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Português brasileiro
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Published:
2025-01-21
Words:
1,289
Chapters:
1/1
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7
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22
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116

A Origem dos Nomes

Summary:

"Porque eles surgiram de uma dança conjunta e assim sempre seria. A Morte tomava da Vida, e a Vida criava para a Morte. A Morte criou o Jardim das Almas e a Vida, para facilitar seu trabalho, inventou os Nomes para que assim soubesse quem é quem."

Work Text:

Vinha na aurora tão terna e tão doce uma mulher, arrastando os pés despidos na grama úmida e deixando que a pele pálida fosse tocada pela grama crescida. Quem era? De onde viera? Pouco importava. Naquele lugar, naquele tempo, antes de Cronos engolir os filhos e lamber os dedos, isso era tão irrelevante quanto a origem das dores. Sabia-se o básico; era uma mulher que cruzava a selva somente ao amanhecer, despida de qualquer prazer. Com olhos em formato de jabuticaba e a boca caída em uma meia-tristeza nunca realmente condenada. Era isso. Somente isso.

Como de costume, sentava em frente ao Lago da Vida e observava, entediada, a humanidade respirar. Eram ainda inexperientes, batendo pedras para descobrirem chamas, e batendo a cabeça para se tornarem gente. Uma mãe segurava a criança em um cesto cruzado, um pai caçava desavisado. Naquele momento, muitos morriam - mas não pareciam, isso jamais. Pois quando o Sol sumisse, então Ela aparecia e os tomaria em braços gélidos, viciados em despedidas.

Mas, não agora. Agora, ela sentava em cima das pernas e apenas observava, não tão atenta quanto deveria, não tão desapegada quanto poderia.

Então, quase de súbito, cruza ao seu lado um homem. Andava descompromissado, trajando o bem polido terno branco - exagerado demais para o seu gosto -, com as mãos enfiadas no bolso. Ele sentou nos calcanhares e dividiu a visão entre o lago e ela, ela e o lago. Sua presença não anunciada pouco a assustou, porque o medo não corria em suas veias desde o nascimento. Maldição.

— Tá ‘vidradona nisso aí, né, minha querida? — ele disse, esbanjando um sorriso vitorioso. Sempre ganhava, afinal.

— Não muito, na verdade. Mas eu gosto de assistir eles, não têm nada melhor para fazer — deu de ombros.

— Pô, daí é mentira. A galera tá te esperando faz mó cota, Mortinha.

A Vida se comunicava de maneira cômica. Por saber do futuro, conseguia pegar hábitos antes mesmo de existirem; gírias, costumes, objetos. Ele era genuinamente apegado naquilo, uma válvula de orgulho para si mesmo. Ela, por outro lado, não tinha nada para pegar. A Morte olhava unicamente ao passado — os antepassados estavam mortos, bisavós não seriam lembrados eventualmente. Tendia a ficar no esquecimento. Por isso mesmo, evitava se reunir com os outros deuses. Eles, não tão superiores quanto, a olhavam com certo desdém e tristeza. Não importava a nova invenção, a Morte tomaria para si. Pereceria, envelheceria. Uma guerra nova não teria vitoriosos quando o Rei fosse enterrado, nem mesmo um animal recriado, ou um amor inovador.

Menos a Vida.

Insuportável demais para se misturar com a maioria.

— Gosto daqui — respondeu depois de um tempo — Mas, nada te impede de ir até eles. Você é o ‘grande sucesso’ da vez’, sempre.

Ele hesitou por um tempo. Seus olhos procuraram naquela figura caída algum sinal de inveja ou desdém, porém, nada encontrou. Era honesta — até demais —, mas não invejosa.

— Não posso me juntar sem a minha companheira de dança.

O silêncio reinou entre eles. Invenção da Morte, por sinal, o silêncio. Ela deitou a cabeça nos próprios joelhos pontudos e ele resolveu sentar-se de vez, enfiando os pés no Lago da Vida. A imagem ficou embaçada por alguns instantes e, quando retornou tão translúcida quanto antes, mostrava um nascimento falho. A criança nascera morta. A mãe morrera ali, em meio às pedras também. O homem segurou-a no colo, gritou. Gritou e sentiu o eco acompanhar a dor, porém, ninguém veio. Só viria de noite, e nem mesmo o pobre viúvo poderia ver — despedida fora inventada pela Vida, infelizmente.

— Eles inventaram algo ‘daora hoje, sabia? — A Vida disse depois de um tempo, ainda com aquele sorriso.

Sorriso típico e nada disfarçado, mas que ainda magoava a mulher. Como podia ser tão gentil quando a via tomando tudo que criara? Não importava se era algo inocente ou não, colocaria nos braços e partiria para outro plano. E lá estava ele, o criador de tudo, a existência das larvas e micróbios, sorrindo simpático com olhos entregues ao prazer de respirar.

— Lá vem — A Morte sussurrou depois de um tempo, virando-se para encará-lo melhor — Qual é da vez?

— Se chama “nome”. É dado quando se ama algo que anseia cuidar, então não pode ser esquecido. Porque tem um nome.

Não pode ser esquecido.

— Parece idiota — resmungou — Eventualmente, eles esquecem. Pintam as pedras e esquecem onde deixaram as artes, não vão esquecer disso? Eles são idiotas.

— Talvez.

Ambos voltaram a assistir o desenrolar. Em outro lugar do mundo, uma mulher enfrentava um urso e, por incrível que fosse, conseguiria sobreviver. Não por sorte, mas por força. Os dedos finos agarraram o olho da criatura e o furaram, para depois sacar a faca de pedra que carregava consigo e enfiar no estômago do animal. Do corte saía tripas e órgãos, sujando o terreno fértil e servindo de mais adubo.

— Eu te chamaria de Elizabeth — continuou, não se importando quando a humana em questão fora morta logo depois por flechadas na cabeça — Elizabeth, a Morte.

— Eu não preciso ter um nome, não vou ser esquecida.

— Mas não funciona assim, minha querida — ele riu, estalando os dedos — Eu tenho carinho por você, então te dou um nome.

— Então é um idiota.

— Talvez.

Elizabeth. Era uma palavra esquisita. De onde viera? Por que surgira? Uma junção de letras antes nunca escutadas brincava em sua mente, deslizava pela imaginação. Elizabeth. Elizabeth. Elizabeth. Repetiu algumas vezes para si mesma, não demonstrando interesse por fora. Eliza. Beth. Beth. Eliza. Então a chamariam assim ao invés de Desgraça? Mau presságio? Ordinária? Não sabia se gostava daquela ideia. Preferia as ofensas, pareciam afastá-la dos outros e era melhor assim.
Olhou de soslaio a Vida, relaxada, sem nome ainda. Poderia nomeá-lo também? Não, porque isso significava ter afeto, e como poderia? Quem achava que era para isso? Iria estragá-lo, amaldiçoá-lo. Nunca daria uma paz aquele homem caso o tocasse de fato.

— Eles acham que você é otária — A Vida continuou — mas, eu não. Eu acho que se não fosse por você, então tudo aqui nessa merda seria um saco — gesticulou para o cenário todo. Desde o Sol claro até as árvores com copas marrons — Qual a graça de criar tudo para sempre? Só por sua causa eles aprendem, o medo faz eles pensarem. Agirem. Se agarrarem. Eu gosto disso. Eles não entendem que nós surgimos juntos, em uma daç-

— Thiago — a palavra escorreu pelos seus lábios.

Thiago.

— Que foi?

— Thiago — repetiu — é o nome que eu quero te dar, meu querido — disse o apelido íntimo quase de maneira irônica.

Ele piscou surpreso por alguns instantes antes de alargar ainda mais o sorriso, mostrando os dentes tão perfeitamente alinhados e, ironicamente, um pouco amarelados. Elizabeth retribuiu o ato um pouco contrariada do gesto, claramente desacostumada.

— Você vai amar quando eles inventarem uma coisa chamada: “Palavrão”, sério — ele se ajeitou na grama, um pouco mais agitado que de costume. Movia as mãos para lá e para cá enquanto falava — A sua cara.

— Palavrão?

— É! Tipo, porra, caralho, etc.

— Não faço ideia do que você tá falando.

— Você nunca faz, minha querida — piscou.

E, naquela manhã, a Morte e a Vida criaram a origem do nome. Nenhum humano antes tinha feito, fora apenas uma mentira caprichosa do companheiro dos humanos, para conseguir colocar uma aliança ainda não inventada naquela mão tão pálida. Nome, essência, paixão. Eram conceitos ainda não definidos, mas muito presentes.

Porque eles surgiram de uma dança conjunta e assim sempre seria. A Morte tomava da Vida, e a Vida criava para a Morte. A Morte criou o Jardim das Almas e a Vida, para facilitar seu trabalho, inventou os Nomes para que assim soubesse quem é quem.

Elizabeth era de Thiago.
E Thiago de Elizabeth.

Antes mesmo de inventarem o ato de pertencer.