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Triunfo em Takoba

Summary:

Izuku ri de suas palavras, não por descrença – isso é claro, mas por carinho.

— Você já está planejando ficar comigo tanto tempo?

— Você já está planejando se livrar de mim?

A maneira como os olhos verdes olham para ele é produnda, enlouquecedora e apaixonante. Katsuki acha que poderia se perder no olhar de Izuku por horas se eles as tivessem.

Izuku parece não ter palavras para responder e por mais pouco convencido que pareça, ele não parece interessado em discutir. Em vez disso, ele beija Katsuki como se sua vida dependesse disso. Com os últimos raios da manhã ainda surgindo no horizonte, eles se deitam na praia, agarrados um ao outro, sem conseguirem se soltar.

Notes:

Fic baseada na música "Paraíso Proibido" da banda "Strike" para a Zine Deku&Kazinho - Volume 01.
Se quiser ouvir enquanto lê, segue o link do youtube.

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

Katsuki mal consegue ouvir alguma coisa acima do som ensurdecedor do próprio coração, enquanto estica o pescoço na janela, com cuidado para não mover as cortinas nem mesmo um pouquinho.

As ruas estão vazias e silenciosas, como seria de esperar à meia-noite, mas Katsuki está animado mesmo assim, esperando o que está por vir com a respiração suspensa e um sorriso bobo do qual ele deveria ficar envergonhado, mas simplesmente não consegue.

Izuku está chegando. Lindo, charmoso e irreverente, Izuku está vindo buscá-lo para um passeio. Ele não sabe onde irão e honestamente não dá a mínima.

Eles têm trocado mensagens sem parar desde a primeira noite em que se conheceram e cara, que noite foi essa. Katsuki ainda fica arrepiado só de pensar naqueles olhos verdes hipnotizantes focados nele.

Mas isso foi há algum tempo e Katsuki estava ficando ansioso, imaginando se Izuku estava apenas o enrolando e que aquela uma vez seria tudo o que eles seriam, mesmo não conseguindo acreditar muito nisso. Por mais complicado que Izuku parecesse ser, com sua história de vida e todos os detalhes que Katsuki ainda não conhecia, ele nunca se portou como um mentiroso.

Ele prometeu a Katsuki que eles se veriam novamente, e Katsuki — contra todo o bom senso — acreditou nele. Agora, aqui estão.

O som estrondoso do motor da motocicleta de Izuku preenche todo o seu quarto e antes mesmo de ele estacionar e enviar a mensagem que ensaiaram, Katsuki está abrindo a janela, pronto para se atirar para fora.

Ele não vai muito longe antes que a porta do seu quarto seja escancarada e sua mãe, de camisola e olhos arregalados e um tanto malucos, pare logo na entrada. Ela abre a boca, pronta para amaldiçoá-lo por toda a eternidade, ele tem certeza, mas ela também é cortada no meio do caminho.

— É melhor você sair da minha propriedade antes que eu chame a polícia, garoto.

Katsuki quase se esquece de sua mãe, virando a cabeça para o jardim da frente, onde Masaru está parado, tentando — e falhando — em parecer o mais ameaçador possível em seu roupão e chinelos.

Na verdade, ele sabe que uma parte dele deveria ter medo ou pelo menos vergonha de ser pego saindo furtivamente pela janela para ver um garoto que ele mal conhece. Especialmente aquele que não tem motivos para parecer tão diabolicamente incrível apoiado em sua motocicleta, ainda de capacete e aparentemente segurando outro para Katsuki.

Especialmente aquele que faz os pelos de sua nuca se arrepiarem com tanta facilidade, que desafia cada fio de sanidade que ele já teve. Especialmente aquele que exala perigo e aventura como Izuku faz.

Ele sabe que seus pais lhe ensinaram melhor do que isso. Mas tudo o que ele consegue fazer é rir da postura boba de seu pai e da tentativa fracassada de sua mãe de contê-lo.

Há poucas coisas neste mundo que o fariam não pular da janela e cair nos braços de Izuku. Neste momento ele não consegue pensar em nada.

— Bom, não estou em sua propriedade, senhor. Como pode ver, estacionei corretamente do outro lado da rua, onde tenho certeza de que é um espaço público.

A voz carregada de ironia de Izuku chega até ele e é preciso quase tudo para não correr até ele ali mesmo. Katsuki arrisca olhar para onde ele está, e mesmo na escuridão da noite e nas sombras que os postes de luz projetam sobre ele, Katsuki pode ver, claro como a luz do dia, aquela covinha que o fez desmaiar como uma maldita donzela em perigo todas aquelas noites atrás.

Ah, Katsuki é um homem fraco.

— Não se atreva a sair por esta janela, Katsuki! Ou, Deus me ajude, eu nem sei o que sou capaz de fazer.

Enquanto seu pai não consegue se manter firme e volta para dentro de casa, certamente para se juntar a sua mãe para prendê-lo lá dentro, Katsuki dá uma última olhada em seu quarto. Sua mãe está perto de estourar uma veia e, se ele ainda tinha alguma dúvida – ele não tinha – isso serviu como o último empurrão.

— Bom, mãe, espero que você descubra isso logo, então.

Sem pensar duas vezes, ele pula direto nos braços do homem que todos juravam que era apenas um imprestável e que nunca o trataria bem. É uma pena ser eles nesse momento.

Rindo como duas colegiais, eles sobem na moto de Izuku antes que seus pais possam reagir adequadamente e saem noite adentro juntos. Assim como em um romance adolescente estúpido que alguém assistiria durante as férias de verão.

Katsuki tem certeza de que este é seu golpe de sorte.

-

Tudo começou com um tipo de festa idiota, chata, apenas para preencher a agenda da alta sociedade. Katsuki vinha pensando em assassinato ou suicídio há meia hora e, antes disso, vinha tentando ficar bêbado o suficiente para não se lembrar de nada.

Como ele não teve sucesso em suas tentativas devido ao olhar vigilante e autoritário de sua querida mãe, ficar emburrado e fazer cara de cu até que ele fosse deixado sozinho parecia ser a única opção que restava - planejar o sumiço de cada pirralho arrogante também parecia razoável.

— Sabe, se continuar franzindo a testa assim, você terá rugas antes mesmo de poder beber legalmente.

Alarmes explodem em sua cabeça enquanto uma voz sedosa sussurra perto demais. Ainda assim, há um arrepio na sua espinha que não deveria ser tão emocionante quanto é.

— Se posso acrescentar, isso seria uma pena, realmente.

— Ah, seu…

Katsuki se vira, esperando um dos garotos ricos e esnobes de quem sua mãe sempre insistiu que ele se tornasse amigo durante essas reuniões de negócios. Em vez disso, ele está cara a cara com a imagem perfeita do que só poderia ser descrito como “problema”.

Um garçom ridiculamente bonito, cabelo todo penteado com gel para o lado, olhos verdes brilhantes como duas esmeraldas e um sorriso torto que faz os joelhos de Katsuki fraquejarem, segura um copo, oferecendo-o a ele.

— Achei que você poderia precisar de um agradinho.

Katsuki tira a bebida de suas mãos, cautelosamente. Este homem era uma dádiva de Deus ou mais um dos planos de sua mãe?

— Isso tem álcool?

— Óh céus, você quer que eu tenha problemas com a matriarca?

Eles trocam um período de silêncio enquanto Katsuki ainda segura a bebida nas mãos, considerando qual seria a melhor forma de seguir com essa situação. Ele está sendo ridicularizado? O que esse homem quer?

— Claro que tem — admite o homem com um sorriso. — Eu que fiz, é o especial da nossa casa: coca-cola e vodca.

Katsuki reprime uma risada.

— De todas as merdas que você tem no bar, isso é o que você chama de especial da casa?

— Bom, não que tenhamos muitas opções que não se pareçam com uma bebida adequada e que pareceriam imperceptíveis em um copo de refrigerante para servir ao herdeiro Bakugou. Peço desculpas pela falha.

Escondendo o sorriso por trás de sua nova bebida, Katsuki dá um gole experimental dando boas-vindas à sensação que rasga sua garganta. Este foi feito para ser forte, assim como ele esperava a noite toda.

Uma distração, qualquer coisa para entorpecê-lo da falsidade do evento. Até o próximo, é claro.

— Está do seu agrado, Sr. Bakugou?

— Não me chame assim, eu não sou meu pai.

O garçom fica ao seu lado, observando a festa correr meticulosamente bem no local que sua mãe escolheu a dedo e decorou. Ele não parece muito preocupado em voltar ao trabalho e, pela primeira vez, Katsuki está feliz por ter alguém o incomodando.

— Hm, não, você não é. Mas eu também não sei o seu nome. O que eu sei é que sua mãe emitiu um aviso a todos os garçons para ficarem atentos ao seu herdeiro tentando dar um sumiço. E eu tão graciosamente me ofereci para acompanhá-lo esta noite.

Ele olha para Katsuki com um sorriso malicioso, mostrando uma única covinha em sua bochecha esquerda que lhe dava uma aparência quase inocente. Ele agora não parece muito mais velho do que Katsuki, apenas um garoto bobo, cansado de trabalhar e querendo se divertir.

Um menino bobo e incrivelmente bonito.

Maldita seja sua mãe e seus problemas de controle… só que desta vez parece que ela pode ter sido sua pior inimiga, jogando Katsuki exatamente onde ele queria estar.

— Sorte sua, hein?

— Sorte minha, de fato. Isso significa que você vai ficar colado ao meu lado a noite toda? Me servindo essas bebidas nojentas até que alguém perceba que não são tão isentas de álcool?

— Infelizmente, acho que foi o único que poderei fazer, pois ninguém vai me deixar chegar perto de nenhuma garrafa agora que nos viram conversando. Mas, sim, ficarei colado ao seu lado até nova ordem.

Antes que Katsuki possa responder, Izuku de repente se endireita ao seu lado, curvando-se ligeiramente.

— Espero que meu garoto não esteja lhe causando muitos problemas?

A voz doce e doentia de sua mãe ressoa em seus ouvidos enquanto Izuku lança a ela um lindo sorriso profissional.

— De jeito nenhum, senhora, estávamos apenas admirando todo o seu trabalho esta noite.

Mitsuki sorri de volta para ele e passa até estar apenas um passo à frente de Katsuki. Olhando sutilmente para ele por baixo de toda a maquiagem que ela usou para passar a noite.

— E eu rezo para que continue assim.

Katsuki não perde o significado oculto. Enquanto ela se afasta, ele termina o copo imediatamente. Para ser sincero, agora que tem uma excelente companhia, passar a noite sóbrio não parece uma má ideia. Ainda assim, há coisas melhores com as quais ele poderia ocupar seu tempo.

— Katsuki.

O garçom inclina a cabeça para o lado, parecendo um cachorrinho perdido. Esse homem e toda sua dualidade, Katsuki ficará completamente extasiado se a noite continuar assim.

— O meu nome.

— Ah. Katsuki-kun então, eu sou Izuku. Seu cavaleiro de... bandeja brilhante, eu acho?

É preciso tudo nele para não revirar os olhos ao homem idiota ao seu lado.

— Então, me conte. Qual é o evento de hoje?

— Mamãe querida está lançando uma nova linha para o outono e incorporou uma doação de caridade a cada algumas centenas de vendas. Hoje é o lançamento e as boas-vindas a essas instituições de caridade ao legado Bakugou, como ela gosta de chamar. Eu gosto da ideia, não faz dessa festa só uma vitrine maldita, mas ainda tem um monte de besteiras e pessoas esnobes tentando superar umas às outras.

Katsuki fica quieto por um momento e quase parece que Izuku sabia que precisava organizar seus pensamentos.

Ele olha ao redor do local mais uma vez. Ele conhece todas as pessoas que estão lá, cresceu tendo que memorizar seus nomes e cargos. Ele adora o trabalho da mãe, adora as criações deles e mal pode esperar para começar a trabalhar, mas essa parte... essa parte ele detesta.

Essa parte do trabalho, tão ligada a estar no topo e ter meios para fazer o bem e fazer mudanças no mundo, é o que às vezes o faz querer fugir. Ele não acha que algum dia será capaz de apenas sorrir, acenar com a cabeça e apertar a mão das pessoas, garantindo seu dinheiro e, ao mesmo tempo, sabendo que elas são apenas humanos horríveis que comeriam você vivo se isso significasse vir em primeiro.

Essa parte… foi o que mudou sua mãe. Essa parte é o motivo pelo qual eles mal têm um relacionamento e o que o faz odiar ainda mais esses eventos.

— Um centavo pelos seus pensamentos?

— Só aceito cartões, infelizmente.

Quando Izuku ri, seus olhos quase se fecham e seu sorriso é largo e deslumbrante. Por um momento, isso ajuda Katsuki a sair de seus pensamentos.

Por um momento, parece que eles são os únicos em todo o lugar e não importa que ele não saiba quase nada sobre esse homem. Ele só quer que ele continue fazendo seus pensamentos irem embora.

— Me diz, quando você faz sua pausa?

— Assim que você quiser tomar um pouco de ar fresco, Katsuki.

— Agora seria um ótimo momento, ainda falta meia hora para discursos e não quero ficar aqui nem um segundo a mais do que o necessário.

Izuku olha em volta por um momento antes de oferecer sua mão e embora tenha sido ele quem insinuou, até mesmo quem pediu, Katsuki hesita.

O que diabos ele está fazendo? Ele se orgulha de ser irritante e pouco cooperativo com sua mãe durante esses eventos, mas nunca a abandonou. Seria essa noite o fim da picada?

Ou talvez, Izuku seja apenas a desculpa perfeita e o empurrão que ele precisa para respirar um pouco e ser ele mesmo, mesmo que por apenas trinta minutos até que ele volte a ser o filho perfeito que sua mãe o pinta para o público.

Talvez… Izuku seja ainda mais do que qualquer desculpa que ele procurava. Ele está oferecendo a ele mais do que apenas um pouco de ar fresco, se o brilho em seus olhos for algo para se basear.

E Katsuki, só por esta noite, quer muito isso.

— Me leve embora, cavaleiro.

E se ele acabar atrasado para o discurso da mãe porque perdeu a noção do tempo, se ele voltar com a camisa abotoada até o pescoço e corado até as orelhas, se seu cabelo agora estiver úmido de tanto tentar arruma-lo correndo, se ele foi encontrado em um carro trancado com vidros embaçados… bem, isso é um segredo para ele e Izuku saberem, apenas.

O que mais importa para ele é que ele tem um novo número no telefone e uma nova cor favorita.

-

Com a jaqueta de Izuku pendurada nos ombros e as ondas frias batendo em seus pés, Katsuki mal conseguia se lembrar de que ele simplesmente violou todas as regras da casa de seus pais.

Ele nunca foi do tipo rebelde. Irritante e muito claro em suas opiniões, sim, mas ele nunca havia contrariado uma ordem antes. Neste momento, parece tão libertador.

— Venha sentar antes que você congele, Kacchan!

E aí está a voz que aluga um triplex em sua mente há semanas. Izuku, seu Deku, com toda a inocencia e ares de menino que o deixam fraco com apenas um olhar, sentado em um piquenique improvisado a uma hora qualquer da madrugada no meio de uma praia vazia esperando por ele.

Apenas os últimos momentos ao seu lado compensaram todas as semanas anteriores em que seus supostos amigos zombavam dele e falavam merda sobre seu namorado “ralé”. Fodam-se todos eles.

— Eu trouxe algumas coisinhas para você lanchar, nada sofisticado como você provavelmente está acostumado...

— Cale a boca, nerd, isso tá bom.

Mais do que bom, na verdade, mas toda a saudade e o hábito de flertar com Izuku por meio de mensagens de texto deixaram seu cérebro confuso… e envergonhado.

— Como você está, Kacchan?

— Tudo bem, eu não fiz nada de útil desde que as aulas terminaram. Minha mãe ficou no meu pé a semana passada toda, pra que eu participe de todos esses eventos e reuniões estúpidas durante o verão.

Izuku sorri com o jeito que ele fala, dando-lhe outro pedaço de pão para comer. Ele empurra de volta para ele, sabendo que o nerd não comerá se ele não o forçar.

— Mal posso esperar para a universidade finalmente começar, para que eu possa ter um pouco de paz para mim mesmo. Ainda gostaria de ter ido para algum lugar mais longe para poder sair de casa.

— Você entrou na melhor universidade do país, Kacchan, eu sei que você ficará bem por mais alguns anos. E então, você estará tão ocupado trabalhando e sendo famoso que não terá tempo para ficar entediado em casa.

Katsuki sorri com orgulho. Claro que ele vai. Ele já tem tantas ideias e projetos nos quais quer trabalhar – assim que se formar, ou até mais cedo, se os pais o irritarem, ele colocará tudo em ação.

— E você? Teve dias em que quase não ouvi falar de você.

Izuku desvia o olhar dele, coçando timidamente sua nuca. Katsuki sabe que não gosta de falar sobre si mesmo, mas está curioso. Ele não sabe quase nada sobre esse homem, além do fato de que ele já está muito apaixonado.

E isso é tão assustador quanto emocionante.

— Tenho trabalhado aqui e ali, ainda não consegui encontrar um emprego de tempo integral… Mas felizmente encontrei alguns eventos e pessoas que precisavam de ajuda. Mamãe finalmente pôde parar de trabalhar à noite e estou feliz por poder fornecer isso.

Katsuki acena com a cabeça. Izuku mencionou sua mãe uma vez durante as conversas. Ele disse que gostaria que ela trabalhasse menos e isso mostra em seu rosto o alívio de poder fazer isso por ela. Ele não precisa dar detalhes, Katsuki sabe que é um privilegiado e poucas pessoas conseguem viver como sua família. Ele gostaria de poder fazer algo por eles.

Às vezes ele se sente como um garoto sem rumo perto de Izuku, mesmo que o outro seja apenas dois anos mais velho que ele. Ele parece ser tão organizado, tão seguro de si que faz Katsuki sentir que falta algo em si de alguma forma.

É engraçado, qualquer outra pessoa faria Katsuki se sentir ameaçado. Porém, Izuku nunca o fez se sentir mal pelas coisas que ele não pode controlar e tudo que Katsuki se sente é apreciado e admirado. Este homem realmente é fora da curva.

Em pouco tempo, o sol começa a nascer no horizonte e Katsuki finalmente percebe há quanto tempo eles estão juntos. Estar com Izuku é tão fácil… Ah, se eles pudessem ter mais disso.

— Quais são seus planos para depois das férias de verão?

— Bom, os mesmos de agora Kacchan, encontrar um emprego e ajudar a mamãe. Espero conseguir algum tipo de consistência no meu horário de trabalho. Rezar e torcer para que a moto do pai não desista de mim. Por quê?

Katsuki respira fundo. Expressar seus sentimentos nunca foi fácil para ele e por mais estranho e piegas que Izuku o faça, as palavras ainda ficam presas em sua garganta.

— Eu estava me perguntando... Quando ou se eu poderia ver você de novo. Eu sei que os próximos meses serão uma loucura, mas depois que eu estiver na universidade...

No mesmo instante, isso não pareceu a coisa certa a dizer. A expressão de Izuku de repente se torna ilegível, mesmo que ele aperte os braços em volta da cintura de Katsuki.

Ambos estão de frente para o nascer do sol, ainda enrolados na toalha na areia. Esta é a coisa mais romântica e assustadora que Katsuki já fez, o máximo que ele já se abriu para alguém e agora ele mal consegue ver as cores ao redor deles com medo de que tudo dê em nada.

— Eu... eu não sei se deveríamos nos ver mais, Kacchan. Isso… Isso foi muito divertido e você é tão incrível. Incrivelmente fora do meu alcance, na verdade...

— Para. Que porra você está tentando dizer? Isso foi só entretenimento para você?

— Não!

Izuku o vira em seus braços até que Katsuki não consegue evitar olhar em seus olhos. Malditos sejam os olhos dele e como ele se deixa ler como um livro.

— Katsuki, eu... Quando te vi naquele salão, tantas semanas atrás, pensei que tentar flertar com você era a ideia mais maluca que já tive. Nunca, em um milhão de anos, pensei que você fosse retribuir. Aqueles beijos? Num carro emprestado pelo qual serei eternamente grato? Essas serão minhas lembranças mais queridas.

Izuku segura o rosto de Katsuki entre as mãos calejadas, acariciando-o como se ele fosse a coisa mais preciosa de todo o seu universo.

— Mas não tenho absolutamente nada para lhe oferecer. Não tenho emprego, dinheiro ou futuro que possa compartilhar com você. Não posso cuidar de você ou te levar em encontros como você merece. Mal consigo sustentar eu e mamãe, eu nunca poderia considerar fazer você passar por isso, não importa o quanto eu valorize ou me importe com você – o que é muito, você precisa saber.

A essa altura, Katsuki estava segurando as lágrimas que Izuku deixava escorrer livremente por seu rosto. Ele não consegue se lembrar da última vez que se emocionou assim, principalmente na frente de alguém. Este homem faz dele um idiota e ele gostaria de poder odiá-lo por isso.

— Eu não quero nada disso, seu idiota. Eu... Estou contente em ter você ao meu lado. Izuku isso... Isso é tão novo e estou com tanto medo de tudo que você me faz sentir, mas eu quero isso. Não importa como.

— Katsuki, eu não posso... você ainda está sob os cuidados dos seus pais e eles me odeiam – você sabe disso; você os viu antes. Eu nunca poderia te colocar em um lugar onde você os perderia.

— Foda-se eles. Eu não preciso da aprovação deles. A faculdade já está paga e eu tenho um fundo em meu nome. No mínimo, a única coisa boa que eles fizeram foi garantir que eu fosse o mais independente possível deles. Eu poderia... Eu posso cuidar de mim mesmo. E quando eu começar a trabalhar, poderei cuidar de nós dois!

Izuku ri de suas palavras, não por descrença – isso é claro, mas por carinho.

— Você já está planejando ficar comigo tanto tempo?

— Você já está planejando se livrar de mim?

A maneira como os olhos verdes olham para ele é produnda, enlouquecedora e apaixonante. Katsuki acha que poderia se perder no olhar de Izuku por horas se eles as tivessem.

Izuku parece não ter palavras para responder e por mais pouco convencido que pareça, ele não parece interessado em discutir. Em vez disso, ele beija Katsuki como se sua vida dependesse disso. Com os últimos raios da manhã ainda surgindo no horizonte, eles se deitam na praia, agarrados um ao outro, sem conseguirem se soltar.

- -

Já passa da hora que Katsuki estaria acordando quando eles chegam perto da casa dele. Ele se sente nas nuvens segurando firme na cintura de Izuku enquanto ele acelera nas estradas vazias. Sua mente está em paz e é emocionante finalmente encontrar seu lugar no mundo.

Porém, assim que eles dobram a esquina da sua rua, tudo muda. Um carro da polícia está estacionado no meio da garagem de seus pais, um policial perto dele enquanto outro fala com sua mãe na varanda da frente.

Katsuki pode sentir todos os músculos do corpo de Izuku tensionar. Porra, isso não deveria estar acontecendo.

Sua mãe finge um suspiro, colocando a mão na boca quando eles se aproximam da casa. Ela parece cansada, com o cabelo bagunçado e lágrimas nos olhos. Seria muito convincente se ele não a conhecesse melhor.

Seu pai pelo menos não finge, ele fica ao lado dela em silêncio, permitindo seu espetáculo.

— Ah, meu garoto!

Izuku estaciona do outro lado da rua, assim como fez antes, e ajuda Katsuki a descer da motocicleta, desabotoando cuidadosamente o capacete e segurando-o debaixo do braço.

— Você deveria ir Kacchan, por favor.

Izuku mal consegue sustentar o olhar e suas entranhas se agitam de medo.

— Katsuki! Meu filho querido! Por favor, entre...

Ele quer dizer algo, qualquer coisa para prometer a Izuku que resolverá isso, mas nada do que ele possa dizer naquele momento parece suficiente.

Izuku é um homem incrível – ele não pode se meter em encrencas por causa de sua mãe narcisista. Ele não pode ter problemas por causa dele!

Ele finalmente se vira, marchando pela frente de sua casa com ódio nos olhos. A mãe dele queria um show, então ele vai dar para ela.

— Que porra você está fazendo, mãe? Hm? Estou atrasado para outra vitrine onde você me exibe? Porque essa é a única razão pela qual você estaria preocupada comigo em primeiro lugar!

— O que aquele garoto fez com você? Meu filho nunca...

— DEIXE IZUKU FORA DISSO! Seu filho está cansado de suas merdas! Estou em casa agora, feche a porra das cortinas!

Ele não arrisca outro olhar para trás enquanto passa por seus pais dentro de sua casa. Suas mãos tremem de medo, de raiva, de ansiedade.

Ele não repara em seu pai acenando para o policial mais próximo da porta antes de correr para seu quarto. Ele tranca a porta, ignorando a mãe batendo insistentemente nela, e corre até a janela bem a tempo de ver Izuku subindo de volta em sua motocicleta.

Há um momento de silêncio e ele pode ver como as mãos de Izuku tremem enquanto ele prende o capacete. O policial se aproxima dele lentamente.

— Eu sugiro que você vá para casa agora, garoto, e fique longe daqui se quiser me manter longe de você.

Izuku não olha para trás enquanto sai acelerando, levando consigo um pedaço da sanidade de Katsuki.

- -

Já faz uma semana.

Uma semana sem contato, sem ligações atendidas, sem mensagens recebidas. Uma semana sem Izuku na vida de Katsuki e ele está prestes a enlouquecer.

Ele tem sorte de ainda ter seu telefone, pois seus pais praticamente o trancaram dentro de casa, eles continuam monitorando cada movimento seu, cada interação.

Agora ele sabe como eles descobriram sobre Izuku – rastreando-o a cada segundo. Ele se sente como um rato preso dentro de um laboratório.

Ele ainda não está falando com eles, o que lhe dá algum consolo em saber que está irritando todos os nervos de sua mãe, mas não ajuda em nada seu caso.

Sexta-feira à tarde, uma semana e algumas horas depois de ver Izuku pela última vez, Katsuki está descansando na sala de estar tentando – e falhando – mais uma vez em entrar em contato com ele quando seus pais chegam em casa cedo demais para seu gosto.

Antes que ele tenha tempo de se virar e se trancar no quarto durante todo o fim de semana, a voz de sua mãe chega até ele.

— Ainda tentando entrar em contato com aquele zé-ninguém?

É preciso muito para ele conter uma resposta ácida. Ele não estaria ajudando em seu caso se quiser obter algum tipo de liberdade em breve.

— Sim, mãe. Ainda estou tentando entrar em contato com Izuku - como você sabe, vendo que você acompanha tudo o que faço.

Seu pai, sempre fugindo de confrontos, suspira.

— Filho, acredito que seria melhor se você desse um tempo. Você verá que suas vidas não têm nada em comum e que essa sua... Paixão infantil, vai passar.

— Paixão infantil, você diz? Foi assim que o vovô chamou quando a mãe era apenas sua secretária e você se apaixonou por ela? Ele também a chamou de apenas uma ralé?

— Katsuki! Você deve saber que isso não tem nada a ver com sua mãe e eu... Esse homem nunca será capaz de sustentar você, ele nunca irá te tratar bem!

Katsuki pela segunda vez em apenas uma semana está segurando as lágrimas… De todas as pessoas, ele esperava que seu pai de alguma forma mudasse de ideia e o entendesse.

Ele dá uma risada triste com sua resposta.

— Eu realmente espero que ninguém nunca tenha dito isso pra você pai. Isso não é justo. Eu o amo – assim como você amava a mãe. E bom, do seu jeito, vocês se sairam bem, não foi? Como você pode ter tanta certeza Izuku não é o cara para mim?

— O CARA PARA VOCÊ? Você está louco, Katsuki? Aquele inútil nem tem a decência de ligar para você depois de toda a confusão que causou e você tem a coragem de nos dizer que o ama? Ah, me dá um tempo...

— Ele…

Katsuki para no meio de sua explosão. Sua mãe parece furiosa com sua confissão – mais do que ele pensava que ela ficaria.

— Você tem algo a ver com isso, não é?

Tudo o que ele recebe de volta é silêncio e nariz arrebitado. Seu pai abaixa a cabeça, envergonhado.

— O que você fez, mãe?

Quando eles se recusam a responder, ele sabe. Claro.

É claro que Izuku não o deixaria a deriva.

É uma decisão de meio segundo, mas Katsuki corre. Corre pela porta da frente antes mesmo que eles possam reagir. Ele pega sua bicicleta, jogada na varanda da frente por sabe-se lá a quantos dias.

Ele não sabe exatamente para onde está indo, mas não consegue parar de pedalar como se sua vida dependesse disso. Seus chinelos ficaram há muito perdidos em algum lugar no caminho. Tudo o que ele sabe é o nome de um bairro e a silhueta de uma casa que viu no fundo de uma imagem borrada.

Ele precisa encontrá-lo, ele sabe que não viverá isso se não fizer isso.

Demora uma eternidade e não pode ter sido mais de meia hora, mas Katsuki consegue pedalar o suficiente para entrar em um bairro onde nunca esteve antes. Ele está ofegante, suando, tremendo loucamente por falta de sapatos, mas não consegue nem pensar em parar.

Depois de circular sem rumo por um tempo, ele para em uma loja de conveniência - Izuku mencionou que às vezes trabalha em uma, ajudando com o estoque. Só pode ser uma de todas que ele viu no caminho, certo?

— Midoriya? Claro, ele é um querido. Por favor, diga a ele que precisaremos da ajuda dele em breve, de novo! Ah, e sim, ele mora do outro lado da estação de trem.

A senhora do caixa aponta uma direção e Katsuki não pode fazer mais nada se não seguir. Não demora muito para encontrar o lugar que procura.

É apenas um prédio pequeno, quase degradado, com cerca de uma dúzia de apartamentos. Katsuki olha para todos eles até encontrar a pequena etiqueta Midoriya na frente de uma porta branca. Ele não veio até aqui para desistir, certo? Ele reúne toda a coragem que não tem por dentro e bate.

— Ah, olá.

Uma mulher pequena abre a porta e por um momento Katsuki fica atordoado. Essa mulher é a cópia de Izuku, um pouco mais velha e bem mais baixa, mas ainda assim.

— Você é... Ah, querido, entre.

Ele pede licença e a segue para dentro, subitamente envergonhado de estar descalço – seus pés devem estar tão imundos. Ele faz o possível para esfregar o que pode com as mangas antes de se juntar a ela no pequeno balcão que divide a cozinha.

— Então, Katsuki-kun, certo? Você percorreu um longo caminho, não foi? Um chá, talvez?

Ele concorda.

— Como... Como você sabe quem eu sou, senhora?

— Meu Izuku, ele não parava de falar de você. Dos seus lindos olhos vermelhos e cabelos dourados... Eu poderia te reconhecer no meio da multidão, querido.

Katsuki finalmente dá uma boa olhada nela e ele percebe o quão cansada ela parece, mesmo sorrindo ela ainda parece incrivelmente triste.

— Onde ele está, tia?

Com lágrimas nos olhos, ela lhe entrega uma xícara de chá e faz sinal para que ele se sente em uma das várias cadeiras que não combinam.

— Ele não revidou, sabe? Ele nunca poderia, ele é bom demais para fazer isso. Eles nem lhe deram uma chance. Por favor, termine seu chá, querido! Vou pegar alguns sapatos para você calçar e talvez uma jaqueta – eu vou levar você até ele.

- -

Já faz uma semana.

Durante uma semana, Katsuki só apareceu na casa dos Midoriyas para pegar mais roupas e ajudar Inko a manter as coisas no lugar.

Durante uma semana, as únicas mensagens de Katsuki para seus pais foram a localização e uma foto do nome de Izuku na porta do hospital. Uma semana desde que enviaram flores e um cartão dizendo o quanto estavam arrependidos e que nunca quiseram que algo assim acontecesse.

Ridiculamente, ele acredita neles. Eles podem adorar agir como se fossem todos nobres e poderosos, mas não são maus, eles nunca fariam nada deliberadamente para machucar alguém.

O que deveria significar que eles foram simplesmente estúpidos e confiaram em todas as pessoas erradas. Pelo menos faz uma semana que eles estão pagando todas as despesas.

Por uma semana Katsuki morou ao lado da cama de Izuku em um quarto frio de hospital, esperando que ele acordasse depois de levar uma surra de pessoas corruptas apenas por ter feito Katsuki feliz.

Já se passou uma semana e Katsuki acha que nunca vai se perdoar... Mas tudo é esquecido quando Izuku abre os olhos. Seus lindos e vivos olhos verdes.

Demora mais alguns dias até que ele tenha alta e para Katsuki é ainda mais difícil passar esses dias ao seu lado enquanto Izuku parece não conseguir falar com ele. Ele parece envergonhado e arrependido, como se tudo isso fosse culpa dele.

Ele olha para Katsuki como se ele não devesse estar ali, como se aquele lugar fosse pequeno demais para Katsuki caber.

Katsuki consegue segurar a língua até que ambos finalmente estejam na casa de sua mãe mais uma vez — Izuku com muletas e bandagens, mas inteiros e encharcados pelas lágrimas dos Midoriya.

— Agora que você está em casa, podemos conversar?

Inko lhes deu alguns momentos a sós, de repente precisando comprar pão.

— Katsuki... Por favor, acho que você precisa ir para casa.

— Eu vou, você está certo. Mas não antes de você enfiar nessa sua cabeça dura que isso não foi, em nenhum modo, culpa sua. E eu não vou deixar ninguém escapar impune se eu puder.

Izuku sorri fracamente para ele, dando tapinhas na lateral do sofá para Katsuki se juntar a ele.

— Eu sei que, no fundo, não foi minha culpa. Mas Katsuki, se isso não deixou as coisas claras, que não estamos no mesmo nível... Como poderei proteger você se não consigo nem me proteger?

— Cala a boca, pelo amor de Deus!

Katsuki leva um momento para colocar seus pensamentos em ordem antes de segurar a mão boa de Izuku com o máximo cuidado.

— Eu... Eu sinto muito por tudo. E vou consertar as coisas, eu prometo. Por favor, acredite em mim quando digo que não vou desistir de nós. Eu só... Vou encontrar um jeito.

Não parece que Izuku quer acreditar nele, mas ele concorda de qualquer maneira.

— Por favor, deixe-me ficar de pé novamente, ok? Eu... Vou precisar de um tempo.

Katsuki concorda, porque o que mais ele pode fazer? Izuku está nesse estado por causa dele. Ele estará para sempre em dívida com ele – se ele ainda quiser vê-lo depois de tudo.

Assim que Inko volta, Katsuki agradece por todo carinho e apoio nos últimos dias e vai embora. Ele tem uma nova luta para travar em casa agora.

- -

— Filho.

— Não. Você vai me deixar falar desta vez.

— Filho, por favor, você tem que acreditar em nós, não tivemos nada a ver com o acidente de Izuku, nós...

— Acidente? Ser emboscado, quis dizer? Você chama isso de acidente?

Seu pai está sentado no sofá, de cabeça baixa e desanimado. Katsuki quase se sente mal por ele. Ele admirava esse homem, durante toda a vida ele admirou a história de amor de seus pais e como eles chegaram tão longe só porque trabalharam juntos.

Agora ele não sabe mais no que acreditar.

— Você sabe por que eles conseguiram deixar ele naquele estado? Ele não revidou, pai. Porque ele é uma pessoa tão boa que nunca poderia machucar ninguém. Porque ele pensou em sua mãe, ele pensou em mim, antes de si mesmo. Ele nunca se meteu em problema na vida e agora… Agora ele está todo fodido. E ainda assim, tudo em que ele consegue pensar é em se levantar novamente.

Katsuki aceita o silêncio do pai e se senta na frente dele, com sua decisão tomada.

— Você tem mais alguma coisa a acrescentar?

— Sinto muito, Katsuki, realmente sinto. Tudo o que sua mãe e eu estávamos pensando era no seu futuro... Tudo que queríamos era assustá-lo, talvez alguém pegasse o telefone dele para que vocês perdessem o contato, mas nós nunca... Nós estávamos errados, Katsuki e por isso, vou pedir desculpas a vocês dois pelo tempo que for necessário. Agora posso ver o quanto vocês se importam um com o outro.

— Se vocês dois sentem tanto, onde está a mãe agora?

Seu pai suspira, balançando a cabeça com pesar.

— Mitsuki está no escritório dela. Ela não podia… Ela não teve coragem de ver você ainda.

— Ótimo, então você passa minha mensagem para ela — ele se levanta do sofá, com as mãos tremendo dentro dos bolsos — Vou fazer a mesma coisa pela qual sempre te admirei. Estou lutando pelo que parece certo em meu coração. Vou terminar meus estudos, conseguir um emprego bem longe de vocês e vou retribuir cada centavo que vocês gastaram comigo. E então, nunca mais terei que olhar para a cara de vocês. Estou sendo claro?

Tudo o que Masaru consegue é olhá-lo atordoado.

— Terei um futuro com Izuku, mesmo que isso signifique... Mesmo que signifique não ter um com vocês.

Parte seu coração pronunciar essas palavras. Ele está zangado, desapontado e envergonhado com seus pais, mas no fundo, ele os ama incondicionalmente. Eles fizeram dele o que ele é e nunca o deixaram querendo nada.

Ainda assim, eles cruzaram uma linha que não deveria ter sido tocada. E agora, todos eles precisam enfrentar as consequências.

 

-//-//-//-//-

 

Izuku finalmente recebeu alta e está livre de todos os curativos. Demorou mais do que ele desejava, mas ele está pronto para voltar às ruas e encontrar trabalho.

Mesmo assim, alguns hábitos são difíceis de quebrar, e acordar antes do sol para tomar os remédios é um deles – por isso ele não dá muita importância quando seu telefone toca tão cedo pela manhã.

— Sr. Midoriya?

— Sim?

Ele sabe muito bem quem está do outro lado da linha.

— Eu tenho algumas perguntas para você, tudo bem?

Ele apenas resmunga em resposta. Seus sentimentos e pensamentos estão uma bagunça e ele não será capaz de decifrá-los a tempo de obter respostas adequadas em um telefonema.

— Você sabe dirigir um carro?

— Sim senhor.

— Você terminou o ensino médio, correto?

— Sim senhor.

Demora alguns momentos antes que ele ouça alguma coisa novamente, seu coração está acelerado como se ele soubesse o que está por vir. Isso o deixa animado – desconfiado, sim – mas mesmo assim animado.

— Você estaria disposto a voltar a estudar? E trabalhar?

— Mais do que tudo, senhor.

— Eu... eu tenho uma oferta para você, Sr. Midoriya, mas primeiro, preciso lhe perguntar: você consegue manter essa conversa apenas entre nós? O que estou prestes a oferecer não é de forma alguma por pena ou nós querendo comprar de volta o carinho de Katsuki. Eu e minha esposa... Tomamos algumas decisões erradas recentemente e gostaríamos de corrigi-las.

É um pedido difícil. Izuku entende seu raciocínio, mas Masaru está falando sobre mentir para Katsuki, omitindo uma mudança tão grande e uma parte de sua vida que irá afetá-lo também.

— Não tenho certeza se posso fazer algo pelas costas de Katsuki, senhor.

— Eu entendo e agradeço sua resposta. O que eu quero para você é o mesmo pelo que lutei durante anos enquanto comecei a namorar a mãe de Katsuki – quero lhe dar a chance que ninguém acreditava que merecíamos naquela época. Você… Você é um bom garoto e não fui justo com você. Por favor, permita-me corrigir isso.

— Por favor, senhor, diga o que propõe. Então me deixe pensar sobre o que você está solicitando, não posso lhe dar uma resposta definitiva sem saber o que isso implica.

Não muito depois disso, ele desliga a ligação. Ele não sabe se essa mudança inesperada de opinião é real, ou mesmo honesta, mas não vai pensar muito nisso agora. Esta é uma verdadeira oportunidade de construir um futuro para si e para a sua mãe.

E talvez, até mesmo poder ficar ao lado de Katsuki com orgulho.

Então ele vai pegar essa oportunidade, agarrá-la com as duas mãos e trabalhar ao máximo para ser digno dele. Digno do homem incrível que Katsuki é e do que ele merece.

 

-//-//-//-//-

 

Katsuki não está pronto para o primeiro dia de aula. Não porque ele não esteja animado para finalmente dar o próximo passo em seu futuro ou algo assim, mas na verdade porque ele agora sabe que Izuku terminou com ele.

Ele tentou enviar mensagens para ele algumas vezes, até mesmo ligar para ele, mas tudo o que obteve em resposta foi que o homem precisava de tempo. E tempo ele merecia, então tempo que Katsuki deu a ele. Mas ficou claro a cada dia que talvez esse tempo fosse necessário para Izuku perceber como Katsuki dava muito trabalho e não valia todo o esforço.

Suspirando, ele termina de se preparar para ir. Seu campus é próximo o suficiente para que ele não precise morar fora de casa, mas mesmo assim precisa pegar o trem.

Ele está quase descendo as escadas quando sua frequência cardíaca acelera e um estrondo ecoa pela rua. Oh, ele conhece esse som; ele sai correndo porta afora antes que possa pensar muito sobre isso.

— Oi, Kacchan.

Ah, estúpido, estúpido Izuku.

— Eu queria saber se você gostaria de uma carona para a aula?

Katsuki só consegue acenar com a cabeça. Ele quer gritar e xingá-lo ao mesmo tempo que quer abraçá-lo e beijá-lo até ficar sem ar. Ele agarra o capacete que Izuku lhe oferece com mãos inseguras e aceita a ajuda para subir atrás de Izuku.

— Eu... Sinto muito por ter demorado tanto, mas, bom, estou aqui agora se você ainda quiser. Estou trabalhando em algumas coisas na minha vida, então não poderei estar muito por perto durante a semana. Mas eu gostaria de levar você para a aula todos os dias, se você me deixar.

Katsuki aperta os braços em volta da cintura de Izuku.

— Idiota. Quero você por perto o tempo todo, pensei que você já soubesse disso. Por que você continua me fazendo repetir?

Antes de ir embora, Izuku segura uma de suas mãos por um segundo.

— Obrigado Kacchan, vou consertar isso para você.

É o máximo que Katsuki consegue falar com ele antes de chegar nos portões e Izuku pedir licença para ir trabalhar. Que trabalho, ele não disse, mas Katsuki está tranquilo com isso.

Izuku está muito enganado se pensa que vai se livrar dele tão facilmente - não importa que apenas meia hora atrás Katsuki estava deprimido sozinho pensando que Izuku havia se cansado deles. Este é um novo homem alimentado pelo poder de uma boa viagem com o motoqueiro lindo dele tão cedo pela manhã.

Izuku chega bem na hora no dia seguinte para a carona, como combinado. Dessa vez, antes de subir na moto, ele tira o capacete de Izuku e o dá um beijo daqueles de cinema – só para que ele saiba que sentiu muita falta sua falta e que Katsuki ainda está louco por ele.

Izuku o recebe de braços abertos e ainda mais ansioso do que Katsuki esperava.

Torna-se então uma tradição. Izuku chega, Katsuki pega seu capacete e o cumprimenta do seu jeito preferido. Então ele leva Katsuki para a aula e vai embora. Ocupado até dizer chega, ele quase não responde nenhuma mensagem durante o dia, chegando em casa tarde da noite e desmaiando imediatamente.

Ele nunca perde um passeio matinal e eles são o momento favorito de Katsuki em todo o seu dia, que se dane sua educação.

Nos finais de semana, ele vai até a casa de Izuku, Inko faz um bolo para eles e eles cuidam de suas próprias coisas lado a lado. Izuku não diz exatamente quais são as coisas dele, que tipo de trabalho ele tem e por que ele tem que estudar tanto.

Quando questionado, Izuku apenas responde que está trabalhando para melhorar para sua mãe e Katsuki, e isso é tudo. Katsuki não pressiona, ele sabe que Izuku lhe contará tudo quando chegar a hora certa.

Ele também tem muito o que fazer e isso já mantém sua mente tão ocupada quanto ele consegue sem enlouquecer.

Além disso, ele acredita em Izuku. Mais do que tudo, ele sente seu amor em cada toque, em cada pequena coisa que Izuku faz por eles. Ele pode se comportar um pouco misterioso por enquanto, mas disse que iria consertar as coisas, então Katsuki o deixará fazer isso e o apoiará como puder.

As férias de fim de ano vêm e vão e Katsuki gostaria de poder passar mais tempo juntos; ainda assim, Izuku garante que eles tenham um lindo encontro sozinhos na noite de Natal – é mais do que ele poderia ter sonhado.

Lentamente, mas com segurança, a rotina deles se torna um hábito e Katsuki passa a maior parte de seu tempo livre na casa dos Midoriya, amando cada segundo da atenção e cuidado maternal de Inko e de sua comida. Ele percebe que um dia ela finalmente – mas de repente — para de trabalhar e gosta ainda mais de sua presença.

Um ano depois, Izuku e Inko mudam-se para uma pequena casa em um bairro mais agradável. Izuku se sente tão realizado e todos estão tão felizes que Katsuki não tem coragem de perguntar como diabos ele conseguiu fazer isso.

Ele os ajuda a decorar, é claro, e leva Inko às compras sempre que consegue tirá-la de casa.

O mínimo que ele pode fazer é mimar os dois o máximo que puder – seus pais não estão controlando com o que ou quanto ele gasta de dinheiro e prometeram que ele não lhes deve nada. Eles só o querem seguro e feliz.

Katsuki não sabe de onde veio tudo isso, mas não vai reclamar. Ele estará livre deles em breve. Mesmo que seu coração ainda doa a cada olhar triste que recebe de seu pai.

Ele vê Mitsuki observando-os pela janela todos os dias pela manhã e seu pai ainda espera por ele na porta depois das aulas, isso toca seu coração e o deixa emocionado a cada pequena interação.

Ele se apega firmemente às suas decisões, imaginando se um dia será capaz de perdoar e esquecer.

No dia que marca dois anos após o fatídico primeiro encontro, Izuku aparece no meio das aulas da tarde para buscá-lo, ele segura um buquê de flores e o sorriso mais lindo que Katsuki já viu.

Ele não pensa duas vezes antes de se montar na moto do namorado. Ele parece tão fofo e está até vestindo uma camisa bem passada, algo que Katsuki nunca tinha visto antes.

Assim que ele se acomoda, Izuku os leva para uma pequena cerimônia realizada em um antigo teatro comunitário. Há algumas pessoas usando becas e capelos, muitas fotos sendo tiradas e uma Inko chorando esperando por elas.

"O que diabos está acontecendo, nerd?"

Izuku o ajuda a descer da moto e timidamente segura uma de suas mãos.

"Hm? É minha formatura Kacchan!"

Inko o cumprimenta com um abraço rápido antes de mandar Izuku pegar suas próprias vestes para que eles tenham tempo de tirar fotos juntos antes do início da cerimônia. Katsuki fica atordoado com mil e uma perguntas.

Infelizmente, Izuku não volta à tempo, então ele e Inko sentam-se juntos na plateia enquanto, uma por uma, as pessoas são chamadas para receber seus diplomas. Não é preciso muito para Katsuki entender que esta é a cerimônia de graduação do ensino superior de Izuku.

Uma pesquisa rápida depois e Katsuki sabe que é algum tipo de curso de meio período, algo como um tecnólogo mais rápido que seu próprio diploma, mas tão eficiente para assuntos relacionados a negócios nos quais Izuku parece estar interessado. Katsuki se sente privado de informações e com um pouco de ciúme... E talvez um pouco com raiva mesmo.

Por que ele está descobrindo isso só agora? E por que Izuku sentiu que precisava esconder isso dele?

Mesmo com seus sentimentos dominados, Katsuki ainda chora de orgulho quando o nome de Izuku é chamado no palco. Ele e Inko se levantam para aplaudir e rir de seu namorado lindo e atrapalhado tropeçando nas escadas e ainda sorrindo tão abertamente.

Depois que todos os discursos terminam, Izuku pode se juntar a eles rapidamente para algumas fotos antes de devolver suas vestes. Katsuki aproveita esse tempo extra para acalmar seu coração e tira quantas fotos Inko exige deles.

— Eu sei que você pode ter algumas perguntas, Kacchan, e eu responderei todas elas se você me deixar pedir desculpas pela surpresa ao levá-lo para jantar primeiro?

— Seu espertinho ridículo! Sim, claro, vamos.

Eles se despedem de Inko, que pega carona com uma amiga e Izuku os leva para uma cantina do bairro que ambos gostam.

— Você tem até os aperitivos para me fazer mudar de ideia.

— Eu... Ai Deus, Kacchan, não me pressione, eu nem sei por onde começar.

Katsuki apenas levanta uma sobrancelha para ele, olhando desinteressado para o relógio. Ele está, claro, muito interessado, incrivelmente orgulhoso, bravo, com ciúmes de todas as pessoas que conheceram Izuku durante esse tempo e triste por ter perdido uma parte tão importante da vida de seu namorado.

— Há pouco menos de dois anos, logo depois que recebi alta da minha, hm, situação difícil, seu pai me ligou. — Izuku levanta as duas mãos para que Katsuki não o interrompa e mesmo resmungando, ele não o faz. — Ele expressou que ele e sua mãe cometeram alguns erros que queriam corrigir. E eles não queriam de forma alguma que você pensasse que eles estavam fazendo isso para apaziguar você ou reconquistar seu afeto.

Izuku para um momento para beber um pouco de água e segura a mão de Katsuki sobre a mesa. Katsuki está mais uma vez chorando e não sabe como reagir.

— Ele me ofereceu para pagar meus estudos e um emprego. Escolhi esse curso porque era mais rápido e me dava um diploma válido – era tudo que eu precisava para poder crescer na empresa de seus pais ou onde quer que eu fosse. No começo, seu pai só me pedia para fazer essas tarefas sem sentido, como levar algo do escritório para um cliente, recuperar documentos e até fazer café.

Katsuki ri e vê como isso trouxe de volta algum brilho aos olhos de Izuku.

— Seu café é uma merda.

— Sim, eles descobriram isso rapidamente. Então eles começaram a me pedir para fazer anotações durante as reuniões e sua mãe começou a confiar em meus insights. Não tenho certeza de como isso soa para você, Kacchan, mas eu estava me sentindo tão realizado, tão valorizado.

Katsuki aperta sua mão, ainda emocionado demais para conseguir formular uma resposta, mas querendo demonstrar seu apoio.

— E, na semana passada, quando meu contrato temporário terminaria, seu pai me ofereceu um cargo permanente. Sou oficialmente analista da Bakugou's Inc. a partir do mês que vem.

Quando Izuku termina a frase, o garçom chega com suas bebidas e aperitivos. Katsuki quer rir de como isso é irônico.

— Por que você não me contou nada? Você realmente achou que eu ficaria bravo?

— Foi a única coisa que seu pai pediu, e eu queria provar meu valor de alguma forma. Eu queria sustentar você e mamãe sozinho, criar um espaço para mim que fosse suficiente para ficar ao seu lado com meus meios... Isso é um motivo tão ruim? Eu nunca quis mentir para você, só queria que você se orgulhasse do que posso fazer agora.

— Idiota.

Katsuki não diz nada por alguns minutos, mantendo-se ocupado comendo e colocando seus pensamentos em ordem. Como ele pode amar um homem tão estúpido como Izuku?

— Por favor, diga algo, Kacchan.

— Eu... Estou orgulhoso de você, mas, novamente, sempre estive. Sempre admirei o quanto você trabalha duro e como, mesmo depois de tudo, você ainda tinha esse desejo de fazer o bem e tornar a vida de todos mais fácil.

Izuku dá a ele um pouco mais de tempo para refletir sobre tudo enquanto comem, nunca largando sua mão, mesmo que isso significasse comer com a mão ruim e sujar sua camisa. Um homem tão, tão bobo.

— Isso não significa que estou pronto para perdoar meus pais. Sou grato pelo que eles te deram, mas... Mas o que eles tiraram ainda é demais.

— Tudo bem Kacchan. Eu já os perdoei, mas sei o quanto foi difícil para você. Eu nunca pediria isso para mudar algo que você sente. Eles têm um jeito estranho de demonstrar isso e acredito que ainda estão reaprendendo, mas eles te amam tanto quanto eu e só quero o que é melhor para você.

Katsuki concorda, pensativo.

— Foi assim que você conseguiu se mudar?

— Sim! Mas eu também estava muito determinado a não dormir no sofá com você nunca mais. Você não pode negar que dois quartos é uma situação muito melhor do que antes.

Katsuki abaixa a cabeça para tentar esconder o rubor que toma conta de seu rosto. Ele não pode discordar, mas Izuku não precisava trazer isso à tona na mesa de jantar.

— Também estou economizando para comprar uma moto nova. A do meu pai já serviu ao seu propósito e posso finalmente colocá-la para reciclar onde deveria ter ido anos atrás.

— Vou comprar capacetes novos para nós então — Katsuki não deixa espaço para discussão, mal pode esperar para trocar o infantil azul bebê que sempre usa.

Izuku ri dele e acena com a cabeça.

— E... Eu sei que nunca discutimos isso antes, mas imaginei que um dia você gostaria de sair da casa dos seus pais, mas por seus próprios meios, certo? Então, tomei a liberdade de criar um pequeno fundo para isso também... Se você quiser, é claro.

Izuku não está olhando para ele enquanto diz isso – o que é cativante, mas Katsuki fica grato porque seu rosto é a definição de chocado. Emocionado, sim, mas envergonhado. Ele definitivamente não estava pronto para saber que Izuku já estava pensando tão à frente deles.

E pensando num futuro, um futuro real, um futuro estável e caseiro para ambos.

— Por enquanto, é claro, vou continuar sequestrando você de vez em quando – talvez não mais à meia-noite – até que possamos descobrir esse futuro juntos. Você se apaixonou por aquele motociclista violador de regras e eu pretendo manter você está apaixonado por mim enquanto eu puder.

Izuku ri abertamente do rosto de Katsuki, vermelho até a ponta das orelhas, olhos esbugalhados. Ah, Katsuki é um homem fraco, fraco e seu namorado ainda é um idiota e ele o ama perdidamente.

Notes:

Essa foi a versão em português da minha fic para a Zine Deku&Kazinho - Volume 1; uma zine musical brasileira que eu tive a honra de ser mod além de participar!

Foi a primeira vez que eu escrevi em português e, apesar de ter sido basicamente uma tradução da versão em inglês, foi extremamente desafiador de encontrar as palavras corretas para expressar exatamente o que eu queria para o Deku e o Kazinho! Então eu espero que vocês gostem tanto quanto eu amei escrever essa história.

Vocês podem me encontrar no Xwitter e no Blue Sky também!