Work Text:
Somos apenas amantes
separados pelas estrelas...
girando ao redor um do outro
como galáxias errantes
estrelas cadentes
alcançando e falhando em se tocar...
desejando amar em cada universo,
vivendo pelo dia em que...
nossos mundos finalmente colidam.
N.R. Hart, Poetry and Pearls
—
Regulus se levanta de seu trono, ignorando o ranger das articulações após permanecer tanto tempo sentado em uma posição rígida.
— Fico satisfeito que tenhamos chegado a uma decisão. — ele declara. Regulus sempre adorou o modo como sua voz ecoa no salão do trono. Cercada pela grandiosidade arquitetônica da linhagem Black, ela soa menos fina. Ele sempre sentiu inveja de Sirius por isso, não que isso importe agora. — A Grã-Duquesa Dorcas Meadowes nos visitará antes da minha coroação, dentro de quatro semanas. Nesse encontro, avaliarei se ela será uma boa candidata para o cortejo e para consolidarmos uma aliança entre nossos reinos. Estão todos dispensados.
Ele não espera que todas as damas e lordes saiam e, sem demora, se vira bruscamente sobre os calcanhares, caminhando com elegância em direção aos seus aposentos. A reunião do Conselho da Velha Família começara como uma longa tarde e se arrastara até uma longa noite. Regulus fizera sua refeição noturna ali mesmo, no trono e, impaciente, repreendera o criado por não alinhar os talheres corretamente sobre o guardanapo. Paciência. O garoto deveria se considerar com sorte — o Rei Orion o teria mandado para o pelourinho.
De qualquer forma, Regulus não pode ser culpado por suas ações. Cada menção à Grã-Duquesa fazia a tensão subir pela sua espinha até se transformar em uma dor de cabeça pulsante. Tudo o que ele desejava nas últimas duas horas era se refugiar em seus aposentos pessoais e, se mantivesse aquele trajeto, logo estaria a salvo…
— Regulus.
— Mãe.
O tom frio e comedido dela ainda faz o coração dele disparar, antecipando o momento em que o humor dela mudará num piscar de olhos. Ele simplesmente ficou muito bom em não demonstrar o quanto ela o afeta.
A Rainha-Mãe acompanha seu passo, se pondo ao seu lado. Internamente, parte da esperança de Regulus por um breve alívio se desfaz, mas, externamente, ele mantém a altivez de sempre. As aparências devem ser preservadas.
— Você se saiu bem lá dentro. — Walburga diz, com os olhos fixos à frente.
— Obrigado, mãe. — Regulus não deixa que a surpresa transpareça em sua voz. Afinal, esse era o objetivo, sair-se bem.
— Seu pai ficaria satisfeito e orgulhoso. Assim como eu. — o tom dela permanece firme, e Regulus sente o medo começar a subir pela sua garganta. Ela ainda tem mais a dizer, e fará com que ele espere até que decida falar. Ele, acima de todos, exceto talvez seu irmão, saberia que não se deve apressar a ex-Rainha Walburga Black.
— Você se saiu bem, prometendo tudo, exceto se casar com Dorcas, sem garantir nada.
— Eu simplesmente desejo me encontrar com ela antes de decidir sobre um curso de ação de cortejo. — Regulus tenta. Eles param diante de seus aposentos, apenas longe o suficiente para que os guardas de plantão não precisem ficar em posição de sentido ao ver a Rainha-Mãe. — Pode haver outras candidatas dignas...
Com um simples gesto de sua mão, Walburga rejeita todos os esforços corteses de Regulus.
— Por favor. — ela fala com desdém, e a respiração de Regulus fica ainda mais superficial. — Você está apenas adiando até decidir o que fazer. E que adiamento magnífico, você realmente se superou.
A mão dela pousa sobre o braço superior do filho, logo abaixo da ombreira. Ele não esperava o gesto, e não é rápido o suficiente para evitar o tremor que percorre seu corpo. Walburga percebe e seus olhos brilham enquanto ela o puxa para mais perto, de maneira que pode parecer materna para quem passar, mas que não é, dada a firmeza de seu aperto.
— Eu aplaudo sua demora para dar a si mesmo tempo para tomar uma decisão informada, querido Regulus. — ela se aproxima ainda mais. Regulus pode sentir o perfume de hortênsias que ela usa. Isso faz sua cabeça rodopiar, mesmo agora que é mais alto que ela, mil memórias involuntárias surgindo, de palmadas, beliscões e treinamentos rigorosos. O hálito dela mexe em seus cabelos enquanto ela sussurra, com os dentes cerrados. — Apenas tenha certeza de que tomará a decisão certa no final.
Sem dizer mais uma palavra, Walburga o solta e se afasta, caminhando com elegância pelo corredor.
Se Regulus estivesse mais próximo de seus guardas, eles saberiam ajudá-lo a superar seu pânico paralisante. Mas sua mãe garantiu que eles estivessem longe o suficiente para serem difíceis de alcançar. Walburga Black sabe como incapacitar alguém, seja um exército, um nobre visitante ou o próprio filho. Por estar tão distante, e por não estar na segurança de seus aposentos, Regulus não pode perder o controle. Ele sente o grito preso na garganta, subindo pelo esôfago, mas tudo o que consegue fazer é apoiar a palma da mão na parede fria e polida ao seu lado, esperando que os tremores cessem.
Os passos de sua mãe já haviam parado de ecoar há muito tempo quando Regulus finalmente força as pernas a se moverem de novo. Ele praticamente corre na direção dos guardas.
— Vossa Alteza, você está bem? — Remus pergunta, mas Regulus não está com disposição. Essa disposição já havia ficado para trás há muito tempo, como algo distante que ele nem tenta recuperar.
— Estou bem.
Remus troca um olhar com a outra guarda de plantão, uma mulher chamada Lilian. Ele então se inclina mais do que seria estritamente adequado para evitar que outros ouçam.
— Regulus. — ele tenta novamente. — Tem certeza? Nós podemos...
— Eu disse que estou bem, Remus! — Regulus grita. Os lábios de Remus se apertam em uma linha fina, mas o monarca não se importa. — Garanta que eu não seja incomodado esta noite, a menos que alguém esteja morrendo.
Remus claramente quer protestar, mas não pode fazer isso. Esta é uma das raras vezes em que Regulus aprecia o peso de sua posição lhe garantindo exatamente o que deseja. Ele abre as portas de seus aposentos com força e as fecha com um estrondo que ecoa pelo corredor. Ele vai se sentir mal por isso depois. Talvez.
Ele vira o copo de xerez de pêssego, preparado todas as noites exatamente ao seu gosto, em um único gole, e vai até o armário onde estão suas roupas de dormir. Ele vai se despindo, deixando as vestes caírem pelo quarto sem se preocupar — as criadas da manhã se encarregarão de arrumar tudo. No entanto, ele não veste suas roupas de dormir. Em vez disso, revira uma das gavetas até encontrar o saco com suas roupas de plebeu.
Assim que veste as roupas simples, abotoando o casaco puído e calçando as botas empoeiradas, Regulus sente parte de sua tensão diminuir. Não é suficiente para libertá-lo completamente, não enquanto ainda está dentro do castelo, mas sua dor de cabeça alivia. Ele começa a se lembrar de que, além de ser um futuro rei, também é um ser humano.
Ele pega outro saco, um que contém uma longa corda trançada, e o joga pela janela aberta que dá para a antiga sacada de seu pai. Com movimentos ágeis e precisos, ele desce pela corda como alguém acostumado a fugir às escondidas.
Aquela sensação quase esquecida, alegria, começa a subir pela sua garganta enquanto ele desliza pela corda e sente as botas tocarem o gramado perfeitamente aparado. Só mais alguns passos e ele estaria...
Uma tosse.
Regulus congela.
— Indo a algum lugar, Vossa Alteza?
Toda a alegria de Regulus desaparece tão rápido quanto surgiu. Que o inferno e todas as suas estrelas levem Remus! Por que, de todos os lugares, ele tinha que estar aqui?
— O que isso importa para você, James?
— Bem, considerando que faço parte da sua guarda pessoal escolhida a dedo pelo seu irmão, tenho um interesse especial na sua segurança.
Regulus podia estrangulá-lo. Podia beijá-lo. Com uma única ordem, poderia mandar James ser algemado e jogado nos calabouços.
James sai das sombras sob a sacada, e a boca de Regulus seca instantaneamente.
— Você está...
— Eu estou...?
— Você está sem uniforme!
Que maldição, James não está usando o uniforme preto, prateado e verde, como Regulus sempre o viu desde que era velho o suficiente para ter mais guardas do que amas. A vontade de beijá-lo, chutá-lo e talvez beijá-lo de novo só aumenta agora que James está com roupas civis. Macias. Gastas. Resistentes.
— Sim, eu não estou. — James sorri suavemente.
— Então você... não está de serviço?
— Isso mesmo.
— Seu idiota! — ele sibila, franzindo a testa. — Você sabe o quão perigoso isso é? E se alguém de serviço passar e te ver vagando embaixo da minha janela? A janela do príncipe herdeiro?!
James, o absoluto tolo, tem a audácia de rir.
— Remus achou que você diria algo assim.
Os olhos de Regulus se estreitam ao ouvir o nome de seu Capitão da Guarda.
— O que o Remus tem a ver com-... — ele para de falar, porque James está se aproximando, e a visão dele sempre consegue fazer o cérebro de Regulus virar mingau em menos de três segundos. Parece que ele nunca havia feito todas aquelas aulas de elocução. James parece uma moeda ao luar, com seus cabelos castanhos selvagens, a camisa vermelha-cobre e os olhos brilhantes.
James se aproxima mais do que seria propriamente correto para um príncipe e seu guarda, segurando algo nas mãos. Demora um segundo para os olhos de Regulus focarem no objeto, porque ele acabou de perceber que James está usando óculos! As mãos de Regulus se contraem. Ele quer pegar os óculos de James. Ele quer quebrá-los ao meio, para poder voltar a ver os olhos castanhos de James de forma comum, em vez de ter uma visão ampliada de primeira fila para a gama de cores que eles são.
— O que é isso que você tem aí? — Regulus questiona, tentando soar afiado, mas falha por completo.
— Você quer me dizer que não reconhece seu próprio selo? — James responde, sorrindo levemente.
— Perdoe-me por não ter visão perfeita na escuridão da noite, James. — aí, isso foi mais cortante. Muito bem, Regulus.
— O Remus me deu, caso eu fosse pego sem o uniforme quando ele me designasse para ficar aqui embaixo. — o sorriso de James só se alarga
O temperamento de Regulus se inflama novamente. Ele o controla antes de gritar, mas é por pouco.
— Ele te designa para ficar aqui embaixo sem uniforme? Regularmente? Você poderia ser morto por isso, com ou sem selo. — Regulus vai rebaixar Remus. Vai mandar Remus fazer tarefas simples com roupas comuns pelo resto da vida, sem nem se importar que a ascensão dele na hierarquia foi o último ato de Sirius como Príncipe Herdeiro antes de tudo dar errado. Ele vai...
— Regulus, relaxe. — James cantarola, e sem querer, Regulus sente os ombros ficarem menos tensos. Ah, como ele odeia esse homem. Quem ele pensa que é para dar ordens a um príncipe e fazer o príncipe obedecer sem nem pensar? — Você seria o responsável pela sentença, não importa quem me pegasse, e você nunca ordenaria a minha morte.
Minha mãe esperaria que eu fizesse isso, Regulus pensa, e eu não saberia como te salvar dela. Eu nem consigo me salvar.
— O que te faz ter tanta certeza disso, Potter?
— Sobrenomes agora, Alteza? — James ri novamente, como um maldito delinquente.
Regulus nem sequer se digna a dar uma resposta.
— Remus me designa para ficar aqui. — James sussurra, e oh, ele deveria parar de fazer isso agora mesmo, afinal, não deveria ser difícil para Regulus não beijar um dos seus guardas. — Para noites como essa, quando o Príncipe Herdeiro tenta fugir.
Ao ouvir isso, Regulus sente as bochechas arderem. Ele reza para que a noite esteja escura o suficiente para que James não perceba. Já que ele precisa usar óculos como um idiota…
Tudo bem, talvez Regulus tenha mesmo o péssimo hábito de fugir do palácio, e talvez isso tenha começado depois da morte de seu pai, quando ousou esperar que as coisas melhorassem, já que estava prestes a ascender ao trono. Mas, quando nada mudou, ele simplesmente… continuou escapando. Remus está farto disso. Ele já pegou Regulus fugindo mais de dez vezes, mas Regulus conseguiu sair sem ser descoberto muito mais vezes do que isso.
— Como… — Regulus tenta fechar a boca, mas as palavras já estão saindo por conta própria. — Com que frequência você fica aqui embaixo?
— Estive aqui todas as noites desta semana. Às vezes é o Evan, mas na maior parte do tempo sou eu.
Regulus fica absolutamente boquiaberto. Seu capitão de guarda tem destacado um membro da equipe para ficar debaixo da janela de Regulus todas as noites, há sabe-se lá quanto tempo, e nunca mencionou nada disso a ele. Eles terão uma conversa quando ele voltar. Por ora, no entanto…
— Muito bem. — Regulus começa. — Esta foi uma noite cheia de revelações, James, que maravilha. Agora, se me der licença… — ele tenta fazer uma saída graciosa em direção à parte mais baixa do muro que cerca o jardim, mas James apenas o acompanha, andando ao lado dele.
— Aonde estamos indo? — ele pergunta, sem se abalar com a expressão horrorizada de Regulus. — Ora, Regulus, você não acha que vou deixá-lo sair por aí no meio da noite, não é? Pelo menos não sem mim.
— Você não está de serviço! — Regulus dispara, enquanto escala o muro.
James o alcança muito mais rápido, mas, ao contrário de Regulus, ele não passou seis horas nobres sentado em um trono hoje.
— Por que você acha que estou vestindo roupas comuns? — diante do olhar confuso de Regulus, James continua. — Para poder ir com você, para obviamente mantê-lo seguro.
— Obviamente isso é uma estratégia do Remus para me impedir de fugir, só para que eu não tenha que lidar com você, mas não vou deixar isso me intimidar.
Regulus tenta correr para se afastar de James assim que chega ao outro lado do muro do palácio, mas James simplesmente acompanha seu ritmo.
James pisca para ele.
— Eu também não. — A única opção de Regulus para lidar com aquele idiota seria jogá-lo no fosso ao lado deles – ou, quem sabe, se juntar a ele ali e aproveitar a situação. É claro que ele não faz nenhuma das duas coisas. Mas, ah, como ele gostaria.
★
— Você realmente não vai me contar para onde estamos indo? — James sussurra. Eles estão se mantendo perto do muro do jardim porque Regulus segue a estrada que o levará da frente do palácio até a cidade, mas ainda é uma estrada – uma estrada regularmente patrulhada pelos guardas do palácio, guardas que acima de tudo não são estritamente leais a Regulus. O monarca se recusa a lançar um olhar para o guarda idiota ao seu lado, embora queira vê-lo sob o brilho da luz do luar. A última coisa que Regulus pode se permitir agora é se distrair.
— Eu não vou te contar para onde eu estou indo. — ele sibila de volta. — Você pode me seguir se quiser, não vou impedi-lo, mas não estamos nesta saída juntos.
— Por que nãoooo? — James choraminga. Literalmente. Ele realmente choraminga! Como uma criança birrenta e mimada. Ele começa a cutucar o ombro de Black a cada dois passos que dão juntos, como se quisesse irritá-lo. — Por que não? Você não gosta de mim, Regulus? Por que não podemos ter uma aventura juntos, Regulus, vamos lá!
Regulus se vira bruscamente para ele, e James sorri, obviamente encantado por sua provocação ter funcionado.
— Você precisa parar de me chamar de Regulus neste exato momento, alguém na cidade vai te ouvir, e então meu disfarce estará arruinado! Você está interessado na minha segurança ou não?!
— Por favor. Metade das crianças lá embaixo se chama Regulus, você vai se misturar perfeitamente. — é a vez de James revirar os olhos.
— E o que acontece quando alguém ouve você me chamar de Regulus, olha mais de perto e percebe que sou idêntico ao perfil das moedas? — ele pergunta, arqueando uma sobrancelha.
— Bem, nesse caso, acho que você deveria ter usado um chapéu.
Regulus franze a testa e volta a andar. Nesse ritmo, ele nunca chegará onde precisa antes do amanhecer.
— Tudo bem, você tem um bom argumento. — James suspira enquanto corre para alcançá-lo novamente. Por que ele não o deixa em paz? A presença de James mexe com ele, cutucando algo na nuca do nobre, como se ultrapassasse os limites estritamente profissionais. Regulus se esforça para lembrar a si mesmo que qualquer coisa além do profissional entre eles é um caminho terrível, insensato e, acima de tudo, inútil. No entanto, quanto mais Potter tagarela ao seu lado, mais difícil fica para Regulus conter um sorriso que insiste em aparecer.
— Vou ter que inventar um apelido para você. Que tal “Regs”?
— Não.
— Reginald?
Regulus finge que vai vomitar.
— Ronald?
— De jeito nenhum.
— Rigel?
— Que porra é essa? Não! — Regulus deveria saber que estava travando uma batalha perdida. Ele não consegue segurar as risadinhas que começam a escapar, o que só encoraja ainda mais as palhaçadas de James.
— Reggie?
— REGG-!
De repente, James cobre a boca de Regulus com uma mão e o empurra para o meio do mato ao lado da estrada, até que suas costas batam na parede com força. Ele arfa com o impacto, mas antes que consiga perguntar o que diabos deu em James, ouve vozes vindo da estrada. São altas, animadas, claramente de alguém de bom humor. Pelo som de seus passos, parecem outros guardas, provavelmente parte de uma patrulha que está voltando para a base à noite.
James olha por cima do ombro, verificando se alguém ouviu ou percebeu algum movimento nos arbustos. Sua mão ainda está firmemente pressionada contra a boca de Regulus, enquanto a outra mantém o pulso esquerdo do príncipe preso contra a parede. Regulus sente que nunca mais quer mover um músculo.
Dessa posição, ele tem uma visão completa e desobstruída de James sob a luz da lua. O cabelo dele está uma bagunça, algo que não seria permitido enquanto ele estivesse em serviço. E está grande o suficiente para se enrolar nas orelhas e na nuca; ele precisará de um corte em breve. Seu peito sobe e desce de forma constante, numa tentativa de permanecer o mais silencioso possível, realçando ainda mais o quão próximos estão um do outro.
Eles permanecem assim até que as vozes se dissipem, poucos minutos depois. Então, James se vira de volta para ele, e a respiração de Regulus falha no peito. Os olhos de James brilham com um toque de travessura, embora o resto do rosto esteja sério, e os óculos, ah, os óculos, são um golpe mortal para o autocontrole de Regulus. Eles permitem que ele veja os cílios delicados do outro homem e os pequenos pontos dourados em seus olhos. Ele é tão lindo. E está apenas olhando para Regulus.
Muito lentamente, James retira a mão da boca de Regulus — e este sente ao mesmo tempo alívio e tristeza, porque foi difícil resistir à tentação de lamber a mão dele só para ouvir o grito indignado do moreno —. Com a mesma mão, ele afasta uma mecha de cabelo do rosto de Regulus. Regulus espera que James diga algo — ele sempre diz algo —, mas, em vez disso, James apenas o observa respirar, os olhos brilhando e a boca curvada em um pequeno sorriso terno.
— Por que… — Regulus precisa engolir em seco; sua voz está rouca. — Por que você não usa os óculos todos os dias?
James inclina a cabeça, confuso.
— Eu… uso? Em casa. Não me permitem usá-los no trabalho.
— Então… — Regulus sente como se seu cérebro estivesse tentando alcançar o restante do corpo. — Você não… enxerga?
James ri suavemente, e o som não é zombeteiro nem provocador. É adorável, como todo o resto nele.
— Não, eu uso lentes de contato, essas pequenas lentes que ficam diretamente nos meus olhos. Uma invenção relativamente nova da Corvinal, que meu pai descobriu em uma viagem a trabalho. Nós importamos elas. Mas devo dizer. — os olhos de James percorrem o rosto de Regulus, e a respiração do príncipe simplesmente… para. — Gosto de olhar para você com meus óculos. A visão é mais nítida.
Os lábios de Regulus se abrem e ele sente e vê o olhar de James descer até sua boca.
Eles ficam ali. E ficam. Ambos parecem relutantes em se mover. Então, James, pela primeira vez assumindo o papel de mais maduro, balança a cabeça e se afasta, como se acordasse de um transe. Regulus conhece bem esse sentimento. Imediatamente, ele sente falta do calor de James contra si. Um abrigo da tempestade.
— Certo, Reggie. — James sussurra, fazendo um gesto à frente com as mãos. Regulus já conhece a sensação dessas mãos agora, e nunca vai deixar de se lembrar disso. — Agora que a estrada está livre novamente, nos leve adiante!
★
— Dançar?! — James exclama assim que pisam dentro do estabelecimento, passando pela porta de carvalho cortada de forma grosseira. — Você me levou para dançar?!
O lugar está tão barulhento, com a música e as conversas ao redor, que Regulus consegue perdoar James por gritar em seu ouvido. Ele também espera que esteja quente o suficiente — com o calor do ambiente e a pressão dos corpos — para que James ignore o rubor em suas bochechas.
— Por que eu sempre tenho que repetir as coisas para você? — ele resmunga puxando James, que ainda está com a boca aberta, afastando-o da porta para deixar mais pessoas entrarem.
Regulus então vai procurar uma mesa onde possa se esconder antes de dar atenção a James. Leva algum tempo, com ele passando pelas sombras escuras do canto e pisando em alguns pés — James pede desculpas, embora não seja o culpado. Regulus não faz o mesmo —, mas ele finalmente encontra um lugar.
Ele praticamente joga James para o outro lado da mesa, fazendo-o sentar na cadeira oposta. James ainda está tagarelando, olhando ao redor, metade maravilhado e metade confuso.
— Por que você me trouxe-...
— Eu estou tentando fazer uma única coisa entrar nessa sua cabeça dura esta noite. — Regulus interrompe.
James se inclina para longe dele, do outro lado da mesa.
— Mas ainda assim, me vejo tendo que repetir: não estamos aqui juntos. Eu não te convidei, nem quero você aqui. Você decidiu por conta própria, que tinha o direito de vir, e eu apenas optei por não tentar te impedir.
— O que lhe faz pensar que poderia me impedir?
Essas são palavras que James já usou contra Regulus antes, em várias ocasiões em que Regulus estava entediado e James o vigiava enquanto estava igualmente entediado. Um desafio regular e zombeteiro. O tom, no entanto, está mais agressivo do que nunca. Cortante.
Mesmo enquanto isso o machuca, o coração de Regulus acelera. Pelas estrelas e luas, ele é um idiota... por causa de outro idiota.
— E o que te faz pensar que meus pais me deixariam crescer indefeso? — ele retruca. Antes que James consiga responder ou contradizê-lo, Regulus continua: — E o que te faz pensar que Sirius permitiria?
Ao ouvir o nome de Sirius, James fecha a boca tão rápido quanto a abriu. E isso… isso machuca de verdade.
Regulus sabe que James, Remus, Evan, Lily, e toda sua guarda pessoal são incansavelmente leais a ele. Mas ele não consegue esquecer o motivo dessa lealdade, especialmente no caso de James e Remus: eles foram de Sirius primeiro. Na verdade, se ele quisesse ser minucioso, poderia argumentar que o último ato de lealdade deles ao verdadeiro Príncipe Herdeiro é ser leal ao atual. E é só isso. Sempre foi só isso. Regulus sabe disso. Apenas odeia ser lembrado.
Regulus suspira.
— Eu não te trouxe aqui para dançar, James. Eu nem mesmo te trouxe aqui. Vá embora se quiser. Ou leve alguma vadia para a pista, eu não me importo.
James pisca. Ele ainda parece estar digerindo o fato de Regulus ter mencionado Sirius — Regulus raramente fala de Sirius —. Black espera que ele reaja, que brigue, ou que vá embora como foi sugerido. Ambos já aconteceram antes; essa está longe de ser a primeira vez que Regulus se irrita com o guarda falastrão.
Mas, em vez disso, James apenas franze as sobrancelhas e desvia o olhar bruscamente. Como se não quisesse que Regulus percebesse.
E isso é, no fim, o que mais dói: a mágoa, o esforço de James para esconder o que sente. Regulus estava prestes a sair, a procurar outro canto ou outro salão de dança, mas agora está preso à dor que não sabia que era capaz de causar. James é tão brilhante, tão inabalável — ele nunca parece alguém que possa sentir dor. Regulus sempre o invejou por isso.
Ele se deixa cair na cadeira oposta a James, como se os fios que o sustentavam tivessem sido cortados. Maldito seja James Potter e sua capacidade de arruinar todos os planos cuidadosamente traçados por Regulus! Maldito seja por não levantar os olhos quando seu príncipe se senta, esperando a devida atenção.
E maldito seja Regulus por não ter subido de volta para o quarto pela corda quando teve a chance.
Ele esfrega o rosto com a mão, parando por um instante quando seu treinamento tenta assumir o controle, lembrando-o de que isso não é apropriado. Ele o ignora, lembrando a si mesmo que está em público, onde ninguém sabe quem ele é. O cansaço pode aparecer. Ninguém se importa. James nem mesmo olha para ele, embora Regulus ainda deseje que olhe.
Quantas máscaras um homem pode usar?
Eles permanecem ali, uma bolha de silêncio no meio do salão de dança lotado. Quanto mais o tempo passa, mais evidente se torna que Regulus cometeu um erro. James ainda não disse nada, nem mesmo um comentário sobre o fato de este momento provavelmente bate o recorde de maior tempo que ele ficou sem falar.
Regulus já havia perguntado uma vez como uma pessoa tão feliz, provocadora e cheia de conversas havia se tornado guarda do palácio. Especialmente sob o governo dos pais de Regulus.
James havia estalado a língua, um gesto curioso para alguém que era apenas um pouco mais velho que Regulus, com a mesma idade de Sirius, mas que parecia ter vivido três vidas antes desta.
“Você está fazendo a pergunta errada, Alteza.”
Regulus era novo em tudo aquilo, na posição de Príncipe Herdeiro, e já tinha ganhado uma reputação de ser mais justo que Sirius, mas de alguma forma mais arrogante — embora ele não fizesse ideia de como alguém conseguia superar Sirius nisso. Seu irmão realmente dava trabalho nesse quesito —. Certamente ninguém nunca ousara dizer que Regulus estava errado. Não na sua frente.
Isso o havia desconcertado, em primeiro lugar. Mas, acima de tudo, havia agradado. O desafiara. Fazia com que ele quisesse olhar para James, sorrir. Fazer mais perguntas.
“Então,” ele murmurou finalmente, “Qual é a pergunta correta?”
James abriu um sorriso encantador, e talvez tenha sido nesse momento que Regulus foi condenado.
“Por que não há mais guardas que querem ser atenciosos?”
“O quê?” Regulus ficou tão surpreso que toda sua compostura desapareceu. Graças às estrelas, eles estavam no canto da biblioteca Black.
“Eu acho que os melhores guardas se importam. Com as coisas. História. A coroa.” os olhos de James eram faróis de calor e luz, e, pensando agora, Regulus tinha certeza: aquele foi o momento em que ele foi condenado. “Com as pessoas.”
Naquela época, isso não fazia muito sentido para Regulus, mas agora faz. Claro que James pensa assim. James se importa com cada coisa e cada pessoa que já cruzou seu caminho, mesmo quando esse cuidado azeda. Mesmo quando não é merecido.
Regulus arrisca um olhar na direção dele e o encontra observando, mas sem realmente enxergar, as pessoas dançando.
Especialmente quando o cuidado não é merecido.
— Por que você não está lá dançando? — Regulus pergunta, antes que consiga se impedir.
— O quê?
Ele observa enquanto James parece cuidadosamente recolher a si mesmo, o olhar finalmente se fixando em algo, mas ainda se recusando a virar para Regulus.
Regulus quer voltar no tempo, para o momento em que James o prendeu contra a parede. Ele quer beijá-lo ali, com o cheiro de cardo noturno no ar. Ele quer nunca ter saído daquele instante.
— Dançando. — ele repete, gesticulando no caso de não ter sido claro. — Você vai?
James não diz nada por um bom tempo, e Regulus acha que é nesse ponto que ele vai desistir. Vai voltar para o palácio, com James em um protesto silencioso durante todo o caminho, e então Regulus vai escalar de volta para o seu quarto e se deitar na cama, fingindo que não estragou tudo completamente...
James suspira. Algo muda em sua postura de repente, uma firmeza enquanto ele endireita os ombros. Uma resolução. O pulso de Regulus acelera.
— Só há uma pessoa aqui com quem eu quero dançar esta noite.
— Quem? — as palavras escapam novamente da boca de Regulus antes que ele consiga se impedir, revelando de forma condenatória o peso do ciúmes em seu peito.
James finalmente fixa seus olhos em Regulus. Seu olhar tem a intensidade de uma multidão observando, mesmo sendo apenas ele. Ele é o único que Regulus deseja impressionar.
— Você, Reggie. — James responde. Ele sorri, como se as palavras fossem um presente, e não um golpe. Sorri, e esse gesto é a demolição de todas as tentativas de Regulus de se manter distante, nesta noite e em todas as outras como esta. — Apenas você.
Rápido como um raio, o monarca está de pé. O que mais poderia fazer, com uma declaração dessas? Ele não vai ignorar um presente abençoado pelas estrelas. Ele não vai estragar uma segunda chance. O Príncipe Herdeiro Regulus Black não pode oferecer sua mão a James Potter, seu guarda, seja para dançar ou não. Mas esta noite, Regulus não é o Príncipe Herdeiro.
Ele estende a mão para James.
— Para que é isso? — o sorriso de James cresce.
— Você disse que queria dançar. — e, oh, Regulus deveria ter cedido há muito tempo só para ver a expressão no rosto de James ao aceitar a palma oferecida de seu príncipe. Regulus está acostumado à admiração, ao encantamento, à adoração. Ele é um príncipe, isso faz parte de sua vida desde o seu nascimento. Mas o que ele não está acostumado é à intensidade que James traz, à forma como parece enxergar as partes de Reggie que escapam da fachada de Príncipe Regulus. Ele não está acostumado a olhar no rosto de um garoto bonito. De um rosto familiar. Por mais que Regulus nunca dance quando foge para esses lugares, dessa vez ele mal pode esperar para levar seu guarda à pista.
Não seu guarda, ele se lembra, enquanto conduz James de volta pelo labirinto de mesas e pés. Não esta noite.
★
Regulus deveria ter imaginado que eles nunca chegariam à pista de dança.
A pior parte é que eles estavam tão perto. Regulus consegue ver o espaço perfeito entre os corpos dançantes no momento em que são interrompidos.
— Já cansei dessas festas reais. — alguém comenta enquanto Regulus arrasta James. — Parece que acabamos de ter uma quando o Príncipe Regulus virou o Príncipe Herdeiro.
Isso, na verdade, aconteceu há seis anos, quando Regulus tinha quinze, mas ele não dá atenção à conversa. Já ouviu coisas piores. Nada é mais importante do que imaginar seus braços ao redor do pescoço de James, balançando ao som de uma batida simples. James, no entanto, parece ter outras prioridades.
— Malditos reais. Maldito Príncipe Regulus. Aposto que ele será tão ruim quanto o pai. Talvez tenhamos sorte e ele acabe na prisão como a prima louca. Ou melhor ainda, talvez morra jovem. Desapareça, como o irmão afeminado. Ele é o último da linhagem Black, não é? Seria uma pena se algo... inesperado acontecesse com ele. Uma verdadeira lástima. — outro homem, maior e de olhar duro, resmunga.
Cada palavra atinge Regulus como um golpe, embora ele já tenha se acostumado com comentários assim. No entanto, ele só percebe que pararam de se mover em direção à pista de dança quando sente James soltar sua mão. A ausência da presença de James ao seu lado é desconcertante.
— Vocês sabem que estão falando do futuro rei, não é?
James caminha calmamente até os dois homens que riem, mas eles apenas reviram os olhos e tentam dispensá-lo com gestos. Isso, porém, não funciona muito bem para eles. Embora Regulus seja, tecnicamente, mais alto que James, este não é apenas alto, mas também robusto. Mesmo sem a ligação com Sirius, o moreno provavelmente teria sido escolhido para o treinamento de guardas apenas por causa de sua constituição física.
Os homens à frente de James devem ser muito corajosos ou extremamente estúpidos, porque, em vez de recuarem, eles se preparam para confrontá-lo.
— Aquele mimado nunca será meu rei. — o segundo homem declara. — Não enquanto eu puder fazer algo a respeito. — ele cutuca o amigo no ombro, que parece mais nervoso, exibindo-se. — Ei, Avery? Se nós... nos livrássemos de Regulus Black, isso significaria que o Conselho das Velhas Famílias finalmente governaria Sonserina?
Regulus já esperava por algo assim. Ele tem ouvido variações desse tipo de conversa desde que Sirius foi deserdado e seu pai morreu. As Velhas Famílias vêm tramando desde antes de ele e Sirius nascerem — e é por isso que os dois sempre tiveram guardas pessoais. Regulus imagina que James saiba disso. O que ele não esperava era que James reagisse.
O rosto de James fica vermelho de raiva. Ele inspira profundamente, aparentemente tentando se controlar, mas, antes que Regulus consiga segurar sua mão novamente, James se vira de volta para os homens e acerta o segundo com um soco no maxilar. O homem cai no chão, tão surpreso que mal consegue soltar um som.
— James! — Regulus exclama, mas Potter parece não ouvir ou simplesmente ignora. Em um piscar de olhos, ele agarra o primeiro homem – Avery, talvez? – pelo colarinho da capa e o levanta do chão. Avery solta um grito estridente, debatendo-se para tentar escapar. James não sorri. Ele não o solta.
— Se eu ouvir você ameaçar o seu príncipe novamente, vou mandá-lo para a prisão. — James rosna. O rosto de Avery está ficando roxo pela falta de ar, combinando com a fúria de James.
— James. — Regulus tenta mais uma vez, agora com firmeza. Ele tem certeza de que deixar isso continuar é uma péssima ideia.
James joga a cabeça para trás e olha por cima do ombro, exibindo um sorriso torto. Seus cabelos estão ainda mais bagunçados, e os óculos estão fora do lugar.
— Estrelas. — Regulus sussurra, quase sem acreditar.
— Estarei com você em um minuto, amor. — James diz, sua voz mais leve, mas claramente forçada. A raiva ainda borbulha por baixo do tom casual. — Só estou lidando com esse lixo. — ele se vira de volta para o ainda agitado Avery. — Mas você não vai mais menosprezar o futuro rei, certo, Avery?
Avery acena freneticamente.
O olhar de Regulus é atraído por um movimento rápido no chão.
— James! — ele grita.
— Já vou, Reggie. — James finalmente solta Avery e o empurra na direção da porta da frente do salão de dança, rosnando. — Dê o fora daqui, porra.
Avery se vira e sai correndo. A multidão se abre ao seu redor.
James ainda não se virou, então não vê o que Regulus vê.
— James! — Regulus grita, empurrando as pessoas que começam a se afastar, achando que a briga acabou. — JAMES!
Talvez James não consiga ouví-lo, ou talvez ache que Regulus está bravo, ou qualquer outra coisa. Mas James Potter, o guarda, não percebe o homem caído no chão se levantar e brandir uma adaga até que Regulus Black, o Príncipe Herdeiro, esteja entre eles.
James só vê a adaga quando ela já está cravada no abdômen de Regulus. Ele se vira a tempo de ver a lâmina atingir Regulus, a tempo de segurá-lo quando ele cambaleia para trás com o impacto, a tempo de dar uma cabeçada no homem e nocauteá-lo.
Há um grito vindo da multidão, mas ele se perde no rugido nos ouvidos de Regulus. Ele ainda não sente nada, mas sabe que logo vai sentir.
— Regulus, Regulus, Reg... Reggie, oh estrelas, oh estrelas do céu, ok, Regu... Reggie, você consegue me ouvir?
Regulus pensa que deve estar no chão, porque o rosto de James está acima dele. Os óculos estão rachados, e o sangue escorre de seu nariz. Só de ver isso, a cabeça de Regulus gira.
— James. — ele quer levantar a mão para limpar o sangue, mas seu braço não responde. — Você está sangrando.
James parece não ouvi-lo, talvez ele devesse verificar a audição, já que parece que está tendo problemas com isso esta noite. Ele está ofegando e examinando o corpo de Regulus com os olhos e as mãos. Regulus pensa que o problema deveria ser claramente óbvio, mas tenta aproveitar a pressão das mãos de James de qualquer forma.
James xinga.
— Vai ficar tudo bem. — Regulus começa a dizer, mas é interrompido por uma súbita onda de dor. Seu estômago se abre para deixar entrar um rio de fogo. — Ah! — ele grita.
James balança a cabeça firmemente, como se já estivesse se amaldiçoando pela decisão que acaba de tomar, mas, no momento seguinte, nada disso importa, porque ele está levantando Regulus em seus braços e o rio de fogo se transforma em um incêndio florestal que percorre o corpo do outro homem. Ele geme, mas não tem forças para mais protestos. Sente que deveria se preocupar mais com isso, mas o cérebro de Regulus está ficando embaçado nas bordas, assim como sua preocupação.
Ele pensa que James está correndo. Cada movimento sacode as chamas que são o corpo de Regulus e a adaga AINDA CRAVADA EM SEU ABDÔMEN! POR QUE JAMES NÃO A RETIROU? O mundo gira e o peito do moreno se movimenta contra o lado de Regulus. Há um grande thump, thump, thump que faz o monarca pensar que estão sendo atropelados por cavalos em uma corrida desenfreada, até perceber que é o coração de James.
— Só aguenta, Reggie. — James continua repetindo. — Só aguenta.
Regulus faz o melhor que pode para agarrar a camisa de James com os punhos. Mover-se costumava ser mais fácil. Falar costumava ser mais fácil, mas ele consegue murmurar: “Eu não vou te soltar. Não agora. Nunca.” Ele não pode ter certeza de que James ouviu, mas um soluço rouco vem de algum lugar.
Regulus não consegue dizer qual é a direção certa, através da dor em chamas e do mundo turvo, mas os sons ao seu redor lhe dizem que algo mudou. As dobradiças da porta rangem.
— James? O que está... oh, por todas as estrelas e luas. — uma voz surpresa, a voz de uma mulher, grita.
Tudo se mistura depois disso, sons, luzes e o coração pulsante de James, mas há mais balançar, mais chamas e então as costas de Regulus encontram algo macio. Alguém — ALGUÉM está tentando tirar suas mãos para libertar James, mas Regulus prometeu não deixá-lo ir. Ele tem certeza de que vai morrer se o fizer, mas como não tem forças para lutar, quem quer que seja vence. Ele grita. Quem quer que seja, pagará por isso. Regulus é o Príncipe Herdeiro, ele pode fazê-los pagar.
— James. — a voz da mulher diz, e então James está ao lado da cabeça agitada de Regulus.
— Shhh, shhh, shhh… — ele murmura. — Está tudo bem, Regulus, vai ficar tudo bem, Regulus, por favor, por favor, por favor. Está tudo bem, nós te temos, eu te tenho...
As palavras perdem o significado, mas a voz de James nunca perde. Regulus vai morrer antes de esquecer o que esse idiota significa para ele.
— James, isso tem que sair agora. — a mesma voz instrui.
O que tem que sair? Regulus pergunta... ou pelo menos ele acha que tenta perguntar. Ele não recebe resposta antes de James sussurrar.
— Sinto muito, meu amor. — e há um breve segundo em que a dor ardente de Regulus se alivia, apenas para voltar com muito mais força.
— James. — Regulus tenta sussurrar, querendo que o nome dele seja a última coisa em seus lábios, antes que a dor o sobrecarregue e o mundo se desfaça, e tudo fique negro.
★
Ughhhh. O corpo de Regulus é um hematoma dolorido. Por um momento, ele não quer abrir os olhos, desejando que o sono o leve novamente. Há uma dor constante em seu lado direito, logo abaixo do umbigo. Ugh.
Mas então, um leve toque de dedos em sua barriga nua chama sua atenção. As pontas são macias e grandes, e a dúvida de a quem elas pertencem faz Regulus forçar os olhos a se abrirem.
Ele está em um quarto no segundo andar, porque o teto tem um formato triangular acima dele, e o céu escuro é visível através da janela, logo em frente à cama de Regulus. Ele está deitado sobre lençóis de algodão, macios devido a várias lavagens, mas bem cuidados.
O que imediatamente chama toda a atenção de Black é James, encostado no lado direito da cama. Seu queixo está apoiado em uma das mãos, e a outra está traçando suavemente um padrão que Regulus acha que reconhece pela sua pele. Seus óculos sumiram, mas ainda há sangue seco em seu rosto, na camisa, nas mãos... em todo lugar. James não parece perceber. Ele está muito concentrado na mão que traça as cicatrizes na pele pálida. O coração de Regulus pula na garganta. Ninguém sabe sobre essas cicatrizes, a não ser Sirius. O que todos sabem é que às vezes Regulus entra em pânico e precisa do apoio emocional de seus guardas. Ninguém sabe o motivo, e Regulus gostaria de manter assim.
O toque de James é tão suave.
Regulus tenta fazer sua voz soar o mais firme possível, apesar de ter sido esfaqueado.
— James. Onde está minha camisa?
— Regulus! Você está acordado. — James diz enquanto sua cabeça se ergue abruptamente.
Regulus geme e tenta se levantar para sentar.
— Ah, acho que você não deveria...
Ele o encara, e James desiste, tentando apenas ajudá-lo a encontrar a posição mais confortável. Suas mãos são quentes. Ainda macias, apesar do sangue.
James limpa a garganta e se afasta um pouco.
— Como... como você está se sentindo?
Regulus apoia a cabeça no encosto da cama e a vira para o lado, olhando para James em vez de levantar novamente. Ele só quer que ele o toque de novo. Mais do que quer que a dor pare.
— Não é como se eu estivesse morrendo. — ele diz. — Mas, vou admitir, não é ótimo.
James abaixa a cabeça.
— Eu não... estou morrendo... estou? — Regulus estreita os olhos para ele.
— Não, você vai ficar bem.
— Mas...?
— Mas isso… — James balança a cabeça e limpa a garganta novamente. — Foi por pouco, por um momento… — ele ergue as mãos como se fosse tocá-lo, mas pensa melhor e as deixa cair no colo. — Você... você me assustou.
Regulus o observa sem dizer nada por um bom tempo. James mantém a cabeça e os ombros curvados. Ele não está sentado numa cadeira, está apenas agachado ao lado da cama, e Regulus decide que isso não vai funcionar. Ele reprime outro gemido e se move para a esquerda. O movimento chama a atenção de James.
Ele não se move até Regulus revirar os olhos e acenar com a mão para ele se sentar ao seu lado, e então os olhos de James se enchem de algo tão brilhante que transforma Regulus em alguém que tem que desviar o olhar. Cegueira momentânea.
— O que aconteceu? — ele pergunta, depois que James se acomoda. — Onde estamos?
— Essa é a minha casa.
— Sua-!
— Bem, da minha mãe. Acho que eu e meu pai só moramos aqui.
Regulus olha ao redor, observando os móveis do quarto com um interesse novo, tentando ver traços de James neles. James percebe o olhar.
— Esse é meu quarto agora, quando não estou em turnos noturnos no castelo.
É um quarto simples, sem muitos enfeites ou toques pessoais visíveis, mas a luz é quente e o espaço é limpo. Tem um cheiro de cravo. Regulus consegue imaginar James ali, preenchendo o espaço com seu sorriso e seus óculos.
Ainda assim…
— Não é muito grande. — Regulus murmura.
James dá de ombros, e Regulus sente os ombros deles se roçando, subindo e descendo. Uma parte dele quer se afastar. Outra parte — a maior — quer se aproximar. Ele não tem ideia de onde estão agora. Estrelas do céu, Regulus ia dançar com James, seu guarda pessoal. Sua mente grita para ele erguer as paredes da decência de novo, grita que Regulus não está seguro e não pode confiar em ninguém. O Regulus de ontem jamais hesitaria, mas o Regulus de hoje... Ele levou uma faca no abdômen por esse homem! E ele faria isso de novo, em menos de um segundo. Certamente isso pode mudar algumas coisas?
— Eu não estou aqui com frequência. — James continua. — E estou ainda menos agora, então não me importo-...
— Por que você está aqui ainda menos agora?
James fica tenso. Regulus pode estar exausto e se recuperando, mas ele não precisa de mais pistas de que isso é algo que James tem escondido, talvez até do seu príncipe.
— James? — ele insiste, agora com um toque de comando real. — Por que você está aqui ainda menos agora?
— Você lembra como o Remus estava posicionando guardas embaixo da sua janela?
— Nitidamente.
— Eu… — a voz de James fica presa na garganta.
Isso faz Regulus virar o rosto para ele, a dor da ferida de faca latejando e o coração apertado na mesma medida.
James está olhando fixamente para a frente, e Regulus observa, fascinado, enquanto ele dá um longo e lento suspiro antes de dizer:
— Eu me voluntariei. Eu me voluntariei para eles. Para os turnos debaixo da janela.
Se mover-se não doesse tanto, Regulus teria se afastado.
— O quê? Você se ofereceu para ficar embaixo da minha janela, noite após noite?! — ele está gaguejando. Regulus não acha que tenha gaguejado um dia na vida até agora. James Potter será a sua perdição. — Por quê? — ele sussurra.
James, muito lentamente e suavemente, vira a cabeça para encarar Regulus. Seus narizes quase se tocando.
— Eu queria estar lá para você, ficar perto de você. Eu precisava… eu queria estar perto de você. Às vezes, embaixo da janela é o melhor que eu consigo.
Regulus está em chamas novamente, mas isso é uma redução agradável à cinzas.
— Eu… eu não posso valer tudo isso. — ele murmura.
Com um leve baque, James deixa a cabeça cair, de modo que sua testa encosta no ombro de Regulus. O cabelo dele tem cheiro de cerveja, suor e sangue. Isso deveria sufocar Regulus, lembrá-lo de quando foi esfaqueado literalmente horas atrás, mas ele só quer enterrar o nariz nos fios cacheados.
— Talvez não. Mas eu me ofereci para cada um que pude. — James fala novamente, sua voz é rouca e áspera.
— E quantas vezes você fez isso?
— Cinco vezes por semana.
— Além dos turnos regularmente autorizados? — Regulus ofega.
— Além dos turnos regularmente autorizados.
— Por quê? — ele diz isso tão suavemente que duvida que James consiga ouvir, mas este olha para ele mais uma vez. Seus olhos cansados se fixam na boca de Regulus, e todos os nervos do corpo do nobre se acendem. James ainda tem sangue no rosto; Regulus nunca se importou tão pouco com higiene.
— Por que você levou aquela facada por mim? — James pergunta. O sopro de sua respiração percorre o rosto de Regulus. Seus lábios se tocam a cada palavra.
— Eu não poderia fazer mais nada. — Regulus quase geme, e ele vai fazer isso, ele vai fechar a última distância infinitesimal para beijar James Potter, e por um breve momento o mundo vai se alinhar a seu favor... Ele está tão perto e acredita que pode fazer isso... e então a porta se abre com um estrondo.
— James, a Effie nos mandou aqui com instruções para limpar você, não importa como Reggie esteja… — a voz se interrompe ao que a cena que se revela a sua frente, e Regulus congela. Ele conhece aquela voz.
James se afasta de Regulus e rola tão rápido que cai da cama com um sonoro off. Regulus se volta para a porta, com a mente dividida entre esperança e temor, já sabendo o que verá.
Mas seu irmão ainda consegue surpreendê-lo.
Ele parece menor. Se Regulus estivesse de pé, provavelmente teriam a mesma altura, mas já se passaram seis anos. O cabelo de Sirius está bem mais comprido, descendo além dos ombros — seis anos se passaram. Ele também apresenta os primeiros sinais de barba — seis anos se passaram. Ele parece mais magro do que Regulus jamais o viu, com um semblante mais aberto, uma cicatriz cortando uma das sobrancelhas e uma fileira de piercings sobre a outra. E, de fato, se passaram seis anos.
Sirius está com alguns trapos desgastados em uma mão e segurando a mão de Remus Lupin com a outra. Sua boca forma um perfeito oh ao avistar Regulus e James. Remus, por outro lado, parece completamente impassível.
— Reggie, você está-...
— Não se aproxime! — Regulus dispara, interrompendo o irmão, e a boca de Sirius se fecha. Regulus evita até mesmo olhar para Remus ou para James, que ainda está no chão.
— Certo. — Sirius diz, assentindo uma vez, como se o mundo de Regulus não estivesse desmoronando. — Tudo bem, Regulus, eu fico aqui, mas Remus pode...
— James vai até vocês se quiser se limpar, e depois vocês vão me explicar o que está acontecendo aqui.
Há uma satisfação cruel em interromper Sirius, em lhe dar ordens. Regulus é príncipe herdeiro há mais tempo agora do que Sirius jamais foi. Ele sobreviveu até aqui, mesmo sob os pais, e vai ser rei, mesmo que a ideia de fazê-lo sob o olhar vigilante da mãe seja como engolir a própria adaga que o feriu. Talvez até se case com Dorcas Meadowes, só para encerrar tudo de vez.
Quando Sirius não protesta e apenas fica ali, parecendo constrangido, Regulus se vira para James, que agora se levantou, mas continua hesitante ao lado da cama.
— Bem. — Regulus arqueia uma sobrancelha. — Você vai se limpar ou não?
— Você... — James baixa os olhos para o chão. — Você está bravo comigo?
— Isso depende exatamente do que diabos está acontecendo aqui.
— Eu moro aqui. — Sirius diz.
Regulus gira o corpo tão rápido que imediatamente se arrepende quando o ferimento grita de dor.
— Você foi banido. Sob pena de morte. Você não pode morar aqui.
— Eu saí com a patrulha de guardas que o pai mandou comigo para garantir que eu deixasse o reino. E alguns anos depois voltei escondido. Não foi tão difícil assim. — Sirius diz enquanto revira os olhos, e até Remus parece levemente divertido ao lado dele.
Regulus quer sentir raiva. Ele passou a maior parte dos últimos seis anos sendo consumido por isso. Seu irmão foi banido, virando de cabeça para baixo a vida de Regulus ao lhe entregar responsabilidades que ele nunca quis. E agora, para completar, seu momento de sonho foi interrompido! Mas, agora, diante de Sirius, tudo que sente é cansaço e confusão. Esta noite já é a mais longa da sua vida, e ele realmente não sabe o que fazer. Um príncipe deveria saber o que fazer. E Sirius não é mais o príncipe — Regulus é —, mas ambos permanecem paralisados.
Regulus espera que Sirius elabore, mas isso nunca acontece, e os quatro ficam presos em um silêncio agonizante.
Então, Remus suspira.
— Francamente, James, vá se limpar.
James ainda hesita. Ele parece relutante em sair de perto de Regulus, que, por sua vez, só agora percebe que não sabe quanto tempo esteve inconsciente. Não pode ter sido muito, ainda está escuro lá fora, mas, considerando o estado de James, é evidente que ele não parou em nenhum momento, nem saiu do lado de Regulus para cuidar de si mesmo. Effie nos mandou aqui com instruções para limpar você, não importa como Reggie esteja...
— Ele não vai te beijar com todo esse sangue no rosto. — Remus continua, com aquele ar exagerado de tédio que ele sabe usar tão bem para conseguir o que quer.
O rosto de James fica escarlate. Ele vai até Sirius e Remus tão rápido que Regulus mal consegue piscar.
— Ei! — Sirius protesta, depois que as palavras fazem efeito. Ele dá um leve tapa em Remus enquanto entrega os panos para James. — Nada de falar sobre James e o Príncipe Herdeiro se beijando, isso é altamente impróprio!
— Ah, claro, e o fato do Príncipe Herdeiro ser seu irmão mais novo não tem nada a ver com isso!
James pigarreia, visivelmente constrangido.
— Eu dificilmente o chamaria de mais novo agora… — ele murmura, envergonhado.
— Já chega! — Regulus declara, e para sua grande surpresa e alegria, todos ficam em silêncio, até mesmo seu irmão mais velho, que nunca respondeu bem a uma ordem em toda a sua vida. — Sirius, Remus, desçam. Eu irei em breve. — Remus revira os olhos, mas faz um aceno decidido e sai, depois de entregar a tigela de água que segurava para James. Sirius, contra todas as probabilidades, também obedece. Ele lança um olhar fingido de reprovação a James e, para Regulus, um sorriso surpreendentemente suave.
— Fico feliz que você esteja bem, Reggie. — Sirius diz antes de sair, desaparecendo antes que Regulus possa responder o mesmo.
— Você não! — Regulus exclama no instante em que James se move. — Você fica.
Ele não consegue entender por que suas palavras fizeram James sorrir, mas o rosto dele se ilumina em um largo e belo sorriso, brilhando como se tivesse o poder de dissipar toda a escuridão ao redor. Regulus jura que até a dor em seu corpo parece diminuir diante daquela visão.
— Eu só estava colocando a tigela no lugar para me lavar, Alteza. — James murmura, sem perder o sorriso. — Se isso for permitido.
Regulus inclina a cabeça para o lado e lhe concede um sorriso próprio, discreto, mas genuíno.
— É permitido.
Ele não deveria estar sorrindo. Tudo está um tumulto fora deste quarto, fora desta casa. Todos têm responsabilidades que estão, sem dúvida, negligenciando, mesmo que essas responsabilidades sejam apenas dormir para se preparar para um longo dia amanhã — Regulus — ou proteger Regulus enquanto ele dorme — James e Remus. Embora, se Remus está aqui, isso significa que a troca de turnos já aconteceu, então já passou da meia-noite. Mas talvez tenham sorte e não tenha passado muito.
De qualquer forma, com seu irmão e Remus de volta ao andar de baixo, Regulus pode fingir que nada disso está acontecendo. Ele pode observar James Potter lavar o sangue de suas mãos e pensar no fato de que James estava tão preocupado com ele que nem sequer se preocupou em se limpar antes.
Eles ficam em silêncio por um momento, com o único som sendo o suave respingar da água. James tira a camisa para não molhá-la — ou talvez… para se exibir? — e Regulus engole em seco para não fazer nenhum barulho embaraçoso ou revelador.
— É bom ver que você não está bravo comigo. — James finalmente diz, usando um dos panos para se secar. Ele parece muito mais jovem aqui, na casa da mãe, sob a luz da lua.
— Quem disse que não estou bravo com você?
— Você me mandaria embora se estivesse.
— Com licença? — Regulus acha que essa é uma afirmação bem presunçosa vindo do guarda sem camisa.
— Você sempre me manda embora quando está bravo comigo.
Isso queima seu peito até o ferimento, por saber que é tão transparente assim para James. Mas, levando em conta as recentes experiências de quase-morte e as revelações sobre o irmão, talvez a transparência não seja uma coisa tão ruim — o Rei Orion deve estar se revirando no túmulo. Ótimo.
— Raramente estou realmente bravo com você, James. — Regulus sussurra.
Isso faz James se aproximar. Ele ainda não colocou a camisa de volta, e Regulus fica grato por tal coisa. Não só pela visão — embora os músculos fortes e aquecidos de James sejam uma visão e tanto — mas porque agora eles estão em pé de igualdade, igualmente expostos um ao outro. Talvez seja por isso que Potter decidiu tirar a camisa, ele seria irritantemente perceptivo e poético sobre algo assim.
Graças às estrelas, ele se senta na ponta da cama. Já vai ser difícil o suficiente olhar para James e ser honesto, tocá-lo seria um novo nível de complicação. Todas as verdades de Regulus simplesmente transbordariam de sua pele, e ele seria incapaz de impedi-las.
— Com quem você está bravo então? — James pergunta. — Você parece bravo comigo o tempo todo.
Meus pais. Meu irmão. Minha posição. O mundo. Todas coisas mais seguras para Regulus dizer do que a verdade.
— Comigo mesmo. — ele responde, usando os olhos de James como âncora. — Eu fico mais bravo comigo mesmo. Com a forma como eu... reajo a você. Com o que você faz comigo. Eu odeio me sentir…
— Impotente?
— Como você sabe que isso é-...
— Você faz eu me sentir impotente o tempo todo. — James dá de ombros, envergonhado.
— Isso é diferente, eu vou ser seu rei. — Regulus sente a garganta apertar.
— Sirius ia ser meu rei primeiro. Ele não faz eu sentir como você faz.
Regulus precisa desviar o olhar por um momento. Seus olhos se enchem de lágrimas, e ele fica tão surpreso que quase deixa elas caírem. Ele não consegue se lembrar da última vez que permitiu a si mesmo chorar. Ele procura por um tópico seguro para se apoiar, para discutir, porque James é perceptivo e Regulus odeiaAMA isso. Ele abaixa a cabeça o máximo que sua ferida permite, tentando esconder o rosto e as lágrimas com as mãos.
— Vamos voltar para o palácio hoje à noite? Teremos que voltar, não é? — Regulus finalmente consegue perguntar.
— Remus está trabalhando nisso.
— Certo, bem, talvez seja melhor…
Regulus congela. James está sentado bem na frente dele agora, as pernas cruzadas visíveis de onde Regulus está usando as mãos para esconder o rosto. Seus joelhos agora estão se tocando.
— Regulus. — James o cutuca com o dedo do pé. — Olhe para mim.
— Não.
— Por favor, Regulus?
— Eu não quero e eu vou ser seu rei, então eu não tenho que fazer nada que eu não queir-...
— De onde vêm suas cicatrizes?
— O quê?
Droga, James Potter, sempre o surpreendendo. Regulus pisca para ele antes de se lembrar que não quer fazer isso. Suas lágrimas começam a cair, mas ele mal as sente diante da pergunta de James.
— Como você ganhou suas cicatrizes? — James repete.
— De brigas com Sirius, de treino com armas. Sabe, o de sempre. — Regulus solta um risinho. Ele não é nada se não um bom ator.
— Hmmm. — James faz um som pensativo. — Exceto que entre Remus e eu, um de nós quase sempre estava lá quando você ou Sirius precisavam ser levados para o Médico da Corte, e eu não lembro de você ter precisado de pontos no abdômen. Remus também não lembra.
Merda. Regulus inspira profundamente.
James coloca as mãos nos joelhos de Regulus, e Regulus quer puxar as pernas para longe, mas acha que isso seria doloroso e pensa que James sabe disso.
— Você não precisa me contar, Regulus, não se você não quiser. Mas é meu trabalho mantê-lo seguro.
A faca doeu menos ao entrar do que a palavra “trabalho”. Talvez Regulus vá proibir o uso dela quando se tornar rei.
— Por que você quer saber? — ele tenta exigir isso de James, mas a pergunta sai muito mais suave, mais suplicante. Regulus sente que essa noite inteira se transformou em uma única pergunta: por quê? Quanto mais a resposta fica evidente, mais Regulus se vê querendo jogar a cautela pela janela. Isso o assusta tanto quanto o revigora.
— Não há nada que eu não queira saber sobre você, Reg.
Regulus morde o lábio para não sorrir com isso. Um novo apelido.
— É… difícil para mim dizer. — ele finalmente diz, arrastando cada palavra.
James simplesmente pega as mãos de Regulus nas dele e as segura em seu colo. Ele olha nos olhos de Regulus com firmeza. Expectante.
Estrelas e todas as suas luas. Porra, tudo bem.
— Eu quebrei algo quando tinha dez anos. — ele começa, devagar.
James acena com a cabeça, acompanhando-o.
— Nem lembro o que era, mas era algo importante e frágil. Feito de vidro. Minha… A Rainha Mãe ficou muito irritada. E Sirius estava… ele me disse que estava com medo.
— Medo? Da sua…
— Você me ouviu. Medo. Então, ele disse para ela que foi ele quem quebrou, em vez de mim. E ela… para punir Sirius, ou assim ela disse, me jogou no vidro quebrado. — Regulus vê mais do que ouve a respiração ofegante de James. Ele não consegue acreditar que o quarto não pareça diferente agora, com um dos segredos de Regulus expostos a ele, como o amanhecer que virá com certeza.
Simplesmente porque ele quer, e porque ele sabe que James não oferecerá resistência, Regulus guia a mão esquerda dele até as cicatrizes sutis no seu estômago e abdômen. Isso pode ajudar a manter Regulus naquele momento, em seu corpo. São nove cicatrizes no total, e os dedos de James passando por elas fazem a pele pálida arrepiar.
— É disso que todas elas são, bem, e eu acho que da ferida de faca, agora.
Há uma cicatriz maior, a mais longa antes da ferida do punhal. Foi a única do lado direito — ele rolou quando Walburga o jogou — antes de ser unida pela ferida do punhal, agora coberta por bandagens. A mão de Regulus se afasta da de James, mas de qualquer forma, os dedos do outro homem permanecem sobre a linha longa e elevada da cicatriz. Seus lábios estão entreabertos em uma concentração absorta. Ele traça a cicatriz antiga quase até o fim, até quase tocar as bandagens, e finalmente afasta a mão para não causar dor. Ele jamais causaria dor a Regulus.
Regulus quase havia esquecido, mas agora as consequências completas do que aconteceu essa noite começam a atingi-lo. Ele terá que esconder sua lesão, para que todos que sabem de sua fuga essa noite não sejam punidos, mas também nunca mais poderá escapar. Tanto Remus quanto James sabem agora. Eles nunca mais vão tirá-lo de vista. O dano está feito.
Isso não deveria ter o impacto que tem sobre Regulus; não teria se ele fosse como seus pais. Mas agora, foram-se as chances de observar seu povo sem restrições. Foram-se os relatos em primeira mão sobre como fazer melhor do que seu pai e seu avô. Ele não consegue reunir forças para se importar em esconder tal fato de James.
James, belo, gentil, ainda sentado diretamente à sua frente. Um James incomumente silencioso.
— Eu suponho que não vou conseguir sair de novo sem ser notado tão cedo. — Regulus tenta rir, mas sai mais como um soluço.
James finalmente olha para cima, e Regulus é agraciado com a visão de seus olhos se acendendo com compreensão, e depois se suavizando em algo encoberto e terno. Isso faz com que ele queira se contorcer de uma forma nada digna de um príncipe.
— Talvez não, mas veja. — James diz com a voz rouca. — Eu estou dividido. Estou dividido entre nunca mais deixar você sair do palácio e nunca mais deixar você voltar.
Isso é uma surpresa.
— Eu só quero mantê-lo seguro. Mas estou começando a pensar que você não está mais seguro atrás daqueles muros do que aqui fora. Estou começando a pensar que não fui um bom guarda.
— James. Você tinha onze anos. Não teria a menor chance de intervir entre a Rainha-Mãe e eu. E de qualquer forma, os guardas estavam do lado de fora da sala. — Regulus comenta rindo levemente.
James cerra a mandíbula, e Regulus pode perder a consciência novamente só de olhar para aquilo.
— Eu teria tentado impedi-la mesmo assim.
O velho Regulus teria dito algo incrivelmente cruel, ou rido de novo, ou simplesmente mandado James embora. Mas o Reggie Regulus, o Regulus que ele quer ser, apenas se recosta nos travesseiros, satisfeito por seu lado não incomodar tanto.
— Meu herói. — ele murmura.
James cora até o peito e sorri. Ele é quem precisa desviar o olhar agora. Ri para o lado do quarto, um pouco sem fôlego.
Regulus achava que estava tão acostumado ao poder que ele nunca subiria à sua cabeça, mas isso é algo completamente diferente. Ele não sabia que tinha qualquer poder para despertar sentimentos em James, para causar dor, preocupação ou alegria. Ele acha que já pode estar viciado nesse conhecimento.
James começa a passar as mãos para cima e para baixo nas pernas de Black, distraidamente, talvez como um gesto de conforto, e é tão bom que Regulus quase poderia adormecer ali, seguro no quarto de James, e deixar que os outros se preocupassem com o que fazer… Mas isso simplesmente não é algo que Regulus faria. Há coisas importantes que ele precisa saber sobre o que virá a seguir. Então ele tenta se obrigar a reagir, e o moreno também, apesar dos ferimentos e dos sentimentos complicados.
— James. Você vai me dizer o que está acontecendo? O que vamos fazer sobre… O que vamos fazer?
O olhar de James volta imediatamente para ele, e Regulus percebe, na hora, que algo está prestes a acontecer. Ele tem aquele olhar, o mesmo de antes, quando disse a Regulus que queria dançar com ele e só com ele. Resoluto. Determinado. Faminto.
— Mm. — ele murmura, falsamente pensativo. — …Depois.
A ousadia nos olhos de James envia uma onda de calor por todo o corpo de Regulus.
— Depois… de quê? — ele sussurra.
— Depois de fazer isto: — de repente, James se ergue de joelhos e avança até ficar montado sobre Regulus, que está recostado contra os travesseiros. Seus joelhos ficam próximos às coxas de Regulus, e suas mãos seguram os braços dele.
A respiração de Regulus vacila.
James sorri com confiança e se inclina muito próximo à boca de Regulus, sussurrando:
— Se você for me decapitar por fazer isso, saiba que acho que vai valer a pena.
Então seus lábios encontram os de Regulus e, com um suspiro suave, o outro homem se rende. O que mais ele deveria fazer, quando James Potter está o beijando?
É um beijo surpreendentemente delicado, apenas o toque suave de seus lábios juntos. James não tem mais o gosto ou o cheiro da briga no bar; agora, ele tem o cheiro de sabonete limpo. Ele se sustenta cuidadosamente sobre Regulus, a tensão em seus músculos é perceptível, mesmo que só seus lábios estejam se tocando.
Regulus, por sua vez, fica quase sem forças, como se James estivesse drenando cada pensamento de sua mente com aquele beijo, pouco a pouco. Quando James se afasta, Regulus abre os olhos — ele precisa da confirmação visual de que aquilo realmente aconteceu. Ele quer ver como o moreno fica depois de ser beijado. Os olhos de James ainda estão fechados.
— Isso poderia ser um sonho. — James murmura, a voz aguda e o rosto corado – Regulus decide imediatamente que ninguém mais pode ver James depois de beijá-lo, e não se importa se isso é impraticável ou possessivo. — Assim eu poderia viver nesse momento para sempre.
É doce, de fato, mas está claro que agora é a vez de Regulus tomar as rédeas da situação.
— Que tal você voltar aqui e me beijar de novo? — Regulus retruca.
James pisca os olhos, abrindo-os com um sorriso suave, e Regulus não precisa de mais confirmação do que isso antes de se inclinar para frente, sentando-se e puxando seu guarda para si. Sua ferida protesta, mas James abafa o gemido de dor ao unir suas bocas novamente com intensidade, segurando o rosto de Regulus para ter mais firmeza.
Regulus pensa: Que se dane a contenção, e então joga os braços ao redor das costas de James, aproximando-os o máximo possível. Isso faz com que James acabe sentado em seu colo, ainda com as pernas ao redor de seus quadris. Também significa que as mãos de Regulus têm liberdade para explorar a ampla extensão das costas largas ou o emaranhado de cachos que é seu cabelo.
— Reg. — James murmura, afastando-se brevemente para espalhar beijos pela linha do maxilar de Regulus e descer para o pescoço. — Reg, Reg, Reg, Reg.
Sim, sim, sim, sim, pensa Regulus. Sempre será sim para James Potter.
— Esse… — ele suspira, enquanto James continua sua trilha pelo pescoço. — É seu melhor apelido. Muito melhor do que aquele maldito Rigel!
James dá uma risadinha e, então, sua boca volta para a de seu príncipe, mais insistente do que nunca. A cabeça de Regulus gira com a consciência de que James Potter está tomando o que quer, e o que ele quer é Regulus.
Por um longo tempo, ele não se importa ou pensa em nada que esteja fora da boca de James: seus lábios, língua e dentes. Até que sua ferida volta a se manifestar com uma dor aguda, forçando Regulus a se afastar com uma careta.
James imediatamente parece alarmado.
— Pelas estrelas, você está bem?
— Estou bem. — Regulus responde entre dentes. — Mas acho que preciso me deitar um pouco.
A dor o traz de volta à realidade, assim como a consciência de que, em algum momento, terá que enfrentá-la para manter as aparências quando retornarem — se retornarem. Não há descanso para os perversos.
No instante seguinte, James está de pé ao lado da cama. Quando Regulus o encara com confusão, ele estende as mãos. Regulus continua sem entender, mas, é claro, pega as mãos oferecidas por James. Ele o seguiria a qualquer lugar. E olha que ele foi criado para não seguir ninguém.
James ainda mantém o braço direito ao redor dele — e, ao invés de retirá-lo, como o nobre achou que ele faria, ele se deita ao seu lado na cama. É um espaço apertado, mas James dá um jeito, observando Regulus atentamente o tempo todo, procurando qualquer indicação de que isso possa estar lhe causando dor. Ele termina com o queixo apoiado logo acima das costelas inferiores de Regulus, olhando para seu príncipe.
Regulus passa a mão mais próxima pelos fios selvagens do cabelo de James, empurrando-os para trás, longe da testa. James inclina-se ao toque, fechando os olhos. Parece que ele gosta de fazer isso, e Regulus adora vê-lo se entregando ao que quer. É como se James quisesse sentir ainda mais intensamente os momentos juntos, fechando os olhos para saboreá-los.
Ele deixa a mão deslizar para cima e ao redor da cabeça de James, descansando-a levemente na nuca, para que possa apoiar aquela cabeça preciosa em sua própria palma. James é tão deslumbrante que é difícil encará-lo diretamente, como se Regulus pudesse sofrer algum dano ao olhar por tempo demais. Ele sente que já sofreu. Estragado para beijar qualquer outra pessoa, jamais. Obrigado, James.
— Você é tão lindo. — as palavras escapam da boca de Regulus, e uma parte dele se sente envergonhada, mas é simplesmente a verdade. É um pensamento que carrega desde que James foi designado como guarda em treinamento de Sirius, quando ambos tinham treze anos recém-completados. Finalmente dar voz a isso parece libertador.
A testa de James se franze, como se as palavras tivessem de alguma forma machucado. Ele abre os olhos devagar.
— Você é. — ele sussurra.
Regulus é pego de surpresa pelo peso das emoções na voz de James, porque este é bastante transparente com seus sentimentos, e Regulus achava que já tinha visto todas as nuances que poderiam ter. Então, as palavras seguintes de James tornam tudo claro e mais confuso ao mesmo tempo.
— Eu amo você.
— O quê?!
James sorri. Seus olhos estão brilhantes e um pouco vidrados com lágrimas que ainda não caíram.
— Você já devia saber, mas eu queria dizer isso claramente desta vez. Eu amo você, Regulus.
Como assim?
— Eu não sabia!
— Eu achei que... Eu deixei algo escapar quando você foi esfaqueado. Algumas vezes, na verdade. — James diz enquanto seu rosto se contrai.
Amor. Meu amor. Talvez Regulus se lembre… Mas há uma névoa de tanta dor que não sobra muito espaço para mais nada depois disso.
Regulus está sem palavras, e James apenas sorri para ele.
— Eu não lembrava... Eu não... não sabia.
James observa Regulus se desmanchar, e então pressiona um beijo casto na curvatura do pescoço pálido, o que termina de desmontá-lo.
— Bem. — ele murmura contra a pele de Regulus. — Agora você sabe. Eu amo você. Sempre vou amar, não importa o que aconteça daqui para frente.
— James, eu...
Um som repentino e agudo interrompe a frase: uma batida firme na porta, que, infelizmente, Regulus reconhece.
— James! — Remus chama. — Pare de profanar o Príncipe Herdeiro e leve sua bunda lá para baixo. Ainda temos muito para resolver, e estamos perdendo a cobertura da noite.
