será sempre tão avassalador.
"Nós deveríamos estar fazendo isso?" Draco pergunta com um suspiro "Quer dizer, eu gostei muito, e acho que estou pronto pra seguir minha vida, mas nós temos alguns problemas aqui, você é casado, e é claro, tem nossos filhos..."
Harry geme e rola de cima do loiro, ele se esparrama no sofá sem fazer a menor questão de esconder sua ereção
"Certo, adultos responsáveis. Draco, eu acho que amo você."
O loiro congela por um segundo e em seguida ri, a gargalhada dele aquece Harry por inteiro, ele se arrepia do pé até o último fio de cabelo.
"Eu sei, eu também amo você."
"VOCÊ SABIA ??!!"
"Harry, por favor. Nenhum de nós foi exatamente sutil sobre isso, eu acho que tenho um certo fraco por você desde a escola. Eu me casei com Astoria e escolhi ama-la e faze-la feliz por todo o tempo que tivéssemos juntos, contudo, você sempre foi uma questão pra mim. Ela sabia disso."
"Ela gostaria que você fosse feliz"
"Eu sei" Draco sorri.
Antes de ir embora naquela noite, Harry se inclina na direção de Draco, ele beija os lábios do loiro e diz que vai falar com Gina no final daquela mesma semana. No fim, ele nem precisou
*****
Ginevra Potter encara sua lareira enquanto escuta seu marido subir a escadaria. Gina tentou, ela tentou muito fingir que nada estava acontecendo, ela tem a casa linda que sempre sonhou, os filhos que sempre sonhou, e o marido que sempre quis, por Merlin, ela queria ser esposa de Harry Potter desde que ouviu a história dele pela primeira vez, aos seis anos de idade, e ainda assim ela estava infeliz. Desde que seus filhos começaram a escola, Harry não ficava em casa por mais de cinco horas, nunca em horários descentes, em retrospectivas Gina percebe que ele só começou a passar um tempo com ela quando James nasceu.
Ela foi tão estúpida, Gina ri sem humor, uma ideia martelando no fundo de sua mente, ela não devia fazer isso, não se quisesse manter sua falsa felicidade, ela vai esmagar seus próprios sonhos, mas sabe que se não o confrontar viverá assim para sempre, no fundo ela quer machucá-lo, quer que doa nele tanto quanto está doendo nela. Ela pousa a taça na mesa de centro e segue Harry escada acima.
Gina o encontra saindo do banho, com uma toalha felpuda enrolada na cintura, pequenas gotas d'água escorrendo pelo abdômen esculpido até desaparecerem sob a toalha, ele está secando o cabelo o cabelo, chacoalhando uma toalha menor nos cachos selvagens, ele parecia suave, feliz, ele nunca pareceu assim ao lado dela. Gina aperta as mãos em punho e trava o maxilar, ela deve fazer algum barulho porque ele levanta os olhos, toda a leveza deixa o corpo dele, ela pode ver cada fibra de seu corpo tensionar, e pode ver ele se forçar a relaxar, ele poderia ter enganado qualquer, com sua falsa naturalidade, não Gina, ela conhece cada microexpressão desse homem. Harry se vira para a cômoda e começa a se vestir, um pijama de flanela, ele já estava completamente vestido quando Gina criou coragem para perguntar.
"Quanto tempo?"
"O que?" Ele não está olhando para ela, ele nunca olhou para ela.
"A quanto tempo você está me traindo?" Ele se senta na cama, não parece assustado nem culpado. Gina espera que ele negue, ou pelo menos se desculpe, ela não esperava uma confissão.
"Quase um ano agora" Gina engasga, um barulho ferido, ela sente seus joelhos falharem e se força a caminhar até a cama. Ela espera que ele fale mais alguma coisa, um complemento, uma desculpa, nada, ele não diz nada, Gina sente as lágrimas escorrendo pelo rosto, não de tristeza, mas de raiva.
"Você não vai dizer nada? Não vai se desculpar? VOCÊ CONFESSA SEM PESTANEJAR E NEM TEM A DECÊNCIA DE SE DESCULPAR ??!" Ela está gritando, mas se esforça para controlar, Lily está dormindo no quarto do outro lado do corredor, ainda que o quarto deles tenha feitiços permanentes de bloqueio de som, ela não quer arriscar
Esse quarto ainda pode ser chamado de quarto deles? Alguma vez foi o quarto deles?
"Não vou me desculpar, Gina. Eu não me arrependo" Harry está surpreso com a própria sinceridade "Quer dizer, eu sinto muito por machucar você, sinto muito mesmo, mas não posso me desculpar pelos meus sentimentos, não vou manchar sentimentos tão bonitos com algo como arrependimento"
"Sentimentos?" Sexo ela poderia ignorar, ela estava disposta a esquecer, a fingir que não aconteceu, mas sentimentos...
Ela devia saber, ele não era do tipo que fodia por aí.
"Quem é?" A voz de Gina sai quebrada "QUEM É A VADIA QUE VOCÊ ESTÁ FODENDO PELAS MINHAS COSTAS ???" Harry faz uma careta azeda.
"Não estou dormindo com ele Gina, eu jamais te desrespeitaria algum de vocês desse jeito."
Então é um "Ele"...
"Quem é ele?"
"Draco Malfoy"
Ela devia saber, não, ela sabia, ela sempre soube, ela se joga na direção dele antes que possa pensar sobre isso, derrubando-o de costas na cama, seu rosto está vermelho e úmido pelas lágrimas, os punhos acertam o peito de Harry, ela grita uma enxurrada de palavrões que deixariam um marinheiro bêbado envergonhado. Ele não a segura, nem fala nada, só fica lá enquanto ela bate nele, Gina está com tanta raiva, tanta, tanta, ela precisa arrancar uma reação dele, qualquer reação que seja. Ela o beija, raivoso, seus dentes batem contra os lábios dele até que a ruiva sinta gosto de ferro, Harry faz um barulho surpreso e congela, Gina aproveita para descer a mão pelo pijama, levantando a camisa enquanto arranha o abdômen definido até machucar a carne. Ela está pronta para arrancar a calça dele quando é impedida, Harry segura seus pulsos, não forte o suficiente para machucá-la, mas forte o suficiente para que ela saiba que não deve continuar. A ruiva levanta os olhos para o rosto dele, mesmo com os olhos nublados pelas lágrimas, ela pode enxergar a pena nos olhos de seu marido, por um momento ela sente ódio, cru e verdadeiro e depois nada, toda a luta deixa seu corpo, ela relaxa e cai sobre o peito dele, incapaz de segurar as lágrimas, de tristeza dessa vez
"Por quê?" Ela consegue perguntar entre soluços
"Eu não escolhi isso, Gina. Quando eu percebi já estava acontecendo, e eu não menti, eu não dormi com ele"
Harry solta os pulsos dela devagar, ela aproveita para começar a se levantar, sentando-se sobre o quadril dele, sua camisola subiu com a agitação, de modo que suas coxas estavam expostas, sua calcinha fina não era uma barreira significativa contra a virilha dele, mal coberta pelo pijama de flanela. Gina se movimenta devagar, rebolando sobre o membro quente embaixo dela, Harry não enrijece, nem reage, nem um suspiro. Ela sente as lágrimas esquentarem seus olhos de novo, mas se recusa a deixa-las cair, engolindo seu orgulho massacrado, ela sai de cima dele e senta, escorada na cabeceira, Gina pode sentir a humilhação queimar seu estômago, enquanto puxa os joelhos para o peito.
Harry se levanta da cama e caminha até o frigobar, ele volta para a cama e senta ao lado dela, ele está segurando uma garrafa de firewisky, ótimo, ela pensa, a adrenalina queimou cada gota de álcool em seu sangue, ela precisa de algo forte. Ela vira a primeira dose e o encara em silêncio por alguns minutos antes de falar
"Sempre foi estranho sabe, vocês dois. Você sempre teve uma obsessão estranha por ele"
Harry assente devagar com a cabeça
"Eu sei. Quando penso sobre isso agora eu consigo compreender, sempre foi ele." A felicidade mal contida na voz dele a irrita, ela não pode deixar de lado a mordida na voz
"Por que se casou comigo então? Eu fui seu álibi? Treze anos perdidos da minha vida gastos para esconder sua sexualidade? Isso não é um problema no mundo bruxo sabia?" Ela nem tenta esconder a mordida em seu tom, tudo que ela quer é estraçalhá-lo
Ele desvia o olhar, colocando o topo da cabeça contra a cabeceira, ele encara o teto por minutos a fio, ela poderia pensar que ele caiu no sono se não fosse por sua respiração irregular, finalmente ele responde.
"Não era preconceito enraizado nem nada do tipo, se você quer saber eu sou bissexual, eu realmente desejei você, só não amei como deveria. Acho que é o que todos esperavam de mim. A guerra havia acabado, contra todas as probabilidades e contra minha própria esperança eu estava vivo, os olhos de todo o mundo bruxo estava sobre mim, eles respeitavam no meu pescoço como abutres rondando uma carcaça. Eu estava vazio, sem propósito e perdido, e então Hogwarts foi reconstruída, eu entrei na academia de aurores, Ron e Mione se casaram. E eu não tinha nada. E aí havia sua família, Moly sempre foi tão acolhedora, todos foram. Eu nunca tive uma, sabe? Não uma como a sua, feliz. Eu queria fazer parte daquilo, não foi uma decisão completamente consciente, mas eu sabia que você estava lá, você me queria, e era linda, inteligente e poderosa. Todos esperavam que eu me casasse, me tornasse um auror, construísse uma família, tudo me parecia parte do roteiro pré-programado para a vida do menino que sobreviveu, então eu só...atendi as expectativas. Foi cruel Gina... sinto muito." Ele não diz mais nada, Gina está verdadeiramente admirada com a audácia dele, a sinceridade crua deveria irritá-la, mas não o faz, ele é um leão até os ossos, é uma das coisas que a fez se apaixonar por ele loucamente. Eles passam o resto da noite sentados em silêncio, sem dormir, escorados na cabeceira da cama.
Harry parte de manhã, ele escreveu para os meninos em Hogwarts e conversou com a filha durante o café da manhã, ele beija a testa de Lily com carinho antes de sair, ela parece confusa, mas não chora.
Seis meses depois, quando recebe os papéis do divórcio, Gina chora, não por si mesma, mas pela garotinha que se apaixonou pela ideia de um príncipe que ela mesma inventou.