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Toph nunca se importou muito com a sua condição. Onde os outros viam uma limitação ela via a fonte de sua força. Justamente por não poder enxergar, por não ser como as outras pessoas, isso a tornava mais forte. Essa convicção nasceu quando ainda era nova e acabou se perdendo. Naquele dia, ela sentiu medo e chorou. Mas também, foi nesse momento que encontrou as toupeiras-texugos. A partir delas descobriu que poderia ser forte, aprendeu sobre dobra de terra e, mais importante, descobriu seu próprio jeito de ver o mundo. Desde então, decidiu que não mais sentiria medo, nem choraria.
Desde então, foi assim que Toph levou a vida. Mesmo que ainda se escondesse e mentisse para seus pais, fingindo ser a garotinha indefesa e frágil que precisava ser cuidada a todo momento. Ela não gostava disso, obviamente, mas achava necessário, pela sua mãe e seu pai. Embora a relação deles tivesse problemas por causa disso, Toph ainda os amava, afinal, foram eles que cuidaram dela até agora. Mas, algum dia isso teria que acabar, e de fato acabou. Quando, surpreendentemente, encontrou o avatar, que precisava aprender sobre dobra de terra. E quem seria melhor do que Toph Beifong, a bandida cega, para treina-lo?
Eles partiram aquele dia em uma jornada repleta de aventuras e perigos. Enfrentaram vários desafios, desde bandidos a criaturas magicas, se perderam no deserto, enfrentaram exércitos e até reinos, e superaram tudo com determinação. Um dos obstáculos que tiveram que lidar foi a perseguição obsessiva do Príncipe do Fogo. Pelo que ela ouvia de Sokka, ele era horrível e assustador, completamente obcecado em capturar Aang. Mas, no dia em que Toph finalmente o conheceu, a realidade foi diferente do que esperava. A presença dele não era nada ameaçadora como imaginara; pelo contrário, era calma e taciturna. Seu coração batia lentamente e sua respiração era profunda. Diferente de outros dominadores de fogo que encontrou, nada nele indicava agressividade. Uma curiosidade sutil surgiu em seu interior.
Com o tempo, essa curiosidade se transformou em um interesse genuíno por ele. Ela quis conhece-lo cada vez mais, e eles se aproximaram. Zuko era uma figura intrigante para ela. Com o tempo ela decorou tudo sobre ele: o som de seus passos, o ritmo de sua respiração e as batidas do coração do dominador de fogo. Sem que percebesse, seu coração começou a bater de maneira diferente quando estava perto dele, e uma vontade constante de conversar com ele surgia. Quando Zuko aparecia, seus sentidos se concentravam nele, como se sua presença roubasse a atenção e o foco de tudo ao redor. Quando finalmente percebeu, ficou irritada e tratou aquelas sensações como lidava com quase tudo: tentou esmagar os sentimentos com uma pedra. Ela se afastou de Zuko e fez o que pôde para manter-se longe e esquece-lo. Mas não adiantou nada. Demorou para entender o que realmente significava tudo aquilo, o que o príncipe representava para ela, e qual o espaço que ele ocupava em sua vida. E, principalmente, qual era o lugar que ela queria que ele ocupasse.
E agora, neste exato momento, ela teria que decidir.
A pergunta de Zuko ecoava em sua mente e ela sinceramente esperava que estivesse imaginando aquela conversa. Zuko estava parado em sua frente e ela sentia que ele a encarava, esperando com expectativa. Ela estava na Nação do Fogo a convite do próprio Senhor do Fogo. Hesitante, aceitou vir, pois a mensagem que recebeu dizia que ele precisava tratar de um assunto importante com ela. Que mentiroso cara de pau.
-Toph? Está bem?
Receosa, a voz dele rompeu o silêncio que se instalou, trazendo-a de volta de suas memorias para a realidade do momento, lembrando a Toph que ele estava ali, esperando uma resposta.
- Eu sei que nunca falei sobre isso, e que parece repentino, mas faz um bom tempo que me sinto dessa forma; que sinto isso por você.
Zuko continuou falando, mas Toph já não ouvia de novo. Ele estava declarando seus sentimentos românticos para ela? Sim, era que estava acontecendo. Ela abriu e fechou a boca várias vezes sem saber como reagir, muito menos o que dizer para ele; nunca foi boa com palavras, então decidiu agir. Não esperaria mais, não tinha mais dúvida do que queria, embora ainda fosse uma surpresa inesperada que ele correspondesse seus sentimentos.
Ela o agarrou pelo colarinho das roupas nobres e caras e o puxou, selando seus lábios. O mundo desapareceu e apenas eles existiam.
Depois de se separarem, Toph sorriu. Zuko observou as covinhas charmosas em suas bochechas, a pele branca feito neve imaculada salpicada por pequenas sardas. Ele sorriu também, retribuindo o gesto, e fez um carinho, tirando a franja que caía sobre os olhos leitosos. Toph Beifong era um presente em sua vida, entregue por Deus, ele tinha certeza, e agradeceria todos os dias por essa dádiva.
