Work Text:
"Dentro de minha cabana, era escuro, úmido e desconhecido, mesmo que eu já tenha passado horas aqui dentro... estava tão escuro e eu quase não reconhecia o que tinha a minha frente, por isso tateei desesperadamente o lado de fora, a porta se abriu me mostrando..."
- Uma praia clara, como se o sol estivesse logo ali e um horizonte límpido como se copiasse o céu, mas os meus cabelos foram varridos pelo vento me forçando a fechar os olhos, e a paisagem então estava colorida de tons de lilás e a minha frente... – Leah começou a ler em voz alta, mas antes que ela pudesse finalizar o que estava lendo o papel foi agarrado rapidamente por Elliott impedindo que uma amiga completasse.
- Leah!
- Elliott. – apontou para ele enquanto segurava dois copos de cerveja nas duas mãos, sugeriu o homem tirar o papel de perto de seu alcance, mesmo que ela não fosse tentar tirar dele, pois suas mãos estavam ocupadas, ele continuou a dobrar o papel com o rosto tingido de vermelho, enfiou em um bolso e pegou hesitante o copo da mão da amiga. Leah se sentou a sua frente e começou a beber e ele também começou, relutante, com o rosto ainda vermelho. – O que foi? Não vai me falar que essa altura e com vergonha de me mostrar o que você escreve? Pensei que eu deixaria ler.
- Outras coisas, sim, Leah... isso não...
- Por que não?
- ...
Elliott fez beicinho na direção dela. Leah arfou depois de dar várias goladas em seu copo, estava quase no fim dele.
- Não estava ruim, é do seu livro? É qual personagem?
- Não, não é do meu livro... eu só estou colocando as coisas no papel para que elas esvaziem na minha mente.
- Bem poético.
- A poesia é mais pesada, por isso uso ela para deixar minha cabeça mais leve.
Leah arqueou as sobrancelhas com a fala e apenas disse:
- Entendi... desculpe, ainda não estou acostumada a lidar com escritores!
- Para com isso, é apenas um hábito...
- Frases de efeito é um hábito?
- Sim, quando você é escritor, é quase viciante...
- Hurumm... – deram mais duas goladas na cerveja – e então, vai me falar sobre o que são esses pensamentos, ou vão ficar apenas no papel?
- Ahrg... nem sei se prefiro eles ou outros, digo acho que esses são melhores, se os meus problemas eram apenas estes, acho que estaria bem mais feliz, enquanto os outros...
- Quais são os outros?!
- ...estou ficando sem dinheiro.
Ela fez uma careta, afinal, não é como se ela saiu espetacularmente bem em suas finanças, mas sabia que para Elliott era pior.
- Tão ruim assim?
- Não, quero dizer... já estava ficando ruim, então liguei para um amigo da cidade, Devon, ele é ótimo, sinto falta de falar mais com ele. Quando ele me perguntou se estava bem, ele me disse para ser sincero, então disse que minha situação financeira estava ficando ruim novamente, foi quando ele me disse que um conhecido político dele disse a ele se ele conhece algum escritor...
- Opa, opa, opa! Pode parar, eu já sei onde isso vai dar! Elli, é sério? Escritor fantasma de novo?
- Que opção eu tenho, Leah?! – olhei para ela com um pouco de desespero, fazendo ela notar que Elliott estava com olhos bem grandes debaixo dos olhos, mesmo o cabelo ou as roupas não estava caprichadas e bem postas, como ele costuma fazer. O cabelo estava preso, o que lhe cabia bem, mas ela notou que estava embaraçada, as roupas estavam meio amassadas, além do olhar angustiado e cansado. Ela o olhou preocupada, fazendo-o relaxar a expressão: - Olha, Leah, eu tenho que dizer que... por mais que isso seja ruim... não é a pior opção do mundo. Estou feliz de poder viver da minha arte, mesmo que por enquanto seja dessa forma. – ele tomou alguns goles do seu copo e continuou – Escute, estou sinceramente feliz de vir para cá e ter a chance de me manter aqui. Devon disse que esse tal político me pagará bem por isso, e confio muito na palavra dele para isso, é o tipo de pessoa que te dirá para viver seus sonhos, sabe. – olhou para mesa tentando se achar, enquanto Leah o observava calada. – Leah, estou feliz de não ter que voltar para casa. – sincero, afim de que uma amiga pudesse relaxar a expressão.
- Certo, vou parar de encher o saco.
- Leah, você sabe... que sempre me enche o saco.
- Seu...
- Mas é uma amiga valiosa, e fico feliz por ter você aqui. – piscou para ela de bom humor, vendo ela fingir estar irritada ele tomou mais um pouco da sua bebida. – Prefiro viver escrevendo do que não escrever, talvez me faça bem... acho que estou pensando demais sobre ter que escrever.
- Mas aquilo que você estava escrevendo era bom, não posso entender tanto de literatura quando você, mas eu gostei.
- Obrigado, mas aquilo de fato... foi só um sonho estranho que tive essa noite.
- Foi exatamente esse sonho? Perdido dentro da cabana...
- Sim, acordei no susto com a...
- Florence!
A dupla de artistas se virou na direção entrada, a fazendeira entrou sendo puxada por Willy, ela tinha um ar cansado, os cabelos desgrenhados (mais do que a última vez que ele viu), as roupas molhas cheirando a mar e peixe, as botas também deixaram enxarcadas, eles se sentiram cansados apenas de olhar-la.
- Olá, vocês dois, tiveram um bom dia de pesca? – questionou Gus se virando na direção deles.
- AH! Se tivemos um bom dia? – questionou Willy de volta, tendo toda animação e energia que a fazendeira ali, definitivamente não tinha.
- Gus... água... – ela se separou de Willy para se sentar no balcão com a cara cansada e colocou os braços sobre o balcão, ela parecia exausta.
- Hahaha... estou vendo que tive um bom dia.
- Não, Gus, meu amigo, um ótimo dia! – Willy também se sentou para ficar ao lado direito dela, deixando a imagem da fazendeira exaurida aparente para os dois sentados na mesa, um pouco mais longe. – Diga a ele, Flor!
- ...água. – pediu mais uma vez
- Hahaha, aqui está, tome o quanto quiser – ela tomou 4 copos grandes inteiros, o que fez um Willy impaciente tomar liderança novamente para falar:
- Como estava dizendo, na verdade, Gus, meu amigo, reportando um otississimo dia! Pegamos muitos! E esta moça, aqui! – pôs a mão sobre um ombro dela a sacudindo, mas ela estava determinada a não morrer de sede demais para se importar com a falta de delicadeza do senhor ao lado – Pegou bem mais que eu! Acredita, Gus? Essa tem sangue roxo!
- ... sangue azul, não? – murmurou Elliott sem pensar, Leah e Elliott estavam prestando, descaradamente, atenção na conversa, e Leah que o escutou murmurar, apenas deu de ombros.
Após a fazendeira finalizar seu quarto copo e ter dado um arrotinho, sem se importar nem um pouco, começou a dizer:
- Bobagem, se tivesse, poderia até comigo, mas eu não poderia nem comigo.
Ela definitivamente havia passado o dia inteiro com Willy.
- Hahaha! Você só não tá com prática ainda! Mas toda sardinha que eu pegava pra ensinar a pescar sério, pescar dia inteiro pra garantir grana, pegava 3, pegava 4 nos primeiros dias, mas a senhorita! A senhorita pegou 15 só hoje!
Gus arregalou os olhos, mas os dois artistas não pareciam tão parecidos, afinal não sabiam equivalente disso, mas se alguém tivesse que dizer a eles, para equiparar o que uma jovem fazendeira fez, seria necessário falar que ela fez 3 peças ou escreveu 50 páginas de uma vez, então eles ficariam tão chocados quanto Gus e características quanto Willy.
- ... Ei, sangue roxo... – também disse Gus animado e parece
- Mané, sangue roxo!
Os dois artistas se olharam novamente sem entender, mas as pessoas ali acompanharam conversando, apesar de Florence os rebater, ela não parecia de fato irritada com o que diziam, isso enquanto a dupla na mesa, apenas continuou a escutar tentando entender do que eles estavam falando.
- Sendo assim, vou oferecer a vocês dois um prato de peixe de graça, se eu vender os mais afrescos, é claro.
- Pá dentro!
- Pá dentro!
Quando Willy e Florence conversaram juntos, os três ali começaram a gargalhar alto de bom humor, até que eles ouviram a porta abrir novamente, dessa vez trazendo o prefeito Lewis e Marnie logo atras.
- Flore, nossa fazendeira! – os olhos do prefeito pareciam brilhar, enquanto Willy fechou a cara e Gus perdeu parte de seu bom humor, mas tentou manter parte dele para que o clima não mudasse tão subitamente, contudo, Marnie sentiu o pesar parecendo avaliar rapidamente a situação, mas Florence ainda parecia a mesma, apenas parecendo cansada e cumprimentou:
- Ah, olá, prefeito Lewis, Marnie, tendo uma boa noite...
- Florence, tenho certeza de que está explorando as minas abandonadas! – e o clima pesou mais, Willy, que tinha largado Florence, voltou com sua mão no ombro da moça meio assustado.
- Quê?! Você não está fazendo isso não! – se virou para ela, acusatório.
- Hã... bem...
- Willy, deixe ela. – defendeu Gus, até ele parecia ter tomado um ar cansado.
- Não, que eu já sei onde essa história vai parar! Flor, mia fia, tu não podes estar se embrenhando no meio daquelas mina abandonada, chei de coisa que ninguém sabe explicar o que é!
- Na verdade, é muito benéfico que você o ajude, Florence! – disse o prefeito quase atropelando Willy – Essas coisas, vira e mexe, aparecem para me atazanar, são perigosas, era um trabalho para a guilda, mas Marlon é inútil, e você está aqui. Não tenho mais que me livrar delas, graças a Yoba!
- ...bom, fico feliz de ser útil. – ela dá de ombros, meio apática dessa vez.
- E o Centro Comunitário, já se livrou dos ratos?
- ... hã, ainda não... nem acho que sej...
- Bom, eu ficaria feliz...
- Lewis, você tá pagando essa menina, não tá?! – Recomeçou Willy se levantando totalmente irritado.
- Calma, Willy, ele me paga! – Completou, acalmando o mais velho para que se sentasse novamente – De qualquer forma, vai ser bom manter aquelas coisas lá embaixo, não é exatamente difícil, só irritante.
- ... tenho muita fé nisso não, menina. Não acho que deveria tá se colocar nesse risco.
- Não se preocupe, já faço parte da guilda, Marlon me ensinou a me virar.
- Marlon, não deveria nem ter você deixado entrar lá dentro!
- Willy, eu já era quando era criança, Marlon ter me deixado entrar para guilda é uma mão na roda, além do mais preciso dos recursos que tem lá dentro. Você sobreviverá, confie em mim.
- Isso, Willy, lembre-se de uma pequena Flor que veio apenas no verão, cresceu; e é uma mulher agora, e uma mulher muito capacitada, mais capacitada do que eu até! – foi uma tentativa falha de fazer humor, deixando todos apenas em um silêncio constrangedor por alguns segundos antes de pigarrear e voltar a falar: - mas, sabe, jovem fazendeira, vim aqui justamente, porque preciso da sua ajuda. – ele mostrou um papel em suas mãos, ela olhou durante alguns segundos, antes de responder:
- Claro, faço isso amanhã.
- Amanhã? Mas eu preciso disso para hoje, quem sabe o que aquelas malditas geleias poderão fazer com as minhas calças!
- Você tá brin... – eu recomendaria Willy.
- Quantas você quer mesmo?
- Apenas 5 mortes, conto com você. – brilhante com certo escarnio, quase como se achasse graça do cansaço da moça.
- Claro... – ela se declarou com toda a força que ainda parecia reiniciar e se arrastou para longe do balcão. – Volto amanhã, Gus.
- ... certo, vou deixar preparado.
- Obrigada. – felicidade gentil uma última vez antes de passar por Marnie e Lewis e sumir na escuridão do lado de fora.
Gus aproveitou o momento de distração para fazer um sinal para dois artistas para que eles fossem embora, eles se entreolharam achando uma situação muito estranha, mas por via das dúvidas deixaram o local devendo Gus.
Do lado de fora, já longe da tensão estranha do Saloon, Leah disse:
- Uau, nunca presenciei algo assim aqui.
- Pensei que tinha sido só impressão minha.
- Impressão sua?! Tava quase tocável a tensão... o que você acha que tudo isso significa?
- Não sei, nunca tinha pensado demais sobre Lewis até agora, mas de repente ele parecia uma agiota que estava mantendo algum parente da fazendeira de refém.
- Tive a mesma impressão...
- Foi estranho.
- Sinceramente, muita coisa foi estranha agora, digo, sangue roxo?
- Deve ser algo local, eles não chamam de sangue azul, mas de sangue roxo.
- Mas tipo... o Florence seria da nobreza? Não parece ser isso.
- Melhor não nos metermos nisso, você viu, tem coisas aqui de gente que já mora e sabe do que se trata, é melhor não metermos o nariz, afinal, somos de fora.
- Ahrg... credo, de repente fiquei com medo de estar vivendo aqueles cenários de filme slasher.
- Acho que é um pouco surpreendente, digo, aqui é a única cidade em alguns quilômetros, então tem suas excentricidades próprias, mas não acho que seja algo para se preocupar... não acho que vamos encontrar humanos sendo criados como se fossem animais.
- Que bom.
Eles se despediram sobre um fio de humor, mas a situação anterior ainda havia deixado um certo gosto em suas bocas, difícil de dissipar.
~De volta ao Salão~
O clima de tensão continuava e Lewis parecia o único disposto a fingir que não havia, enquanto os outros ali continuavam sobre ele.
Willy bufou e disse:
- Esqueça o passado, Lewis, Flor não tem nada a ver com o que houve há tanto tempo!
- Não sei nem do que você está falando!
- É covardia sua nota que ela faz as coisas de bom grado para você como se você devesse algo, a fazenda é dela!
- Eu não fiz absolutamente nada! Você está me acusando de nada! Porque minha consciência está absolutamente tranquila! Aquela moleca não tem quase nada, está lutando para viver, e valorizo isso, estou a ajudar, dando chances de ganhar dinheiro. E eu jamais teria negado que a fazenda é absolutamente dela!
Willy bufou, mas Lewis contínuo:
- Se eu fosse tão mal intencionado quanto você me faz parecer ser, Willy, eu teria vendido aquela fazenda para Joja, eles me ofereceram um dinheiro que mesmo que todos aqui trabalharam por mil anos sem gastar um centavo, não teríamos! Mas cá estamos, a escritura está com ela, pois sou um bom prefeito, afinal.
- Eu não tenho tanta certeza disso... – murmurou Willy.
- Se você está insatisfeito, concorra na próxima eleição, ah, sim, você precisa saber ler e saber mais do que dar nó em varas e bordões de velhos marinheiros para ser prefeito! - respondeu rispidamente, deixando Willy sem graça e calado.
- Lewis, não há necessidade de estranhar Willy quando ele está apenas defendendo Flore de um fato aparente.
- Que fato? – Gus olhou para baixo, sem querer responder. – Agora responda, que fato?!
Sem coragem para responder ele apenas disse:
- ... Viu que ela estava fatigada, e que nem conseguiu se manter em pé e a fez ir...
- Ela precisa de dinheiro para se manter, e eu preciso que alguém faça isso para mim! – Ele passou o olho por Willy e Gus que estavam desanimados naquela altura – Sangue roxo esqueceram? Vocês mesmos estavam falando.
Willy fez “tsk” e Gus revirou os olhos, Marnie falou algo finalmente:
- Só espero que Dona Evelyn não saiba, Lewis, para seu próprio bem.
Gus e Willy ficaram chocados com a resposta de Marnie e Lewis foi quem revirou os olhos, desta vez.
