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Pertencer

Summary:

Jisung não tem muitas expectativas sobre o seu futuro — ou melhor, ele já aceitou seu destino. Aos 16 anos, sabe que as chances de ser adotado são quase nulas e quando atingir a maioridade, vai ter que deixar o orfanato de um jeito ou de outro. Embora não esteja nenhum pouco satisfeito com isso, está pronto para encarar a realidade. Quando Bang Chan e Changbin aparecem, no entanto, tudo muda drasticamente.
Apesar das tentativas do casal, Jisung tem a sensação de que não pertence àquela família — de que não pertence a lugar nenhum. Mas uma coisa é certa: Bang Chan e Changbin estão dispostos a lutar por Jisung.

Notes:

Quando a Marina (chittafx) disponibilizou esse plot pra adoção em um ficfest, eu quis muito desenvolver ele. A edição do fest acabou não acontecendo, mas o plot continuou comigo e desde então esses personagens estão habitando a minha mente (e o google docs). Mas aparentemente chegou a hora de ganharem vida.

Pertencer está longe de estar concluída. Eu tenho 3 capítulos até o momento e não faço a menor ideia de qual será a frequência de postagem, mas vou tentar não demorar muito pra atualizar.

Obrigada por ter confiado em mim pra desenvolver esse plot, Nina. Espero que se aproxime pelo menos um pouquinho do que você imaginou.

Dito isso, eu escrevi essa fanfic com muito carinho e espero que vocês gostem! Boa leitura!

Chapter 1: Prólogo

Chapter Text

Bang Chan sempre quis ter uma família grande. Filho único, assim como sua mãe, teve uma infância que ele descreveria como solitária: era frequentemente a única criança presente nas reuniões familiares e, consequentemente, não tinha ninguém com quem brincar. 

Talvez tenha sido isso que o levou a tomar a decisão de ter filhos. No plural

Foi essa decisão que o trouxe até aqui. Está no orfanato “Lugar Mágico” — um nome bem simpático, ele diria —, de mãos dadas com o marido enquanto encara uma grande porta de madeira maciça que os separa de algumas dezenas de crianças.

— Pronto para encontrar o nosso filho, amor? — Changbin pergunta com a voz embargada pela emoção.

Embora esteja familiarizado com todos os passos do processo de adoção — já tiveram três adoções bem-sucedidas, afinal de contas —, Chan está uma pilha de nervos. Com a boca seca, ele sente o coração bater em um ritmo descompassado dentro do peito e todo o seu corpo parece tremer.

— Pronto — concorda mesmo assim.

O diretor do orfanato, que até então se mantinha afastado para oferecer alguma privacidade ao casal, se aproxima com um sorriso gentil e coloca a mão enrugada sobre a maçaneta da porta.

— Quando estiverem prontos, vocês podem entrar. O garoto que vocês procuram está sentado no fundo da sala, perto da estante de livros. Jisung é um bom garoto, mas é arredio. Sejam pacientes com ele.

— Obrigado, sr. Choi — diz Changbin. — Nós vamos nos lembrar disso.

— Eu vou ficar por perto, para o caso de vocês precisarem de mim.

Quando o sr. Choi abre a porta, Chan precisa respirar fundo para manter a calma. Com os olhos cheios de lágrimas, ele se vê diante de uma sala cheia de crianças de todas as idades. O local é amplo, algumas mesas estão espalhadas por ali e uma estante cheia de livros surrados parece esquecida no fundo da sala.

O senso de responsabilidade que o atinge ao se ver diante daquelas crianças é assustador. É sufocante.

Antes de iniciarem todo aquele processo, ele e Changbin haviam conversado sobre a possibilidade de adotar uma criança  de aproximadamente 3 anos de idade — uma menininha, quem sabe — que pudesse crescer e passar por todas as fases do desenvolvimento com Felix, seu filho caçula. Mas depois de muita conversa, pesquisa e consideração, mudaram de ideia: iriam adotar um adolescente, alguém prestes a entrar na vida adulta.

Afinal de contas, uma garotinha com aquelas características teria mais chances de sair dali com outra família do que um adolescente.

Está certo de que tomaram a decisão correta, mas isso não importa agora. Diante de tantas vidas, de tantas histórias e de tantos olhares, Chan sente o peso de sua escolha. Não há ninguém ali que não mereça uma família e eles só podem oferecer isso a um deles.

— Ei, Chan — Changbin chama baixinho. Com o rosto contorcido em uma expressão esquisita, ele parece preocupado. — Tudo bem?

— Tudo, eu só preciso de um momento — diz. Com os olhos ainda fixos na sala à sua frente, ele inspira profundamente e solta o ar devagar. — Isso tudo é… demais .

— Claro, nós temos tempo. Eu sei que tudo isso é incerto e assustador, mas nós não precisamos entrar se você não se sentir pronto para dar esse passo. — Com os lábios curvados em um sorriso gentil, Changbin se estica para deixar um beijinho delicado na têmpora do marido. — Eu tô aqui, nós vamos passar por isso juntos.

“Eu tenho tanta sorte” , Bang Chan pensa. 

Quando conheceu Changbin, sua percepção sobre a vida mudou drasticamente. Os dias se tornaram mais curtos, como se não tivessem tempo suficiente para ficarem juntos; passou a sorrir com mais frequência, não só por conta das piadinhas ridículas do companheiro, mas também porque seus lábios se curvaram involuntariamente sempre que pensava nele; até mesmo a comida passou a ter um gosto melhor, mas talvez isso se deva ao fato de estar sempre acompanhado em suas refeições.

Desde o primeiro dia, Changbin faz com que ele se sinta seguro. Juntos, são capazes de enfrentar o mundo.

Um pouco mais calmo, Chan olha ao redor mais uma vez. Depois das instruções do sr. Choi, não é difícil encontrar Jisung. Sentado em uma poltrona velha, ele mantém os olhos fixos  nas páginas de um livro infantil enquanto lê para a garotinha de cabelos ondulados e bochechas cheinhas que está encolhida contra seu peito.

— Ali, amor — Chan sinaliza, mas não espera por uma resposta.

Ao invés disso, aperta a mão do marido mais uma vez e o guia pela sala. À medida em que se aproximam daqueles dois, o casal passa a ter um panorama completo do que está acontecendo ali: Jisung lê para a menininha e arranca risadas dela ao mudar sua voz constantemente para interpretar os personagens do livro. 

É cativante.

Bang Chan se sente um pouquinho culpado por interromper aquele momento, mas se obrigada a sorrir enquanto tenta parecer confiante.

— Oi — cumprimenta. — Será que nós podemos nos sentar com vocês?

Jisung, que até então não havia notado a presença dos dois, deixa a leitura de lado e ergue os olhos na direção do casal. Ele não parece muito satisfeito com as novas companhias, mas fecha o livro e concorda mesmo assim.

— Me chamo Bang Chan e esse aqui é Changbin, meu marido — diz enquanto aponta para o companheiro e se senta na poltrona vazia diante deles. — Estamos visitando o orfanato.

— Sério? — Com os olhos arregalados em uma falsa expressão de surpresa, Jisung deixa um sorrisinho zombeteiro escapar. — Se você não dissesse, eu jamais teria imaginado!

Apesar de ter um filho adolescente em casa, Chan não reage bem a provocações — principalmente em situações estressantes, como a de agora. Constrangido e com o rosto absolutamente vermelho, tem vontade de dar meia volta e voltar para casa, mas não quer dar esse gostinho a Jisung. 

Não vai ser intimidado por um garoto de 16 anos.

— Muito original, mas acho que você deveria se apresentar agora — consegue dizer depois de algum tempo. — É a coisa educada a se fazer.

Sabe que Jisung tem uma resposta na ponta da língua, mas depois de olhar rapidamente para a garotinha em seu colo, ele parece se conter. Talvez não queira iniciar nenhum confronto na frente dela, talvez não queria ser um mau exemplo.

— Me chamo Jisung e essa aqui é a Yujin. — Ele deixa um carinho sutil na cabeça da cabeça da menina e ergue um de seus braços com cuidado, agitando-o no ar em forma de cumprimento. — Por que é que você não mostra o que nós ensaiamos para eles?

— Olá, eu sou a Yujin e tenho 3 aninhos — ela diz, a fala embolada por conta da pouca idade. — Sejam bem-vindos ao Lugar Mágico !

Satisfeito com a performance da menina, Jisung deixa uma risadinha escapar e a envolve em um abraço apertado. 

— Vocês parecem se dar bem — Changbin aponta. Com os lábios curvados em um sorriso genuíno, ele observa a dupla com atenção.

Yujin parece absolutamente confortável no colo de Jisung. Com a cabeça recostada em seu peito e as pernas esticadas, ela mantém os olhos curiosos presos no casal à sua frente. Jisung, por sua vez, parece ter deixado o atrevimento momentaneamente de lado e brinca distraidamente com as mãozinhas da menina. 

Nenhum dos dois parece prestar muita atenção naquilo, o que traz a Chan a percepção de que todo aquele afeto é natural para eles.

— O Jiji é meu melhor amigo aqui — Yujin explica. — Ele brinca comigo todos os dias, conta um monte de historinhas legais e tem o melhor abraço do mundo inteiro!

— É mesmo? Parece que o Jiji é uma pessoa bem legal.

Jisung não gosta de ser o centro das atenções. Bang Chan não precisa de nenhuma confirmação verbal para saber disso, a careta no rosto do garoto e a forma como ele puxa o lóbulo da orelha constantemente deixam isso bem claro. Ele parece constrangido e, de alguma forma, sabe que ele está prestes a fugir.

— Acho melhor eu deixar vocês sozinhos, assim podem se conhecer melhor. — Jisung segura a menina com cuidado e se levanta sem dificuldades, voltando a acomodá-la na poltrona logo em seguida. Ele mantém uma expressão neutra no rosto, mas existe algo em seu tom de voz que Chan não consegue decifrar.

— Na verdade, nós queremos conhecer você — Chan confessa.

— Eu sei que vocês estão bem intencionados, mas nós não precisamos fazer isso. Nós podemos conversar, vocês podem fingir que estão interessados no que eu tenho a dizer, mas no fim das contas, vocês vão me deixar de lado para ficar com ela. — Com a voz trêmula, Jisung aponta para Yunjin. — Vocês não precisam se sentir culpados, eu entendo. Ela merece uma família.

— Você também merece uma família, Jisung — Changbin responde.

— Eu não tenho tanta certeza disso. — Jisung está sorrindo, mas a tristeza em sua expressão é óbvia para o casal. — De qualquer forma, é tarde demais para mim. Ninguém quer adotar um adolescente de 16 anos.

Bang Chan quer dizer que não é tarde demais, mas sabe que isso não é o suficiente para convencer o garoto. O ceticismo de Jisung é mais compreensível do que gostaria de admitir, afinal de contas, é de conhecimento geral que à medida que aquelas crianças ficam mais velhas, as chances de serem adotadas se tornam cada vez menores. 

É injusto, mas é a realidade.

— Nós realmente queremos te conhecer, Jisung — Com o cenho franzido, Changbin dá um passo à frente e força um sorrisinho. — É por você que nós estamos aqui.

Jisun não parece convencido — na verdade, ele age como se não tivesse ouvido nenhuma daquelas palavras. Por isso, ele se volta para Yujin e deixa um beijinho no topo de sua cabeça.

— Eu preciso ir agora, mas prometo terminar aquela história mais tarde — Jisung diz baixinho, como se estivesse contando um segredo a ela. — Se comporta, tá bom?

Quando a garotinha acena positivamente, ele dá as costas para o pequeno grupo e, sem olhar para trás, se afasta dali a passos rápidos. 

Bang Chan quer seguí-lo, mas talvez não seja uma boa ideia — está diante de uma criança de três anos de idade e, no momento, se sente responsável por ela. Frustrado, ele deixa um suspiro escapar e se volta para o marido com os lábios pressionados em uma linha fina. Não esperava que aquilo fosse fácil, é verdade, mas tinha esperanças.

No entanto, consegue entender a reação de Jisung. Embora não conheça sua história — não por completo, não ainda —, tem consciência de que ele está tentando se proteger de mais uma rejeição.

— Nós vamos falar com ele depois — Changbin promete. Assim como Chan, está preocupado e se sente culpado por não ter sido capaz de mostrar que estavam genuinamente interessados em conhecer Jisung, por não ter sido capaz de convencê-lo de que ele também merece uma família. — Não é tarde demais.

— Não, não é — Chan concorda.