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Coleção de histórias originais - "About thoughts and moments"

Summary:

Coletânea de histórias em capítulos singulares retratadas do ponto de vista de personagens originais.

(Esta obra não apresenta, obrigatoriamente, ordem cronológica ou relação clara entre cada capítulo)

Notes:

Ninguém vai ler isso, mas tudo bem

Chapter 1: Sobre a deusa do destino - Xinyuan

Chapter Text

Bai Xinyuan vê as cordas da deusa do destino. 

Em todo lugar. 

Ganyun. Este é o nome dela, estranhamente reconhecível quando pronunciado pelos lábios de Xinyuan.  

É uma das três principais celestiais, deusas da ordem e da essência deste mundo que governam os princípios humanos desde mais de mil anos atrás. No passado, Ganyun se sentaria à direita do trono da deusa da justiça quando um novo conselho fosse convocado, em posição e grau semelhante à da deusa do tempo — Tokiwa.  

De acordo com os pergaminhos, ela estaria acompanhada de suas pequenas aranhas feitas de luz espectral, ranhuras bordadas em seu vestido com o linho mais azul do reino sobrenatural. Xinyuan a imagina com uma fita ou duas em seu cabelo graciosamente longo, mas não sabe o porquê — ele nunca a viu de fato. 

Ele nunca esteve diante do rosto dela, mas sente que seus olhos são azuis como o céu no amanhecer. Provavelmente é algo sobre aquelas memórias que não pertencem a ele; os flashbacks vêm e vão nos momentos mais inoportunos. A herança deixada por seu antecessor constitui mais de uma dúzia de consequências e acontecimentos na vida de Xinyuan. É sua desgraça e, ainda, o motivo dele estar vivo hoje. 

Se ele apertar os olhos... Se ele se esforçar e olhar no ângulo ou no momento certo, então verá os fios quase invisíveis que atam uma coisa à outra, que intercalam todos os elementos do universo em uma só constante.  

São como fios enormes de cabelo, teias ou linhas tão firmemente entrelaçadas que às vezes formam nós. Bonito e fantasmagórico, como energia vital em forma pura, mas impossível de tocar. 

Xinyuan se lembra de tê-las visto pela primeira vez quando Alice falou consigo na cerimônia de recepção do Instituto. Ele as notou de novo, se enrolando ao redor de Dante como um véu brilhante no campo de batalha, protegendo-o.  

Elas puxaram a espada de Azires, fazendo-o errar por pouco a linha de seu pescoço.  

Elas estavam lá quando Urgiz e Nabbin derrotaram Klatanovia nas catacumbas.  

Pisque e você veria as cordas translúcidas penduradas na flecha de Sonya, segundos antes dela acertar o coração do rei de Everon.  

São os cordéis que controlam marionetes de carne e osso. 

Com isso, o mundo se torna um palco de um holofote só, uma peça escrita por Ganyun onde quase ninguém sequer terá a chance de pensar em improvisar.  

Ninguém, exceto nomes como o de Shen Kyan. Demônios, cuja linha da vida já foi cortada pela tesoura da senhora do destino há tempos. Somente em seres sem forma física é que as cordas atravessariam quando atiradas, surtindo efeito nenhum.  

Se a deusa da justiça crê que conseguiu impôr leis sobre aquelas coisas, Xinyuan acha que ela pode estar redondamente enganada, muito provavelmente cega por sua própria crença na imparcialidade existente no mundo.  

É de conhecimento entre os anciões que contam histórias para seus netos e bisnetos que, no passado, a deusa da justiça outrora puniu Ganyun por interceder na história humana; pois, segundo Yizheng, nenhum deus jamais deveria agir para perturbar de maneira significativa a arbitrariedade dos indivíduos, quanto mais alterar o destino deles neste processo.  

É responsabilidade dos seres celestiais preservar o equilíbrio e apenas acompanhar os acontecimentos de longe, distribuindo bençãos ou maldições para aqueles que acham dignos de tal. Tudo sob a supervisão dela, é claro. Arrisque um passo fora da linha e você terá uma conversinha nada agradável com Yizheng. 

Antes de saber o paradeiro dela, quando ainda constava como desaparecida, Xinyuan costumava perguntar-se o que ela estava fazendo para permitir que uma dúzia de deuses brandisse lanças e espadas atrás de si, furiosos por algo que não era sua culpa.  

Onde estava a justiça quando Xinyuan era caçado por crimes que sua outra encarnação cometeu?   

Agora ele sabe que ela se foi. Yizheng foi morta e Tokiwa se esconde entre os dias repetitivos de um passado doce, esquivando-se de seus deveres ao imergir naquilo que ela mesma governa. 

Sobrou então Ganyun para tecer com suas próprias mãos o futuro que ela deseja. Por algum motivo, entretanto, Xinyuan sente que ela não tornará a fazer isso. Seja lá qual era o objetivo da deusa do destino antes, há um pressentimento sutil em seu coração de que ela parece ter chegado no ponto final de sua jornada. 

A teia de aranha permanecerá sem insetos debatendo-se nela.  

Apesar de tudo, ainda há um tipo diferente de corda amarrada em Xinyuan. Ela está presa em seu dedo mindinho e é tão grossa que parece mais uma fita. Não é azul e nem branca, mas sim vermelha da cor do sangue. Tão macia e flexível que parece esticar-se infinitamente sem rasgar.  

Ele demorou um tempo bastante longo para percebê-la ali. E demorou mais tempo ainda para encontrar o fim dela: no dedo mindinho de Alexander. O metálico, que originalmente foi arrancado quando ele recebeu a punição por falhar com suas tropas na guerra. Aquela prótese que, às vezes, arranha suas coxas na cama e faz cócegas em sua nuca.  

Xinyuan presenciou aquele fio vermelho aparecer pouquíssimas vezes em outras pessoas. Shen Kyan e Li Xianghua estão totalmente enrolados em um; o de Dante e Sephiro está cheio de nós, porém permanece forte e inquebrável.  

O dele e de Alexander está um pouco desfiado em alguns lugares, meio maltratado, como se prejudicado pela época conturbada que eles passaram lutando um contra o outro e se estranhando, antes de finalmente decidirem por ficar juntos. Mas é um fio verdadeiro e Xinyuan tem certeza de que nunca se desfará.  

Ele nunca buscou desvendar ou pesquisar para saber o que o fio era, embora o sentimento envolto nele tenha se tornado mais do que óbvio para si. 

 

Ele não precisará perguntar a Ganyun para saber o que significa.