Chapter Text
Bang Chan sempre quis ter uma família grande. Filho único, assim como sua mãe, teve uma infância que ele descreveria como solitária: era frequentemente a única criança presente nas reuniões familiares e, consequentemente, não tinha ninguém com quem brincar.
Talvez tenha sido isso que o levou a tomar a decisão de ter filhos. No plural .
Foi essa decisão que o trouxe até aqui. Está no orfanato “Lugar Mágico” — um nome bem simpático, ele diria —, de mãos dadas com o marido enquanto encara uma grande porta de madeira maciça que os separa de algumas dezenas de crianças.
— Pronto para encontrar o nosso filho, amor? — Changbin pergunta com a voz embargada pela emoção.
Embora esteja familiarizado com todos os passos do processo de adoção — já tiveram três adoções bem-sucedidas, afinal de contas —, Chan está uma pilha de nervos. Com a boca seca, ele sente o coração bater em um ritmo descompassado dentro do peito e todo o seu corpo parece tremer.
— Pronto — concorda mesmo assim.
O diretor do orfanato, que até então se mantinha afastado para oferecer alguma privacidade ao casal, se aproxima com um sorriso gentil e coloca a mão enrugada sobre a maçaneta da porta.
— Quando estiverem prontos, vocês podem entrar. O garoto que vocês procuram está sentado no fundo da sala, perto da estante de livros. Jisung é um bom garoto, mas é arredio. Sejam pacientes com ele.
— Obrigado, sr. Choi — diz Changbin. — Nós vamos nos lembrar disso.
— Eu vou ficar por perto, para o caso de vocês precisarem de mim.
Quando o sr. Choi abre a porta, Chan precisa respirar fundo para manter a calma. Com os olhos cheios de lágrimas, ele se vê diante de uma sala cheia de crianças de todas as idades. O local é amplo, algumas mesas estão espalhadas por ali e uma estante cheia de livros surrados parece esquecida no fundo da sala.
O senso de responsabilidade que o atinge ao se ver diante daquelas crianças é assustador. É sufocante.
Antes de iniciarem todo aquele processo, ele e Changbin haviam conversado sobre a possibilidade de adotar uma criança de aproximadamente 3 anos de idade — uma menininha, quem sabe — que pudesse crescer e passar por todas as fases do desenvolvimento com Felix, seu filho caçula. Mas depois de muita conversa, pesquisa e consideração, mudaram de ideia: iriam adotar um adolescente, alguém prestes a entrar na vida adulta.
Afinal de contas, uma garotinha com aquelas características teria mais chances de sair dali com outra família do que um adolescente.
Está certo de que tomaram a decisão correta, mas isso não importa agora. Diante de tantas vidas, de tantas histórias e de tantos olhares, Chan sente o peso de sua escolha. Não há ninguém ali que não mereça uma família e eles só podem oferecer isso a um deles.
— Ei, Chan — Changbin chama baixinho. Com o rosto contorcido em uma expressão esquisita, ele parece preocupado. — Tudo bem?
— Tudo, eu só preciso de um momento — diz. Com os olhos ainda fixos na sala à sua frente, ele inspira profundamente e solta o ar devagar. — Isso tudo é… demais .
— Claro, nós temos tempo. Eu sei que tudo isso é incerto e assustador, mas nós não precisamos entrar se você não se sentir pronto para dar esse passo. — Com os lábios curvados em um sorriso gentil, Changbin se estica para deixar um beijinho delicado na têmpora do marido. — Eu tô aqui, nós vamos passar por isso juntos.
“Eu tenho tanta sorte” , Bang Chan pensa.
Quando conheceu Changbin, sua percepção sobre a vida mudou drasticamente. Os dias se tornaram mais curtos, como se não tivessem tempo suficiente para ficarem juntos; passou a sorrir com mais frequência, não só por conta das piadinhas ridículas do companheiro, mas também porque seus lábios se curvaram involuntariamente sempre que pensava nele; até mesmo a comida passou a ter um gosto melhor, mas talvez isso se deva ao fato de estar sempre acompanhado em suas refeições.
Desde o primeiro dia, Changbin faz com que ele se sinta seguro. Juntos, são capazes de enfrentar o mundo.
Um pouco mais calmo, Chan olha ao redor mais uma vez. Depois das instruções do sr. Choi, não é difícil encontrar Jisung. Sentado em uma poltrona velha, ele mantém os olhos fixos nas páginas de um livro infantil enquanto lê para a garotinha de cabelos ondulados e bochechas cheinhas que está encolhida contra seu peito.
— Ali, amor — Chan sinaliza, mas não espera por uma resposta.
Ao invés disso, aperta a mão do marido mais uma vez e o guia pela sala. À medida em que se aproximam daqueles dois, o casal passa a ter um panorama completo do que está acontecendo ali: Jisung lê para a menininha e arranca risadas dela ao mudar sua voz constantemente para interpretar os personagens do livro.
É cativante.
Bang Chan se sente um pouquinho culpado por interromper aquele momento, mas se obrigada a sorrir enquanto tenta parecer confiante.
— Oi — cumprimenta. — Será que nós podemos nos sentar com vocês?
Jisung, que até então não havia notado a presença dos dois, deixa a leitura de lado e ergue os olhos na direção do casal. Ele não parece muito satisfeito com as novas companhias, mas fecha o livro e concorda mesmo assim.
— Me chamo Bang Chan e esse aqui é Changbin, meu marido — diz enquanto aponta para o companheiro e se senta na poltrona vazia diante deles. — Estamos visitando o orfanato.
— Sério? — Com os olhos arregalados em uma falsa expressão de surpresa, Jisung deixa um sorrisinho zombeteiro escapar. — Se você não dissesse, eu jamais teria imaginado!
Apesar de ter um filho adolescente em casa, Chan não reage bem a provocações — principalmente em situações estressantes, como a de agora. Constrangido e com o rosto absolutamente vermelho, tem vontade de dar meia volta e voltar para casa, mas não quer dar esse gostinho a Jisung.
Não vai ser intimidado por um garoto de 16 anos.
— Muito original, mas acho que você deveria se apresentar agora — consegue dizer depois de algum tempo. — É a coisa educada a se fazer.
Sabe que Jisung tem uma resposta na ponta da língua, mas depois de olhar rapidamente para a garotinha em seu colo, ele parece se conter. Talvez não queira iniciar nenhum confronto na frente dela, talvez não queria ser um mau exemplo.
— Me chamo Jisung e essa aqui é a Yujin. — Ele deixa um carinho sutil na cabeça da cabeça da menina e ergue um de seus braços com cuidado, agitando-o no ar em forma de cumprimento. — Por que é que você não mostra o que nós ensaiamos para eles?
— Olá, eu sou a Yujin e tenho 3 aninhos — ela diz, a fala embolada por conta da pouca idade. — Sejam bem-vindos ao Lugar Mágico !
Satisfeito com a performance da menina, Jisung deixa uma risadinha escapar e a envolve em um abraço apertado.
— Vocês parecem se dar bem — Changbin aponta. Com os lábios curvados em um sorriso genuíno, ele observa a dupla com atenção.
Yujin parece absolutamente confortável no colo de Jisung. Com a cabeça recostada em seu peito e as pernas esticadas, ela mantém os olhos curiosos presos no casal à sua frente. Jisung, por sua vez, parece ter deixado o atrevimento momentaneamente de lado e brinca distraidamente com as mãozinhas da menina.
Nenhum dos dois parece prestar muita atenção naquilo, o que traz a Chan a percepção de que todo aquele afeto é natural para eles.
— O Jiji é meu melhor amigo aqui — Yujin explica. — Ele brinca comigo todos os dias, conta um monte de historinhas legais e tem o melhor abraço do mundo inteiro!
— É mesmo? Parece que o Jiji é uma pessoa bem legal.
Jisung não gosta de ser o centro das atenções. Bang Chan não precisa de nenhuma confirmação verbal para saber disso, a careta no rosto do garoto e a forma como ele puxa o lóbulo da orelha constantemente deixam isso bem claro. Ele parece constrangido e, de alguma forma, sabe que ele está prestes a fugir.
— Acho melhor eu deixar vocês sozinhos, assim podem se conhecer melhor. — Jisung segura a menina com cuidado e se levanta sem dificuldades, voltando a acomodá-la na poltrona logo em seguida. Ele mantém uma expressão neutra no rosto, mas existe algo em seu tom de voz que Chan não consegue decifrar.
— Na verdade, nós queremos conhecer você — Chan confessa.
— Eu sei que vocês estão bem intencionados, mas nós não precisamos fazer isso. Nós podemos conversar, vocês podem fingir que estão interessados no que eu tenho a dizer, mas no fim das contas, vocês vão me deixar de lado para ficar com ela. — Com a voz trêmula, Jisung aponta para Yunjin. — Vocês não precisam se sentir culpados, eu entendo. Ela merece uma família.
— Você também merece uma família, Jisung — Changbin responde.
— Eu não tenho tanta certeza disso. — Jisung está sorrindo, mas a tristeza em sua expressão é óbvia para o casal. — De qualquer forma, é tarde demais para mim. Ninguém quer adotar um adolescente de 16 anos.
Bang Chan quer dizer que não é tarde demais, mas sabe que isso não é o suficiente para convencer o garoto. O ceticismo de Jisung é mais compreensível do que gostaria de admitir, afinal de contas, é de conhecimento geral que à medida que aquelas crianças ficam mais velhas, as chances de serem adotadas se tornam cada vez menores.
É injusto, mas é a realidade.
— Nós realmente queremos te conhecer, Jisung — Com o cenho franzido, Changbin dá um passo à frente e força um sorrisinho. — É por você que nós estamos aqui.
Jisun não parece convencido — na verdade, ele age como se não tivesse ouvido nenhuma daquelas palavras. Por isso, ele se volta para Yujin e deixa um beijinho no topo de sua cabeça.
— Eu preciso ir agora, mas prometo terminar aquela história mais tarde — Jisung diz baixinho, como se estivesse contando um segredo a ela. — Se comporta, tá bom?
Quando a garotinha acena positivamente, ele dá as costas para o pequeno grupo e, sem olhar para trás, se afasta dali a passos rápidos.
Bang Chan quer seguí-lo, mas talvez não seja uma boa ideia — está diante de uma criança de três anos de idade e, no momento, se sente responsável por ela. Frustrado, ele deixa um suspiro escapar e se volta para o marido com os lábios pressionados em uma linha fina. Não esperava que aquilo fosse fácil, é verdade, mas tinha esperanças.
No entanto, consegue entender a reação de Jisung. Embora não conheça sua história — não por completo, não ainda —, tem consciência de que ele está tentando se proteger de mais uma rejeição.
— Nós vamos falar com ele depois — Changbin promete. Assim como Chan, está preocupado e se sente culpado por não ter sido capaz de mostrar que estavam genuinamente interessados em conhecer Jisung, por não ter sido capaz de convencê-lo de que ele também merece uma família. — Não é tarde demais.
— Não, não é — Chan concorda.
