Actions

Work Header

Rating:
Archive Warning:
Category:
Fandom:
Relationship:
Characters:
Language:
Português brasileiro
Stats:
Published:
2025-01-27
Updated:
2025-01-29
Words:
2,542
Chapters:
2/?
Kudos:
3
Hits:
20

Cem Anos de Encanto

Summary:

Alma tinha pouco mais de 20 anos quando conheceu Pedro, em uma das noites mais magicas e preferidas do ano. Era no Día de Las Velitas, o feriado do inicio de dezembro que marca a preparação natalina. Nessa noite, múltiplas velinhas iluminam a cidade inteira, desenhando um mapa tremeluzente sobre as ruas, transformando o lugar e transportando-a para um lugar encantador. O cheiro da cera queimando e o ar cálido das chamas criam uma atmosfera quase divina.

Notes:

Pensei em fazer essa fic sobre cenas fora da tela junto com headcannons extras.
Não pretendo fazer todos os capitulos sobre o POV da abuela, mas esse é uma visão da Alma antes de ser abuela ou até mamá. Não pretendo só passar pano pra o que ela fez, e ainda quero fazer uma visão diferente de cada personagem no dia da sua porta. Como o título da fic é Cem Anos e no filme mesmo diz que se passaram 50 anos desde o sacrifício do Pedro, ainda quero fazer uma visão "do futuro".
Os criadores confirmaram que o conflito que fez os Madrigal buscar refúgio foi a Guerra dos Mil Dias, então foi com isso que eu segui também.

Chapter 1: Dois Oruguitas

Chapter Text

Alma tinha pouco mais de 20 anos quando conheceu Pedro, em uma das noites mais magicas e preferidas do ano. Era no Día de Las Velitas , o feriado do inicio de dezembro que marca a preparação natalina. Nessa noite, múltiplas velinhas iluminam a cidade inteira, desenhando um mapa tremeluzente sobre as ruas, transformando o lugar e transportando-a para um lugar encantador. O cheiro da cera queimando e o ar cálido das chamas criam uma atmosfera quase divina.

Ela subiu no suporte de um dos postes para ver mais das velas quando uma curiosa borboleta dourada cruzou e seus olhos a acompanharam até ver os de Pedro. Ela perdeu equilíbrio ao ver os doces olhos do rapaz, cuja presença prometia que tudo ficaria bem. Mais tarde, na mesma noite, eles se sentaram juntos e conversaram por horas, entre risadas e bocados generosos de arepas con queso que deixaram seus dedos lambuzados. Pedro era muito bom observador, brincalhão, mas cada palavra parecia poesia. Ele tocava acordeão e era o mais novo de quatro irmãos, enquanto Alma era filha única de uma costureira.

Os dois se enamoraram e noivaram em menos de um ano, mas o noivado chegou a durar um punhado de anos, porque o dinheiro era curto e a economia ia mal. Quando finalmente aconteceu, seu matrimônio foi perto do Día de Las Velitas, e foi como se cada chama fosse uma promessa abençoando o novo casal.

Embora preferisse a arte, Pedro precisou trabalhar como carpinteiro com um dos irmãos, o que foi útil na hora de mobilhar a pequena casa dos dois. Era uma casinha de pau a pique, quente no verão e modesta em tamanho, mas não importava, pois era sua casita, seu lar.

Contudo, toda essa embriaguez de felicidade foi logo ameaçada por maus presságios do mundo exterior, como uma nuvem sobre o brilho das velinhas.

Sendo sincera, ela desejava paz para aproveitar festas mais frequentes, tranquilidade para gastar sem preocupação e um pouco mais de conforto. Sonhava em expandir sua casita, deixá-la colorida, com corredores brancos e um pátio aberto para visitas e celebrações, queria acender suas próprias velinhas quantas vezes por ano fosse possível. Mas, naquele momento, seus sonhos precisavam ser contidos.

Em meio a um misto de antecipação e euforia, o enjoo matinal e o atraso se revelaram uma gravidez não planejada, mas apreciada. Ela sempre quisera uma família grande, como a de Pedro, mas os ataques que se espalhavam da capital aos vilarejos mais remotos lançavam uma sombra de incerteza sobre seu futuro.

Pedro, a princípio, não se deixou abalar; construiu um berço espaçoso, compôs canções de ninar e, mais uma vez, seu sorriso parecia garantir que tudo acabaria bem. A gravidez avançou tão rapidamente que, em pouco tempo, a parteira sugeriu que Alma poderia estar esperando mais de uma criança. Seus pés incharam depressa, e sua barriga cresceu de forma impressionante e ela se sentia enorme como uma montanha.

Enquanto isso, as guerrilhas também floresciam.

Um a um, os irmãos de Pedro, voluntários infelizes, morreram na luta para uma vida melhor. A alfaiataria onde a mãe de Alma trabalhava foi incendiada. Mais e mais grupos armados devastavam ruas e vielas, destruindo plantações, matando o gado e espalhando a fome e a miséria.

O Día de las Velitas estava a menos de três meses de distância, e o início do novo século chegaria logo depois, algo que poderia ter sido motivo de empolgação, não fosse o terror que dominava tudo. Aquele conflito ainda duraria mais dois anos e seria conhecido pelo número de dias de sua duração, mas o jovem casal Madrigal não ficaria para testemunhar.

Duas dezenas de famílias, cansadas e ansiosas por um lugar livre de tiros, juntaram suas trouxas e tudo o que conseguiam carregar — alguns, apenas a roupa do corpo — e abriram caminho pela mata, buscando um refúgio seguro.

Nem quando criança Alma havia se aventurado tanto na floresta. Em outra situação, poderia ter procurado borboletas e admirado as flores, mas o medo e a adrenalina tomavam conta de seu corpo a cada passo. A lua cheia brilhava alta no céu, acima da copa das árvores, quando a adrenalina não foi suficiente para acalmar as dores. Alma caiu de joelhos e gritou, esquecendo-se de fazer silêncio. Seus bebês chegaram uma semana antes do previsto, e não pareciam dispostos a esperar mais nem uma hora.

As mulheres mais velhas ajudaram Alma a parir de cócoras, e a dor parecia incendiá-la de dentro para fora. Pedro segurava sua mão, mesmo quando seus dedos quase se quebravam pelo aperto. Definitivamente eram mais de uma criança, e, no final do parto, pareceram até mais de três. Mas foram três: duas meninas seguidas por um menino. Os trigêmeos foram lavados e enrolados em panos feitos por sua avó antes de serem entregues a Alma, que mal tinha forças para se manter de pé.

Eles ainda não estavam longe o suficiente, e o grupo discutia se deveriam passar a noite ali ou continuar. Contudo, cascos impiedosos decidiram por eles: quatro soldados corruptos se aproximavam, com sangue nos olhos, prontos para roubar o pouco que aquele povo já quase não tinha.

Começou a correria, todos fugindo, enquanto os filhos de Alma, que mal tinham sido amamentados e nunca haviam sentido o colo do pai, choravam mais alto. Foi no meio do caos que Pedro parou de correr. Alma ficou confusa, enquanto seus vizinhos e amigos corriam para dentro da mata. Pedro, porém, permanecia parado. Não parecia com medo, mas sim com pesar. Ele largou o lampião que segurava — a vela de seu casamento, símbolo de sua união. Beijou cada um dos filhos e a esposa, mesmo que ela estivesse atordoada demais para beijá-lo de volta.

Então, ele foi para o lado oposto.

Desarmado e de mãos ao alto, Pedro caminhou em direção aos cavaleiros.

“Não, não...” era tudo que a jovem mãe conseguia repetir, enquanto via o amor de sua vida se sacrificar.

O quarteto de soldados nem desceu dos cavalos. Alma viu o instante em que virou viúva.

Ela gritou. Suas lágrimas, misturadas à dor remanescente do parto, fizeram-na cair pela segunda vez naquela noite. Por pouco, não deixou seus filhos caírem também. Derrubou a vela no chão e sentiu o musgo e a terra úmidos sob sua mão. Uma careta de horror fazia seu rosto doer, pois não conseguia acreditar no que acabara de presenciar.

Mas seus olhos se abriram novamente com um clarão.

Ela sentiu o chão se mover sob seu corpo, ouviu os gritos de espanto de seus amigos e viu os soldados sendo afastados para a escuridão enquanto a luz da vela crescia. Em vez de apagar ao cair no riacho rosado que se formava ao seu redor, a chama brilhou ainda mais forte. Sua luz se expandiu até se tornar sólida. Montanhas começaram a crescer entre ela e o caminho de volta à cidade.

Por magia, ladrilhos vibrantes surgiram da própria terra. Paredes se ergueram e cresceram, formando uma construção imensa de múltiplos níveis, com varandas pintadas em tons vivos de amarelo, rosa e roxo, cobertas por buganvílias. No topo, havia um mirante verde. Telhados de barro avermelhado traziam uma sensação de aconchego, enquanto uma larga porta azul-ciano, decorada por um arco detalhado, marcava a entrada de um verdadeiro palacete.

Bem em frente à construção estava a vela, robusta e brilhando sem derramar uma gota de cera.

O vozerio das pessoas era indistinguível, mas Alma não conseguia dizer nada. Estava entorpecida, esmagada por um turbilhão de eventos e emoções.

Então, a porta se abriu sozinha. Primeiro, um lado, depois o outro. As janelas seguiram o movimento, abrindo e fechando suas venezianas, como se quisessem... Como se quisessem acenar.

Por mais absurdo e quase assustador que pudesse parecer, a visão era acolhedora. Um refúgio que parecia abraçar todos aqueles que, naquela mesma manhã, haviam juntado seus trapos em busca de um teto de paz.

Alma mal percebeu quando seus pés estavam dentro da casa. Era uma casa? Parecia o lar de um nobre ou de um grande fazendeiro. O pátio interno era aberto, com uma ampla escada central. Quando achou que fosse desmaiar, uma cadeira de balanço apareceu para segurar suas pernas.

“Alma!”, exclamou a parteira, ainda com a saia manchada de sangue. “É um milagre!”.

Sim. Era um milagre. O que mais poderia ser senão uma bênção?