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Era uma noite de domingo. A noite incomumente fria incomodava Chuuya, que se afundava nos cobertores de sua cama, tentando em vão fugir do clima gélido que era seu apartamento. Na TV do quarto passava algo aleatório, o barulho de fundo embalava Chuuya como uma antiga canção de ninar.
E assim que o homem estava prestes a fechar os olhos para dormir, alguém bateu na porta de seu apartamento.
Inferno.
Chuuya se levanta exasperado, chutando os cobertores e xingando baixinho. Não estava esperando ninguém, e era tarde da noite. Quem era o filho da mãe sem noção que estava batendo na sua porta?
Nakahara abre a porta se dando de cara com uma cabeleira castanha e bandagens.
Falando em filho da mãe sem noção.
– Dazai?! – Bradou Chuuya, com uma expressão de desdém pelo homem misturada com irritação por ser acordado do seu quase sono.
Mas quando o ruivo parou para olhar a expressão no rosto de Dazai, algo se revirou dentro de si. O costumeiro sorriso irônico e irritante que normalmente adornava a face do mais alto estava ausente, seus ombros estavam caídos e a falta de vida no olhar do homem fazia Chuuya querer o sacudir pelos ombros.
– Chuuya. – Falou Dazai, em um tom baixo e áspero que se o outro estivesse mais longe, seria impossível de escutar.
Chuuya mesmo mexido pela anormalidade da situação continuou com sua pose.
– O que caralhos você tá fazendo na minha casa? Não sabe ver as horas, porra? – Estava inclinado a fechar a porta na cara do outro se não tivesse uma resposta satisfatória.
– A gente precisa conversar.
– Seu imbecil, tá tarde! Amanhã você me fala esse assunto de alta importância.
Quando estava prestes a fechar a porta, uma mão a segurou. Se Chuuya não estivesse ainda grogue de sono, já teria explodido e xingado e chutado Dazai para fora.
– Chuuya, por favor – Os olhos de Nakahara se arregalaram. Desde quando Dazai tem boas maneiras, ainda por cima com Chuuya?
O ruivo lentamente abriu a porta novamente, dando um passo para o lado para o outro entrar.
– É melhor que seja rápido.
– Claro, claro – Dazai respondeu, despreocupado. Ele foi em direção ao sofá e se sentou com os braços jogados no encosto.
– À vontade? – Chuuya falou ironicamente entre dentes cerrados, mas nenhum sorriso de ironia se formou no rosto do outro. Com isso ele se sentou, cruzando as pernas e esperando o Assunto Super Hiper Mega Importante de Dazai que o fez vir no meio da noite em sua casa.
Dazai limpou a garganta e começou a falar.
– Você tem que prometer que não vai me matar.
– Não consigo prometer isso. – Chuuya respondeu de braços cruzados, indignação estampada em seu rosto.
Osamu deu uma risada sem nenhum humor e começou a brincar com uma ponta solta de uma das bandagens de seu pulso.
– Eu vou embora da Máfia.
Chuuya jura que escutou errado. Jura que seus ouvidos o traíram. Não era possível que ele realmente tenha dito isso. O ruivo se inclinou para frente, e pediu que o outro repetisse.
– Você ouviu certo. Eu vou sair da Máfia.
Os olhos de Nakahara se arregalaram, o choque o tomando pela segunda vez naquela noite. Ele sentiu seu coração afundar.
Um momento de silêncio que pareceu uma eternidade se instalou na sala. Dazai continuava olhando para baixo, mexendo distraidamente na ponta solta em seu pulso enquanto Chuuya olhava fixamente para o chão.
– Por que? – A voz de Chuuya era um pouco mais alta que um sussurro, seus olhos ainda fixos no chão.
Dazai deitou a cabeça no encosto, suspirando audivelmente e mudando de posição, agora com as pernas cruzadas. Mas nenhuma resposta veio. E ao mesmo tempo que isso preocupava Chuuya também o irritava um pouco. Ele respirou fundo e decidiu que ser exasperado não iria levar a nada.
– Não vai falar? – Nakahara o olhou de canto e viu Dazai negar com a cabeça, seus olhos fixos em um pequeno mofo específico no teto.
Chuuya suspirou e se levantou, indo até onde Dazai estava sentado e se sentou ao seu lado sem dizer nenhuma palavra. Um tempo se passou e ele sentiu um toque leve em seu ombro e um carinho começou na região, mas Dazai ainda não o olhava, era quase como se o movimento fosse involuntário, ativado apenas pela proximidade de Chuuya.
Chuuya ouviu um suspiro do homem ao seu lado e a voz baixa de Dazai começou a falar.
– Eu quero me tornar uma pessoa melhor, Chuu. Eu não quero mais que pessoas morram pelas minhas mãos, mas que vivam por elas.
Chuuya olhou para o outro, em choque. O olhar de Dazai estava perdido em algum lugar à sua frente e ele quase podia ouvir a cabeça do outro funcionando. E ele se assustou o quanto o outro parecia sincero quando falou essas palavras. Ele parecia humano. Humanidade nunca foi um assunto fácil para Osamu, ele constantemente dizia tanto para si quanto para os outros que falhou na tarefa de ser um ser humano. Chuuya já teve de o contrariar várias vezes. Quando estavam abraçados, Nakahara costumava dizer coisas como “amo como seu coração bate” ou “adoro o padrão da sua respiração”. Eram coisas esquisitas de se dizer, mas ele sabia que ajudavam Dazai a se sentir mais vivo.
Chuuya apenas concordou devagar, digerindo a informação.
– Você não deveria estar falando isso para mim – Disse Chuuya, sua voz baixa, segredando para o outro.
– Eu sei – Dazai segredou de volta. Agora olhando para Nakahara. Ele afastou uma mecha ruiva do rosto do outro. – Mas eu confio em você.
Confiança. Era difícil ter alguém para confiar no lugar onde eles trabalham, nas circunstâncias em que vivem. E ainda assim, Chuuya confia em Dazai e vice-versa. Pequenos pedaços de momentos que formam uma história inteira de confiança. Toda vez que Chuuya usa Corrupção. Quando Dazai dorme em seu colo. Quando Chuuya se deixa ficar fraco e inconsciente perto do outro. Quando Dazai fica sem seus curativos. E agora Dazai estava acreditando nele para manter um segredo de tamanha importância, que se sequer uma coisa escapar, Dazai é morto.
Uma vez, Dazai o perguntou: Seria a confiança um pecado?
Chuuya se inclinou em direção ao outro, levemente encostando sua cabeça no ombro de Osamu e deixou um suspiro longo escapar. Dazai o abraçou mais forte.
– Eu vou manter contato – Começou em um sussurro – Vou te dizer onde estou ficando. Te mando cada endereço e você pode ir me ver.
Era estranho Osamu ser tão delicado com as palavras. Eles já tiveram momentos de delicadeza entre eles, sim, mas nunca algo tão…sensível.
– Me promete…que vai se cuidar propriamente. Comer todos os dias, tomar banho e dormir bem.
Dazai não respondeu.
Nakahara sabia que estava pedindo demais. Coisas comuns do dia a dia eram excruciantes e difíceis de se fazer para Osamu.
Ele apenas suspirou pelo o que parecia a milésima vez naquela noite e se levantou, puxando Dazai consigo até seu quarto.
Ele sentou o outro na cama e começou a tirar as camadas de roupas do outro, parando quando o deixou apenas de boxers e seu corpo coberto de bandagens. Indo até o guarda roupas ele pegou uma roupa de Dazai – Ele sempre tinha alguma roupa dele guardada – e o vestiu calmamente, carinhosamente acariciando seus cabelos quando terminou.
Ambos deitaram na cama em silêncio. Chuuya se aproximou do outro e o abraçou pelo torso, sentindo braços o rodearem firmemente.
Palavras não eram necessárias. O futuro os diria o que fazer.
