Chapter Text
Em um café pacato, numa pracinha vazia no Rio de Janeiro, sentado sozinho à uma mesa no canto, Jorel Lagos usava de todas as suas forças pra se segurar pra não chutar uma criança.
É sério. Aquele pirralho catarrento tinha uma pilha de folhas de papel rabiscadas à sua frente, uma caneta fluorescente rosa nas mãos, e aparentemente um megafone na garganta; a mãe não parecia ligar para o fato de que o filho dela, de uns sete anos ou menos, não parava na cadeira e ainda estava decidido a perturbar a paz de todos os outros clientes do café. Com “todos os outros clientes”, lê-se Jorel (a pracinha estava realmente vazia). Ele apenas mexia o próprio café e tentava se concentrar na espuma espiralando em torno da colher, em vez de nos berros estridentes da criança. Ele era chato assim quando era criança? Esperava que não (provavelmente era pior). Não é como se lembrasse direito, ou se confiasse nos relatos do seu irmão, de tanto tempo atrás; memória nunca era confiável, e ele sempre tivera sua forma de distorcer as coisas.
Enfim, em uma escala cósmica dos seus problemas, a criança era o menor deles; Jorel tinha uma maneira impressionante de se enfiar em todo tipo de furada, e uma sorte maior ainda em sair dela. Ainda assim, era o mais imediato. No início ele apenas olhava de relance, mas agora estava encarando a mãe desatenta no telefone com um olhar de pura amargura mesmo. Se concentrou tanto em aniquilar a mãe com um olhar que não viu a criança se aproximando dele, brandindo aquela caneta destampada como se fosse uma espada.
— Tio, posso desenhar no seu gesso?
Era só o que faltava. Jorel achava que o cabelo raspado e platinado, a falta de sobrancelhas, os trocentos piercings e a carranca teriam sido o suficiente nos dias atuais pra passar pro meliante a imagem de que ele era um esquisito que não queria papo, mas criança nenhuma resiste a um gesso branquinho. Droga de braço quebrado.
Ele estava pronto para dar a resposta mais cabeluda, imprópria, sarcástica, e cheia de termos que a mãe não gostaria de explicar depois possível, quando uma voz vinda detrás dele respondeu primeiro:
— Shhh. Que tal voltar pra sua mãe, que o tio aqui tá ocupado com uma conversa importante?
A frase em si não tinha nada demais e era bem mais educada do que o que Jorel planejava soltar, mas ainda assim calou o menino e o fez correr assustado até a mãe. Talvez até Jorel tenha se arrepiado um pouco; ele reconhecia muito bem aquela voz, e sabia que a expressão da figura atrás de si provavelmente tornava o tom calmo e frio ainda mais ameaçador. A criança puxou a manga da blusa da mãe, que com um olhar para a dupla na mesa do canto puxou o filho para mais perto e começou a se preparar para sair o mais rápido possível. Jorel ouviu uma risadinha detrás de si.
— Sempre uma entrada dramática.
— O que eu posso fazer? — A figura contornou a mesa e tomou seu lugar na cadeira à sua frente, com uma graça e agilidade… sobrenaturais. O longo casaco vermelho era uma marca registrada; o capuz projetava uma sombra densa em seu rosto, apenas deixando de fora o sorriso maquiado vermelho-sangue contra a pele pálida. — Tenho que me divertir um pouco quando vou resolver meus negócios.
Negócios. Claro. Jorel já estava acostumado a lidar com Jae — eles faziam acordos há um bom tempo, pelo menos uns séculos —, mas não podia negar que sua presença não era das mais confortáveis. Elu nunca apareceria apenas para jogar conversa fora (e ele preferia muito bem assim, lhe dava uns bons anos de paz e tranquilidade… até momentos como esse). Esse era o lado ruim de fazer acordos com o diabo: o diabo vinha cobrar.
— Tem algo que você precisa fazer pra mim.
— Eu entendi o recado mas infelizmente não vai dar, entidade demoníaca encapuzada não faz mais meu tipo.
O sorriso sumiu dos lábios de Jae. Jorel e sua boca grande. A figura tirou o capuz, revelando o olhar incisivo e cortante em meio à maquiagem escura, e casualmente deslizou a mão para dentro do casaco. Jorel já sabia muito bem o que ele pretendia pegar — quando se está envolvido com alguém por tanto tempo, vocês acabam aprendendo os padrões um do outro. A coisa toda fica um tanto familiar.
— Não tô pra brincadeira.
— Mas não era você que queria se divertir?
— Garoto.
— Não vai dar agora, foi mal. Eu tô com o braço quebrado, sabe como é. Tenta daqui a uns meses. Anos, talvez.
A resposta de Jae foi, em um movimento brusco, puxar sua faca de dentro do casaco e a cravar no gesso. Não foi com toda sua força, sem sombra de dúvida; a lâmina não foi fundo ou atravessou o braço de Jorel, mas se instalou na camada de gesso. Não era um ataque direto, e sim uma ameaça; uma demonstração não de força, mas de controle.
Ele já estava acostumado com o modus operandi da figura, então nem se deu ao trabalho de olhar ao redor. Era um lugar público, porra, não tinha ninguém vendo esse maluco puxar uma faca do nada? Não. A praça estava deserta. O café parecia abandonado. No momento presente, só existiam os dois.
— Braço quebrado? — Jae ergueu as sobrancelhas. Um brilho de deboche apareceu em seus olhos. — Como que você conseguiu fazer isso?
— Eu que te pergunto.
— O acordo foi imortal, não inquebrável.
— Talvez a gente possa atualizar ele, então.
A entidade deu um puxão na faca que moveu o braço engessado de Jorel sobre a mesa, o pegando de surpresa e desestabilizando sua postura.
— Pra eu chegar a considerar isso, você deveria estar cumprindo sua parte do acordo.
— Eu tô cumprindo minha parte!
— Cumprindo sua parte? — Jae soltou uma risada incrédula. — Eu te dou imortalidade, você me dá sua servidão. E que servidão é essa que eu não tô vendo?
— Ok, ok, talvez eu não seja o mais proativo dos servos, — e o outro bufou em ênfase, — mas faço um ótimo trabalho temendo e respeitando e reconhecendo sua existência.
— Não acho que teme o suficiente.
O assassino afundou a faca um pouco mais no gesso, e Jorel sentiu um corte superficial. Talvez tivesse lhe tirado sangue. Ele torceu o nariz e resmungou algo baixo, antes de finalmente encarar a figura à sua frente.
— O que você quer que eu faça?
Com um sorriso sacana no rosto, Jae puxou bruscamente a faca mais uma vez, trazendo o braço de Jorel mais para perto de si e consequentemente o derrubando sobre a mesa.
— Isso foi desnecessário. — Ele tentou levantar as costas e se ajeitar na cadeira, mas Jae não se moveu um centímetro. Nem sua faca. Ficou debruçado, então, com o braço preso no lugar, encarando o outro de baixo.
— Eu preciso de poder. De domínio completo.
— Deu pra perceber. — Jorel precisava erguer o pescoço de um jeito meio desconfortável apenas para conseguir olhar para Jae; mas nem a posição desfavorável perante uma entidade poderosa e sádica o impediria de soltar um comentário debochado. — Se especificasse ia ajudar muito.
Os lábios vermelhos de Jae, antes abertos em um sorriso, agora estavam torcidos em uma expressão de desgosto.
— Há entidades demais agindo no momento, e eu não gosto delas.
— Você quer dizer o Aguiar e o Dalmo? — Jae ergueu as sobrancelhas, e Jorel se corrigiu. — O Mutilador Noturno e o Colosso. Sei. Não me envolvo nos negócios deles. Tá vendo, sou um ótimo servo.
— Agora quero que se envolva. Acabe com eles pra mim.
Jorel teve que parar para processar o que Jae acabara de lhe pedir. Geralmente não costumava ser tão direto. Franziu a testa, piscou, e levou uns segundos para responder.
— Peraí, o quê?
— Exatamente o que eu te disse. Quero aqueles dois fora do cenário, e você vai resolver isso pra mim.
— Posso perguntar por quê? Achei que vocês tinham um pacto.
Jorel não era o maior conhecedor de entidades ocultas, por mais que tivesse negócios longínquos com uma. Fazer o quê. Mas do pouco que sabia sobre os outros dois (Jae não era muito de mencionar seus “colegas de trabalho”, por assim dizer), ele entendia que um não mexia nos negócios ocultos do outro e as coisas ficavam por aí.
— Tínhamos. Mas digamos que não parece mais me beneficiar dividir espaço com os dois brutamontes.
— Uma coisa meio “essa cidade é pequena demais pra nós três.” — Jorel não conseguiu evitar uma risada fraca. Jae era exatamente o tipo de criar alvoroço por uma coisa tão pequena quanto briga de criança que não quer dividir atenção.
— Não tem graça.
— Ah, sei lá, eu acho que tem. Eu posso rir um pouco de uma entidade poderosa querendo a caixa de areia do parquinho inteira só pra ela.
A resposta de Jae foi apertar sua pegada na faca mais uma vez, agora lentamente. Não era do feitio de Jorel demonstrar medo ou largar a expressão debochada, mas no momento era mais prudente calar a merda da boca.
— Não acho que você entendeu toda a seriedade do que eu estou te pedindo. — Elu abaixou o rosto, ficando cara a cara com Jorel. — Eu não posso diretamente atacá-los sem violar o pacto antes do necessário. Então você vai fazer o trabalho sujo pra mim.
— E como exatamente você espera que eu faça isso?
— Eu espero que você arrume um jeito. Até porque, se não arrumar, não tem mais acordo.
Até aquele momento, Jorel tentara não demonstrar reações drásticas; mas com essa ele não conseguiu evitar engolir em seco.
— Toda essa vida que você tem pela frente, todos esses anos que eu te dei… Eu também posso tirar.
As palavras ficaram suspensas por um momento. Jorel internalizava a real gravidade da coisa. Porra.
— Eu dou um jeito.
Jae se deliciou com o desconforto alheio; elu abriu os lábios vermelhos no típico sorriso cínico mais uma vez. Deu uma risadinha, aproveitou por mais alguns segundos a visão que tinha — Jorel forçado a se debruçar sobre a mesa, com o braço preso sob sua faca, o olhar erguido para elu como para um deus ou, mais apropriadamente, o diabo.
E o que Jorel mais queria na realidade era revirar os olhos e cuspir e mandar ela se foder, mas até ele do alto de sua inconsequência sabia quando precisava ficar por baixo. Não seria burro de arriscar a tão preciosa imortalidade, o prêmio de seu acordo de uns quatro ou cinco séculos, por uma insolência qualquer. Ele era um canalha, mas um canalha astuto, e se o preço a se pagar em sua parte do acordo era participar da fantasia de poder da entidade que lhe dava trela, estava até barato.
— É esse o espírito. Até a próxima, meu caçador.
Jae finalmente tirou a faca do gesso. Se levantou da mesa e, assim que Jorel piscou por um momento, elu já tinha desaparecido.
Ele por sua vez ergueu e ajeitou as costas, que agora doíam da posição desconfortável na qual estava. O braço também — quando olhou para baixo para ver o estrago feito, encontrou sobre o buraco deixado pela faca um entalhe em X. Além do problema pra resolver, agora teria que trocar a merda do gesso.
