Actions

Work Header

Rating:
Archive Warning:
Category:
Fandom:
Additional Tags:
Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2024-11-04
Words:
966
Chapters:
1/1
Kudos:
4
Hits:
8

O Infame Teatro Das Almas Perdidas

Summary:

Aquilo me encarava da forma que eu nunca gostei, e me perguntava coisas que eu não sabia responder. Quase nunca tinha sentimento na sua voz, nos seus olhos, não havia nada nele. Ele me mostrou o cesto de lixo, entornado de maços de cigarro e latas de cerveja. E, com um isqueiro quase vazio, acendeu um cigarro e tragou, e cuspiu toda a fumaça quente em meu rosto.

Meus olhos arderam tanto, mas eu não sabia se era pela fumaça ou pelas palavras.

Notes:

(See the end of the work for notes.)

Work Text:

Aquilo me encarava da forma que eu nunca gostei, e me perguntava coisas que eu não sabia responder. Quase nunca tinha sentimento na sua voz, nos seus olhos, não tinha nada nele, tirando os momentos que queria me ver destruído. Ele não gosta de mim. 

 

— Você está tremendo. Sentado por horas, suas mãos e pernas não param. Está suando, até demais. 

 

Eu nunca gostei dele. Não gostava de falar com ele, de olhar pra ele, de ouvir ele. Mas ele sempre está comigo, sempre me seguindo, me observando. Eu queria ignorá-lo. 

 

— Ao menos sabe se é de fome, medo, ou ansiedade? De alguma coisa você consegue saber?

 

Eu balancei a cabeça pra ele, às vezes não tenho como ignorar. E ele segurou meu rosto, acariciando com aquelas mãos repulsivas, decrépitas, encarando meus olhos como se fosse entrar. 

 

— Não existe mais ninguém nesse mundo que vai entender você tão bem quanto eu, você sabe; mesmo tentando abafar com as músicas mais altas nos seus ouvidos, você está sempre me ouvindo. Você não pode me ignorar. 

 

Ele não parava de esfregar aqueles dedos podres pelo meu rosto. Não tinha nada que eu pudesse fazer além de olhar para ele também, e ter que aguentar a visão maldita do seu rosto perto do meu. Seus olhos nunca vacilam, e nunca mostram nada bom. Eu quero vomitar. Eu não gosto dele. 

 

— Não precisa gostar, afinal eu também detesto você. Eu tive que ver cada erro que você cometeu consigo e com os outros. Fui obrigado a observar de perto toda merda que fez em toda sua vida, a sua incapacidade de fazer qualquer coisa por conta própria. Você, por acaso, é humano?

 

Eu queria poder responder tudo que eu já fiz de bom nesse mundo. Dizer tudo que eu sei fazer, aquilo tudo que eu consigo fazer… Mas eu não posso. Eu não tenho resposta.

 

E ele sabe disso. Foi sorrindo, aquele sorriso perturbador, que ele mostrou que sempre soube que eu não seria capaz de ir contra ele. E então, ele se sentou em minhas pernas, e apertou meu rosto cada vez mais com suas mãos podres, gélidas. 

 

Eu queria que ele morresse.

 

— Eu sei. Eu quero que você morra. Nem eu, nem você, deveríamos estar aqui. Você ocupa um lugar nesse mundo que não te pertence, por sua própria culpa. Você fez por onde e, agora, com sorte você só seria esquecido. Mas talvez até odiado. Mas tudo isso que eu te digo, você mesmo já sabe. Nem mesmo pra morrer você consegue servir.

 

Ele afastou o rosto e me mostrou o cesto de lixo, entornado de maços de cigarro e latas de cerveja. E, com um isqueiro quase vazio, acendeu um cigarro e tragou, e cuspiu toda a fumaça quente em meu rosto. Eu nunca soube como responder a ele, e nunca soube se sentia raiva ou medo. Meus olhos arderam tanto, mas eu não sabia se era pela fumaça ou pelas palavras. 

 

— Você é engraçado. Sempre quer parecer esperto, aquele que entende das consequências. Mesmo se sentindo um inválido, você tenta agir como alguém que preste. Fingindo que entende a sua realidade, que vai conseguir suportar; você fuma e age como se estivesse preparado para o que te aguarda, mas ao mínimo sinal de dor, você treme. Você aconselha os outros como se soubesse de alguma coisa, mas todas aquelas palavras sem nexo algum que saem da sua mente, nem mesmo você entende. Você tenta, todos os dias da sua vida, acreditar que está tentando ser uma pessoa melhor, mas sempre acaba aqui. 

 

Eu tentei desesperadamente parar de encará-lo. Tentei desviar o olhar daquela assombração, procurando por qualquer coisa que pudesse me ajudar a escapar, me salvar. Mas esse quarto está sempre trancado, sempre escuro. Não tem nada nem ninguém que pode me salvar. 

 

Eu não consigo mais. Eu não posso mais suportar nem a ele, nem a mim. E essa aberração sabe disso, ele agarrou meu rosto de novo, me capturando com as garras vindas do inferno, e encarou meus olhos mais uma vez. Mais uma maldita vez. Abriu minha boca e, com a bituca queimando em mãos, me fez engolir. 

 

— Eu vivo me perguntando, como? Com 20 anos você ainda não sabe de nada sobre ser responsável, sobre ser alguém. Você deveria ser melhor, mas vive ocupando essa cabeça com qualquer coisinha porca sem sentido. Todas as pessoas que você gosta, que você ama, mesmo quem é mais novo, sabe de tanto mais que você. Entende tanto mais que você. São sempre melhores que você. Até mesmo aqueles que você despreza estão acima, como?

 

De repente cada palavra que saía de sua boca era acompanhada de um soluço. Seu rosto estava deplorável, e completamente molhado. Agora quem estava tremendo era ele, e não me tocava mais. E eu senti raiva.

 

Ele é patético. Olhá-lo acaba com a minha fome, seu cheiro me enoja. Esse maldito corpo me dá asco, aquela pele atrofiada repulsiva. Sua voz machuca minha mente e meus ouvidos. Mas, apesar disso, eu respirei e, com calma, enfim pude abrir minha boca.

 

— Por que está chorando? 

 

— Eu odeio você. Estar preso contigo nesse mundo é, e sempre será o pior castigo que alguém poderia ter. Sua existência me machuca, seu rosto me destrói. Sua vida não faz sentido algum pra mim, sempre cercado de pessoas incríveis. Eu acordo todos os dias torcendo para que você desapareça, para que evapore. Eu não suporto o fato de que você é a única coisa que eu tenho nesse mundo.

 

E eu, extasiado, nunca o entenderei, e nunca conseguirei responder. Maldito ser. Mas, em uma última oportunidade, me digno a dizer aquilo que mais seria satisfatório para mim.

 

— Eu vou conseguir. Algum dia eu vou te matar.

 

Maldito ser. Quem deveria estar desabando aqui sou eu.

Notes:

Você por aqui? Quem diria...