Chapter Text
A luz da manhã adentrava suavemente o pequeno quarto de Yuji Itadori, filtrada pelas cortinas entreabertas que balançavam com a brisa leve que vinha de fora. Os primeiros raios de sol iluminavam o ambiente modesto, destacando os pôsteres desbotados nas paredes, as prateleiras cheias de livros e quinquilharias, e a cama bagunçada com o cobertor meio caído no chão. O som de pássaros cantando formava um contraste agradável com o barulho distante do trânsito da cidade, criando uma sinfonia cotidiana que, para Yuji, já se tornara tão comum quanto o próprio ato de acordar.
O alarme insistente do celular vibrava e tocava ao lado de sua cabeça, cortando o momento de serenidade. Ele estendeu a mão preguiçosamente, tateando o criado-mudo até encontrar o aparelho e desligar o som irritante. Ao abrir os olhos lentamente, piscando contra a luz que invadia o quarto, notou que o horário no visor já beirava o limite.
“Droga... de novo,” murmurou, enquanto passava a mão pelos cabelos bagunçados e se sentava na beirada da cama, os pés descalços tocando o chão frio de madeira.
Com um bocejo prolongado, Yuji se levantou, ainda meio sonolento, e saiu em direção ao banheiro compartilhado. A casa dos Itadori era simples, mas cada canto dela exalava uma sensação acolhedora. As paredes tinham um tom bege desgastado pelo tempo, adornadas por quadros e artesanatos escolhidos com cuidado por Uraume, sua tia, que tinha um talento especial para criar um ambiente rústico e elegante. O corredor estreito era decorado com pequenos vasos de plantas suspensas, que balançavam levemente ao ritmo da brisa matinal.
Ao entrar no banheiro, foi recebido pelo frescor de um ambiente limpo, com paredes brancas impecáveis e detalhes em azul-claro que davam um ar tranquilizador ao espaço. Yuji se inclinou sobre a pia, ligando a torneira para lavar o rosto com a água gelada que escorria. O choque refrescante o despertou de vez. Ele ergueu o olhar para o espelho, onde seu reflexo mostrava um rapaz jovem, com olhos ainda carregados de sono e cabelos curtos e espetados que insistiam em desafiar a gravidade.
“Hoje vai ser um bom dia,” disse a si mesmo, forçando um sorriso que parecia metade convicção, metade tentativa de autoencorajamento.
Com pressa, ele voltou ao quarto e pegou seu uniforme escolar, que estava cuidadosamente dobrado sobre uma cadeira próxima à cama. Vestiu-se em movimentos rápidos: a camisa branca impecável que Uraume lavara e passara com zelo, as calças escuras que sempre pareciam um pouco mais apertadas do que o necessário, e a gravata que, como sempre, ficou ligeiramente torta. Ele deu uma última olhada no espelho, tentando ajeitar o cabelo que teimava em não colaborar, mas logo desistiu.
Saindo do quarto, Yuji sentiu o cheiro reconfortante de comida fresca vindo da cozinha. O aroma de ovos e torradas misturava-se ao leve cheiro de café recém-passado, criando uma atmosfera caseira que fazia o estômago de qualquer um roncar. Ao chegar à cozinha, deparou-se com Sukuna, seu tio, trajando seu usual avental preto, enquanto preparava o café da manhã. O som ritmado da frigideira chiando era quase tão familiar quanto a expressão sempre séria no rosto de Sukuna, que contrastava com sua habilidade delicada e precisa ao cozinhar.
“Bom dia, Yuji,” disse Sukuna sem desviar os olhos da panela, enquanto girava habilmente o conteúdo da frigideira.
“Bom dia, tio Sukuna. Bom dia, tia Uraume,” respondeu Yuji, ainda ajustando a gravata enquanto caminhava até a mesa.
Uraume estava sentada, com uma postura impecável, tomando chá e lendo calmamente o jornal do dia. Ela ergueu os olhos, analisando o sobrinho com um olhar avaliador.
“Já está atrasado?” perguntou ela, com uma sobrancelha ligeiramente arqueada.
“Como sempre,” respondeu Sukuna antes que Yuji pudesse abrir a boca, entregando-lhe um prato com torradas douradas e ovos perfeitamente preparados. “Coma isso rápido. Você precisa de energia.”
Yuji sorriu agradecido, sentando-se à mesa enquanto Sukuna voltava ao fogão, onde mais uma panela estava no fogo. Ele começou a comer em grandes bocados, apreciando o sabor da comida feita com precisão quase profissional. Não era à toa que Sukuna era renomado na cidade; até o café da manhã mais simples preparado por ele parecia digno de um restaurante cinco estrelas.
Enquanto Yuji terminava sua refeição, o som de passos lentos na escada anunciou a chegada de Choso, seu irmão mais velho. Ele apareceu na cozinha ainda bocejando, os longos cabelos presos em um rabo de cavalo meio desajeitado e o olhar claramente preguiçoso.
“Você é sempre tão animado de manhã, Yuji,” zombou Choso, enquanto pegava uma xícara de café e se servia, sentando-se na mesa com um ar despreocupado.
“É porque eu não quero chegar atrasado, diferente de alguém,” retrucou Yuji, com um sorriso provocador.
A troca de interações entre os irmãos arrancou um pequeno sorriso de Uraume, que fingiu estar absorta no jornal. Sukuna apenas balançou a cabeça em um misto de exasperação e afeição, enquanto colocava a panela vazia na pia. O café da manhã era breve e cheio de conversas triviais. Sukuna, apesar de ser duro, tinha um carinho visível pelos sobrinhos, especialmente por Yuji, que o ajudava no restaurante. Antes de sair, Itadori pegou sua mochila, deu um rápido “tchau” e saiu pela porta, apressado. que todos tinham uns com os outros.
Yuji terminou rapidamente o café da manhã, levantando-se de repente ao perceber que o tempo estava ainda mais apertado do que imaginava. Ele pegou sua mochila, que estava encostada na cadeira próxima à porta, e correu até a entrada.
Yuji desceu as escadas em um ritmo frenético, sentindo a leve brisa da manhã em seu rosto enquanto começava mais um dia na sua rotina agitada.
O caminho para a escola era, para Itadori, uma das partes mais agradáveis da manhã. Apesar da correria para não se atrasar, ele sempre gostava de caminhar pelas ruas arborizadas que levavam ao colégio. As árvores altas, com folhas que dançavam ao vento, criavam uma sombra confortável que bloqueava os raios mais fortes do sol. O ar fresco da manhã, misturado com o leve aroma das flores que brotavam em pequenos jardins ao longo das calçadas, ajudava Yuji a despertar completamente. Ele andava com passos rápidos, a mochila balançando nas costas, mas com uma expressão tranquila no rosto.
Ao virar uma esquina, avistou Megumi Fushiguro, que já parecia estar esperando por ele a um tempo. Megumi estava encostado em um poste, com a mesma postura séria de sempre. Seu cabelo negro espetado que parecia desafiar a gravidade, refletia uma personalidade quieta, mas determinada. Ele usava seu uniforme escolar de maneira impecável, com a camisa bem alinhada e a mochila casualmente apoiada em um ombro.
“Você está atrasado,” disse Megumi diretamente, ajustando a alça de sua mochila e lançando um olhar avaliador para Itadori.
“Bom dia pra você também,” respondeu Yuji, rindo e tentando aliviar a tensão com sua habitual descontração.
“Se continuar nesse ritmo, vai acabar pegando detenção de novo. Utahime-sensei já deve estar de olho em você,” comentou Megumi, sem esconder a preocupação.
“Eu sei, eu sei,” disse Itadori, levantando as mãos em um gesto de rendição. “Mas, sério, você sabe como é. Meu tio insiste que eu tome café da manhã completo antes de sair de casa. Ele diz que ninguém pode enfrentar o dia de estômago vazio.”
Megumi apenas balançou a cabeça, emitindo um suspiro que parecia misturar exasperação e resignação. Ele já estava acostumado com as desculpas de Yuji, que sempre encontrava uma maneira de "culpar" alguém – ou alguma coisa – por seus atrasos.
Os dois continuaram o caminho juntos, o som de seus passos misturando-se ao canto dos pássaros e ao murmúrio distante do trânsito. Enquanto andavam, conversavam sobre assuntos triviais, como os jogos que planejavam assistir no fim de semana ou os trabalhos escolares que estavam acumulados. Megumi, como de costume, era mais reservado, respondendo de maneira curta, mas Yuji compensava com seu entusiasmo contagiante.
Quando finalmente chegaram ao portão da escola, Yuji soltou um suspiro de alívio, como se tivesse superado um grande obstáculo. Ele olhou ao redor, analisando cuidadosamente o ambiente.
“Parece que hoje vai ser tranquilo,” comentou ele, com um leve sorriso, enquanto seus olhos varriam o pátio em busca de um rosto específico.
“Você realmente vive com medo dela, não é?” perguntou Megumi, arqueando uma sobrancelha e cruzando os braços.
“Ela é assustadora, Megumi! E você sabe como é... meu tio Sukuna vive dizendo que a gente precisa tratar bem as mulheres. Então, mesmo quando ela me provoca, eu não posso revidar. Não quero levar bronca em casa,” justificou Yuji, com um tom dramático que arrancou um pequeno sorriso de Megumi.
Megumi não respondeu, mas o olhar de leve diversão que lançou a Yuji deixava claro o que pensava, não ele achava toda a situação hilária, era apenas divertido a forma como dramático Yuji era.
Ao entrarem no prédio da escola, o corredor estava movimentado com alunos que se organizavam para o início das aulas. Yuji e Megumi caminharam até a sala de aula, e Yuji foi direto para o seu lugar habitual, largando a mochila com um suspiro. Ele olhou em volta novamente, como se esperasse que aquela pessoa surgisse de repente para transformar sua manhã pacífica em um campo de batalha verbal. Mas, para sua sorte, ela ainda não havia chegado.
Enquanto esperava, Megumi sentou-se ao lado dele, tirando calmamente seu caderno e caneta da mochila. Yuji, por outro lado, apenas recostou-se na cadeira, olhando distraidamente para fora da janela. As árvores do lado de fora balançavam suavemente ao vento, e o brilho do sol iluminava os campos ao redor da escola. Por um momento, ele se sentiu em paz, quase esquecendo que logo teria que enfrentar mais um dia de aulas.
A calmaria foi interrompida quando a porta da sala se abriu, e a professora Utahime entrou, carregando uma pilha de livros que parecia um pouco pesada para sua baixa estatura. Ela andava com passos firmes, equilibrando os livros com cuidado, mas sua expressão deixava claro que estava pronta para começar o dia com seriedade.
“Bom dia, classe,” disse ela, pousando os livros na mesa com um leve estrondo e olhando ao redor. Apesar de sua aparência jovem, Utahime era conhecida por ser rigorosa e não tolerar nenhuma forma de desleixo.
Yuji endireitou-se na cadeira, tentando parecer atento. Ele sabia que, se fosse pego distraído logo de manhã, Utahime não hesitaria em fazer um comentário que o deixaria sem jeito na frente de toda a turma.
‐--------------------------------------------
O ambiente na sala de aula era calmo, mas carregado com a concentração dos alunos enquanto Utahime-sensei finalizava sua explicação. À frente do quadro-negro, ela escrevia uma fórmula complexa com uma precisão quase artística, ajustando o caderno que segurava com a outra mão. Embora sua voz fosse firme, havia um tom mais leve, talvez um esforço para manter os alunos engajados apesar do evidente cansaço que pairava no ar.
“Lembrem-se,” repetiu ela, apagando uma parte do quadro com movimentos ágeis, “essa fórmula será essencial para a prova da próxima semana. Se tiverem dúvidas, é melhor me procurarem antes do dia da avaliação. Não quero ouvir reclamações de que eu não avisei.”
O som do sinal irrompeu de repente, ecoando pelos corredores e rompendo a bolha de concentração que havia na sala. Alguns alunos, aliviados, começaram a guardar seus materiais antes mesmo de Utahime terminar de falar. Ela suspirou, visivelmente exasperada, mas resignada.
“Estão dispensados,” disse ela, cruzando os braços e olhando para a turma com uma expressão séria. “E, por favor, façam a tarefa de casa. Não estou brincando.”
Yuji soltou um suspiro de alívio. Ele rapidamente enfiou seus cadernos na mochila, quase de qualquer jeito, ansioso para sair dali. "Vamos Megum-" ele se interrompeu quando notou que seu amigo ja não esva mais ali na carteira ao seu lado. "As vezes acho que ele é uma sombra." Comentou para si mesmo enquanto se levantava da carteira.
Os intervalos eram suas pausas favoritas, uma chance de relaxar e socializar antes de encarar o restante das aulas. Ao sair da sala, Yuji caminhou pelos corredores movimentados, cumprimentando alguns conhecidos com um sorriso despreocupado. Ele logo avistou Megumi encostado em uma parede ao lado de Toge Inumaki. Toge mantinha sua expressão calma e misteriosa, como de costume. Seus cabelos curtos e claros eram ligeiramente desalinhados, mas isso parecia apenas reforçar seu charme peculiar. Embora não usasse palavras para se comunicar devido à sua condição vocal única, Toge era incrivelmente expressivo. Seus gestos e olhares eram suficientes para transmitir tudo o que queria dizer.
“Ei, Megumi! Inumaki!” chamou Yuji, acenando enquanto corria até eles.
Toge levantou uma mão em resposta, acompanhando o gesto com uma rápida sinalização que Yuji entendeu como um cumprimento casual. Megumi, por outro lado, apenas inclinou levemente a cabeça, mantendo sua típica seriedade.
Yuji acelerou o passo, ansioso para se juntar aos amigos, mas sua corrida foi subitamente interrompida por algo que bloqueou seu caminho. Antes que pudesse entender o que estava acontecendo, tropeçou e caiu desajeitadamente no chão, apoiando-se nas mãos para amortecer o impacto. A dor foi imediata, ardendo nas palmas de suas mãos. Ao fundo, risadas ecoaram, e ele não precisou olhar para saber quem era.
“Você é um desastre, Itadori,” disse uma voz conhecida, carregada de provocação.
Ele ergueu os olhos para encontrar Kugisaki Nobara parada diante dele, com os braços cruzados e um sorriso vitorioso estampado no rosto. Seu uniforme escolar estava impecável, assim como seus cabelos curtos e perfeitamente arrumados. Havia algo em sua postura confiante que sempre fazia Yuji hesitar, mesmo que ele soubesse que ela estava ali apenas para provocá-lo.
“Você podia ao menos prestar atenção por onde anda,” continuou ela, batendo a ponta do pé no chão como quem reforça uma lição.
“Eu... foi você que colocou o pé no caminho!” protestou Yuji, ainda tentando se levantar.
“E daí?” Nobara deu de ombros, seu sorriso se alargando. “Se você fosse mais esperto, teria desviado.”
Yuji suspirou, finalmente se colocando de pé e limpando a poeira de seu uniforme. Ele sabia que discutir com Nobara era inútil. Ela tinha uma língua afiada e, pior ainda, adorava usar isso contra ele.
“Agora, vamos ao que interessa,” disse ela, estendendo a mão. “Você sabe o que eu quero.”
“De novo isso, Nobara?” Yuji tentou argumentar, mas o olhar dela deixou claro que não havia espaço para negociação. Ele abriu a carteira com relutância e retirou algumas notas, entregando-as enquanto murmurava algo inaudível. Nobara pegou o dinheiro com um sorriso satisfeito, contando-o rapidamente antes de guardá-lo.
“Isso é tudo? Você realmente precisa de um trabalho melhor,” provocou ela antes de virar-se para ir embora. “Até amanhã, Itadori.”
Enquanto ela se afastava, Yuji soltou um suspiro pesado, observando-a desaparecer entre os outros alunos. Ele se aproximou de Megumi e Inumaki, que o encaravam em silêncio.
“Por que você simplesmente não denuncia isso para a diretoria?” perguntou Megumi, com sua típica expressão séria, ele achava um pouco engraçado os dramas de Yuji mais odiavar ver seu amigo nessa situação. “Eles poderiam fazer algo.”
Yuji balançou a cabeça, passando a mão pela nuca. “E o que eles fariam? Nobara é popular, sabe como fingir ser a vítima. Além disso...” Ele hesitou, procurando as palavras certas. “Não vale a pena complicar as coisas. Prefiro evitar confusão.”
Toge fez um gesto breve que Yuji interpretou como 'Isso não é saudável, cara.'
“Eu sei, eu sei,” respondeu Yuji, tentando disfarçar com um sorriso, mesmo que estivesse claro que a situação o incomodava. “Mas está tudo bem. Não quero causar problemas.”
Megumi suspirou, balançando a cabeça em desaprovação, mas decidiu não insistir. Eles começaram a andar juntos pelos corredores, mudando o assunto para algo mais leve. Apesar da tensão do momento anterior, Yuji sabia que podia contar com seus amigos para aliviar o peso de situações como aquela.
Yuji, Megumi e Inumaki caminharam pelos corredores movimentados da escola, conversando de forma descontraída enquanto o intervalo os chamava para um breve descanso. O som de risadas, conversas e passos apressados preenchia o ambiente, criando uma energia vibrante e familiar. Apesar do incidente recente com Nobara, Yuji já havia deixado isso para trás. Estar ao lado de seus amigos sempre parecia transformar qualquer dia ruim em algo suportável, até mesmo divertido.
