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A Greve

Summary:

Um universo alternativo em que os Les Amis do ABC são estudantes da USP em 2023 e organizam a grande greve desse ano.

Notes:

Oiii mores, incrivelmente é uma das primeiras fanfics que eu faço na minha lingua materna! Espero que gostem dessa mistura de mundos, a revolução francesa de 1830 recontada pelo ponto de vista de estudantes da USP na greve de 2023. E, claro, muito Enjoltaire ;)

Chapter 1: Capítulo 1

Chapter Text

— Se nos organizarmos, a revolução logo começará, e nada poderá nos deter! — bradou Enjolras. O jovem beletrista, de cabelos longos e loiros, estava em cima de uma das mesas que ficavam na frente da lanchonete da Tia Bia.

A maioria dos estudantes que passavam por ali não se entusiasmavam com as ideias proclamadas por Enjolras, mas ficavam fascinados com a sua ótima oratória e até aplaudiam quando ele subia nas mesas — coisa que ele fazia constantemente. Outros, seus amigos e companheiros de luta, ouviam com prazer: Combeferre, aluno de filosofia na FFLCH; Jean, música na ECA; Feuilly trabalhava na lanchonete da Tia Bia; Courferyrac era filho de uma das professoras e sempre estava de passagem; Bahorel e Bossuet faziam direitor na SanFran; e Joly era feliz cursando medicina. Todos eram declaradamente comunistas, e os que não estudavam no campus universitário sempre iam para o prédio da Letras, na FFLCH, quando Enjolras avisava que iria discursar.

Enjolras desceu da mesa e foi cumprimentar os amigos e outras pessoas que escutaram com afinco seu discurso pró-greve de estudantes, a favor da contratação de mais professores — principalmente seu curso estava sendo desfavorecido. Entre seus amigos, encontrou alguém que lhe chamou a atenção e, então, chamou Combeferre de lado.

— Ferre, quem é esse? — perguntou, sussurrando e apontando discretamente para o jovem ao lado de Jean. Era um moço de cabelos escuros e bagunçados, barba por fazer e, por mais que até se vestisse mal, algo brilhava em seus olhos. Jean disse algo que fez o jovem sorrir e Enjolras quis, naquele momento, ser Jean para fazê-lo sorrir também.

— Quem? Ah, sim, tenho que apresentá-los! — Combeferre exclamou e puxou o amigo loiro pelo braço até chegarem perto do jovem que tanto cativara a atenção do orador. — Enjolras, esse é Grantaire, amigo do Jean! Ele faaz artes na ECA. Grantaire, esse é o homem que você tanto ouviu falar!

Os olhos escuros de Grantaire, ao mirarem Enjolras, pareceram se iluminar. O canto de seus lábios se ergueu em um tímido sorriso e ele estendeu a mão na intenção de cumprimentar o homem mais bonito que ele havia visto em toda sua vida. Enjolras parecia ser uma escultura de um deus grego, ou a representação viva de um. Seria de Apollo? Grantaire tentaria esculpir algo parecido depois.

— Enjolras, ouvi muito sobre você. — Grantaire disse ao apertar a mão mais macia do mundo. — É um grande prazer te ouvir falar.

— O prazer é meu de te ter para ouvir! — Enjolras sorriu, genuinamente feliz. — Se eu falo e ninguém ouve, não vale de nada!

— Ah, sim, por mais que seu discurso seja sofista.

Sofista. Enjolras havia aprendido sobre os sofistas no ciclo básico da letras, na matéria de Introdução aos Estudos Clássicos II. Se sua memória não estava falha, um discurso sofista, normalmente, não significa discurso bom.

— O que disse? — o loiro parou de sorrir imediatamente.

— Que seu discurso é sofista. — Grantaire afirmou novamente. — Os sofistas eram ótimos oradores, mestres da retórica, mas tinham discursos vazios, porque não acreditavam de verdade no que falavam.

— Está insinuando que meu discurso sobre a greve é vazio? — perguntou Enjolras, se irritando cada vez mais com aquele que, há momentos, havia achado tão interessante. — Ou pior, que não acredito na necessidade dela?

— Meu Deus! — exclamou o moreno, e logo depois riu alto. Quando percebeu que o loiro ainda estava com uma expressão séria, se não brava, levou as mãos para a cintura em uma pose esquisita. — Você fala sério! Realmente acredita nesse sonho de greve! — Enjolras murmurou um pequeno “sim”, extremamente incomodado com as falas de Grantaire. — Olha, Apollo, as pessoas não se mobilizam de verdade nessa universidade há anos. Sinto muito, mas a realidade é que ninguém se importa. Só você.

— Com licença. — pediu o beletrista para o artista, depois de olhar por um tempo para o relógio em seu pulso e, fingindo estar atrasado, saiu de perto de Grantaire, dirigindo-se ao prédio de Letras. O curto caminho pareceu uma eternidade, uma vez que as palavras do jovem artista ecoavam em sua cabeça.

“Ninguém se importa.” Essa frase já havia sido dita por muitas pessoas na vida de Enjolras, desde que ele começara a se engajar mais politicamente. Ele ja estava acostumado com críticas e ceticismo, principalmente vinda de amigos e familiares. Então por que a opinião daquela pessoa que ele nem conhecia lhe doeu tanto?