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O salão era uma jaula.
Ricardo sentia isso em cada fibra do seu corpo. O chão de mármore branco reluzia sob os lustres, refletindo a luz suave das velas nos candelabros altos. As paredes douradas eram decoradas com espelhos, duplicando o espaço e tornando o ambiente ainda mais sufocante.
Ele ajustou o colarinho da camisa branca que usava, a gravata preta amarrada um pouco solta, como um reflexo de sua inquietação. O tecido do paletó pinicava, como se soubesse que não pertencia a ele.
Ele estava deslocado, sempre esteve. Lobos não eram feitos para se exibir em salões de baile, cercados por gerações de vampiros e outros seres sobrenaturais que dançavam como se a música fosse a única coisa no mundo.
Lobos não se encaixavam ali. Ricardo também sabia que, no fundo, não queria estar ali, cercado de seres que disfarçavam suas intenções com sorrisos ensaiados e conversas vazias.
Ele torceu o nariz. O cheiro de perfume característico dos vampiros e vinho era sufocante.
Mas não tanto quanto a presença de Leandro.
Ricardo sentia os olhos dele antes mesmo de vê-lo.
Leandro estava do outro lado do salão, como um eclipse que apagava todo o resto. Seu terno preto impecável tinha detalhes tão sutis que pareciam brilhar sob a luz dos candelabros, e a camisa escura aberta no colarinho revelava um toque de ousadia. Seu cabelo preto estava com algumas mechas caindo suavemente sobre a testa, tão escuros quanto uma poça de petróleo, dando um belo contraste com sua pele pálida e sem vida.
No entanto, eram seus olhos que prendiam Ricardo.
Eram vermelhos, brilhando como rubi derretido, tão intensos que pareciam penetrar até os pensamentos mais profundos de quem cruzasse seu caminho.
Ele não deveria parecer tão à vontade. Ricardo sentia que seus próprios movimentos eram forçados, mas Leandro se movia como se aquele salão fosse uma extensão dele. Seu sorriso era casual, mas afiado, e cada passo parecia parte de uma coreografia que apenas ele conhecia. Seus lábios sussurrando palavras que o lobo sabia que eram doces o suficientes para convencer qualquer ser a obedecê-lo no mínimo comando.
Ricardo sabia que não deveria encará-lo, mas não conseguiu evitar. E foi aí que os olhos de Leandro se ergueram, encontrando os seus.
Um pequeno sorriso surgiu em seus lábios e o lobo dentro de Ricardo rosnou baixinho, instintivamente, mas ele sufocou o som antes que escapasse. Ele odiava como vampiro parecia sempre estar um passo à frente, como se cada encontro fosse um jogo no qual só ele conhecia as regras.
Leandro moveu-se então, atravessando o salão com passos lentos, mas decididos, caminhando com uma graça que parecia mais uma provocação do que um simples movimento.
Ricardo percebeu que ele era o tipo de pessoa que atraía olhares sem esforço. Alguns lobos olhavam com admiração, os vampiros com respeito, e os outros sobrenaturais com uma mistura de cautela e curiosidade.
"Você parece desconfortável.” ele disse, sua voz baixa o suficiente para que apenas Ricardo ouvisse, mas clara como o toque de um sino.
Ricardo bufou, os ombros tensos. “Eu fico desconfortável onde não deveria estar.”
“Ah, mas você deveria estar aqui,” Leandro respondeu, um sorriso perigoso curvando seus lábios. “Talvez você só precise... aproveitar mais.”
Antes que Ricardo pudesse responder, Leandro estendeu a mão, como um convite que era impossível recusar.
"Quer dançar?"
Ricardo ficou imóvel, encarando a mão pálida e perfeitamente alinhada à frente dele.
“Isso é algum tipo de piada?” ele perguntou, a voz mais rouca do que pretendia.
“Eu pareço estar brincando?” Leandro retrucou, a sobrancelha arqueada.
Sim, você parece, Ricardo quis dizer, mas as palavras ficaram presas na garganta. Ele sabia que isso era provocação, um jogo de poder típico dos vampiros. Mas, ao mesmo tempo, havia algo no jeito que Leandro o olhava que parecia mais sincero, mais desafiador.
A mão de Leandro ainda estava lá, uma barreira invisível entre eles e o resto do salão. Ricardo sabia que, se a aceitasse, seria um pouco mais do que uma dança. Seria quase uma batalha.
“Certo,” ele disse finalmente, a mandíbula tensa. “Mas não reclame se eu pisar no seu pé.”
Leandro riu, um som baixo e suave. Havia um brilho curioso em seus olhos. “Duvido que você seja tão desajeitado.”
Ricardo aceitou a mão à sua frente, o calor da pele do lobisomem contrastando com a frieza quase sobrenatural do vampiro. Era como fogo e gelo, o toque dos dois se encontrando em um meio-termo desconfortável, fazendo sua pele formigar com o mínimo contato e Ricardo quase puxou a mão de volta, mas o aperto de Leandro o segurou.
A música mudou para uma valsa lenta, quase hipnotizante, e Ricardo percebeu que estavam cercados por outras pessoas. Seus instintos gritavam para sair dali, mas algo no olhar de Leandro o prendia no lugar.
Os primeiros acordes do piano soaram como um chamado, e o vampiro o guiou para o centro do salão.
“Relaxe,” Leandro sussurrou, guiando a mão de Ricardo para o seu ombro enquanto segurava a outra com firmeza. “É só seguir o ritmo.”
Ricardo bufou, mas tentou ignorar o calor subindo por seu pescoço. Ele deixou que Leandro o guiasse, a mão fria dele repousando contra a cintura de Ricardo enquanto outra segurava a sua com uma pressão firme.
Ricardo odiava como mesmo com a diferença de altura Leandro parecia tão confiante, como se ele fosse o único no controle. O lobo dentro dele se remexeu inquieto, mas ele apenas suspirou, cedendo aos encantos do outro homem.
Os passos eram simples no início. Um, dois, três. Um, dois, três. Mas a proximidade era tudo menos simples.
Ricardo podia sentir o cheiro de Leandro agora, um aroma escuro, sedutor, metálico e doce, que parecia envolver sua mente como uma névoa. Era inconfundivelmente vampírico. Era irritante, mas também... intoxicante.
E então havia o som da sua própria respiração batendo levemente no rosto gélido, o leve movimento do peito subindo e descendo, os leves movimentos dos cílios escuros enquanto olhos carmesim estudavam cada movimento seu.
Era uma proximidade que Ricardo não queria, mas que também não conseguia afastar.
“Você está tenso,” Leandro comentou, os olhos fixos nos de Ricardo.
“Talvez porque eu não confio em você,” Ricardo retrucou, mantendo o tom baixo.
Leandro sorriu de novo, aquele sorriso que parecia mais uma lâmina do que um gesto de gentileza. “A confiança é uma coisa frágil, não é? Você deveria experimentar baixar a guarda de vez em quando.”
“Com você? Nem pensar.”
Leandro apenas inclinou a cabeça, como se estivesse estudando Ricardo, decifrando-o. A música parecia diminuir, como se o tempo estivesse desacelerando para os dois.
“Achei que já tínhamos passado dessa parte.” Suas sobrancelhas franziram visivelmente, as mãos frias traçando um caminho de seu ombro até a parte interna de seu pescoço, onde podia sentir o sangue em suas veias bombeando.
Ricardo congelou brevemente, os músculos tensionando enquanto mordia o interior da bochecha, usando o gosto metálico do sangue como uma distração da sensação gélida em seu pulso.
O lobo não respondeu mais e Leandro apenas sorriu.
O salão ao redor deles parecia desaparecer.
Ricardo percebeu como os dedos do vampiro pareciam ficar mais frios contra os seus, mas o toque ainda firme. Ele não sabia se era o calor do próprio corpo ou o fogo no olhar de Leandro que estava deixando-o mais nervoso.
“Por que você me chamou pra dançar?” Ricardo perguntou finalmente, a voz mais baixa, quase um grunhido.
“Talvez porque eu gosto de ver você desconfortável,” Leandro respondeu, mas havia algo mais em sua voz, algo que Ricardo não conseguia identificar.
“Você gosta de provocar,” Ricardo retrucou, mas sua voz falhou ligeiramente quando Leandro deu um passo mais próximo.
“E você de resistir,” Leandro respondeu.
A tensão entre eles era palpável agora, como um fio esticado prestes a arrebentar. Ricardo podia sentir cada detalhe — a proximidade de Leandro, o som da respiração dele, o brilho predatório em seus olhos. Ele sabia que deveria recuar, que isso estava ultrapassando uma linha invisível, mas algo o impedia.
Leandro inclinou a cabeça, observando-o com um olhar penetrante. “Você é um mistério, lobo. Um dia rude, no outro... tão obediente.”
Ricardo sentiu o sangue subir à cabeça, mas antes que pudesse responder, Leandro girou suavemente, fazendo com que os dois deslizassem pela pista. Ricardo tropeçou levemente, mas Leandro o segurou firme, com um sorriso satisfeito.
“Viu? Não é tão ruim.” ele disse, os olhos brilhando.
“Por favor, não me gire assim novamente.” Ricardo cerrou os dentes. “Se você me girar de novo, eu juro que…”
“Você jura o quê?” Leandro interrompeu, com um sorriso que era pura provocação.
Ricardo não respondeu, mas o olhar feroz que lançou a Leandro disse tudo.
Os passos continuaram lentos e cuidadosos, os giros calculados e em total sintonia com a música, parecia quase natural.
Mas Ricardo percebeu os pequenos deslizes que começarem a aparecer, o aperto firme que antes se mostrava presente em sua mão ficou tão frouxo que era quase imperceptível, os olhos carmesim que antes lhe estudavam como uma presa se desviaram para o chão e os dedos que estavam no pulso de sua garganta apenas apertaram, se mostrando ainda mais presente.
O lobo franziu a testa.
A música chegou ao fim, mas nenhum dos dois se moveu.
“Você dança melhor do que eu esperava.” Leandro disse, sua voz baixa e quase satisfeita.
Ricardo abriu a boca para responder, mas não conseguiu encontrar as palavras. Seu coração batia rápido demais, e o salão parecia novamente sufocante.
“Eu vou lembrar disso.” Ricardo disse finalmente, sua voz mais firme do que ele esperava.
“Espero que sim.” Leandro respondeu, e, com isso, se afastou abruptamente, seu pomo de adão balançando visivelmente e atraindo a atenção de Ricardo para o pequeno suspiro que escapou seus lábios.
O vampiro levantou a cabeça, seus olhos afiados como uma faca encaravam o salão ao seu redor como se precisasse de um local de fuga urgentemente.
E bem, foi isso que ele fez. Leandro fugiu.
Não fugiu, mas sim correu o mais rápido possivel na direção oposta de Ricardo, suas vestimentas escuras se misturando na multidão que preenchia cada canto do local.
Demorou cerca de um minuto para o lobo se recuperar do leve choque e começar a se mover.
Ricardo se apressou em seus passos, esbarrando rudemente nas pessoas ao seu redor e recebendo olhares que fariam ele se remexer desconfortavelmente se não estivesse tão preocupado com outra coisa.
Seus olhos não deixaram os de cabelo preto nem por um segundo, seus instintos de caça estavam nesse momento mais aguçados do que a situação realmente exigia.
O brilho do salão e o som abafado da música ficavam para trás enquanto ele cruzava as portas em direção ao ar fresco da noite.
“Leandro!” ele chamou, a voz ecoando pelo jardim vazio.
Nenhuma resposta. Apenas o som de seus próprios passos ecoando nos pisos de pedra e de sua respiração ofegante pela breve perseguição. Ele sabia que Leandro estava ali. Podia senti-lo, aquele aroma peculiar de madeira e algo doce que parecia pairar no ar, fraco, mas presente o suficiente para guiá-lo, para grudar em sua garganta e deixar uma memória amarga.
Ricardo desceu uma escadaria, os músculos tensos enquanto seus sentidos aguçados se expandiram, buscando qualquer indício. Quando finalmente o encontrou, Leandro estava de costas para ele, as mãos agarradas ao parapeito do jardim, os nós dos dedos brancos sobre a madeira polida. A luz prateada da lua iluminava os contornos rígidos de seus ombros, e Ricardo notou como o corpo dele parecia mais tenso do que nunca, como se estivesse prestes a quebrar.
“Leandro.” Ricardo chamou novamente, mais perto agora, sua voz carregando um tom que misturava confusão e algo próximo de preocupação.
Leandro se virou lentamente, mas nenhuma palavra saiu de sua boca. Seu rosto pálido e os olhos mais escuros do que Ricardo lembrava.
“Que merda foi essa?” Ricardo respondeu, aproximando-se, embora Leandro desse um passo para trás. “Você simplesmente me deixou lá, no meio do salão. Sem explicação, sem nada.”
Ainda sem resposta.
“Ei,” O lobo segurou o ombro do vampiro rudemente, forçando-o a virar seu corpo por completo. “Eu to falando com você.”
Leandro fez uma careta, como se aquele mínimo contato fosse a ação mais desrespeitosa que já lhe direcionaram.
“Solta” Seu rosto se virou em direção a mão de Ricardo, seus lábios se contraindo levemente em uma carranca.
“Qual é o seu problema?” Ricardo retrucou, uma onda de irritação se enrolando em seu estômago e fluindo do seu corpo até as pontas de seus dedos.
Leandro balançou a cabeça, os olhos fechados por um momento, como se estivesse tentando se recompor. Quando abriu, a expressão era quase de cansaço.
“Não é da sua conta, porra” O vampiro respondeu, virando-se novamente, como se tentasse encerrar a conversa.
Mas Ricardo não estava disposto a deixá-lo ir. Não de novo. Não dessa vez.
Ele alcançou o braço de Leandro, segurando-o com firmeza. “Leandro…” ele começou, tentando fazer sua voz soar mais gentil ao invés de irritada.
Leandro se desvencilhou com um movimento brusco, os olhos brilhando ainda mais intensamente agora. “Eu disse pra me deixar em paz!” ele gritou, a voz ecoando pelo jardim vazio.
Ricardo sentiu uma dor aguda em seu antebraço, seus olhos se arregalaram levemente, abaixando seu olhar dos olhos escuros para o pequeno feixe de sangue que agora escorria pela sua pele bronzeada, manchando sua camisa ao decorrer.
Um pequeno brilho metálico chamou sua atenção.
Leandro havia lhe cortado com uma adaga.
Que merda foi essa?
O vampiro sibilou como se ele tivesse sido o único a ser machucado, sua mão instintivamente subindo para tampar sua boca e nariz.
Antes que pudesse pensar, Leandro avançou novamente, empurrando o lobo com força suficiente para que ele recuasse um passo, perdendo o equilíbrio.
A borda afiada da cerca de ferro no jardim cravou-se contra as costelas de Ricardo, arrancando um grunhido baixo enquanto ele cambaleava para trás. A surpresa do golpe o deixou vulnerável por um segundo precioso, tempo suficiente para o vampiro avançar mais uma vez. Ele parecia uma sombra com olhos ardentes, todo movimento preciso e implacável, enquanto o vento frio da noite farfalhava as folhas ao redor deles.
Ricardo recuperou-se com dificuldade, se segurando em um galho baixo de uma árvore próxima. Ele ofegava, tentando processar o que estava acontecendo. Ele não sabia exatamente quando chegou a isso.
Agora, encarando Leandro sob a luz difusa da lua, Ricardo percebia que havia mais na frustração do outro do que ele conseguia entender. Mas não importava — ele não podia desistir.
"Você vai tentar me matar agora? Sério? É isso?" Ricardo disse entre respirações. Sua voz saiu mais agressiva do que ele pretendia, mas a tensão do momento queimava em seu peito.
Leandro não respondeu. Ele cerrou os punhos ao lado do corpo, os ombros rígidos e tensos como uma corda prestes a estourar. Sua expressão era um misto de raiva e dor contida, e Ricardo não sabia qual das duas estava prestes a vencer.
Ele avança novamente.
Ricardo mostra os dentes numa carranca e solta uma mão, buscando um punhado da camisa de Leandro. Ele usa o aperto para puxar seu alvo para o lado, mas o vampiro é surpreendentemente muito forte. Ele vacila apenas um pouco antes de chutar um pé para fora e desequilibrar Ricardo mais uma vez. Ele o pega com o único pulso que ainda está segurando e lhe dá uma joelhada no peito antes de deixá-lo cair.
Ricardo arfa, a visão começando a ficar turva pelo ar retirado contra a sua vontade de seus pulmões.
Quando o lobo olha feio para Leandro, o bastardo ainda o observa com a mesma expressão de desinteresse de antes.
“Seu filho da puta miserável.” Ricardo sibila.
O outro arqueia uma das sobrancelhas para as palavras, girando a adaga ainda presente em sua mão.
Houve um momento em que Ricardo sentiu que poderia confiar em Leandro. Eles riram juntos depois de uma caçada, se escondiam em pequenos cantos longe dos outros sobrenaturais, se ajudavam nos momentos de maior necessidade.
E Ricardo, por um breve instante, enganou-se pensando que talvez houvesse algo mais sob a fachada do vampiro — algo que lhe daria um motivo para baixar a guarda mais uma vez.
Houve também um instante, uma fração de segundo, quando o olhar de Ricardo se demorou nos traços elegantes de Leandro, na linha do maxilar e no brilho quase sobrenatural de sua pele sob a luz da lua. E, naquele momento, ele genuinamente contemplou ceder à confusão que o dominava, entregando-se à única coisa obscura e complicada que ele sentia que poderia suportar, mesmo que o consumisse por completo.
E mesmo agora, em algum nível perturbador, Ricardo acha que a presença constante de Leandro tem sido reconfortante.
O lobo suspira de frustração, mergulhando para frente mais uma vez. Ele pega o topo da cabeça de Leandro com as duas mãos e tenta jogá-lo para baixo em um joelho levantado. No momento do desequilíbrio, Ricardo pega as duas mãos de Leandro, juntando-as por trás de suas costas e com um chute fácil atrás de seu joelho derrubando o vampiro no chão.
Ricardo segura suas mãos com tanta força que teme deixar hematomas enquanto sobre nas costas do vampiro, suas coxas uma de cada lado de suas omoplatas.
Leandro arfa abaixo dele, seu rosto virando de lado sobre o chão frio, olhando por cima do ombro para encontrar os olhos dourados do outro.
“Me solta.” Ele diz, sua voz sai rouca, sibilada e coberta de algo se não mais irritação.
“Qual que é a porra do seu problema? Que merda tá acontecendo com você?” Ricardo fala mais alto do que planejado, a adrenalina da curta luta ainda correndo livremente pelas suas veias.
Leandro não responde, apenas fecha os olhos e se contorce no aperto firme em seus ombros e costas.
Ricardo sobe uma de suas coxas e coloca um de seus joelhos sobre a parte inferior das costas do vampiro, abaixando sua postura para que seu rosto não fique nem a uma respiração de distância do de Leandro.
“Por que você não me deixa ajudar?” Perguntou, sua voz saindo frágil, quase como um sussurro.
Leandro arfou, os olhos semicerrados, sua boca relaxada, entreaberta, deixando suas presas à vista para aqueles que chegassem perto suficiente.
Seus olhos carmesim se desviaram para o braço de Ricardo, aquele que segurava suas mãos.
Aquele que sangrava.
Porra. Ricardo pensou, era como se uma alavanca tivesse sido acionada em seu cérebro.
“Você não se alimentou.” o lobo afirmou, não era uma pergunta, Leandro sabia disso. “E por quê? Não tinha ninguém disposto? Ou você só esqueceu?”
Leandro riu, mas o som era amargo, quase cortante. “Talvez eu só não quisesse. Talvez eu esteja cansado disso.”
Ricardo o encarou, o cenho franzido. “Mas você precisa disso. Não é questão de querer ou não.”
“E você precisa de ar para respirar, mas nem sempre é fácil, não é?” O vampiro respondeu, a voz subindo um pouco antes de ele fechar os olhos e inspirar profundamente. Quando ele falou de novo, o tom era mais controlado. “Eu sei o que eu sou, Ricardo. Mas isso não torna as coisas mais fáceis.”
O uso do nome fez algo dentro de Ricardo se apertar, embora ele não soubesse exatamente por quê. Ele afastou um pouco, arrumando sua postura para trás, agora a alguns centímetros a mais de Leandro.
“Você tá fraco,” Ricardo disse, mais um fato do que uma acusação.
“Eu estou... adaptando,” Leandro corrigiu, o tom defensivo.
“Isso explica por que você quase tropeçou nos próprios pés no final da dança.”
Leandro estreitou os olhos, e por um momento, Ricardo achou que ele fosse disparar alguma provocação afiada, ou tentar atacar novamente. Mas, em vez disso, Leandro apenas suspirou novamente, os ombros caindo um pouco.
“É só uma fase,” ele disse. “Eu fico bem depois de descansar.”
Ricardo não acreditava nisso. Não totalmente. Ele já tinha visto lobos doentes na matilha – lobos que tentavam fingir que estavam bem até não poderem mais fingir. E algo sobre Leandro agora o lembrava disso.
“Você é péssimo em pedir ajuda,” Ricardo murmurou, o tom mais suave, quase gentil, suas mãos soltando o aperto firme e suas pernas se distanciando do corpo abaixo do seu.
O vampiro suspirou pesadamente, virando-se e sentando no chão, a postura ainda tensa, quase cansada.
Dedos finos e delicados passavam pelo seu pulso onde as mãos de Ricardo antes estavam.
“Eu me viro, lobo. Não precisa se preocupar.”
“Lobo?” Ricardo questionou, confuso.
“É o que você é.” Leandro deu de ombros.
Por um momento, o silêncio caiu entre eles, mas não era um silêncio confortável. Era carregado, pesado, como se as palavras que precisavam ser ditas estivessem presas entre eles, criando uma barreira invisível.
“Você tá tentando provar o quê? Que consegue sobreviver sem depender de ninguém? Porque, deixa eu te dizer, ninguém tá impressionado.” Ricardo retrucou.
Leandro piscou, como se as palavras tivessem acertado algo mais profundo do que Ricardo esperava. Mas, em vez de recuar, ele avançou, a expressão ficando mais sombria.
“Você não entende nada,” ele disse, a voz alta, quase falha. “Você acha que é tão fácil assim? Que é só pegar o que eu preciso e pronto? Porra, não vem dar sua opinião sobre coisas que você não entende!”
“Então o que você quer?” Ricardo rebateu, a frustração transbordando. “Quer morrer? Porque é isso que vai acontecer se você continuar se recusando a fazer o básico.” Ele podia sentir o calor – ou a falta dele – emanando de Leandro.
“Como você sabe o que é básico ou não pra mim? Como você acha que esses seus instintos de cachorro podem lhe dizer ou não o que fazer?” O vampiro retrucou, levantando-se do chão, os olhos brilhando em um tom carmesim mais intenso, um sinal claro de que a raiva estava crescendo.
“Por que, infernos, tudo virou uma discussão de lobo ou vampiro pra você?” Ricardo respondeu, seguindo e colocando seus pés em terra firme novamente, sua voz tão alta que um canto de sua mente lhe alertou que talvez outras pessoas pudessem escutar a discussão.
“Por que eu não quero te meter nisso, porra!”
Ricardo parou, um peso diferente surgiu em seu estômago.
Por um momento, os dois ficaram em silêncio, os olhares travados. A respiração de Ricardo estava acelerada, os punhos cerrados ao lado do corpo. Leandro, por outro lado, parecia tenso, os ombros rígidos, as mãos apertadas contra o parapeito da varanda.
“Você não tem ideia do que é ser eu,” Leandro finalmente disse, a voz tremendo levemente. “Você acha que sabe, mas não sabe. E eu não preciso que você jogue isso na minha cara.”
“Eu não tô jogando nada na sua cara. Eu tô tentando te ajudar!” O lobo se aproximou, seu olhar constantemente estudando o rosto do outro em busca de sinais que lhe dessem abertura.
“Então pare.”
A simplicidade das palavras fez Ricardo congelar. Ele piscou, como se tivesse ouvido errado.
“Pare?” ele repetiu, a voz mais baixa, mas ainda carregada de incredulidade.
“Sim, pare.” Leandro desviou o olhar, fixando-o no horizonte. “Eu não preciso que você se importe. Eu não preciso de mais alguém apontando o que tá errado comigo.”
Ricardo sentiu como se algo dentro dele estivesse quebrando. Ele abriu a boca para responder, mas fechou novamente, incapaz de encontrar as palavras. A dor em seu peito era inesperada, profunda, como se Leandro tivesse arrancado algo de dentro dele.
“É isso que você acha que eu tô fazendo?” Sussurrou “Que eu tô apontando seus erros?” Ricardo finalmente perguntou, a voz mais baixa, mas cheia de algo que ele não sabia nomear.
Leandro não respondeu imediatamente. Quando finalmente falou, sua voz estava quase inaudível. “Eu só quero... lidar com isso sozinho. É pedir demais?”
Era. Porque Ricardo odiava isso.
Não porque fosse irritante ou difícil, mas porque Leandro não precisava carregar tudo sozinho. Ele era forte, claro, mas mesmo o mais forte precisa de um momento para se apoiar em alguém. Mesmo o mais forte deixava estampado em seu olhar algo que escondia tanto que parecia um abismo, uma mistura de cansaço, dor e um orgulho que o fazia se manter de pé, mesmo quando era evidente que estava à beira de desmoronar.
O pensamento queimava em sua mente — uma necessidade visceral de fazer algo, qualquer coisa, para aliviar aquele peso.
E foi então que ele se aproximou, os passos lentos, como se não quisesse assustar o outro. A luz do luar no jardim iluminava as feições de Leandro, tornando ainda mais nítido o cansaço estampado em seu rosto.
"Leandro," ele chamou, sua voz baixa, quase um sussurro, mas firme. Ricardo hesitou por um momento antes de erguer a mão. Era como se o ar ao redor deles estivesse carregado de algo que ele não sabia explicar, mas que o impelia a continuar.
Quando seus dedos tocaram a pele fria de Leandro, foi como se um choque suave percorresse seu corpo. Ele deslizou a mão até a linha do maxilar do outro, seus dedos mapeando cada curva com uma delicadeza quase reverente.
"Por favor,” Ricardo murmurou, sua voz carregada de uma sinceridade quase dolorosa. Ele inclinou-se levemente, seus olhos fixos nos de Leandro, que agora o encarava com uma mistura de surpresa e resistência. "Me deixa ajudar você."
Aquelas palavras saíram com mais emoção do que ele pretendia, um pedido tão genuíno que ele sentiu o próprio peito apertar. Ricardo sabia que Leandro provavelmente o afastaria, que diria algo sarcástico ou simplesmente se fecharia como sempre fazia. Mas, mesmo assim, ele não recuou.
“Eu não ligo se a gente tá se arriscando de novo. Eu não ligo se isso for, sei lá, contra as regras ou o que quer que o conselho diga.” Ele acariciou a bochecha do outro, sentindo a pele macia em seus dedos. “Só me deixe fazer você se sentir bem.” o lobo sorriu “É pedir muito?”
Leandro ficou parado por um momento, olhando para Ricardo com os olhos arregalados, mas cheios de algo que parecia uma mistura de cansaço, vulnerabilidade e rendição.
O silêncio era tão denso quanto o ar carregado do jardim, o som das folhas balançando ao vento mal chegava aos ouvidos deles. Ele engoliu em seco, sentindo o peso daquela oferta de ajuda como se fosse um fardo que não sabia se estava pronto para compartilhar.
Então, de repente, ele deu um passo à frente.
Não houve palavras — nem explicação, nem preâmbulo. O movimento foi impulsivo, quase desesperado. Leandro simplesmente agarrou Ricardo pela frente da camisa, segurando firmemente sua gravata e puxando-o com força suficiente para que seus corpos quase se chocassem.
Antes que Ricardo pudesse processar, ele sentiu lábios frios contra os seus, se encontrando em um beijo que era mais como uma colisão, uma mistura de sentimentos sufocados, tensão acumulada e necessidade crua e dura.
Ricardo congelou por um instante, surpreso com a intensidade do gesto. Mas a hesitação durou apenas um segundo antes de ele corresponder, seus braços automaticamente se movendo para envolver a cintura de Leandro, um aperto firme, como se precisasse segurá-lo para que ele não desmoronasse, não fugisse.
Leandro, o bastardo, apenas sorriu com o gesto.
O beijo era tudo menos suave — era uma batalha, um desabafo, um choque de emoções. Leandro o segurava com força, como se quisesse extrair algo, uma resposta, uma solução, um alívio.
Seus dedos passaram de seu pescoço para sua nuca, caminhando leve como uma pena para entrelaçar-se nos fios escuros de Ricardo, puxando levemente como se testasse as águas, e sem que o lobo percebesse um gemido tanto quanto obsceno saiu de sua garganta.
Ricardo se afastou levemente, vergonha o corroendo.
“Nada disso.” O vampiro sussurrou entre seus lábios, um sorriso ainda dançando em suas feições, puxando o lobo novamente para dentro daquela prisão quente, molhada e hipnotizante de sua boca.
O gosto de Leandro era amargo e doce ao mesmo tempo, como se ele estivesse lutando contra algo dentro de si. Ele se entregava e, ao mesmo tempo, não se entregava. Era uma batalha sem palavras, uma necessidade crua de ser visto, de ser entendido.
Era tão intenso que Ricardo sentia que estava ficando bêbado.
Os dedos do lobo se apertaram contra as costas de Leandro, o calor do corpo dele tão próximo era algo que ele nunca tinha experimentado antes, tão avassalador e natural ao mesmo tempo.
O calor era mais do que físico, era um peso, uma necessidade crescente que o envolvia de uma forma que fazia seu próprio coração disparar, quase como se ele estivesse sendo puxado para uma correnteza sem fim. O toque das mãos de Leandro em sua pele, o calor da respiração dele contra sua boca, tudo isso fazia o momento se expandir, se estender, como se o tempo tivesse se distorcido.
Os lábios de Leandro eram tão urgentes, tão sedentos, desesperados, como se ele estivesse buscando algo que sempre esteve perdido, como se ele precisasse daquilo para sobreviver.
As presas afiadas afundaram-se em seu lábio inferior com força suficiente para deixar sangue escorrer e Leandro bebeu daquilo como um homem faminto.
Porra. Ricardo ia morrer.
O vampiro soltou um suspiro abafado, satisfeito com o gosto metálico que lhes juntavam, um tremor percorrendo seu corpo.
Leandro se afastou um pouco, mas não o suficiente para que os rostos se separassem. Seus olhos estavam baixos, fechados por um instante, antes dele se mover novamente com um novo objetivo.
Seus lábios traçaram um caminho molhando e lento da boca de Ricardo para seu pescoço, beijos gentis e pequenas mordidas preenchendo cada extensão da pele bronzeada do lobo, parando no ponto de junção de junção ao seu ombro.
Quando Ricardo finalmente reuniu coragem suficiente para olhar para baixo, ele sentiu o ar sair de seus pulmões.
Leandro estava olhando para ele, as pupilas dilatadas, lábios rosados e maltratados do beijo intenso. Cabelos escuros bagunçados, jogados em sua testa, e Ricardo tinha certeza de que ele nunca esteve tão bonito quanto agora.
Um suspiro intenso deixou seus lábios.
O vampiro sorriu, as presas a mostra como se soubesse exatamente os efeitos que estava causando no lobo, o deixando deplorável.
Ricardo jogou a cabeça para o lado, abrindo espaço e rapidamente sentiu uma sensação ainda mais molhada em seu pescoço, a língua de Leandro lentamente circulando sua pele, como se precisasse provar cada pedaço dele, como se estivesse preparando.
O outro apertou os olhos e isso deve ter sido a quantidade de confirmação necessária que o vampiro precisava, porque em um instante uma dor aguda percorreu seu pescoço.
Oh.
Oh. Certo.
A dor certamente foi desnorteante, mas foi a onda de prazer enorme que se seguiu que surpreendeu Ricardo.
Ele teve que se impedir de ofegar porque Deus, droga, isso era bom. Se o beijo tivesse sido agradável, então isso era totalmente prazeroso.
Os olhos do lobo se fecharam quando ele inevitavelmente cedeu. Sua respiração ficou difícil, e ele só podia esperar que Leandro estivesse distraído demais para perceber o quanto Ricardo estava se inclinando para ele.
A respiração do lobo sai irregular. Seu cérebro está desligando. Ele mal está consciente do outro braço de Leandro enrolado em sua cintura em um aperto possessivo e de sua própria mão agarrando o ombro do vampiro com abandono.
Ele não se importaria de ficar assim para sempre.
Eles eram compatíveis e, ao que parecia, tão compatíveis quanto possível. O veneno de Leandro parecia puro êxtase correndo por suas veias e a língua, que apenas enfeitava a pele do lobo enquanto ele bebia, enviava arrepios pela espinha do homem maior a cada pequena contração.
E Leandro, porra, devia ter algo de especial em seu sangue porque Leandro bebia como um homem faminto, segurando sua nuca com tanta força, como se precisasse de algo para se apoiar e não cair no chão ali mesmo.
Ele podia sentir o veneno do vampiro nele, espalhando-se como um rio do seu pescoço enquanto a sensação enchia sua pele, seus músculos, seu coração e veias, inundando todas as terminações nervosas em seu corpo de uma só vez. Era um tipo de prazer doce, rico e avassalador que se derramava nele, derretendo seu corpo em xarope em um instante, e ele era massa nas mãos de Leandro.
Era apenas um fio de sobrecarga sensorial, prazer se derramando em algo como euforia.
Era demais. Era avassalador. Ele podia começar a sentir sua visão ficando turva a cada instante que se passava.
Ricardo choramingou e, nesse mesmo instante, Leandro se afastou. A língua do vampiro, oh Deus, girando em torno da ferida da mordida enquanto ele se afastava, como se tentasse pegar até a última gota de sangue vazando, como se tentasse acalmar a ferida recém feita.
Leandro apareceu em seu campo de visão novamente e Ricardo teve que colocar uma das mãos na boca para não gemer com a visão do outro à sua frente. Ele parecia acabado, e a visão de seu próprio sangue tingindo os lábios do outro não ajudava nos pensamentos imundos que surgiam em sua mente.
“Porra” Ricardo deixou escapar, o peito arfando.
O vampiro sorriu, lambendo os lábios até que a última gota carmesim desaparecesse naquela língua macia.
“É. Porra.” Repetiu Leandro, suas mãos indo para o colarinho de sua camisa, ajeitando-a no corpo de Ricardo. “Talvez eu aceite sua ajuda mais vezes.”
O lobo riu, um pouco fora de si.
“Ah merda, eu deixaria você pegar até a última gota do meu sangue.”
Leandro encarou, divertido. “O veneno ainda tá mexendo com a sua cabeça.”
“Você mexe com a minha cabeça.”
“Claro.”
“Você poderia fazer isso de novo.”
“Seria perigoso. Seu sangue é muito doce.”
“Com medo?”
“Bem,” Leandro se aproximou, suas mãos agora ocupadas em arrumar a gravata que Ricardo abandonou inutilmente a minutos atrás. “O que eu posso fazer? Doce sempre foi o meu favorito.”
