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Quarto de Segredos

Summary:

Thyon Nero parecia cada vez mais doente por conta do trabalho e isso tirava Lazlo do sério. Em uma visita rápida para checar o andamento da pesquisa em Lamento, eles acabam resolvendo esse problema de outra forma.

(a fanfic se passa praticamente logo depois do capítulo 34 do primeiro livro, sem levar em consideração o que vem depois na história)

Notes:

Pros 2 fãs de STD lusófonos e amantes de Thyon Nero / Lazlo, essa é pra vocês.

Work Text:

Os olhos de Thyon estavam fundos. Pesados como eu nunca vi. Foi apenas um relance, tomado pela penumbra, que me deixava discerni-lo apenas pelos traços, ao mesmo tempo finos e definidos, e agora ainda mais magros. Foi o suficiente, abri a porta antes que ele pudesse fechá-la de volta, sem pedir permissão, e entrei quase como se entrasse num quarto perigoso de segredos, o que não deixava de ser. O rosto dele fechou-se em uma carranca quase mórbida, mas o jeito como o seu cabelo caía em uma ondinha na frente do olho me permitiu não sentir intimidação alguma. 

— Eu não tô com tempo, Estranho — sua voz quase não saiu. 

Eu quis bater nele ali mesmo. Não seria a primeira vez que eu o iria repreender por descuido com a própria saúde. Se eu estivesse um pouco menos equilibrado, teria dado pelo menos um tapa no seu ombro. Eu não era dado à violência, mas Thyon Nero desafiava essa máxima da minha persona. 

Ao invés de agredi-lo, senti que ele ia desmontar ali mesmo, estava quase tombando para a esquerda, iria cair na cadeira frágil de madeira na qual ele sentava todo dia por horas a fio, exceto quando andava de um lado para o outro como já o tinha visto fazer. O abracei. Eu não entendi por que fiz isso, nem por que o fiz tão instintiva e rapidamente, mas o envolvi com os braços. Achei que ele quem ia me agredir, mas não fez nem um som sequer antes de deitar a cabeça no meu ombro. Agarrei de leve sua nuca pelo cabelo, um cafuné estático, apenas para ele sentir algum conforto. 

Passaram-se alguns segundos na sala escura dos segredos em que nós éramos estátuas macias, quentes e cansadas. Eu, de andar de lá para cá atendendo exigências, muitas vezes, idiotas. Ele, de trabalhar e retirar os próprios fluídos corporais para estudá-los. Eu diria de fracassar também. Não estava no costume dele falhar tanto por não receber ajuda, e nem de aceitar ajuda. Talvez por isso ele me detestasse tanto, além dos segredos, além do teor de morte que nos unia e nos perseguia, eu o ajudava apenas porque queria, sem nada em troca. Não como os outros. Não como Drave. 

Quando senti suas mãos por cima do casaco grosso, que não era cinza, eu me senti estranho. Um rebuliço nas minhas entranhas quiseram trazer um gosto amargo pra língua, eu quis largá-lo, mas também quis agarrá-lo com ainda mais força. Dessa vez, não querendo levar calor a ele, mas querendo roubar o seu pra mim, mesmo que sua pele estivesse tão fria nas pontas do corpo. Thyon me abraçou. Thyon Nero me abraçou de volta. Isso não parecia sequer real. Estava doente mesmo, sem dúvidas. 

Seu rosto, ainda no meu ombro, se moveu, friccionando contra o tecido da minha camisa fina, por debaixo do casaco, e seus olhos encontraram os meus. Aquele azul triste e distante ali, tão perto. Me perguntei o que ele encontrava no cinza dos meus olhos, se ele via, se ele imaginava algo. Eu quis que ele visse algo e isso me fez sentir ainda mais estranho. 

O fiz sentar, finalmente, na cadeira de madeira frágil, mas não quis desgrudar de mim, então ajoelhei-me, estando na altura de seu peito, que foi onde minha cabeça foi esmagada por seus braços, descansando no meu sufoco quente, mas confortável, mesmo que ainda os joelhos sofressem castigados. 

Ficamos assim por uns minutos. Entrelaçados no silêncio um do outro. Diminutos. Até que afastei a cabeça alguns centímetros, me mantendo de joelhos e com os braços ainda o apertando, com o rosto, porém, visível. Queria pedir para que ele fosse deitar, que descansasse, mas Thyon não me ouviria, jamais me obedeceria, e se eu sugerisse qualquer coisa, prontamente faria o oposto com todo ânimo de me contrariar. Queria também pegar-lhe água, mas fui egoísta o suficiente para querer ainda mais continuar de joelhos à sua frente, usando seu corpo de uma espécie de travesseiro vertical. 

Seu rosto estava cada vez menos absorto, cada vez mais consciente da loucura que foi toda aquela cena, toda aquela doçura tão não nossa, antagônica de todo o nosso relacionamento até então. Éramos violência do início ao fim, parecia errado aquele conforto. Ele era errado. Éramos antítese acontecendo ali mesmo e isso era assustador. Ele se afastou na cadeira e eu senti o mundo caindo dos meus braços, todas as cores voltando a ser o escuro cinzento daquela sala, o seu extenso tamanho fazendo o eco do silêncio ainda mais mortal. 

— Lazlo — o eco de sua voz fraca foi pior ainda. Ele não costumava me chamar pelo nome, chamar agora pareceu uma despedida. 

— Thyon — retribuí, me erguendo do chão ao passo em que ele levantou da cadeira, apoiando com as mãos nas paredes para não cair — Você devia descansar — traí minha determinação em não lhe dar sugestões. 

— Eu vou — deixou-me confuso ao concordar, não reagi além de segui-lo com os olhos enquanto ele dava passos diminutos em direção à porta, quase não saindo do lugar. Ao passar ao meu lado, segurou em meu pulso como se fosse me contar algo, mas então desceu a mão para a minha e entrelaçou seus dedos nos meus — Vem logo — pareceu irônico pela sua própria velocidade. 

Traí-me novamente ao fincar os pés no chão, não obedecendo seu pedido. Olhou para trás, procurando uma resposta para o meu comportamento, mas não encontrou e, apesar de fraco, ele ainda sustentava o olhar de soberania que ele sempre teve, de quem exige resposta. 

— Aonde vamos? 

— Ao meu quarto — a resposta foi simples, mas abriu minha mente em pedaços de dúvida ainda maiores. Isso podia significar muitas coisas ou talvez coisa nenhuma. Parecia um jogo perigoso, um campo minado. 

— Eu não compreendo. 

— Estranho — ele se aproximou novamente, pondo a testa no meu ombro, mas de uma forma diferente da última vez. Isso pareceu mais um pedido que um carinho — Eu preciso deitar. Ou você vem comigo ou não vem. 

Ergueu sua mão junto à minha, como se dissesse "é largar ou pegar". Não soltei. Segurei ainda mais forte, fazendo ainda esforço para não machucá-lo. Andamos pela cidade de mãos dadas. Eu esqueci o que nós éramos. Dois garotos que se detestavam. Água e óleo. O ouro e as cinzas. A antítese. As pessoas sabiam disso, mas não sei dizer se repararam. Em nós, em nossas mãos, no jeito como ele quase se escorava em mim, fraco de doente. Eu não olhei para as pessoas, nenhuma delas. Passei anos tentando encontrá-las, mas ignorei sua existência naquele momento de egoísmo, olhando para todos os lados, as casas, as ruas, os ratos, o mesarthium do alto, menos para as pessoas, incluindo Nero. 

Chegamos ao seu quarto no que pareceu entre dois minutos e eternamente. Ele estava escuro, um pouco empoeirado e arrumado demais. Me questionei se alguma vez ele tivesse dormido ali, naquela cama perfeitamente alinhada. 

Ele quis deitar, mas eu o impedi, pegando a coberta e levando para o lado de fora para sacudi-la e apenas quando removi todo o pó daquela cama foi que o deixei deitar. Não reclamou, apenas esperou em pezinho até terminar e se pôs por cima como uma pétala de flor delicada na borda. A decoração do quarto não era grande coisa, mas havia uma cama, uma mesa e paredes azuis. Mal dava para ver o azul pela iluminação, que se resumia a feixes de luz, mas ainda assim parecia bonito, melhor que qualquer lugar em que eu já tivesse dormido, exceto, é claro, o quarto de Eril-Fane. 

— Deita — ele me fez perceber que ainda estava de pé, olhando fixamente para a parede. Thyon não pediu, ele requisitou, e eu obedeci. 

Eu mal conseguia ver seu rosto. Nosso fardo era a falta de luz, mas não é para tanto, a estátua do serafim ainda tapava todo o sol da cidade e as cortinas estavam fechadas. Nenhum dos dois queria abri-la e eu queria que ele dormisse. Assim que deitei, ele segurou minha mão e, com a livre, apertou meu rosto com leveza. Gentileza ainda era estranha vinda dele. 

— Eu posso ficar? — perguntei. 

— Eu que pedi. 

— Você não entendeu, Nero. Posso ficar do seu lado? Não apenas hoje. 

Ele fechou os olhos, franzindo o cenho como se sua cabeça tivesse automaticamente doído com a pergunta. Mas então respirou fundo e abriu os olhos, os mantendo nos meus. 

— Se eu disser que não você vai ficar do mesmo jeito — ele sorriu, chegando mais perto. O contorno branco dos seus dentes pareceu o brilho de pequenas joias. 

— Dessa vez eu preciso saber se você vai ficar também — ele murchou o sorriso em um biquinho raivoso. Eu nunca o imaginei fazendo isso. 

Ele riu com o nariz, desistindo da pose de bravo, que em nenhum momento fora convincente, e se aproximou ainda mais um pouquinho, mantendo a mão no meu rosto, até que eu sentisse a sua respiração na minha, desaprendendo a respirar. Meu coração ficou tão pesado que senti que ia cair a qualquer momento, mesmo estando deitado. 

Em poucos segundos, Thyon trocou olhares sugestivos comigo. Não tenho ideia do que meus olhos expressaram, nem de como ele leu meu rosto, só sei que eles estavam loucos entre sua boca e seus olhos e sua boca, seus lábios. Também não tenho certeza sobre quem beijou primeiro, pareceu simultâneo, um selar surpreendentemente calmo. Então outro e mais um. O abracei mais forte e ele engasgou, rindo e me fazendo rir. Ele, rindo. Foram duas primeiras vezes de uma só vez para mim. O primeiro beijo. O primeiro riso genuíno de Thyon Nero. Aquela foi sua resposta. Na infantilidade de sua fraqueza, ele ia ficar. O beijo foi a promessa. 

Ele estava doente. Eu sabia disso. Quis beijá-lo ainda mais, com mais voracidade, quis engoli-lo, mordê-lo, senti-lo inteiro, mas Thyon Nero queria apenas dar a mão, fazer carinho no meu rosto e ganhar carinho no cabelo de olhos fechados. Thyon queria companhia antes de tudo, um amigo, alguém que fosse sempre ficar. Era complicado, ele sempre foi complicado, a gente nunca foi amigo, a gente nunca foi nada além de discórdia. Mas ele precisava de mim. Eu precisava dele. O beijei ainda mais uma vez. Dessa vez fui eu quem prometi ficar.