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Felix e Seungmin se conheceram no colégio, logo no primeiro ano, quando o Lee foi transferido de sua cidade natal por conta do emprego do pai. Se tornaram colegas de turma e o Kim viu em Felix uma ótima oportunidade de treinar seu inglês, o qual aprendia com jogos online, filmes de heróis e séries. Não se deram muito bem inicialmente, Felix era bastante tímido, apreciava ficar com a cara nos livros, sentindo-se burro e perdido por não saber muito do idioma local, consequentemente não conseguir se sair bem nas atividades escolares. E Seungmin nunca foi conhecido por sua paciência, pois não a tinha. O Kim falava alto, mandava todo mundo a merda e não tinha a capacidade de explicar a mesma coisa mais de uma vez, antes de começar a adicionar adjetivos nada carinhosos e motivadores as suas falas.
De alguma forma, o conhecimento mínimo de inglês de Seungmin facilitou sua comunicação com Felix, que mesmo com as palavras de baixo calão e o humor irritadiço do Kim, tentava o entender e o ajudava a falar de forma correta com um belo sorriso no rosto. E Seungmin nunca entendia isso. Não conseguia entender como, não importava o quanto humilhassem e desprezassem Felix por sua dificuldade em aprender o novo idioma, o Lee sempre estava sorrindo, ora timidamente, ora tão brilhante que o sol de verão parecia ofuscado.
Felix não conseguia entender a maioria dos insultos, de qualquer forma, mas podia entender a tonalidade agressiva, irônica e debochada. E também não via muito sentido em revidar, pois lhe traria apenas estresse, queda capilar, rugas e péssimas noites de sono. Devolvia cada um dos insultos com sorrisos e gentilezas, sabendo que isso faria com que seus colegas de classe se sentiram mal por o tratarem de forma menos civilizada quando era tão educado e bem-disposto a ajudar. Bem, pelo menos era o que ele dizia a Seungmin.
– Não se rebate agressividade com mais agressividade. Não tem sentido alimentar esse ciclo. – Ele insistia e Kim sempre revirava os olhos, o achando idiota.
– É burrice esperar que eles tenham mais de dois neurônios funcionais e percebam que estão sendo ridículos. Se continuar sendo gentil com gente pau no cu, você só vai se foder! – Seungmin devolvia, pensando que em algum momento conseguiria trazer ao, agora, amigo alguma razão.
Sabiam que poderiam seguir nessa discussão por horas e nenhum deles cederia. Não porque os dois eram obstinados, mas sim porque tinham pensamentos diferentes sobre a situação. Seungmin não suportava a burrice, mas suportava menos ainda o preconceito que seus colegas tinham e como faziam piadas sobre as dificuldades de Felix, quando ele apenas achava fofo quando o Lee errava alguma palavra ou inclinava a cabeça para o lado e juntava os lábios em um biquinho quando não entendia algo. Assim como Felix soltava risadinhas adoráveis quando Seungmin errava alguma palavra em inglês e ficava todo confuso, franzindo as sobrancelhas e seus lábios formavam um leve biquinho. Isso era algo que ambos tinham em comum, além da dificuldade em aprender novos idiomas, a maneira como suas bocas se moviam automaticamente quando confusos é idêntica.
A amizade se fortaleceu quando descobriram que gostavam dos mesmo jogos, mesmos filmes e bem, Seungmin gostava de séries que eram inspiradas nos livros favoritos de Felix. Portanto, tinham sempre tinham assunto para conversarem por horas e, consequentemente, as notas de ambos foram melhorando, pois estavam sempre juntos, seja para diversão ou para estudos. E com isso, o Kim descobriu que, por trás da fachada tímida e facilmente envergonhada do Lee, havia um verdadeiro canalha sedutor.
O comportamento canalha ia desde a linguagem corporal de Felix até frases de conteúdo duvidosos ditas de forma aveludada. E, para a loucura de Seungmin, essas coisas aconteciam nos momentos mais aleatórios de seu dia, como em um momento de estudos, no meio de uma ranqueada de seus jogos online favoritos, ou simplesmente quando ele e Felix estavam no mesmo ambiente fazendo nada juntos. O Lee sempre gostou de conversar olhando diretamente nos olhos e o Kim estava acostumado com isso, o que o desconcertava era quando Felix descia o olhar para a sua boca e demorava um tempo ali, sorrindo de canto como se estivesse vendo a coisa mais bonita do mundo.
Claro que o fato de o Lee gostar muito de toques físicos tornava as coisas ainda mais difíceis para Seungmin. Felix gostava de o abraçar por trás, encostando o queixo em seu ombro, sussurrar coisas ao pé de seu ouvido e brincar com as mexas de seu cabelo, seja as arrumando ou as bagunçando. Entretanto, definitivamente não sabia como reagir quando isso vinha seguido de um meio sorriso arteiro e uma frase de flerte duvidoso.
Em um episódio em específico, o qual Seungmin se lembrará com clareza até o dia de sua morte, o Kim conversava com seu melhor amigo, Yang Jeongin, que estava na classe avançada. Felix simplesmente se aproximou, o abraçando por trás e depositou um beijo na linha de sua mandíbula, e sussurrou em seu ouvido:
– Sabia que beijar queima 6.4 calorias por minuto. Quer se exercitar comigo?
Jeongin o contou com detalhes sobre a expressão que fizera com o atrevimento do amigo estrangeiro. Os olhos arregalados, a boca aberta, as bochechas queimando e a velocidade com que se desvinculou do abraço e deu passos para trás, em direção ao Yang, antes de rir de nervoso. E Felix? Ah, o Lee continuou parado ali, sorrindo de canto, com as bochechas levemente rosadas, mordendo o lábio inferior para segurar uma risada que implorava para sair. Risada essa que Jeongin não conteve, curvando-se enquanto se abraçava, rindo alto e tendo lágrimas escorrendo do canto de seus olhos.
E não, aquela não havia nem sido a "pior" das canalhices que Felix havia dito ao Kim, que sempre as recebia de forma envergonhada. Seu pobre coração acelerava todas as vezes e Seungmin jurava que Felix seria a causa de sua morte e constaria em seu prontuário médico "Causa da morte: envergonhado pela canalhice do amigo".
Felix amava a forma como Seungmin deixava de ser todo confiante e pouco paciente quando começava a flertar com ele. Amava a maneira como ele se envergonhava, gaguejava e parecia completamente desacreditado todas as vezes. Amava saber que havia causado isso nele. Porque, com o passar dos dias, Felix percebia que ser amigo não era o suficiente. O Lee gostaria de ser mais do que isso.
E Seungmin demorou para perceber como realmente se sentia com tudo aquilo. Claro que achava Felix atraente, não achava que era possível pensar de forma contrária quando o assunto era o Lee. Demorou para perceber que, na verdade, amava a forma como ele o envolvia em seus braços quando o abraçava por trás. Amava como a voz grave soava baixinha próxima ao seu ouvido e o ar que saia da respiração dele batia em sua pele, arrepiando cada centímetro de sua tez. Amava como sempre esperava ouvir um flerte cada vez mais atirado vindo de alguém que parecia tão angelical, assim como amava o sorriso curto que se formava na boca delicada de Felix toda vez que ele o via perder a paciência e começar a xingar as pessoas.
Quanto tomou consciência de que o Lee fazia seu coração acelerar e as borboletas em seu estômago se agitarem, o Kim comprou um buque de tulipas amarelas, amarílis e cravos brancos. Quis ser o primeiro a declarar abertamente sobre o que sentia, sobre querer que se tornassem mais do que amigos, sobre querer um relacionamento sério e duradouro com Felix e as flores eram apropriadas para a situação, devido aos seus significados. Era uma noite de sexta-feira, eles tinham combinado de encontrarem alguns amigos no shopping, assistir um filme e ficar de bobeira na praça. Felix achou estranho, porém uma excelente oportunidade, quando todos os seus amigos cancelaram de última hora, deixando-o sozinho com Seungmin. E, após assistirem um filme de romance clichê no cinema, o Kim deu uma fugidinha para encontrar com Jeongin na praça, que estava segurando o buquê para que ele pudesse surpreender Felix.
E o Lee chorou ao receber as flores junto à confissão de Seungmin. Ambos sorriram e se abraçaram, uma garoa fina começou a cair enquanto eles trocavam juras de amor nos braços um do outro e selavam a promessa de serem fiéis um ao outro e aos seus sentimentos com um beijo profundo e gentil. Eles não sabiam, mas recostado em uma árvore ao fundo, Jeongin estava assistindo, com um sorriso nos lábios que não alcançavam seus olhos marejados, sentindo-se feliz pelos amigos mesmo que tenha lhe custado seu próprio coração.
A felicidade que o casal exalava, em sua fase de "lua de mel" do namoro, contagiou a todos no círculo de amizades deles. Entretanto, Felix notava que algo estava estranho e Seungmin comentava vez ou outra sobre Jeongin estar mais distante deles, por fim, resolveram dar tempo ao tempo e deixar que o Yang falasse quando se sentisse pronto. O primeiro ano foi cheio de doçuras. Encontros à luz da lua, jantares à luz de velas, flores, filmes, chocolates quentes caseiros, viagens à praia, fins de semana na casa um do outro, partilhando a cama, tomando banho juntos. Pouco tendo tempo para os outros amigos, mas sempre estando lá quando eles precisavam, não importava o horário.
Quando brigavam, eram raras as ocasiões, Felix acabava aparecendo na porta de Jeongin para desabafar e pedir um conselho, talvez dois. E Seungmin aparecia no dia seguinte, quando sabia que o Lee não estava mais ali, buscando uma distração. E o Yang fazia o que podia, era um bom amigo afinal, maratonavam a série favorita do Kim, tomavam sorvete e o deixava ter seu próprio tempo de reflexão das coisas. Jeongin sabia, no final, Seungmin sempre voltaria para Felix e ele sempre seria só o melhor amigo de ambos. E nenhum deles tinha culpa disso.
Se formaram no ensino médio, foram aprovados na mesma universidade, em cursos diferentes, e o casal resolveu morarem juntos. O Yang, novamente como um bom amigo, ajudou na mudança e Felix fez brownies como forma de agradecimento. Foi um evento divertido para os três, ou pelo menos era o que Seungmin achava, mas Felix notava o comportamento confuso de Jeongin. Parecia que o Yang estava se divertindo, querendo estar próximo e rir com eles, ao mesmo tempo que ele parecia estar profundamente machucado, deixado sozinho com feridas abertas que ainda sangravam e que ele não queria que ninguém notasse. Felix não sabia o que fazer com isso, ainda estava esperando que Jeongin se sentisse confortável para compartilhar o que o afligia, estava esperando pelo tempo dele.
Algumas semanas depois do início do período letivo, o Lee arrumou um emprego meio período, em um dos laboratórios da universidade, como assistente. E foi tranquilo lidar com a nova rotina nos primeiros meses, mas o período de provas começou e o professor chefe de Felix o cobrava cada vez mais, o levando a passar mais e mais tempo afundado nos estudos e no trabalho. E todos aqueles planos de passar mais tempo com o namorado, assistirem filmes e séries juntos, lerem livros juntos, cozinharem juntos, foi ficando cada vez mais distante para si e Seungmin pedia cada vez mais para Jeongin o acompanhar nessas pequenas atividades que deveriam ser deles. Felix nem se sentia no direito de achar ruim ou sentir ciúmes, mas ele passou a notar, quando voltava para casa quase de madrugada, a maneira como o Yang segurava o Kim em seus braços enquanto dormiam de conchinha no sofá e a televisão tinha alguma cena aleatória pausada.
Felix achava legal que Seungmin tivesse alguém para o fazer companhia quando não podia, mas não sabia dizer o que sentia em relação ao que estava vendo. Ele notava como os olhos de Jeongin, seu melhor amigo, brilhavam quando Seungmin se empolgava falando de algo que gostava, e como sorria bobo e encantado todas as vezes. Felix podia ver como os dois combinavam. Gostavam dos mesmos jogos, dos mesmos gêneros de filmes e séries, dos mesmos tipos de comida. Ao mesmo tempo que se complementavam tão bem. O Lee via como ambos ficavam mais brilhantes, intensos e incríveis juntos. Quando olhava para Jeongin, entendia que a dor que o garoto carregava era a dor de nunca ter dito sobre seus sentimentos, era a dor de ter se afastado, se trancado, para que Felix e Seungmin pudessem ter seu momento juntos.
Felix amava Seungmin, claro que amava, mas também amava Jeongin e amava a maneira como eles pareciam ressonar juntos, como eles sintonizavam um com o outro e parecia tudo tão certo. E, enquanto se afundava mais e mais nas atividades acadêmicas e no trabalho de assistente de laboratório, mais se via perdido em análises profundas de como Jeongin passou os últimos dois anos amando em silêncio. Era Jeongin quem lembrava de cada mínimo detalhe sobre o Kim, desde a cor favorita, o primeiro animal de estimação, nome da avó, até a última música que ouviu, a última série que assistiu, o último doce que comeu. Era Jeongin quem sempre estava ali para Seungmin, especialmente nesses últimos meses, não o deixando se sentir tão sozinho, tão abandonado e deixado de lado.
O Lee se sentia péssimo e reparou que Seungmin não perguntava mais que horas iria voltar, ser já tinha jantado... apenas dizia para tomar cuidado no tráfego e chegar em casa com segurança. O fim, para Felix, era palpável e ele sabia que a culpa era dele. Sabia que Seungmin não colocaria um fim no relacionamento de dois anos com todas as palavras e pontuações necessárias, porque Seungmin não queria o machucar. Entretanto, Felix não podia continuar com isso, causando dor e sofrimento para os três.
Era uma sexta-feira de madrugada, recém passado da meia noite, quando Felix chegou e os observou dormindo no sofá. Jeongin tinha um de seus braços servindo de travesseiro para Seungmin, que estava tão perfeitamente confortável e encaixado no corpo do outro, com suas costas encostadas no torso do Yang, que tinha o outro braço envolta de sua cintura e as pernas deles enroscadas umas nas outras. O Lee sentiu o peito apertar e os olhos marejarem, mesmo que contivesse um sorriso curto nos lábios. Era uma cena fofa e parecia tão certa. Puxou o cobertor enrolado no canto do sofá e o esticou sobre eles, os cobrindo. Respirando fundo, para engolir as lágrimas, subiu as escadas, em direção ao quarto que dividia com o Kim e arrumou suas malas. Sabia que Seungmin precisaria de um tempo, ele também precisaria, e talvez a amizade entre eles nunca voltasse. Também sabia que sua mãe o receberia de braços abertos, o acolheria com muito carinho e chocolate, para que pudesse recomeçar sua vida.
