Work Text:
— Eu acho que o mundo vai acabar.
— Talvez. Para vocês.
Prosas políticas, refrigerantes quentes e cervejas inacabadas poderiam muito bem definir aquele relacionamento, contanto que os olhos alheios não deixassem a atenção cair no pescoço longo do skatista com polpa de relaxado. Os mais velhos diziam sobre amor de verão — e os mais novos suspiravam, invejados. O problema é que o mundo lá fora, ainda estava lá fora, coberto pelo Sol escaldante do Rio de Janeiro e os carros com lataria velha. Lá fora, a ideia se modernizava e a euforia de um novo amanhã sacudia-se agitava. A nova moda vinha! O novo disco lançava! E não esqueça das vacas na vizinhança próxima, iriam aparecer no novo Torneio Fazendeiro.
Nada disso importava.
Xande estava deitado em um amontoado de travesseiros baratos para repousar suas costas feridas, enquanto o dedo grosso equilibrava sem muito jeito um recém bolado cigarro de maconha. O cheiro forte se espalhava grosseiramente pelo recinto repleto de velharia vintage e laços organizados em uma bancada não muito longe. Às vezes, quando não estava tragando, murmurava algo desconexo sobre o jornal que tinha lido pela manhã e recebia uma resposta afiada da menina ao seu lado. Era Dara. Não precisava de introdução: Era Dara. Isso não bastava? Para ele que piscava lentamente, juntando os cílios loiros um no outro, sim.
— Collor roubou a grana de geral.
— É por isso que não se deve confiar em bancos.
— Você fala isso porque veio antes deles, gata.
Ela riu. As covinhas ao redor da bochecha pálida afundavam de uma maneira delicada, por mais que sua atenção ainda estivesse em enfaixar o braço ralado. Xande evitava olhar para o ferimento porque não via sentido, não valia a pena quando uma Deusa Imortal se colocava diante de si daquele modo, cuidando tão delicadamente dos seus ferimentos estúpidos feitos em uma pista de skate quebrada.
— Não sou Deusa, sou vampira — corrigiu Dara risonha, terminando de passar o tecido pelo pulso e se afastando com um sorriso brincalhão nos lábios — E eu avisei sobre a pista.
— Ah, é, você tá lendo meus pensamentos… — observou um pouco afetado pela noção, afundando-se ainda mais na montanha de travesseiros. Confortável. Soprou a fumaça. Um pouco amargo.
— Eu sempre leio — se gabou vitoriosa, levantando-se da cama em um pequeno saltinho e usando a velocidade para guardar todo o material de primeiros socorros — Mesmo que a maioria seja….
— “Dara, Dara, Dara” — a interrompeu, sorrindo preguiçoso — Sempre você.
O Sol não passava pelas cortinas grossas, porém, Dara não precisava daquela enorme bolha clara para ver como o rapaz iluminava seu quarto sem o mínimo esforço. Ele estava ali. Deitado, com o rosto manchado por arranhões, a perna entupida por remédios que prometiam não arder e uma voz mais arrastada que o primeiro vampiro. Se sentia estúpida com aquele pensamento tão romancista, mas não podia negar: Xande iluminava tudo à sua volta e nem precisava colocar dedicação nisso. Era patético, estúpido e amável.
— Poderia pensar nos buracos que têm na pista, na próxima vez — respondeu depois de um tempo, agora mais séria. Terminara de fechar a primeira gaveta do seu armário sem notar como existiam tantas coisas de necessidade mortal lá, e agora estava de braços cruzados, o olhando com pura desaprovação — E se tivesse batido a cabeça? Tá de manhã, eu não podia ir até você, Xande.
— Ué, gatinha, eu vinha me arrast- — engoliu à seco com a careta dela — O Guizo me traria!
— Seria melhor um hospital, né! — jogou os braços para cima — Eu não ia poder curar a sua cabeçola rachada, Xande.
Ele deu um risinho.
— Você disse “cabeçola”, tá aprendendo — estalou os dedos e apontou para Dara que, como resposta, revirou os olhos vermelhos para trás — Desculpa! Mas é que eu realmente não ia me importar se tivesse visto o buracão. Qual é, era campeonato nacional!
— Regional — corrigiu — Regional, Xande.
— Regional! E eu ganhei o prêmio!
— Era você contra duas crianças…
— E eu ganhei!
— O prêmio era uma pizza grátis da pizzaria falida da esquina.
— E eu ganhei.
— E esse roxo na cara, também.
— E um beijinho seu! Vitória!
Talvez fosse castigo porque em 1920 tinha se negado a receber um mendigo em casa, por mais que ele tivesse bafo de alho. Às vezes Deus existe mesmo, Dara pensou, e coloca como castigo um idiota de 23 anos com vício em skate para perambular no seu castelinho e suspirar apaixonado pelos cantos, sem muita noção do perigo. Do que adiantava discutir mesmo? Ela deu de ombros, indo até a cama e se jogando em uma parte do colchão um pouco mais vazia de plumas. Xande pareceu satisfeito com a ação, porque estendeu seu braço ferido para contornar o ombro dela, puxando-a com gentileza para perto.
Ela tinha cheiro de morango com pergaminhos velhos; ele de boticário linha infantil e maconha. Ambos tinham os olhos pintados pelo vermelho, mas não pelas mesmas razões — e ainda bem, quem sabe. Quem olhasse, iria estranhar um pouco as roupas tão diferentes, uma vez que Dará se vestia para uma época há muito esquecida, quiçá cuspida, enquanto ele não se importava com calções rasgados e roupa larga. Mas, novamente, o mundo lá fora pouco importava.
— Podemos ir pro caixão — Xande sugeriu, apagando o cigarro em um isqueiro deixado ali próximo feito com ossos humanos. Legal.
— Você machucou as costas, vamos ficar aqui por uma semana.
— Mas você não descansa bem na cama.
Dara deu de ombros.
— Não importa muito, na verdade. Eu fico feliz se você estiver bem.
E parecia um pouco irreal falar aquilo em voz alta porque genuinamente nunca juntou aquelas palavras de tal modo. Vampiros perdiam parte da humanidade quando abraçavam a imortalidade, e o ego se tornava mais uma essência do que característica. Anos atrás, sacrificar-se pelo conforto de outro era algo engraçado, mas nunca, em hipótese alguma, cogitado. Porém, quando Xande piscava um pouco perdido naquelas confissões e soltava o ar pelo nariz como quem prende o ar por muito tempo, via que era bobagem. Tinha perdido tempo se negando a nadar contra a corrente imortal. Valia a pena.
— Você é muito bonitinha. Muito gracinha. Muito-
— Lindinha — completou, rolando os olhos e rindo — Você diz isso sempre. E pensa, também.
Ele não se defendeu. Pelo contrário, focou em se ajeitar nos travesseiros e colocar os lábios na bochecha dela em um beijo estalado. Depois outro na testa. E mais um, para descargo de consciência, na pontinha do nariz pálido, para logo depois gemer pelo esforço que as costelas tiveram em se mover. Dara o encarou com aqueles olhos gigantescos de gentinha curiosa — porque ela era mais baixa, então a chamava de ‘gentinha vez ou outra — e de supetão o agarrou as bochechas, selando os lábios de maneira muito mais gentil do que a alma amaldiçoada poderia entregar.
Era beijo de cinema com cena pós crédito de Rita Lee. Aqueles dois eram um caso sério, principalmente quando se uniam daquela maneira, lábios sensíveis arrastando-se um no outro, e suspiravam apaixonados ou sorriam entre o beijo apenas para se gabarem aos espíritos que assombravam o castelinho que tinham algo que ninguém mais tinha: Amor. Nem Clarice Lispector, nas suas mais complicadas criações de palavras, poderia dar uma explicação para como um cadáver vivo tinha o coração tão vivo, apesar de parado, sempre que tocava em um skatista rebelde. E não vamos citar Hilda Hist, com a falta de puritanismo no meio da carreira, poderia descrever como Xande sofria em não mover-se demais para não cutucar os próprios ferimentos no vestido longo da namorada.
Não vamos citar André Vianco porque ele jamais teria a capacidade para narrar como após o beijo, Dara em um pequeno descontrole, traçou beijos pelo queixo — e que vitória, tinha retirado a maldita barbicha — até deixar os caninos arrastarem-se pela pele salgada e se afundar no pescoço. É porque mesmo um pouco pirada, Dara ainda tinha aquela sutileza com falsa obsessão, ainda mais quando sugava o suficiente apenas para encher aquela fome chata que cutucava as entranhas. E quando se afastava, Xande não estava horrorizado, apenas um pouco tonto, porém, ainda consciente o suficiente para levar o polegar até o queixo alheio e limpar o pequeno rastro de sangue.
Talvez, se sobrasse para algum artista mesmo, fosse cair no colo de Jorge Ben Jor. Aquele lá era galã. Até porque se não fosse a teimosia de Xande, não teria nenhuma arma para conquistar Dara.
— Se pá dá pra pedir a Pizza hoje — Xande falou.
— Aí, Xande — se afastou com nojo — Às vezes é melhor quando você tá me beijando…
De qualquer forma, naquela cama de amantes amados, o tempo era ignorado quando as risadas se espalhavam. E o Castelinho na quebra de escama podia até ter fama de mau assombrado pelos coitados da vida, mas tirando os espíritos aqui acolá, a única coisa que vagava nos corredores escuros era o amor — e a breguice que vinha junto.
