Work Text:
Lucio passou a língua pelos lábios sorrindo satisfeito ao ajeitar o ângulo da câmera, seu amado cachorrinho Joto pulou em seus braços se ajustando confortavelmente em seu colo, o homem sorriu para a câmera avaliando sua imagem no reflexo e ajeitando sua marca registrada como criador de conteúdo: grandes óculos redondos com lentes cor-de-rosa vibrante.
– Opa rapaziada, eae como é que ‘cês tão – Ele levantou um polegar alegremente – Tudo de boa? Recentemente a gente chegou em um marco aqui do canal, vocês tão sabendo? Pois é galera a gente chegou aos cinquenta mil inscritos, e eu não queria deixar isso passar em branco então eu tô aqui com o Jotinho – Ergueu o cachorro para enquadrá-lo melhor no vídeo, era um filhote compridinho e branquinho. Lucio gostava de chamá-lo de Lulu da Pomersicha sempre que lhe perguntavam a raça. Joto latiu feliz pulando do colo do dono e se acomodando no sofá acima de Lucio, que estava sentado no tapete do chão.
– E o que a gente vai fazer família, eu queria fazer um bagulho diferente, então eu tô aqui com o número de uma pizzaria aqui da minha cidade – Ele sacudiu um cartão de visita, era um daqueles bem vagabundos provavelmente feito no Canva, mal recortado e plastificado em um plástico meio sujinho. Pela lente do outro lado da câmera era possível visualizar apenas a imagem borrada de um png de pizza que ilustrava o cartão e letras borradas que deveriam ser o nome, telefone e endereço do lugar.
– Essa pizzaria, ela tá meio falida gente – E então Lucio baixou a voz como se contasse um grande segredo que ninguém mais podia ouvir, apesar de só ele e Joto estarem na casa – Ela nunca foi muito popular, fica em um lugar meio bosta, sabe? Afasta o público, mas o pessoal que roda aqui em São Paulo diz que a uns anos atrás os donos de lá tinham contato com um cara que tinha dinheiro…é, um cara meio conhecido aí, e ele financiava a pizzaria – Ele levantou as sobrancelhas e ergueu os braços de forma exagerada, como se tivesse sido pego dizendo algo proibido – Mas depois que o mano morreu eles deram uma recaída.
Lucio tossiu com força para limpar a garganta, decidindo mudar o assunto.
– Mas enfim, é o que dizem né, eu não sei de nada. Mas agora eu vou explicar o que a gente vai fazer, a gente vai passar um trote pra essa pizzaria…o que...– Ele passou a mão pelo rosto e coçou o bigode, desviou o olhar para longe da câmera como se só agora estivesse considerando algo importante que não havia lhe passado pela cabeça – O que talvez seja meio errado já que eles já não estão indo muito bem e eu não sei se isso configura crime…
Futuramente, quando esse vídeo for editado e postado, haverá um corte nessa parte do vídeo em que Lucio simplesmente desaparecerá do enquadramento da câmera e apenas sua voz poderá ser ouvida com um pouco de eco. Agora, porém, o youtuber apenas parece desajeitado se levantando as pressas e correndo para fora de seu local de gravação.
– Alexa! – Gritou já fora do campo de visão da filmagem – Passar trote é crime?
A voz robótica respondeu:
“Não consegui encontrar a música 'É crime', aqui está outro resultado exibido para músicas do gênero trot"
Se você estiver vendo esse vídeo pelo youtube em alguns dias, um corte na edição mostrará Lucio sentado de volta no tapete, porém no momento ele grita para Alexa parar e corre tropeçando nos próprios pés para voltar ao lugar, tendo que se segurar no sofá para não cair de cara no piso.
– Então tá pessoal, acho que não é crime não. Vamos lá? Vamos lá? Eu tô animado, nunca passei um trote antes. – Ele esfrega as mãos juntas e sorri se aproximando mais da câmera com o celular na mão e liga para a pizzaria no modo viva voz.
O som de “pi, pi, pi” tocou por um tempinho antes da ligação ser atendida, a linha ficou em silêncio por alguns segundos, Lucio abriu a boca para falar algo mas o barulho alto de algo quebrando o interrompeu. O youtuber fez uma careta cômica antes de voltar o olhar para a tela.
– Eh…alô? Tá tudo bem aí?
Finalmente uma voz masculina respondeu – O-oi, alô. Tá tudo bem sim – E então o homem parou de falar, deixando um silêncio muito constrangedor pairando sob o ar. Demorou um minuto inteiro até que o atendente pareceu lembrar o que deveria dizer e disfarçou uma tosse – Café’s Pizzaria falando, no que posso ajudar?
– Então meu mano, primeiro eu queria um café preto. E depois-
– A gente não tem cafe.
Lucio piscou.
– Não tem café? Mas…
– É, eu sei. O nome é Café’s Pizzaria. Mas não tem café não amigo, me desculpa, tu sabe que eu também não sei porquê? Nunca nem me falaram, toda manhã chega gente aqui que pede café e eu tenho que falar que a gente não vende café. Eu já até falei pra minha chefe que a gente deveria comprar assim…umas três cafeteiras e começar a vender café mesmo porque ia lucrar bem mais do que a gente lucra vendendo pizza mas- Ah perdão, perdão – O homem do outro lado tossiu de novo, parecendo envergonhado – Eu tô falando demais, você quer mais alguma coisa?
Lucio franziu as sobrancelhas trocando um olhar estranho com Joto que coçava a orelha completamente alienado e fez mais caras e bocas para a câmera. Os atendentes de pizzarias deveriam ser tão tagarelas assim ou era algo exclusivo desse lugar? Será que é uma nova estratégia de marketing bater papo com os clientes?
– Sim, eu vou querer… – Lucio parou, pensando na combinação mais absurda de pizza que conseguia imaginar no momento – Eu vou querer uma pizza meia de rúcula meia só a massa mesmo, não tem problema não né? Eu também quero borda de nutella nas duas metades da pizza e se o senhor puder colocar milho e M&M em cima da metade de rúcula pra mim como adicionais vai ser show.
O barulho fraco de lápis contra o papel podia ser escutado pelo celular. O homem tornou a falar logo em seguida.
– Muito bem, olha não é querendo julgar nem nada mas o senhor tem uns gostos bem estranhos. Mas tá anotado meu patrão, agora eu preciso do seu endereço. Vai pagar no cartão ou no dinheiro? Vai ficar 76,80 sem contar o frete.
Que desgraça de pizza cara! Lucio tamborilou os dedos no chão confuso, nunca os filmes que assistiu chegavam nessa parte. Sempre os atendentes percebiam o trote e desligavam, brigando com os – quase sempre – adolescentes por trás da pegadinha.
Ele não podia pensar muito, não queria deixar o cara esperando. Ele era até bem simpático! Então pensando que “só se vive uma vez” passou as informações necessárias e fez a compra da pizza que muito provavelmente não era comestível.
– Pessoal, o tiro saiu pela culatra. Repito: O tiro saiu pela culatra, o que eu vou fazer com essa nojeira de pizza?
Deu 40 minutos de espera até a pizza chegar, nesse meio tempo Lucio havia desligado a gravação e ligado a TV, era sexta a noite e passava o capítulo final de uma novela que ele nunca havia visto antes na Globo. Joto estava cochilando e acordou num pulo latindo alto quando a campainha tocou. Lucio se levantou correndo para desligar a televisão. Ele se dirigiu em direção a porta com as roupas completamente amassadas.
A porta ficava fora do campo de visão da câmera, mas era perto o suficiente para que a conversa fosse perfeitamente capturada em alto e bom som se estivesse sendo gravada. Mas Lucio respeitava a privacidade alheia, ele já havia dado trabalho até demais para a equipe do restaurante, de qualquer forma.
Lucio respira fundo e abre a porta, o homem esperando por ele do lado de fora era jovem, deveria ter a mesma idade que ele e era tão discreto quanto um elefante vestindo tutu de ballet. Ele tinha olhos cor de caramelo e cabelo repartido ao meio, metade castanho e a outra metade tingida de preto. Mas isso não era nem de longe o mais chamativo nele. Não.
O entregador não havia vindo de moto como era o comum. Tão pouco de carro. Sob os pés dele havia um espalhafatoso roverboard azul com luzinhas coloridas que iluminavam toda a calçada.
– Oi.
– Oi.
Caramba, ele é bonitinho.
O entregador bonitinho lhe entregou a sacola de mercado que trouxe pendurada no ombro, o caixote quadrado dentro dela deveria ser a aberração em forma de pizza que o Olani pedira.
– Foi um pedido meio estranho que você fez aí parceiro. Mas cada um com seus gostos eu acho, a gente não tá tendo muito pedido esses dias então não posso nem reclamar, eu fiz com todo o amor e carinho, viu? Aproveita.
– Ah foi você que me atendeu? – Lucio perguntou estranhando – E fez a pizza também? É normal isso? Sempre achei que fossem pessoas diferentes, cada um na sua função e tals…
O bonitinho Gaguejou, desequilibrando e quase caindo do roverboard, mas Lucio o empurrou de volta antes que ele caísse e o derrubasse, não deu muito certo. Ao invés de caírem os dois juntos para dentro da casa, o bonitinho caiu do lado oposto em direção a rua.
– Ah caralho, me desculpa – Lucio largou a pizza no chão e agarrou o pulso do menino o puxando para cima – Porra, eu tava tentando ajudar. Puta que pariu que primeira impressão horrível.
Pra sua sorte o bonitinho não pareceu ofendido, ele se levantou rindo se segurando no batente da porta.
– Fica tranquilo brother, tá tudo de boa.
Enfia o brother no cu diabo, eu quero é te pegar Lucio pensou, mas não disse.
– Sobre a sua pergunta, normalmente é assim mesmo. Mas a gente tá com pouca gente disponível lá no Café’s, então esse mês todo mundo tá fazendo de tudo um pouco pra cobrir as funções em que tão faltando funcionários – Ele bateu nas calças tentando varrer a sujeira – Mas é até bom, eu ganho uma graninha extra. Mas mudando de assunto, cara, seu rosto é tão familiar, a gente já não se conheceu antes?
O rosto de Lucio ficou vermelho, ele definitivamente se lembraria se tivesesse conhecido o entregador bonitinho antes, o que só pode significar que ele o reconhera de vídeos no youtube ou de suas publis no instagram. Ninguém nunca o havia reconhecido fora de eventos antes, isso era novo.
– AH, LEMBREI! – Gritou o menino com um sorriso enorme apontando o dedo indicador para o rosto de Lucio – Você é aquele gostosão do vídeo do tiktok!
O que?
Lucio tentou revisar todas as suas postagens nas últimas semanas, ele quase nunca postava tiktoks. Mas ele se lembra bem de ter gravado um vídeo com seu amigo Breno um tempo atrás, um desafio simples e quem perdesse deveria fazer o que o outro quisesse. Lucio perdeu e Breno o desafiou a postar um vídeo de uma trend de dancinha de funk no tiktok. Por acaso, o vídeo acabou saindo muito da bolha e viralizou.
E por causa desse viral vergonhoso ao som de MC Lan o multifuncional entregador, atendente e pizzaiolo bonitinho estava na porta da casa dele o chamando de gostosão.
Pelo menos a humilhação valeu alguma coisa.
– Sou...sou eu sim – Uma gota grossa de suor escorreu de sua testa – Meu nome é Lucio! – Ele estendeu a mão.
– Pô, prazer Lucio, você é uma delícia tá de parabéns! Eu sou o Mike – Mike apertou sua mão com força e sacudiu com tanto entusiasmo que o braço de Lucio quase saiu voando – espero que você ache a pizza tão deliciosa quanto você.
– Então Mike, escuta aqui – Lucio se escorou na porta dando seu melhor sorriso de cafajeste (que não era grande coisa) – Você já falou que não tá tendo muitos pedidos lá na pizzaria…o que tu acha de entrar aqui e comer essa pizza comigo?
No resto da noite, Mike e Lucio devoraram a metade da pizza de massa e nutella e trocaram números de telefone pessoais, mais tarde quando Mike já estava em casa Lucio retirou cuidadosamente os M&Ms da metade de rúcula e milho e a deu de comer para Joto.
Dois meses depois, um novo vídeo no canal “Lucio 0lani Vlogs” ocupava o quinto lugar do Em Alta no youtube. Com o título “QUEM É MAIS PROVÁVEL? Tag de casal com meu namorado comemorando um mês de namoro”
E se mais tarde nesse mesmo dia Mike fez uma pizza nojenta exatamente igual a que entregou para Lucio no dia em que se conheceram como presente de mesversário porque nunca ficou sabendo do trote e realmente acreditava que seu namorado tinha apenas um gosto exêntrico para sabores de pizza…bem, Lucio comeu tudo sem reclamar.
