Work Text:
Em meio ao riso, envolto de queridos, na tarde de uma segunda-feira, a rigidez lentamente se alastra no meu corpo, os músculos enrijecendo, aquele olhar pesado que retornava; em meio ao riso, a mão inconsciente tomando meu bolso, o maço, o isqueiro. Inspiro, o sorriso ainda permanecia, estático, afim de se esconder. E eu, de fugir, de correr, pra longe de todos aqueles que me faziam rir, e distrair, e pensar que, algum dia, uma vida feliz seria de fato pra mim. E achar que, erroneamente, eles ainda estariam ali.
E eu me afasto, um passo de cada vez, pra trás, encontrar uma parede e me escorar. Acender o isqueiro, queimar o cigarro e me afogar sozinho, na fumaça, nos meus pensamentos, na minha ansiedade. Me afogar em cenários, desesperança e, talvez, realidade. O medo, oh medo, como sempre ao meu lado. A angústia, afoito, pensando em como estarei daqui um, dois, três, quatro, cinco anos. Anos. Daqui a dez, ou quinze, sem mais aqueles rostos rindo diante de mim, sem suas vozes, o toque e a presença, sem mais eles.
Por que seria diferente?
Se há um, dois, três, quatro, cinco anos foi o mesmo. Tantos risos e olhares partidos ao vento na história da minha vida, todos os apertos e abraços, todos os momentos que chamei alguém de melhor amigo. Um por um seguindo seu caminho, e eu o meu. E eu, tragando a fumaça, expiro saudades.
O tempo está passando, não pelo ponteiro girando no pulso ou pelo galo que têm cantado toda maldita manhã; está passando, tudo que senti por quem já passou. Em todas as épocas, meu coração parecia não bater a qualquer sinal da perda de quem amava e agora ele bombeia como sempre foi, não parou. Não morreu.
Mas a raiva cresce, não quero não sentir mais a dor por quem já não está mais me chamando de irmão, ou de quem já não me pede mais conselhos, de quem me fazia rir numa tarde tediosa de domingo. A raiva cresce por todos que seguiram sem mim. E, ainda assim, passa. Como o último trago que dou, a bituca que eu jogo ao chão ao lado de todas as outras, desperdiçando todo aquele tempo com o que não tenho mais.
Eles estão aqui, jogando conversas fora como se não existissem mais preocupações, as preocupações que em mim também desaparecem ao lado deles. Deveria ser grato, então, pelo que eu tenho agora, antes que perca novamente. Deveria ser… Deveria…
Você não está aqui.
De toda alma viva na porra desse mundo, você era quem mais deveria estar aqui. Nessa maldição, quem não deveria ter ido, que mesmo depois de tanto, resultava sempre no mesmo. Sempre estava aqui. Achei, um dia, que tinha finalmente aceitado sua partida, sem nem mesmo o infernal adeus, e cá estamos; você em sua vida, e eu remoendo sua ausência. Sem mais sua voz chamando por meu sobrenome, o sotaque maldito encravado na minha mente.
Todo sonho e o anseio, todos os planos e opções, todas as memórias. Eu amei, e como amei, e não bastou pra ficar. Escrevi parágrafos e versos tendo sempre o teu rosto na mente, na alma, em todos os meus vasos sanguíneos. Cantei alto como se fosse sempre o último dia na terra. Botei teu rosto e tua pinta em linhas nos papéis, eternizei toda sua imagem em mim, e não bastou. Segurei seus braços, e em teu abraço eu senti que tinha tudo, aquele dia. E, no fim, mais um dia que voou no tempo.
Te chamei de alma gêmea, orgulhoso, me sentindo um rei.
Abaixando a cabeça como uma ação dolorosa demais, desmanchando o olhar no chão sujo, rodeado de cinzas, as bitucas. Lembro então que há mais um em meus dedos, os mesmos que não foram capazes de segurá-los. Inspiro, fumaça. Expiro, fumaça. Inspiro, raiva. Expiro, mágoa.
Contigo eu aprendi que ninguém nunca permanecerá para sempre, mesmo que eu grite e chore. Se nem mesmo você ficou, ninguém ficará. Se tornarão a fumaça que um dia irei tragar, e exalar a saudades que irá me matar.
