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só ouço sussurros

Summary:

Não é vento algum. Ele consegue ver agora. Todos os rostos. Olhos que ele viu escondidos por trás de capacetes, lado a lado no campo de batalha. Iluminados de alegria após uma guerra vencida, enquanto se dividiam em uma frota de doze navios. Não há vida atrás deles, não mais. Eles se fundem uns aos outros, centenas deles, buscando algo com mãos desesperadas. Implorando. Gritos rasgam suas gargantas encharcadas. A visão arrasta o ar dos pulmões de Euríloco.

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The Underworld, na visão de Euríloco.

english version here!

Notes:

traduzi essa minha fic para que vocês jorgetes possam ler também ❤️ me perdoem se tiver mil erros, acabei de terminar e já estou com dor de cabeça 😭

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

A nau desliza para o mar com facilidade. Um vento favorável empurra as velas e as ondas se desfazem em espuma quando alcançam à costa — nenhuma força por trás delas. Dói-lhe confiar que eles poderiam encontrar uma costa tão calma, com tudo que já haviam enfrentado dos oceanos. Mas Euríloco não pode negar a influência de Eeia ou sua feiticeira. Deuses e seus truques. Como se não tivessem lidado o suficiente com isso.

Os remadores reconhecem o sinal, e logo eles estão velejando.

Euríloco lança um olhar por cima do ombro. É uma ação praticada — contar as embarcações da frota, observá-las enquanto navegam para longe. Ele não encontra nenhuma delas. Seus olhos deslizam sobre uma longa porção de areia dourada.

Ele firma as mãos sobre a grade do navio.

Ninfas se escondem na praia, espiando por trás de penhascos e pedras ao longo da costa, observando-os curiosamente. Circe, rainha delas, acena para a nau da beira do mar, enquanto a água bate em seus pés. O sol transforma seu cabelo trançado em ouro, e um sorriso brinca em seus lábios. Seria o suficiente para encantar qualquer outro homem.

Ainda assim, aqueles olhos brilhantes não cativam mais nenhum membro da tripulação. Aqueles que ficaram no navio certamente ouviram as histórias de seus companheiros, e os outros, cujas vozes ela havia reduzido a guinchos, recuam diante de sua presença.

Euríloco não pode culpá-los. Se seu capitão não tivesse adentrado o palácio, fortalecido por ajuda da qual ele não ousa falar, eles permaneceriam porcos.

Se fosse pelas ações de Euríloco, teriam sido servidos em uma bandeja como ceia.

O olhar de Circe o segue enquanto eles se afastam da praia. Euríloco engole em seco, virando-se para o outro lado.

Ele encontra Odisseu na extremidade da embarcação. Ele está de costas, seus ombros encolhidos, e, a esta altura, seu cabelo já cresceu o suficiente para cobrir seu rosto de vista. Apesar disso, conforme Euríloco se aproxima, ele vê dedos calejados tamborilando sob a haste da proa. Um movimento inquieto, mas calculado. As palmas de Odisseu são ásperas, mas isso não é consequência do punho de uma espada. Anos entalhando madeira cobraram seu preço. Mesmo que já se passaram os dias em que Euríloco poderia encontrá-lo com um bloco e uma faca na mão, esculpindo.

Odisseu se vira quando Euríloco chega ao seu lado, seus olhos voando para ele em um instante. Ainda tão afiados como sempre, embora não possuam o brilho prateado que já uma vez tiveram. E apesar das crescentes suspeitas de Euríloco sobre o porquê, nenhum deles aborda o assunto. Odisseu nunca pareceu tão humano, e nunca pareceu tão distante.

Seu capitão inclina a cabeça. É uma pergunta, mas o gesto carrega também um senso de advertência. A língua de Euríloco pesa como ferro em sua boca, de repente.

Algo lhe diz que a paz entre eles é tensa como uma corda estendida, e Odisseu está tão ciente disso quanto ele.

Não disposto a puxá-la até se romper, ele permanece em silêncio. Seu senso de oportunidade nunca foi aguçado, ou assim diz o restante da tripulação. Os dedos de Odisseu param na haste, mas ele não o pressiona. O navio flutua pelo mar, ligeiro.

Comparado a tudo que já haviam encarado, não há muito de estranho na viagem. Nada que justifique sua atenção imediata. Euríloco quase conseguia esquecer o destino. Isto é, até a luz do sol no horizonte começar a escurecer.

Acontece rápido demais para ser natural.

Névoa se arrasta a bordo, erguendo-se do oceano. A embarcação tropeça na água, como se pesasse o dobro. Um arrepio percorre por seu corpo.

— Capitão? — sussurra Euríloco, para evitar causar alarme.

Odisseu continua na proa por mais um momento, e então se endireita e passa por Euríloco. Ele limpa a garganta, capturando a atenção da tripulação.

— Amigos — diz Odisseu. Sua voz carrega um tom sombrio, mais baixa que o normal — Não se esqueçam das instruções de Circe. Devemos velejar pelo submundo até encontrarmos o profeta.

O capitão se vira para o mar, de queixo erguido.

— Fiquem alertas, não importa o que ouçam, ou quem encontrem.

Como se comandado pelo discurso de Odisseu, a navio arremessa para a esquerda com um tranco abrupto. Euríloco bate de costas na grade, e um silvo escapa por seus dentes cerrados. Ele tenta recuperar seu equilíbrio, mas uma escuridão repentina irrompe em sua visão. A água se choca contra o casco. Em um turbilhão, o navio pende para o lado.

Ele ofega por ar, uma ação da qual se arrepende quase instantaneamente. Porém, ao agarrar sua garganta, ele descobre que água não veio inundar seus pulmões — e quando cambaleia para trás, seus passos ressoam ocos contra as tábuas de madeira. Euríloco olha para as velas e para, desorientado. A embarcação está… de pé. Eles estão no mesmo curso, como se o mar tivesse desembocado em um rio largo e sinuoso. Uma grande caverna, denteada por pedras, projeta sombras no convés. A água abaixo brilha com uma luz verde sobrenatural.

Assombroso, para dizer o mínimo — mas permite que eles vejam novamente.

A nau cai em um silêncio inquietante, flutuando no lugar como uma folha em um lago. Os homens trocam olhares assustados entre si. Suas mãos permanecem nos remos, hesitantes. Como se apenas as palavras de Odisseu os mantivessem no lugar.

Ver eles tão perdidos é o suficiente para incitar Euríloco a agir.

Deixando seus próprios medos de lado, ele reúne seu juízo e, com um breve aceno para Odisseu, direciona sua atenção para a tripulação. Ele reforça as ordens do capitão e encoraja os remadores a voltarem a sua tarefa. Para os outros, espalhados pelo convés, ele divide afazeres. O suficiente para mantê-los ocupados — e, se possível, desviar suas aflições. Eles prontamente aceitam a distração.

A maioria deles, em todo caso.

Perimedes se demora perto do mastro, um emaranhado de cordas pendurado em seus braços. Ele mal percebe Euríloco se aproximar, concentrado enquanto desfaz um nó. Suas sobrancelhas franzem em frustração, e ele encara o nó como se tivesse o injustiçado de alguma forma. Sua mente está em outro lugar, claramente. Carregada de preocupação, como estava desde a manhã, mesmo antes de embarcar no navio.

Algo aconteceu na noite anterior, qualquer um poderia ver. Mas quando questionado, Perimedes evitou o assunto de qualquer modo.

Euríloco suspira. Melhor deixá-lo em paz.

Navegar pelo rio é um esforço de equipe. Embora fosse largo o suficiente para velejarem por ele, seus caminhos são tortuosos. As direções que eles receberam são, no mínimo, confusas. Os vigias têm muito o que fazer.

Não permanece calmo por muito tempo.

Um estrondo, fraco mas perceptível, ecoa pelas paredes da caverna — só isso já seria preocupante. Mas o que segue reverbera pela água, com vigor o bastante para fazer o navio tremer. Gritos — um coro deles. Euríloco se arrepia. Vislumbres de luz piscam dentro e fora de foco, como relâmpagos. A corrente balbuciante se transforma em ondas que atingem e arrastam o casco.

É mais como um mar inflexível do que um rio. Familiar. Uma sensação de pavor afunda em seu peito.

Euríloco avista Odisseu curvado sobre a grade — segurando-a com tanta força que seus dedos se tornaram pálidos. Um sino toca, um som ressoante ao redor deles, e os olhos de Odisseu se arregalam. Ele tenta alcançá-lo, mas uma onda se levanta antes. O navio cambaleia para o lado, e Euríloco se choca contra o convés, suportando o peso da queda em seu braço. Um raio de dor atinge seu ombro.

Com um gemido, ele se levanta, mas mal consegue ficar de pé antes que um vendaval violento e repentino o atinja. Está longe de ser natural. Uiva ao redor dele, desequilibrando-o, e ele tropeça cegamente enquanto tenta alcançar sua espada — sem sucesso. Euríloco grita para a tripulação, que se torna um borrão diante de seus olhos cerrados, mas sua voz se desfaz no ar. O vento carrega o poder de uma tempestade inteira.

Euríloco congela.

Ele quase consegue sentir, em suas mãos. Seus dedos se contorcem sob um nó, frouxamente amarrado, com apenas um puxão ele poderia—

Não é vento algum. Ele consegue ver agora. Todos os rostos. Olhos que ele viu escondidos por trás de capacetes, lado a lado no campo de batalha. Iluminados de alegria após uma guerra vencida, enquanto se dividiam em uma frota de doze navios. Não há vida atrás deles, não mais. Eles se fundem uns aos outros, centenas deles, buscando algo com mãos desesperadas. Implorando. Gritos rasgam suas gargantas encharcadas. A visão arrasta o ar dos pulmões de Euríloco.

Nenhum deles grita por ele. Eles não saberiam.

Um cordão envolve seu polegar.

Capitão! CAPITÃO!

Os sussurros o alcançam à espreita, seria fácil perdê-los. Ele não consegue os ignorar. Serpenteiam em seus ouvidos, ressoam em seus ossos, mais claros que qualquer grito.

Por quê? eles clamam, um tom tão triste quanto é acusador. Por que você duvidou dele?

Eu…

Você não podia ter confiado nele?

Ele dá um passo para trás, ombros tremendo, apenas capaz de olhar fixamente para os espíritos que o envolvem em uma tempestade de vento. Euríloco não ouve mais nada. Eles não o encaram de volta.

Eles estão em agonia.

Você fez isso. 557 mortes em seu nome. Você, você, você—

Parem — Um apelo fraco. A voz de Euríloco está rouca, ele mal a ouve. — Parem.

Nem o vento nem os sussurros cessam. Apertar as mãos sobre seus ouvidos não ajuda. Talvez sua mente tivesse finalmente se desfeito, após tantos anos longe de casa. Ele se dobra sob a força do vendaval, sua visão embaçando.

Com seus esquemas ardilosos, Odisseu os liderou por uma década de guerra. Ele teceu a queda de Troia em um manto de mentiras. Sábio entre reis, assim contaram. 600 homens e nenhuma morte entre eles. Um feito tão impossível que quase soa ridículo — e ainda assim.

Sua sagacidade é uma arma em suas mão. Atinge mais fundo que qualquer lança ou flecha poderia. Como condizente com um homem abençoado por deuses, Euríloco supõe. Onde isso o deixou agora.

A sua língua afiada não pôde salvar todos, dessa vez. Seus planos podiam custar-lhes a vida. Valeria a pena, para ele? Ele poderia pagar o preço?

Euríloco suportaria ver isso?

Odisseu, que carregava o formato do seu segundo lar nas palmas de suas mãos. Sua Ítaca, longe no mar. Que simplesmente não o escutava, se já tivesse um plano em mente. O enigmático, orgulhoso, divino Odisseu.

Como ele podia ter fé em suas apostas?

Sua palavra não foi o bastante? Devia ter confiado em seu capitão.

Euríloco se lembra. Por dias, Odisseu andou pelo navio como uma sombra, murchando sob o efeito da falta de sono. Ele respondia a qualquer pergunta com palavras duras. Sempre alerta, sempre cauteloso.

A tripulação pensou que havia enlouquecido. Euríloco passou a se preocupar.

Tinha de ser um truque, ele pensou. Outra punição enviada para eles.

No final, seu capitão não foi nenhum tolo. E o resto deles pagou pelo erro de Euríloco, um oceano de distância de sua terra natal.

Por que, por que, por quê? Por que você abriu a sacola de vento, Euríloco?

Não tinha como ele saber. Mas isso pouco importa. Ele os levou ao massacre do mesmo modo.

Seu coração bate forte a cada golpe do vendaval contra a sua pele. Almas, almas deles, se contorcem ao seu redor, clamando, puxando-o para baixo, e então — por um momento — há silêncio. Ele afasta as mãos da cabeça. Uma figura, banhada em sombras, caminha ao longo da proa. Odisseu. Euríloco se levanta antes que possa evitar.

Seu capitão tenta alcançar algo além da haste, seus dedos pairam em mínima distância de uma luz brilhante. Uma voz familiar flutua pelo ar.

Polites… — murmura Euríloco.

Ele corre em direção a eles — tenta, mas em um único instante o vento chicoteia de volta com força total. Prende o seus membros no lugar, o arrasta para trás não importa o quanto lute para se mover. Odisseu e Polites desaparecem de seu campo de visão. Os sussurros rugem no fundo de sua mente. O tempo se desenrola até que ele perde a noção total dele. Não consegue escapar.

Você podia estar em casa. Todos eles podiam estar em casa.

Você causou isso.

Todas essas almas, perdidas, forçadas a vagar.

Você, você, você, VOCÊ—

Eu deveria ter escutado.

Ele cai, como uma marionete com as cordas cortadas. Seus joelhos se chocam contra as tábuas de madeira, seu peito arfa com respiros rasos. O vento se foi. Suas mãos ainda tremem.

Baixo em meio ao zumbido de seus ouvidos, Euríloco escuta Odisseu falar.

— Irmãos — ele diz, distante. — Atraquem o navio, encontramos o profeta.

Euríloco levanta a cabeça. As palavras do capitão atravessam a névoa que paira sobre a nau, e a tripulação é rapidamente colocada em movimento. Seus olhos seguem Odisseu enquanto ele atravessa o convés, e antes que Euríloco perceba, já está indo atrás dele.

Odisseu para de repente, e o imobiliza com um olhar só.

— Fique — É tanto um apelo quanto uma ordem. — Certifique-se que estamos preparados para a viagem de volta.

Euríloco morde a língua e concorda. Já perdeu a força para duvidar dele. Seu capitão desce do navio como uma brisa. Um espírito por si só. Sua capa vermelho-sangue se torna um borrão além dos campos do submundo.

Murmúrios se espalham pelo navio enquanto ele vai — tingidos de medo e angústia. Os homens se amontoam ao redor do convés, inquietos. A maioria deixou seus postos.

Os fantasmas do passado assombram a todos, ao que parece.

Ainda assim, Euríloco ouve palavras leves e reconfortantes ao meio dos sussurros. Eles buscam uns aos outros. Como se sua companhia fosse o único alívio da desesperança. Talvez haja algo admirável nisso. Mesmo com tudo o que perderam, ainda estão aqui.

Euríloco encontra um odre de água e senta-se no chão ao lado de Perimedes, cujo rosto está pálido. Seus olhos desfocaram, e ele enterra os dedos no cabelo, tenso. Quando ele abre a boca, nenhuma resposta vem, como se estivesse cravada em sua garganta. Mas ele bebe a água quando Euríloco o incita. Ele permanece com Perimedes até que seu tremor diminua.

Depois que todos se acalmaram, a tripulação segue as suas instruções e começa a preparar os suprimentos. Euríloco observa-os de perto, porque a jornada foi desgastante para todos, sim, mas também porque uma parte dele, por mais tola que fosse, temia que pudessem desaparecer se assim não fizesse.

42 homens sob seus cuidados. Eles já enfrentaram perdas o suficiente.

Euríloco honraria sua confiança agora. Ele tinha que honrar.

Notes:

o perimedes teve o pior dia da vida dele no fundo dessa fic. talvez um dia eu escreva outra contando os detalhes, mas acho que todo mundo já sabe quem ele viu lá :') rip elpenor não te esquecerei