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Uma Pergunta de “Sim” Ou “Não”

Summary:

Num lugar silencioso, imperfeito para conversas secretas, uma pergunta que…

A teia da vida era tão frágil. Rompia-se por qualquer coisa. Precisava mesmo?

English version available.

Notes:

One-shot simples de escrever, mas crucial para esta linha do tempo. Uma rara ocasião de Dazai POV no meu perfil. Minha postura é similar à do Asagiri: não saber o que o personagem pensa/sente amplia a experiência, exceto em alguns casos. Esta é uma exceção.

Para mais detalhes, e saber onde se encontra esta fic na cronologia, confira a coleção.

Boa leitura!

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Desfez-se a luz. Ironicamente, tal qual o contrário, acordava também.

O canto da recepção já estava soturno. Até mesmo a rua. Credo. Passou das seis?

Osamu se sentou. O sobretudo, fiel cobertor, caiu sobre os joelhos. A boca amargava; doíam as costas. O mundo não era feito para os maiores de um e setenta e cinco.

Espreguiçar-se estalou uma vértebra ou duas. Num tatear de bolso, o celular não estava. Devia ter ficado na mesa.

Passos firmes marchavam para perto. Acompanhavam janelas fechando, o empurrar de cadeiras, portas trancadas. O vulto até fez escala por ali, ignorando os sofás em direção à cozinha.

Com o que foi que sonhei? Virara fumaça. Estava na ponta da língua. Não foi importante.

— Bom dia. — Kunikida apareceu. Tinha a lanterna do celular numa mão e um copo d’água na outra. — Dormiu bem?

— Acredite se quiser, dormi.

— Ahã.

Recebeu dele o copo. Não reclamaria de tomá-lo quando era bem-vindo. Perguntou:

— Que horas são?

— Seis e dez. — Kunikida iluminou o relógio de pulso com o celular. Inverno chegando… — Já fechei tudo.

— Percebi.

— Bom que tenha aproveitado. Não vai ser todo dia essa folga.

— Já queria saber se amanhã pode…

— Não.

Osamu devolveu o copo vazio. Kunikida sumiu para a cozinha. Veio de lá o som de louça, bucha, pano e armário.

“Pode cochilar até tarde. Hoje, não tem problema.”

Antes da mensagem, uma reclamação antecedeu. Nem lembrava mais o quê. “Arrume sua mesa”, “pare de batucar”, “responda o cliente”? Podia ter sido tudo, e um “pare de vadiagem” arrematou. Teria enganado os desatentos.

— Então — Osamu disse —, quer falar de alguma coisa?

Voltando da cozinha, Kunikida não respondeu de pronto. Respirou diferente, suspirando de nervoso. De luz apagada, era só o que sabia. Quer.

— Se não for muito incômodo. — Kunikida inclinou a cabeça ao lado. Apontava o escritório. — Faz favor.

Como esperado. Osamu sorriu, mais para dentro que para fora. Ficou de pé, jogando o sobretudo num ombro.

Seguiu atrás, até as janelas. Olhando o mundo exterior, Kunikida tinha o assunto entalado na garganta. Se tá fazendo cerimônia… Creio que sei o que é. E se eu disser algo absurdo…

— Quer pular comigo? — Osamu sugeriu.

— Se desse pra sair voando.

Foi engraçado, admito.

— Tem planos pra hoje? — Osamu perguntou.

— Você tem?

— Ficar te olhando.

— Gosta?

— Um passatempo. Gastaria horas e horas.

— Mentira deslavada. — Kunikida riu.

Não é. O jogo de luz e sombras favorecia até desfavorecidos. No claro, no escuro… Tem muito pra ver.

— É sobre aquela… oferta — Kunikida disse. — A da semana passada.

Acertei. Perguntou:

— Pensou bem?

— Pensei um monte.

— Ter considerado já é um elogio. — Osamu ignorou a própria cadeira, sentando-se no topo da mesa. — O que me diz?

Acho que deveria.

Kunikida, de costas, observava o enésimo carro passando lá embaixo.

— Se precisar de uma segunda opinião… — Osamu disse.

— É diferente.

— Primeiras vezes são assim.

— Sério que ainda acha isso?

— Intocado, até que se prove o contrário. — Osamu balançava as pernas. — Dei várias dicas…

É brincadeira. Você sabe. Também sabe que resolvo seu problema.

— Tem algo que preciso esclarecer — Kunikida disse. De novo esse tom. — A resposta é a seu critério. Não vou me ofender, qualquer que seja.

Que demora.

— Não é questão de “vou ou não vou” aceitar. — De costas, Kunikida negou com a cabeça. O cabelo preso balançou. Chega mais perto. Arranca a roupa. Faz alguma coisa. — Escolha sem pensar nesses termos.

Pelo menos, olha pra mim.

— A resposta não muda o que faço, ou deixo de fazer. — Kunikida endireitou as costas, girando um cento-e-oitenta. — Então…

— O quê?

— A gente tá namorando?

Ah.

— Que… — Escapou dele um riso, como de um baque no estômago. — Que repentino.

— Não é — Kunikida disse. — Pensei pelo tempo necessário.

— É só uma hora extra imprópria. Precisa disso?

— Não foi isso que perguntei.

Pra que falar disso agora?

— Proibido se divertir — Osamu lamentou. — Não tô surpreso.

Kunikida deu um passo adiante. Pôs as mãos na mesa, inclinando-se. Estava perto, mas não bastava. Disse:

— Você não é obrigado a aceitar.

Eu sei.

— Ninguém é. — Kunikida olhava sabe-se lá para onde. — Só me diz. A gente tá ou não tá?

Não é justo. Você teve tempo. Começou a resposta:

— Outra hora—

A mão erguia-lhe o queixo. Polegar, indicador. Não apertava, nem era frouxa. Sem tremores, não estava fria.

Não olha pra mim.

— É uma pergunta de “sim” ou “não” — Kunikida sussurrou. — Não pode ser tão difícil.

E se eu infartasse? E se o mundo acabasse agora? “E se”…

E se?

— Certo. — Osamu sorriu em resposta, a olhos fechados. — Se tá pedindo.

Não sonhei com isso.

— …Tá — Kunikida disse. — Tá bom.

Era cedo… tarde? Para se remendar. Já tinham se encontrado, rosto a rosto, a zero espaço. Não. Não. Não acredito. O que você fez?

E se o Sol engolisse a Terra, e se acordasse no próximo instante?

Ao menor sinal, pararia. Era só pedir. Você? “Você” coisa nenhuma.

O que foi que eu fiz?

A mão no queixo se soltou dele. Desabrochava, acolhendo o contorno do rosto. Os olhos, no máximo, entreabertos.

Afastaram-se por nada. Afinal, não tinham feito nada; nada além de prova, ensaio. Como os pés nas ondas, de calças dobradas.

Na mesa, não tinha apoio. Diante dele, tinha muito. Nuca, ombros, cintura. Tão firmes. Precisava…

Não me deixa falar. Mantê-lo calado, ou tentar, era comum. Daquele jeito, bem, havia primeira vez para tudo.

Ah, que boca maravilhosa.

De rotina, olhava bastante para ela. Os trejeitos únicos. O suspiro pensativo por uma fenda, que perdurava contando até três. A retorcida muito específica de uma dúvida. Linhas de expressão, acompanhando as da testa, dos olhos… Enrugando cedo um rosto tão vivo.

Você percebe? Acho que não. Tem muita coisa que não.

Eu podia fazer isso pra sempre.

Aos poucos, ganhavam compasso. Era natural. Experiência? Não apostaria em muita. Tinha gente que levava jeito. Sondavam, sentiam.

Orgulho demais era a ruína de um beijo… mas castidade podia ser, também. Ele aprende rápido. Merecia mais pressão, mais afagos. Uma mordida ou outra. Merecia o mundo.

Osamu largou-lhe a cintura, para o quadril. Que sorte a minha.

Já a sua sorte de hoje…

— Ei — Kunikida interrompeu. — Que foi isso?

— Hã?

Uma tontura o acometeu. Os dedos estacionavam no cinto.

Que palpitação que me deu.

— O que tá fazendo? — Kunikida insistiu.

Conserve seu fôlego. Tá pior que o meu. Perguntou:

— Não quer?

— Aqui?

— Por que não? — Pergunta retórica, et cetera. — Quer ir pra outro lugar?

Não?

— A gente… — Kunikida desviava o olhar. — Pode pegar leve?

— Pode…?

— Mas?

Como sabe?

— Por que não? — Osamu repetiu.

Silêncio. Não tá a fim? Parece a fim.

— Bom. — Osamu economizou um suspiro. — Ficar “só nisso” existe…

No sentido de que é uma coisa que se faz.

— Não gosta? — Kunikida perguntou.

— Gosto.

— Digo. Se for problema, termina comi—

— Já? — Osamu ergueu o olhar. — Mal começou.

E pensando no fim. Posso julgar?

— Tem razão — Kunikida admitiu.

Não faz essa cara. Murmurou:

— Vem cá de novo.

Com a língua, agora.

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