Chapter Text
Com a mudança de temperatura entre o ar gelado e rígido na rua e o doce cheiro morno da cafeteria que invadia suas narinas, ela entrou com certa pressa, tentando ignorar alguns dos olhares que caíram sobre ela. Com o balcão vazio, ela apenas se aproxima na frente do caixa, esperando alguém chegar para fazer seu pedido. Segurando seu celular entre seus dedos gelados, uma notificação chama sua atenção. “Você chegou? Vem logo pra cá”. Ela já havia dito que iria, já havia se decidido que iria de qualquer forma.
“Moça?” Uma voz rouca a puxa de volta de seus pensamentos. Era a barista, com uma mão apoiada no balcão, enquanto a outra se mantinha no ar, na frente do monitor na sua frente.
“Sim?” Sua voz saí hesitante, como se ela tivesse esquecido do motivo de estar ali. “Ah, sim. Desculpa. Eu quero um mocha, simples, por favor”
A barista balança a cabeça, digitando algo no computador. “Algo mais?” Ela pergunta, levantando seu olhar. Seu cabelo escuro estava preso em um coque bagunçado e baixo, e ela usava um boné marrom claro, que combinava com as cores do café onde trabalhava. Em seus olhos, havia um delineado notável, feito com precisão. Percebendo que estava demorando demais para responder uma simples pergunta, ela apenas nega com a cabeça. “Fica dezessete reais”
Ela caça atrapalhadamente por algumas notas em sua carteira. Uma de cinco, outra de dois, algumas moedas. Não. Conferindo mais uma vez, ela percebe que ainda não tem o valor suficiente. “É... Hm. Eu acho que devo ter me confundido. Desculpa. Só tenho doze aqui” Ela solta uma risada nervosa, seus olhos percebendo uma fila de duas pessoas se formando atrás dela.
A barista parece resolver alguma questão em sua cabeça, como se estivesse tendo uma conversa e precisasse chegar em algum lugar. E então, sua expressão muda, e ela apenas estende sua mão, esperando algo. A estátua parada em sua frente, que ainda segurava as notas amassadas em sua mão, franze a testa. “Eu cubro o resto” Os olhos de delineado continuam tranquilos, como se estivessem em uma rotina de calmaria.
“Não, não. Não precisa. Eu...” Ela se perde um pouco nas palavras. Ela realmente estava disposta a pagar por um desconhecido? Assim, tão facilmente? “Desculpa. Eu não quero arranjar problema pra você, então realmente não...”
“Tá tudo certo, já passei seu pedido” Ela diz, e um pequeno sorriso desliza pelo seu rosto, quase imperceptível. Sua pele era pálida, bem pálida. Mas suas bochechas ainda tinham uma pequena cor.
“Prometo voltar aqui com o resto do dinheiro” Ela diz, relutantemente entregando o dinheiro. A barista pega, balançando a cabeça em negação.
“Fica em paz” Ela guarda o dinheiro, finalizando o pedido na tela em sua frente, e por um momento, seu olhar encara os olhos em sua frente, como se ficasse sem jeito.“Você pode esperar na mesa. Eu levo seu pedido até você”
“Imagina. Eu espero aqui” Ela diz, colocando uma mexa de seu cabelo que voou com o vento da porta sendo aberta atrás de sua orelha, andando até a ponta do balcão. Ela odiava pensar que seu cabelo ondulado provavelmente estava desarrumado pelo vento lá de fora. Ela gostava de volume, mas não precisava parecer que tinha acabado de acordar. A barista pega um copo, anota algo nele com uma caneta e abre um tubo de calda de chocolate. Ela coloca, enchendo o fundo e fazendo alguns detalhes nas paredes do copo. Então, ela o leva para debaixo de uma máquina e aperta um dos botões, que faz um barulho irritante, porém suportável, começar. A barista volta sua atenção ao caixa, atendendo os outros pedidos.
Abrindo a notificação, seus dedos hesitam antes de escrever sua resposta.
Sabendo que era um erro, assim como sempre fazia e se arrependia, ela sobe as mensagens, relendo as palavras anteriores quase memorizadas agora.
“Já falou com seus pais?”
“Ainda não... Eu tava pensando sobre sabe...”
“Pensando o que? Não tem o que pensar”
“Você que escolhe. Pode ir embora se despedindo ou não.”
“Certo. Vou falar com eles agora”
“Você sabe que eu só quero o seu bem, né?”
Ela para de ler. E então, volta a mensagem atual, começando a digitar.
“Cheguei, estou indo” Não, formal demais. “A caminho!!” Empolgada demais. “Ok” Seca demais. Ela suspira para si mesma, antes de enviar um simples “Em 15 minutos chego :)”
Com um barulho baixo, ela percebe que a barista havia colocado seu café no balcão, e apressadamente voltado ao trabalho. Ela continuou mexendo nas máquinas e preparando os copos, sem parecer estressada ou incomodada. Apenas ali, trabalhando por mais um dia. Quem dera fosse fácil assim.
Sentando na mesa apertada e mal planejada que sempre ficava vazia, – justamente por seu revestimento macio ser velho, e a mesa ser bem na quina do estabelecimento, era a pior mesa para duas ou mais pessoas se sentarem – ela apoia sua cabeça em suas mãos, observando através da janela o movimento do lado de fora. Ela toma um gole do seu café. Normalmente, estaria muito quente. Ou gelado. Mas desta vez, ele estava na temperatura perfeita. Talvez este seja mesmo um novo começo, como ele dizia. Por um momento, ali, ela se permitiu relaxar – ou ao menos ela tentou – e aproveitar a experiência que estava tendo. Um café bom, em um lugar confortável, em um clima bom, mesmo sendo inverno. Até então, ela não havia arranjado problema, e isso já era ótimo.
Com uma dor no coração, ela dá seu último gole do café, que vem com mais gosto de chocolate do que de qualquer outro ingrediente que havia ali. Considerando ignorar seus compromissos e apenas passar a tarde toda sentada em uma almofada antiga observando uma rua que por boa parte do tempo é parada, ela suspira e se levanta, arrumando sua blusa que havia se amassado pelo movimento. Pegando seu copo, ela procura o lixo mais próximo e descarta o material, limpando sua mão em um guardanapo que pegou de sua mesa. Ela caminha até a porta, querendo aproveitar o máximo do calor e cheiro doce do ar, antes de caminhar para fora do estabelecimento. Ao passar pela janela que antes observava do lado de dentro, ela pensa notar um olhar em sua direção.
