Work Text:
O plano havia dado errado, muitas pontas haviam ficado soltas os levando ao fracasso, e naquele momento Cell estava mais preso em seus calcanhares do que nunca.
Alcatraz não era para os tolos e os inocentes de bom coração, a enorme prisão de segurança máxima era fria e úmida, manchada pelas histórias e pelo sangue de quem residia ali. Pac atualmente era um dos moradores desse lugar sem humanidade, ele ainda era humano, mas não podia dizer o mesmo de outros ali, principalmente após conhecer Cell, se sentindo sempre um idiota por ter achado que poderia confiar nele no começo, tendo se tornado o objeto de observação do outro prisioneiro, deixando-o assustado, com medo , irritado.
Fazia por volta de um mês que estavam ali, planejando, se adaptando e tentando escapar. Mas mesmo assim o primeiro plano falhou, agora estavam atualmente em um beco sem saída sobre as opções que tinham e restrito a um acesso limitado a locais da prisão, que haviam redobrado a segurança após a tentativa quase bem sucedida dos quatro prisioneiros.
Estar sobre os olhos azuis intensos e perigosos faziam o estômago de Pac revirar, ele odiava aquela sensação de parecer estar sendo caçado, sendo muitas vezes encurralado por Cell em cantos isolados — como uma presa — mesmo que normalmente estivesse acompanhado e nunca completamente sozinho, o enjoo permanecia o mesmo, odiando de todo o coração a aproximação e intimidação que o "rei" fazia consigo.
Ficar acompanhado e ser observado é encarado como um animal, ou correr e se esconder, despistar o caçador e ser útil para sua matilha.
O segundo lobo ganhou a disputa daquela vez.
A natureza de Pac era ser esguio e furtivo, a lábia também era parte do reportório, ele poderia achar alguém útil para eles, um funcionário ou até um policial que estivesse disposto a escutá-lo, era uma ideia rasa e poderia acabar em becos sem saídas, mas acabava sendo a única opção que ele tinha no momento. Se aproveitando de suas habilidades e estudos dos corredores e alas da prisão, Pac se esconde entre os detentos e sombras, sempre silencioso, deixando com que sua presença se tornasse uma brisa passageira e quase imperceptível a qualquer olhos, sem rastros.
Após sair de seu bloco, Pac vira a cabeça para ver os arredores, se viu sozinho com apenas alguns policiais ao longe, — esses que sempre o ignoravam e o tratavam como escória — sentindo seu corpo finalmente relaxar por não estar sobre os olhares de Cell. O detento bate as costas contra a parede, deslizando sobre o material frio até se sentar no chão, braços relaxados sobre os joelhos e olhando para o além sem pretensão de procurar por algo.
A ideia de tentar falar com algum funcionário se esvaiu de sua mente por um momento, provando o gosto da desesperança e o amargo do fracasso, quem ele queria enganar? Ele se sentia exausto, precisava de um momento para clarear as ideias, desestressar, respirar , tentar bolar um plano naquele momento era pedir pelo fracasso.
Apesar de estar estressado e nervoso, a cabeça de Pac não parava por um segundo, mesmo ele implorando para que seus pensamentos fossem silenciados. Era como um hábito, uma configuração padrão do moreno. Mas não importava quantas opções passassem ele sempre caia em um limbo de desilusão, estava novamente se sentindo um animal encurralado, dessa vez por si mesmo.
Um som ao longe o faz despertar de seu mar de descrença, um tilintar de metal balançando e se chocando com outras peças do mesmo material. Desviando do foco de sua visão, Pac vê um pouco distante dele um homem, sua vestimenta era um conjunto azul empalidecido, — uniforme usado normalmente por zeladores — em suas mãos luvas amarelas eram um destaque, botas pretas em seu pés, uma vassoura em mãos e em torno de sua cintura um cinto de utilizadas, com um molho de chaves proeminente preso ali.
A aparência do homem não era prioridade naquele momento, apesar dele ser bem atraente aos olhos do detento, apesar da falta de cabelos, e as cicatrizes davam um charme a mais.
Os olhos de Pac brilharam em reconhecimento, uma alavanca sendo pressionada em seu cérebro, era sua oportunidade perfeita de abrir um leque de caminhos que poderiam seguir para sua fuga, ele apenas precisava se aproximar daquele zelador.
Mas não seria fácil, todos os funcionários que trabalhavam em Alcatraz eram orientados a nunca falar ou manter interação com os presidiários, para sua própria segurança. A maioria dos trabalhadores também tinham um porte físico um tanto específico, ou no mínimo, sabiam o básico de defesa pessoal para que conseguissem lidar com detentos mal intencionados.
Apesar da "regra" de manter distância dos presidiários, Pac sabia que existia uma única exceção, caso algo esteja errado com o presidiário, o funcionário tinha liberdade de se aproximar e auxiliar no que pudesse, avaliando a situação antes de alertar algum policial ou segurança próximo. Era um método de evitar fadiga mental para os trabalhadores e para os detentos, para manter o mínimo de humanidade e contato humano.
Olhando ao redor, Pac buscou um jeito de usar essa brecha ao seu favor, deveria existir um jeito, tinha que ter um jeito .
Não havia armas ou objetos cortantes com fácil acesso, tentar intimidar um policial para que houvesse alguma quebra de normas também não seria viável. Os olhos do detento partem para observar o ambiente, deveria ter algo em sua volta que pudesse ser útil para efetuar seu plano.
Bingo!
As estruturas de Alcatraz são lisas, para evitar atrito e permitir que os detentos possam escalar as paredes. Mas apesar de toda a segurança, havia partes das paredes que foram danificadas, por brigas ou tentativas de fuga, danificando partes das estruturas e as fazendo necessitar de conserto, mas acabaram sendo feitas com desleixo, apenas um chapisco, deixando para trás pequenos "espinhos", que causavam atrito e poderiam com facilidade cortar a pele se houvesse um impacto mais forte.
Pac se levanta e caminha até um desses chapiscado pressionando a mão sobre eles com uma grande pressão, sentindo uma pequena ardência sobre a pele. Só precisava arrastar, e poderia seguir com o plano de se aproximar do zelador, mas seu corpo estava tenso, ele nunca havia se auto infligido pois sempre conseguia encenar e enganar seu alvo, mas ali era Alcatraz, ele não sabia o nível de esperteza dos trabalhadores de lá, fingir não era uma opção viável.
Tem que valer a pena .
Puxando todo o ar que conseguia para seus pulmões, Pac encara sua própria mão e avança, semi-cerrando os olhos, puxando a mão para baixo sobre os espinhos com a maior pressão e velocidade que conseguia.
Arde…
Doi…
Mas iria servir
Com a mão infligida pelo corte, Pac dá um sorriso trêmulo antes de desviar o olhar do líquido vermelho, caminhando em direção ao seu alvo.
O som suave do vai e vem da vassoura combinava com os pingos suaves que escorriam de sua mão fragilizada, enquanto tentava manter a respiração sob controle, ignorando a dor e o estremecer que percorria seu corpo a cada linha que sentia descer por seus dedos.
Os passos de Pac eram lentos e suaves sobre o piso liso, esperava que não seria notado, mas se surpreendeu quando o zelador bonitinho virou a cabeça em sua cabeça, vendo os olhos claros que beiravam entre o castanho e o verde, lembrava a cor do mel. Eles trocaram olhares pelo o'que parecia uma eternidade, Pac sentia como o homem à sua frente tentava prever suas ações ou ler seus pensamentos, assim como ele mesmo estava tentando fazer.
O detento solta um suspiro trêmulo, desviando o olhar ao sentir os cortes latejarem em sua mão, levando-o a segurar a infligida para cima, impedindo que a pequena mancha vermelha no chão dobrasse de tamanho. Pac levanta a cabeça em direção ao trabalhador, vendo os músculos dele tensionados, como se estivesse nervoso ou preparado para sair dali, se afastar, mas claramente havia notado o ferimento em sua mão, pego na isca .
— O-Oi… — Pac sufoca pela ardência — eu tô precisando de uma ajudinha
O zelador franze as sobrancelhas em preocupação, não deveria ser todo dia que um detento se aproximava para pedir auxílio, principalmente quando estavam longe de qualquer autoridade em uma área quase isolada. Pac decide continuar após suspirar para desfocar da dor:
— Os policiais estão pouco se fodendo para mim, pode…me mostrar o caminho da enfermaria? — Pac oferece um sorriso tímido, que se desfez em segundos para se transformar em uma carranca de dor, aqueles cortes realmente estavam doendo.
O peito do zelador estufa e se esvazia em seguida, ele ainda olhava no fundos dos olhos de Pac, como se não deixasse a pequena demonstração de vulnerabilidade do detento o atingir com facilidade, provavelmente imaginando que ele atacaria pelas costas.
— É no corredor que segue ao refeitório, venha comigo — o zelador diz, pegando sua vassoura e começando a caminhar, esperando para que o detento o seguisse lado a lado.
A voz grave do trabalhador faz o corpo de Pac congelar, ele não esperava ouvir algo tão profundo e que parecia fazer seu peito vibrar, foi esquisito e até mesmo quente demais. Apesar das estéticas em seu cérebro, o moreno obriga seu corpo a se mover e acompanhar os passos do outro homem, sempre andando ao seu lado e numa distância respeitosa.
Todo o percurso da caminhada foi silencioso e desconfortável, era um péssimo momento para tentar se aproximar e efetuar o roubo, a perda de sangue estava o deixando zonzo e sua mão estava começando a ficar dormente, provavelmente teria dificuldade de movê-la nos próximos dias. Pac estava começando a se arrepender de ter feito aquilo, se perguntando se realmente valia a pena perder o movimento da mão apenas por um amontoado de chaves.
Antes que ele pudesse se questionar por mais tempo sobre suas escolhas de vida, acaba por trombar contra algo, ou melhor, alguém. Pac dá alguns passos para trás para ver em quem tinha esbarrado, um sentimento de deja vu surgindo, fazendo com que rapidamente começasse a descolar os lábios para se desculpar.
Antes que alguma palavra saia de sua boca, uma risada profunda ecoa do homem à sua frente, obrigando o moreno a olhar para cima em descrença,o zelador estava rindo dele e aquilo era novidade, pois a última vez que trombou contra alguém naquela prisão, acabou com uma mão o sufocando contra uma parede e uma faca contra o peito.
— Para um preso de alcatraz, você é bem desleixado — o careca zomba.
Pac não pode deixar se arregalar os olhos e deixar o queixo cair, isso realmente estava acontecendo? Aquele zelador estava zoando com sua cara.
Espera até eu te trancar em uma sala e roubar todos os seus pertences, careca idiota. Pac pensa consigo mesmo, escondendo a raiva atrás de um sorriso sem graça e doloroso.
O zelador olha em direção a mão pintada de vermelho, franzindo a testa, antes de girar e abrir a porta da enfermaria para deixar Pac entrar. O ambiente era um pouco mais claro do que o resto da prisão, higiênico e limpo também, várias camas hospitalares separadas por cortinas além de balcões com utensílios médicos básicos. Existia um problema, o lugar estava vazio, sem enfermeiros que pudessem cuidar de seus ferimentos.
Pac ofegou, sentindo um estremecer passar por seus ossos — exceto sua mão, ela parecia pesada e dormente demais para isso — isso era um problema, um grande problema na verdade.
Foi uma surpresa quando o detento sentiu um tapinha em seu ombro, se virando para ver o zelador o olhar com um sorriso minúsculo, inclinando a cabeça para dentro da sala, antes de andar a sua frente em direção a uma das camas. Ele se vira novamente para olhar pro moreno, que permaneceu estático na porta, ele estava levemente confuso, o que aquele careca estava fazendo? Ou tentando fazer.
O careca dá um tapinha na cama que estava ao lado, antes de olhar para o detento, seu olhar era suave, mas ainda demonstrando indiferença.
Pac se move em direção a cama, excitante, se sentando sobre o colchão, ainda era desconfortável mas era muito melhor do que as que existiam nas celas. Fazendo uma averiguação com os olhos, o detento observa o zelador se esgueirar pela sala em direção aos balcões, dando brecha para Pac analisar melhor a sala, existia janelas, eram bem maiores e de mais fácil acesso do que o restante da prisão, mas também tinha mais câmeras e as grades de proteção eram duas vezes seu número padrão.
Bem, ele não planejou fugir pela enfermaria, mas entender melhor o ambiente sempre foi algo de interesse do próprio Pac.
Não demorou muito para que o zelador retornasse ao lado do detento, arrastando uma cadeira consigo enquanto sua mão segurava uma pequena maleta branca com uma cruz vermelha gravada. O careca levanta a cabeça para olhar nos olhos dele, deixando seu corpo rígido, era desconfortável ter alguém tentando lê-lo como se fosse um livro. Excitando um pouco, Pac estende sua mão ferida, sentindo a superfície áspera da pele do zelador agarrar seu pulso.
— É normal o zelador estar cuidando de um prisioneiro? — o detento pergunta, bufando de forma divertida — e desde quando vocês saberiam primeiros socorros?
O questionamento de Pac faz o homem levantar a cabeça, enquanto pressionava um pano sobre o corte, parecia um pouco mais avançado do que primeiros cuidados ou um tratamento amador apenas para estancar o sangue.
— Faz parte do treinamento oferecido para entrar em Alcatraz — o zelador esclarece, voltando a trabalhar na mão machucada.
— Oh…
O som perfeito de "o" feito por Pac não foi encenação, ele realmente não esperava que isso fosse algo oferecido aos trabalhadores que fariam seus serviços em Alcatraz, mas fazia sentido no final do dia, caso um conflito acabasse acontecendo os funcionários poderiam se tratar ou ajudar um companheiro de trabalho ferido.
Pac tem quase certeza que isso não se estendia para os próprios prisioneiros.
— Como se machucou?
— Hm? — o detento pisca algumas vezes, não esperando uma continuação da conversa.
— Como acabou com a mão fodida? — o zelador repete, adicionando algumas palavras mas mantendo o contexto.
Internamente, Pac sorri e agradece por ser bom em improvisar, pois havia esquecido esse detalhe. Engolindo silenciosamente o nó que se formou em sua garganta, seus olhos encontram-se com os de zelador, que esperava pela resposta.
— Esbarrei com um prisioneiro meio nervoso, não sabia que ele odiava pedido de desculpas — Pac sente uma ardência, vendo o careca limpar o ferimento com possivelmente água oxigenada para desinfetar — ele me arremessou contra uma parede e acabei tendo minha mão pressionada contra alguns chapiscados
— Chapiscado êh? — os olhos do zelador se movem momentaneamente para um deles ali na própria enfermaria — apesar de ser ruim, pelo menos não foi sua cabeça
— É… — Pac ri nervoso.
Era difícil reagir, saber oque fazer naquele momento, sua ideia inicial era se aproximar para roubar o molho de chaves em um futuro próximo, mas foi estranho ser tratado com gentileza, ele nunca recebeu algo assim. Pac tinha certeza que o zelador o largaria na enfermaria vazia e o detento desmaiaria por perda de sangue, já que o líquido não parava de escorrer até poucos minutos atrás.
Constatar isso fez o moreno ofegar, sentindo uma tontura o atingir, ele se sentia fraco, e isso era uma merda, as coisas não saíram exatamente como ele planejou, novamente .
— Acabando, tente não desmaiar agora — o zelador fala de forma leve, mas era quase como uma recomendação.
Faixas e mais faixas eram passadas ao redor da mão ferida para causar pressão, fazendo Pac juntar as sobrancelhas perguntando se tudo isso era necessário para um "simples" corte feito por chapiscos.
Não demorou para que o tratamento fosse finalizado, era um curativo feito com eficácia, — aquele zelador tinha feito um ótimo trabalho — Pac se perguntava se ele já fez isso outras vezes para o realizar com maestria. Não foi possível esconder o pequeno sorriso que surgiu em seus lábios, até que foi bom ser cuidado pela primeira vez.
— Acho que você deveria voltar para sua ala agora, podem estar procurando por você
— Ah sim — Pac olha em direção ao careca — Eu…
— Não precisa agradecer — o zelador se levanta, fechando a pequena maleta branca.
Pac dá um suspiro frustrado, decidindo apelar, torcendo os lábios para formar um beicinho, se levantando e olhando para o homem que se deslocava pela sala mais uma vez.
— Mas eu quero agradecer! — o moreno cruza os braços sobre o peito — Mas não sei o seu nome, quero agradecer de forma correta
Foi como pressionar uma ferida, as palavras de Pac fizeram o zelador congelar no lugar, se virando lentamente para encontrar o detento, que ao notar o contato visual, oferece um sorriso simpático, inclinando a cabeça sobre o próprio ombro, relaxando os braços para deixar sua postura o mais suave possível, deveria ser raro receber atitudes gentis dentro de uma prisão, principalmente se esse ato vem de um dos próprios prisioneiros.
Era um dos aspectos da natureza de Pac parecer inocente, de certa forma todas as suas características formavam um bandido perfeito, ele poderia se orgulhar disso em algum momento, mas agora ele se fato estava querendo ser gentil, agradecer .
Pareceu funcionar, pois o zelador finalmente relaxou, deixando a impressão de um pequeno sorriso se formando no canto de seus lábios.
— Fit — curto e direto.
— Obrigado por me ajudar, Fit — Pac sorri suavemente para ele — foi muito gentil, eu aprecio isso, me chamo Pac, aliás
O careca solta uma risada, deixando que o sorriso antes pequeno, aumentasse um pouco de tamanho, talvez tenha sido bom ter revelado seu próprio nome.
— Não precisa agradecer Pac, mas não se meta em problemas de novo, não quero que se machuque — o detento se assusta com o quão genuíno era o pedido do zelador — você me parece alguém gentil, é difícil encontrar presos legais como você, tome cuidado
O detento não consegue evitar o sorriso presunçoso que surge em seu rosto, inclinando o corpo sutilmente para a direção do careca, deixando um lado mais ousado e divertido se apossar de si.
— Então o senhor zelador se importa com o meu bem estar? Que adorável — Pac se indireta, colocando as duas mãos atrás das costas — mas preciso que você pague um jantar antes
Suas esperanças só aumentam ao ver o zelador que ele achou bonitinho se perder em meio a gagueiras e um rubor tomar conta de suas orelhas.
— Sh-Shut up stupid!
— Temos um pretendente do exterior, aí que sorte a minha — Pac não se aguenta, caindo na gargalhada — Sorry, I'm fine, I'll see you around
Talvez tenha sido apenas para se exibir, mas deixar Fit ciente de que ele também poderia falar em inglês foi definitivamente uma ideia a se trabalhar, deveria haver poucas pessoas naquela prisão que entendiam uma segunda língua, se o zelador concordasse em o ajudar na fuga, poderiam ter a chance de se comunicar abertamente sem que outros entendessem o assunto que estava sendo dito.
Caso contrário, Pac seguiria com o plano de enganar Fit e roubar suas chaves.
Quando ambos se separaram, o detento retornou para sua matilha, ficando principalmente ao lado de seu melhor amigo. Foi bem fácil dialogar e explicar seu plano, que apesar de ser questionado sobre diversas situações hipotéticas que poderiam acontecer, a conclusão que chegaram foi que aquela era a melhor escolha deles, o restante do grupo tentaria achar uma rota de fuga, enquanto Pac tentaria abrir passagem para reunirem materiais para a fuga.
°
Ainda estava escuro quando o som arranhado suave no chão acaba por acordar Pac, ele nunca teve sono pesado, principalmente por viver nas ruas ele sempre precisou estar em alerta para garantir sua segurança e a do seu melhor amigo, levando ele a possuir um sono muito leve, ao ponto de que até o farfalhar de folhas o acordasse.
Pac se senta sobre o colchão fino e desgastado de sua cela que dividia com seu amigo, que ainda dormia profundamente, mas sua testa estava enrugada — talvez pelo lugar que estava que gerava desconforto ou até mesmo estivesse tendo algum pesadelo. Independente do que estivesse causando aquela expressão, o moreno se levanta e caminha até a cama ao lado, levando a mão para pressionar de forma leve o polegar contra a testa do amigo, fazendo a carranca suavizar.
Sempre foi assim, Pac sempre cuidou dele, e apesar de tentar retribuir da melhor maneira possível, — eram como irmãos, uma dupla no fim das contas — ninguém nunca de fato cuidou de Pac.
Após cuidar da carranca de seu irmão, o detento se vira para as grades, caminhando lentamente até elas, apoiando os braços na barra horizontal que cruzava as verticais, observando o'que seriam os sons que o acordaram. Eram vários trabalhadores que estavam limpando a ala das celas, zeladores, óbvio que teria mais de um para manter a prisão minimamente higiênica, o lugar era grande demais para apenas uma única pessoa conseguisse dar conta.
Os olhos de Pac repouso sobre uma das pessoas vestidas de azul que se destacava da maioria, Fit, foi até irônico o ver no dia seguinte após sua primeira interação. Os olhos pretos repousam sobre sua mão enfaixada, ela latejava de vez em quando e não conseguia a mover de forma correta, mas as faixas entorno dela fez um pequeno sorriso surgir em seu rosto, seu olhar suaviza lembrando da gentileza que foi oferecido a ele no dia anteriores.
— Bom dia, Pac, está um pouco cedo para acordar ainda
Os olhos do prisioneiro se levantam em direção a voz grave que falou contigo, era seu adorável zelador. Foi um tanto involuntário abrir o sorriso e acenar com a mão para dizer um "olá".
— Bom dia, Fit, tenho sono leve — explica Pac.
— Como está sua mão? — o careca diz, desviando para olhar para o membro enfaixado.
— Ainda não consigo mexer ela, dói um pouco também — ele tenta mexer os dedos, que acaba em apenas pequenos tremores — mas está…bom…graças a você
Pac oferece um sorriso, que é aceito e retribuído pelo zelador, que se apoia em sua própria vassoura, olhando para a mão enfaixada, antes de seus olhos caírem sobre os do presidiário novamente, era suave e até mesmo curioso, mas também poderia ser notado um brilho de preocupação.
— Você não se assemelha a nenhum preso de Alcatraz — Fit vire a cabeça para ver alguma coisa, fazendo com que Pac seguisse o mesmo exemplo, vendo uma pilha nojenta de vermelho espalhada no chão um pouco longe deles — o'que você fez para estar aqui?
A pergunta pegou o moreno de surpresa, fazendo involuntariamente encolher os ombros, seus olhos caindo para o chão por instinto, não gostava de relatar seus crimes aos demais.
— Fiz o necessário para sobrevivermos — Pac diz num sussurro, trazendo os braços para dentro da cela novamente, envolvendo ele em seus próprios ombros — era a única opção que tínhamos
— Eu não duvido de você — Fit parecia honesto em suas palavras — mas ninguém vem pra Alcatraz por nada, você entende isso certo?
O detento levanta os olhos, encarando profundamente as íris claras a sua frente, as cicatrizes em seu rosto tinham história para contar. Apesar da prisão que estava tendo história, o questionário de Fit parecia ser além do que indicar uma conclusão rasa.
Pac respira fundo, deixando a cabeça cair para trás encarando o teto, antes de se escorar nas grades novamente, olhar voltando para o zelador a sua frente mais uma vez.
— Roubar vários lugares sem deixar rastro nenhum, levando comigo enormes quantidades de itens valiosos ou dinheiro — Pac suspira — já…algumas coisas aconteceram que acabaram coisas não muito legais.
Pensar nisso e relembrar essas situações não eram boas para a mente do moreno, foram coisas mal planejadas, que saíram do controle deles e acabaram em resultados indesejados, desde sempre achou que conseguiriam apenas roubar sem necessidade de coisas extremas mas não aconteceu.
— Sequestros e um deles acabou em… — a palavra fica presa em sua garganta, ele não tinha orgulho daquilo. Engolindo o ar como se fosse água, Pac levanta a mão boa, passando o polegar sobre o pescoço, indicando um corte, deixando a cabeça cair para o lado com a língua para fora, apenas para aliviar o clima.
— Uau… — o moreno avalia a expressão do careca, seus olhos estavam arregalados, seus lábios estavam levemente separados. Talvez Pac estivesse pensando demais, mas aquilo não parecia medo, mas sim surpresa?
O presidiário tinha quase certeza em ver os cantos dos lábios do zelador se curvando em um pequeno sorriso.
— Você não é um cara que os outros devam mexer, Pac — Fit solta uma risada alta, fazendo o peito agitar, ela também fez o coração do prisioneiro vibrar.
— Eu nem estaria aqui se não fosse por aquele corno ali — o moreno vira a cabeça para ver o amigo adormecido, ele ainda dormia profundamente, mas havia mudado de posição, Pac se perguntava se ele estava confortável.
— E mesmo assim, você se preocupa com ele — a afirmação pegou ele de surpresa, fazendo o detento olhar de imediato para o zelador, que demonstrava gentileza no olhar — da para ver nos seus olhos
Pac sente as pernas derreterem, como Fit percebeu isso? Ele nunca se achou tão fácil de ler, principalmente quando se tratava do que ele sentia sobre os outros, mas aquilo não o assustou, na verdade foi bom ter alguém que pudesse ver por debaixo de sua máscara e dos próprios sentimentos negativos.
Sempre foram só eles, Pac só teve seu irmão e eles eram os únicos que se entendiam, mas a vida gostava de os fazer terem desavenças. Ter outra pessoa que aparentava entendê-lo era bom, inconscientemente o deixava mais leve, o fazia se sentir menos culpado por ser como ele era.
O olhar dos dois se conecta mais uma vez, Pac se sentiu em seu estado mais relaxado desde que chegou naquele lugar, mas ele não poderia se acostumar com essa sensação, se apegar a Fit seria um desvio de curva irreversível.
— Você deveria voltar ao trabalho — algo estalou na mente de Pac — você nem deveria estar falando comigo, quer perder o emprego Big boy?
— E-eu… — Fit respira fundo, endireitando a postura e olhando no fundo dos olhos do presidiário, que possuía um sorriso inocente enquanto se escorava nas barras de ferro — você é algo Pac, definitivamente
— Eu chamei sua atenção?
— Sim
A resposta curta e sincera assusta o detento, ele estava apenas tentando desestabilizar o zelador mas aparentemente o feitiço virou contra o feiticeiro, pois Pac sente seu rosto esquentar repentinamente e as palavras escaparam de sua mente. O moreno apenas vira e se joga em sua cama novamente, ele podia escutar a risada estrondosa de Fit enquanto seus passos se afastavam de sua cela.
— Eu ainda acabo com você — Pac murmurou em seu travesseiro, palavras abafadas por seu rosto estar pressionado contra ele.
Era fácil falar isso, ele pensava isso, mas seu coração e o vermelho nas pontas de suas orelhas poderiam dizer o contrário. A paixão era algo que pegava fácil Pac, mas ele sempre a jogou para o fundo da caixa, ele faria isso novamente.
°
Os próximos dois meses passaram voando para Pac, mas seguiram uma rotina a que ele se acostumou muito fácil. Seu grupo trabalhou no que pode para elaborar um plano de fuga que não tivesse falhas, enquanto Pac se esgueirava para se encontrar com Fit, que recebeu esses encontros de forma muito positiva.
A aproximação dos dois resultou no careca facilitando para que Pac e seus companheiros conseguissem empregos mais bem remunerados dentro da hierarquia da prisão. Os outros dois da matilha conseguiram trabalhos na área de mineração, enquanto o moreno conseguiu se tornar um auxiliar de zelador, ele não tinha a permissão de entrar ou ter acesso a certas áreas da prisão, mas já era um avanço.
Sempre que estavam juntos, a conversa fluía fácil, e aos poucos o zelador foi abaixando a guarda quando estava perto do detento, e o oposto também acontecia, mas a diferença é que Pac continuava com seu objetivo em mente, empurrando para o fundo da garganta toda e qualquer emoção que surgia em seu peito, ele não podia se distrair com elas, fugir de Alcatraz era sua prioridade, não se apaixonar.
Era mais um dia que Pac estava indo em direção ao armário dos zeladores pegar oque Fit havia pedido, ambos estavam limpando o corredor principal que levava ao refeitório. O detento não segura a sutil risada, estava refazendo o mesmo caminho que fez quando conversou com Fit pela primeira vez.
Pac estava na frente da porta quando ouviu passos próximos a ele, estava sozinho em um corredor vazio então o eco era alto, havia mais alguém junto com ele.
— Olá, queridinho
Aquele apelido, aquele som amedrontador com a língua como um tick nervoso, a risada, tudo aquilo acumulado fez o corpo de Pac congelar, seu coração acelerou dentro do peito.
— O'Que você quer Cell? — o moreno se repreendeu pelo tremor em sua voz, sua mão congelada na maçaneta.
O ecoar dos passos volta a ressoar em seus ouvidos, Pac se sentiu tremer, ele tinha que sair dali, não queria se sentir encurralado de novo. Antes que pudesse ter forças para mover seu corpo e o obrigar a correr, um aperto forte em seu ombro o gira e o bate agressivamente contra a porta atrás de si. Seu corpo estremece em dor, sua cabeça parecia girar com o impacto e com a pressão absurda contra seu ombro.
Pac abre os olhos lentamente, os mantendo semi-cerrados. Quando ele os fechou no início? Talvez fosse instinto de presa em esperar pelo bote após se encontrar em um beco sem saída.
O pequeno rato tinha sua cauda presa contra as garras do felino a sua frente, seus olhos brilhavam como se não comesse a semanas, e o fraco roedor seria sua refeição se não colaborasse com as exigências do gato.
— Você e seus amiguinhos estão planejando algo que eu sei — aquele som novamente, enquanto a pressão no ombro do rato aumentava, as garras gravando para romper a pele e tirar sangue — vocês não vão fugir sem mim
— Do que você tá falando? Não estamos fazendo nada — Pac cerra os dentes, puxando o ar entre eles quando sente as garras perfurarem o macacão para furar a pele — você tá louco, eu só quero trabalhar em paz
— Não, você não me engana idiota
A mão do caçador se distancia do ombro, dando um segundo de alívio para Pac respirar, antes que as garras gravem em seu pescoço o tirando todo o ar de sua garganta, sentindo novamente o aperto que poderia arrancar sangue.
O rosto de Cell estava próximo, era possível ver todas as imperfeições, os dentes afiados muito longe de serem humanos, as pupilas pareciam fendas finas e agressivas, como as de um animal pronto para abater sua presa, isso criava uma tensão amedrontadora. As lufadas de ar quente que batiam contra o rosto de Pac o dava nojo, o hábito tinha um cheiro de carniça que revirava o estômago do moreno, isso fazia as pernas do homem fraquejar, desejando com todas as suas forças rastejar e se esconder em algum buraco, fuja do caçador, não seja caçado.
Cell parecia gostar de como sua aproximação intimidadora deixava o outro desestabilizado, como o deixa com medo e desconfortável, — Pac entrega bem esses sentimentos, demonstrava facilmente seu desconfortável e desejo de escapa, então ele decide falar:
— Você é esperto, então coloque esse cérebro para pensar — a mão aperta ainda mais o pescoço de Pac, fazendo grunhir e entrecortar um grito de desespero — 'ce vocês estiverem planejando me deixar para trás, eu arrancarei um membro…
O detento de cabelos pretos sentia que seu coração estava apertado no peito ao ponto de explodir, ele não conseguia respirar, não era apenas pelo aperto em seu pescoço, aquilo era mais do que medo ou falta de ar, ele estava em pânico .
— Quem sabe até seus órgãos? Quem dos seus namoradinhos será o primeiro?— Cell completa, seguido de uma risada baixa, um tom enlouquecedor e maníaco.
Pac estava apavorado .
— O que tá acontecendo aqui? — Uma nova voz surgiu entre o clima de tensão e medo.
Mas alguém estava aqui, deixando o moreno aliviado por alguns segundos, antes de enrijecer o corpo novamente, aquela pessoa poderia ser seu salvador ou mais alguém para intimidar o detento. Pac não conseguiu identificar a voz, estava tão concentrado em se manter consciente apesar da perda de oxigênio, que seu corpo apenas despencou ao chão quando as garras deixaram seu pescoço.
O moreno a respirar profundamente, tentando trazer de volta ar para seus pulmões que clamavam por oxigênio, ainda tento a sensação dolorosa dos dedos apertando seu pescoço, era uma lembrança horrível que provavelmente deixaria marcas pelos próximos dias, vê-las seria um lembrete temporário de que ele se tornou um alvo.
Pac estava tentando recuperar as suas forças após sentir o cheiro da morte, ele nunca se sentiu tão desesperado para escapar de uma situação como aquela que ele se meteu. Ele estava tão focado em puxar o ar para seus pulmões que apenas o grito de Cell o tira de sua confusão, seus olhos rapidamente recorrem para direção ao som, vendo o corpo do presidiário caído no chão, leves tremores percorrendo por seus membros, e acima dele, Fit estava com a testa franzida, seu olhar era de raiva e em suas mãos havia um taser .
O pânico começou lentamente a ser substituído por choque, era uma mistura de confusão e alívio. O cão de guarda havia expulsado o gato, deixando o caminho livre para o rato fugir, foi estranho imaginar o careca naquele papel, mas ele o empenhou com excelência.
— Fi-Fitch ? — o chamado trêmulo faz o zelador olhar em direção ao detento caído, foi como um estalo, os olhos do careca suavizaram em segundos.
Os olhos de Fit tinham um brilho de preocupação enquanto estavam direcionados ao detento, mas ao olhar para Cell — ainda caído eletrocutado, seu olhar se estreitada em raiva, poderia ser imaginação de Pac, mas talvez o zelador já tenha visto muito das gracinhas do cannibal no passado.
Em passos longos Fit cai de joelhos na frente do seu ajudante de limpeza, as mãos fortes e calejadas do zelador vão diretamente para o rosto do moreno, manipulando a mandíbula para analisar seu pescoço. Pac sente seu rosto esquentar como o inferno, o moreno não sabia como e por que estava deixando o careca o tocar e o auxiliar tão facilmente, era involuntário abaixar sua guarda quando estava com Fit.
— Vai deixar roxo por alguns dias… — o zelador desliza uma das mãos, traçando com os dedos as marcas.
O toque de Fit era gentil, leve e sútil, Pac se viu se inclinando em direção ao contato, dizendo para si mesmo que era apenas por estar assustado.
— Deve haver algo que possa ajudar a amenizar o estrago, um gel talvez — Fit oferece.
— Por favor…você poderia me ajudar? — Pac pergunta, de maneira tímida, aquilo deveria ser encenação, mas a pergunta saiu mais genuína do que ele deseja.
Fit sorri, acariciando a mandíbula do detento com o polegar, descendo para descansar na lateral de seu pescoço.
— Sempre por você, Pac
Tudo bem, apenas naquele momento, ele deixaria seu coração bater mais rápido com as palavras do seu zelador, iria deixar ser cuidado e protegido, se permitir aproveitar do que antes ele nunca teve a chance de ter, ser um pouco mais egoísta.
°
JV estava morto.
Foi uma das piores cenas que Pac viu em sua vida, a morte era algo que ele já presenciou, mas nunca havia experimentado o gosto amargo que era ter alguém próximo ter sua vida arrancada.
Ele não morreu por qualquer motivo, Cell o matou , e Pac sentia o desprazer da culpa consumindo seu estômago, ele foi avisado sobre o'que poderia acontecer, mas decidiu não dar ouvidos e seguir em frente com o plano, o egoísmo e a ganancioso tiraram dele o outro único amigo que ele teve em sua vida, seu amigo morreu e Pac não conseguia deixar de sentir culpa .
Uma lápide foi colocada no cemitério da prisão, já que o presidiário em questão não tinha família, ele era alguém mas não tinha para quem voltar. Era apenas um buraco feito sobre a terra, não se deram nem ao trabalho de arranjar um caixão para acomodar o corpo e deixar o espírito descansar em paz.
Pac se viu ajoelhado na beira do túmulo, seus olhos fixos no rosto pálido do amigo que se foi, seus olhos ardiam pelas lágrimas não derramadas. Ele só conseguia imaginar a dor que JV sentiu durante a morte, ele não merecia isso, era um criminoso como todos ali mas sua morte foi horrenda, ninguém merecia o fim que ele teve.
Sem permissão, um soluço escapou de sua garganta, Pac aperta os olhos para se manter firme, mas o botão já havia sido pressionado e as portas estavam abertas, ele chorou e sufocou os gritos de tristeza no fundo do peito. Foi a primeira vez que seu coração doeu tão bruscamente, agarrando o tecido laranja na região dolorida, Pac apertou tanto que as pontas dos dedos embranquecem pela força usada, pela segunda vez ele se sentiu perdido e sem direção.
A primeira foi quando o orfanato entrou em falência, e ele se viu abandonado no mundo com alguém mais novo para cuidar. Um filhote sem uma mãe, eles estavam destinados à morte.
Uma mão quente tocou o ombro de Pac, que pisca algumas antes de encontrar o olhar de seu irmão, seus olhos estavam vermelhos e os óculos manchados pelas gotas de chuva, quando começou a chover? Ele nem percebeu como tudo ficou frio de repente.
— Temos que fechar a cova…consegue me ajudar? — Pac tinha seus olhos presos nos olhos verdes de seu irmão.
— Ok, vamos acabar com isso — o homem se levanta, sendo auxiliado pelo outro, enquanto passa o braço sobre os olhos, tentando limpar as lágrimas.
Assim que suas mãos tocam o cabo de madeira da pá enferrujada, é como se ela pesasse uma tonelada, ele tenta mover o objeto do monte de terra que estava, mas não consegue — sentia como se todos os seus arrependimentos estivessem presos na lama.
Ele se esforçou o máximo que pôde, mas seus braços pareciam gelatina, seu corpo tremia enquanto as lágrimas se misturavam mais uma vez com a chuva acima. Ele não conseguia, se fechasse a cova estaria deixando seu amigo para trás, ficando apenas nas lembranças, ele não tinha forças pra isso.
Pac ainda tenta se mover, ajudar seu irmão a terminar o serviço que foi encarregados a eles, quando sentiu um calor em seu ombro, dedos gentis o puxando para longe da pá, até que suas costas baterem contra algo firme, e as gotas de chuva não o atingissem mais. Se virando para ver quem o puxou, Pac sente todo o corpo desabar quando encontra os olhos preocupados de Fit, ele não precisava estar ali, mas estava, eles conversaram após a morte, pois o zelador foi o primeiro a ver o corpo no dia seguinte.
— Você está bem? — ele não deveria ser gentil, Pac não merecia essa gentileza, agora ele entendia isso.
— Não — ele decide ser honesto, se jogando contra o homem careca, envolvendo em seus braços e o segurando como se fosse sua última esperança.
Um dos braços do zelador seguravam um guarda-chuva, esse que os protegia da chuva, mas com o braço livre ele agarra Pac, segurando com um aperto esmagador, não era desconfortável mas sim o trazia uma sensação de alívio, como se ele tivesse pra quem recorrer quando o mundo estivesse desmoronando, Pac chorou ainda mais, ele nunca sentiu isso antes.
— Deixa eu ajudar com isso — Fit dá um tapinha no ombro de Pac, fazendo-o se afastar, assim ele estende a mão para que ele segurasse o guarda-chuva.
Assim que o detento estava protegido da chuva, o zelador se moveu, agarrando a pá e ajudando o outro presidiário a fechar a cova, cobrindo o corpo pálido e sem vida de JV.
Quando o enterro terminou, Pac se viu sendo arrastado junto a seu irmão para tirar a lama de seus corpos e trocarem seus trajes laranjas por novos, o homem não resistiu enquanto era levado novamente até sua cela por Fit. Ele estava congelando e seus olhos ocasionalmente deixava algumas lágrimas escaparem, essas que sempre eram limpas ou por seu irmão ou pelo zelador, se sentindo horrível por isso estar tão quebrado.
Seu transe apenas desaparece quando ainda no modo automático, Pac desliga o chuveiro de sua cela, o ar frio que vinha da prisão o fez estremecer, trazendo de volta a memória da onde ele estava e o motivo de estar ali. Com uma roupa nova em seu corpo, ele sai de trás das cortinas que separavam o pequeno banheiro do restante da cela, Fit estava alí, Pac tem a leve memória de se lembrar do zelador e do seu irmão conversando, não se lembrava exatamente oque foi dito, mas era algo sobre ver alguém , talvez o tal Guaxinim citado na carta que acharam na cela do amigo falecido.
Fit estava limpando o lugar, tirando as pegadas de lama e sujeira, as roupas antigas estavam dobradas em um canto prontas para serem levadas para a lavanderia. O olhar de Pac fica no zelador, ele o analisa depois dos dias que estiveram juntos e notando uma mudança brusca de comportamento. Fit estava com a guarda baixa, ele nem havia notado a presença do presidiário a sua frente, estava vulnerável e a mercê de quem estivesse perto, o molho de chaves sempre balançando em sua cintura, fazendo o familiar tilintar de metal chocando contra o outro.
O som traz uma raiva crescendo no peito de Pac, Fit estava confortável ao seu lado a um bom tempo, ele até mesmo o protegia dos polícias e de outros presidiários, ele poderia ter roubado aquelas chaves a muito tempo atrás, mas decidiu ser egoísta, aproveitando do sentimento e cuidado especial que ele estava recebendo, querendo sentir por um pouco mais de tempo que mais alguém de fato ligava para ele.
Mas por conta de seu egoísmo, JV estava morto.
Determinado em não falhar com sua matilha de novo, Pac se esgueira como de costume pelas sombras da cela alcançando a porta aberta, dedos rápidos e silêncios agarrando a chave do lado de fora e a retirando. Do canto dos olhos, Fit ainda estava distraído, então foi estranhamente adorável ver o zelador se assustar com o bater da porta da cela — trancada, seus olhos confusos encontrando com os exausto do detento.
— Pac oque você está fazendo? Você trancou a porta? — rugas de preocupação aparecem na testa de Fit — cadê a chave?
Um sorriso inocente se forma vagarosamente no rosto cansado, levantando ambas as mãos para mostrar que ele estava limpo, mas isso fez o zelador ficar mais agitado, caminhando em direção às grades e as segurando com ambas as mãos, tentando caçar quem os teria trancado dentro da cela. Pac acha engraçado a preocupação de Fit, mesmo sabendo que ele apenas não queria ter que passar a noite na prisão, pois estava totalmente despreocupado com a presença do prisioneiro ao seu lado, foi estranho finalmente notar como ele conseguiu deixar aquele zelador tão fr aco.
Pac se aproxima de Fit, passos silenciosos e que não são notados pelo outro até que seus rostos estejam incrivelmente próximos, seus corpos quase colados. O detento se diverte com a expressão confusa nos olhos do outro homem à sua frente, notando o leve rubor que subia por seu pescoço.
A diferença de altura não é tanta, mas o suficiente para que os dois tenham que alterar o ângulos de suas cabeças para seus olhares se conectem — eles faziam muito isso.
— Eu não mordo, Fitch — Pac deixou a sua voz cair em um sussurro — logo algum guarda aparece, ou meu irmão volte logo, onde ele foi mesmo?
— Foi tentar encontrar o presidiário Guaxinim, eu dei a indicação do bloco — Fit parecia ter ficado nervoso, pois sua voz estava mais grave do que o habitual, poderia até se dizer como uma voz de narrador.
— Temos um tempinho para conversar então? — o sorriso pequeno de Pac era gentil, sua pergunta exalava genuinidade.
Como já foi dito, enganar os outros fazia parte do pacote, mas foi a primeira vez que seu coração doeu ao estar enganando alguém, era inegável que nutria algo a mais pelo zelador — apesar de estar sempre negando isso. A aproximação nesse nível nunca foi testada, essa estava sendo a primeira vez que fazia algo como tentar quebrar a compostura de alguém.
Durante a curta conversa, a mão de Pac vagou discretamente pelo ar em direção ao cinto de Fit, a cada centímetro que seus dedos se aproximavam do molho de chaves, parecia que uma pedra caia em seu estômago, lembrando de como eles ficaram próximos, como mesmo não devendo fazê-lo Fit esteve ao seu lado e cuidou dele, ajudando seus aliados e ele mesmo a estarem cada vez mais perto da fuga. Lembrar agora que só fez tudo isso para enganá-lo e roubá-lo o fez repensar seus atos, se ele realmente queria fazer aquilo.
Mas ele precisava , eles precisavam disso para fugir, para que nenhum outro companheiro o deixassem, ele não poderia mais ser egoísta, apesar de seu coração doer em ter que deixar Fit.
Os dedos finos roçam o metal frio das chaves, mas um toque grosseiro agarra seu pulso e o levanta em um movimento brusco, fazendo Pac gritar e olhar para quem o segurava. Era tão comum seus olhos se conectarem, mas dessa vez o ar entre eles era tenso, desconfortável.
— O'Que pensa que está fazendo? — o moreno chia com o aperto forte em seu pulso, em junção com a voz ríspida do zelador.
Céus ele era um idiota, ele foi descoberto no meio de seu roubo e provavelmente perdeu a confiança de Fit. O detento não consegue segurar um soluço que escapa de sua garganta, Pac rapidamente espreme os olhos para não deixar as lágrimas escaparem, enquanto tenta se livrar do aperto de ferro do zelador.
— Eu tenho que fazer isso — a voz do detento sai mais chorosa e sincera do que ele queria — não posso deixar o Cell fazer isso de novo, não posso perder mais ninguém, E-eu…eu nã…
Pac é silêncio por um puxão, seu corpo sendo pressionado contra o do homem à sua frente, enquanto dois braços o rodeavam na parte inferior e superior de suas costas. Aquilo foi o prego no caixão, fazendo-o desabar em lágrimas, ele sufocava seus gritos no ombro, enquanto suas mãos agarravam o tecido do uniforme de zelador com tanta força que as pontas de seu dedo ficaram brancas.
Eles não sabem quanto tempo ficariam abraçados, Pac nem sabe dizer quando exatamente eles acabaram se sentados e enrolados um no outro naquele chão frio. As lágrimas já haviam secado, seus olhos doíam e seu corpo não parava de tremer. Foi a primeira vez que Pac queria se sentir pequeno, desejando se esconder do mundo e da vulnerabilidade que estava sentindo.
Um suspiro fundo faz o peito de Fit estufar e esvaziar lentamente, foi uma sensação estranha para o moreno que estava encostado nele. Ambos estavam em silêncio desde o início do abraço, era como se ambos soubessem que não adiantaria falar sobre o elefante na sala, e o próprio animal parecia não querer se mover.
Relutante, Pac respira fundo e desliza a chave da cela de dentro do pequeno rasgo da manga de sua roupa.
— Desculpa… — ele diz num sussurro, enquanto deixava o pequeno objeto sobre a mão de Fit.
Quando os dedos não se fecharam ao redor da chave, Pac franze a testa olhando para cima, vendo o rosto confuso e olhos arregalados de espanto do zelador. O detento não pode deixar de rir um pouco surpreso com a expressão no rosto do careca.
— Por que tá me olhando assim? — Pac deixa uma risada incrédula escapar.
Fit deixa uma risada baixa ecoar de sua garganta, olhos levemente fechados e provocativos encarava o rosto do homem mais baixo.
— You sly fox — o zelador abre um sorriso que mostra os dentes, deixando o rosto o mais próximo possível do detento.
— Never leave Me unsupervised big boy — Pac provoca.
— I see You Pac, I see You… — Fit finalmente fecha os dedos ao redor da chave.
A curta conversa foi como um quebra-gelo necessário, os dois homens finalmente conseguem respirar normalmente, sem o peso dos acontecimentos anteriores.
Um pouco mais leves do que antes, ambos se levantando do chão frio, mas algo surpreende Pac, a mão livre de Fit ainda estava enroscada na parte superior de suas costas, como se ele soubesse o quão quebrado ele ainda estava.
— Eu preciso ir agora — o zelador diz, como se tivesse lido os pensamentos do detento — Você ficará bem sozinho?
Pac conseguia ver rugas de preocupação na testa de Fit, isso fez seu coração doer, pois agora o motivo dele se preocupar era com seu bem estar,
— Acho que sim? — encolhe os ombros — acho que não devo ficar sozinho por muito tempo
— Posso ficar aqui até ele voltar, eu realmente não estou afim de te deixar sozinho
— Pare com isso — Pac revira os olhos, sorrindo divertidamente para Fit — não vou te causar mais problemas do que já causei…se cuide Fitch
— Você também, Pac —ambos sorriem.
Mesmo a contragosto, o zelador se afasta do detento, andando até a porta da cela e a abrindo com a chave que fora roubada a alguns minutos atrás. Fit vira para olhar para seu… amigo ? Vendo o mesmo se sentar em sua cama, seus olhos estavam baixos, ainda abalado pelos acontecimentos do dia.
Com uma sensação ruim na boca do estômago, o careca saiu, deixando para trás um Pac vulnerável, uma presa perfeita .
°
Tudo doía, cada fibra do seu corpo parecia latejar de dor, seus olhos pareciam pesados demais para abri-los, apesar do zumbido irritante de fundo, Pac conseguia ouvir um "bip" ao redor, além de duas vozes conversando ao seu lado, uma delas se assemelha a uma voz feminina, enquanto a outra era masculina e familiar aos seus ouvidos.
Foi uma luta conseguir distinguir tudo oque ele estava sentindo ou passando, mas aos poucos as peças foram se encaixando em sua consciência. Ele estava na enfermaria da prisão, as memórias do motivo ainda estavam um pouco confusas e embaçadas como se estivessem sido bloqueadas ou algo o impedisse de lembrar com clareza do momento. A voz feminina era possivelmente de uma enfermeira, ela informava várias coisas a alguém que estava ao seu lado, Pac estava com medo de estar alucinando, mas esperava que seu raciocínio estivesse certo, e quem estava ali era Fit.
Foi uma luta contra o próprio corpo para que finalmente pudesse abrir os olhos, retornando totalmente a consciência e controle de suas ações, mas também de suas dores, sua perna era a pior mas por alguma razão ele não conseguia mexer? Ele a quebrou? Nem se lembra quando isso aconteceu. Um aperto forte em sua mão o tira faz girar a cabeça para o lado, vendo Fit, ele segurava sua mão, a mesma que ele machucou quando se encontraram pela primeira vez, os olhos cor de mel estavam opacos e fixos no outro lado da sala.
— Fitch? — a voz de Pac era rouca e não passava muito de um sussurro.
Assim que ele o chama, Fit vira todo o corpo em direção ao moreno, olhos arregalados e brilhantes por lágrimas que se juntavam ali, fazendo o detento querer levantar e segurar seu rosto, mas ele se sentia pesado demais para isso.
— Pac? Oh thank you Goddess — o zelador respira pesadamente, segurando a mão do detento entre as suas, apoiando os cotovelos na cama e deixando sua testa contra os dedos pálidos do moreno.
O corpo de Fit treme suavemente enquanto um suspiro pesado escapa dele, como se uma grande onda de alívio tivesse tomado conta dele, isso faz com que as sobrancelhas de Pac se juntem em uma expressão confusa.
— Oque aconteceu? — o detento tenta entrelaçar os dedos com uma das mãos do zelador, sem sucesso.
Com a tentativa mal sucedida, Fit o faz por ele, antes de o olhar com uma expressão triste e derrotada, como se o fato de Pac não se lembrar do acontecimento fosse um sinal ruim.
<•>
O dia havia começado de forma estranha, pois ao chegar ao seu posto Fit foi informado que apenas ele e mais dois zeladores estariam limpando a ala designada do dia, por tanto estariam sendo acompanhados por alguns policiais para efetuamento do serviço e para sua devida segurança.
Para acompanhar Fit, o policial Felps foi designado, oque deixou o zelador levemente tenso. Trabalhar em Alcatraz a algum tempo faz com que as relações e indoles de algumas pessoas sejam bem visíveis, e aquele policial tinha uma forte ligação com o presidiário Cell, o mesmo que estava na lista de detestáveis de Fit, principalmente após o acontecimento do dia anterior, qual deixou Pac em um estado vulnerável e entorpecido de tristeza.
Limpar os blocos das celas sempre foi uma tarefa pesada, por essa razão que eles reuniram um número grande de trabalhadores para que ficasse mais leve para todos, além de que um grupo maior dava a sensação de segurança.
Fit fazia seu trabalho de forma eficiente, tentando não se incomodar com o policial que o acompanhava e de suas pequenas perguntas ocasionais, mas também tentava não se importar com o cheiro insuportável de ferro que estava próximo onde ele estava.
O vai e vem das vassouras era bem mais alto do que a maioria dos dias, era um som agradável aos ouvidos do careca, mas o fazia pensar em alguém. Um certo detento de cabelos pretos e olhos escuros que sempre estava escorado nas barras para o comprimento logo cedo pela manhã, apesar de estar com um policial em seu encalço, Fit dá de ombros, todos já sabiam que Pac era seu ajudante e eles tinham alguma certa intimidade, se Felps implicasse com algo, o zelador tinha uma vassoura que não se importaria de quebrar na cabeça de alguém.
Cada passo que dava mais perto da cela de seu amigo, o cheiro de ferro se tornava mais forte e persistente, fazendo inúmeras hipóteses surgirem na mente, seu café da manhã queria escapar de seu estômago com a ideia tortuosa de Pac estar ferido, se isso tivesse acontecido Fit iria ser consumido por uma enorme culpa por o ter deixado sozinho.
Quando a visão das barras não obstruia mais sua visão, Fit congela em choque com o'que seus olhos viram, suas mãos tremiam e seus olhos estavam vidrados. Felps não ficou muito atrás da reação do zelador ao ver a cena repulsiva e vermelha a sua frente, ambos os homens paralisados com o horror, sem conseguir prestar auxílio ou avisar os policiais.
— Fi-Fitch…! — o zelador enrijece os ombros e seus olhos se levantam para o rosto de quem o chamava.
Pac estava escorado na parede entre as camas, seu rosto estava pálido e de puro desespero, seus olhos marejados e bochechas manchada pelas lágrimas, o fio vermelho escorria por seus lábios nem se comparava ao mar vermelho e arrasado que estava sua perna. Como ele ainda estava vivo? Fit se questiona antes de jogar o pensamento para o fundo e correr em disparada para salvar a vida do detento, não se importando com o policial paralisado há atrás.
<•>
Os flash's de memórias iam voltando aos poucos, nenhum deles de maneira clara, apenas a sensação da dor, risadas histéricas e ameaças tingidas de vermelho. As simples migalhas de recordação foram o suficiente para fazer Pac querer chorar novamente, ele foi atacado em seu momento mais vulnerável e enquanto estava sozinho, ainda tendo a sorte de ter sobrevivido e aguentado até a ajuda chegar.
Eram muitas informações para processar, mas um ponto fez Pac se desesperar, se Cell o atacou oque aconteceu com seu irmão? A pergunta fez o detento tentar se desvencilhar dos aparelhos médicos e se jogar para fora da cama hospitalar, mas dois braços o seguraram no lugar o impedindo de se ferir ainda mais, ele estava sentido a própria perna, ele não a perdeu então , talvez só estivesse engessada.
— Pac! Você não pode levantar ainda, calm down — as mãos de Fit o seguravam no lugar.
Os olhares dos dois se cruzam depois do que parecia meses sem o fazerem, o detento tinha um brilho desesperado em seus olhos, como se tivesse implorando para ver seu irmão. A mensagem pareceu ser bem transmitida, pois as mãos de Fit afrouxam minimamente e se movem para suas costas, o ajudando a se sentar, quase desistindo com o chiado de dor do detento.
— Seu irmão está bem — ele fala de forma direta — ele estava desacordado quando te encontramos, ele deve ter sido atingido na cabeça mas sem danos grandes como o seu
— Onde ele está? — Pac pergunta de forma desesperada.
— Ele estava aqui ontem…mas ficou incontrolável quando viu seu estado — Fit estremece sutilmente e pende seu corpo pro lado direito — ele foi levado para a solitária
Pac espreme os olhos ao ver a mudança de peso do homem à sua frente, de forma descarada o detento se inclina para tentar ver o que havia acontecido, mas todo o uniforme escondia qualquer possível ferimento.
Ele levanta os olhos, pedindo novamente por explicação, olhos pedintes, e mais uma vez pareceu funcionar, pois Fit suspira em contentamento, se movendo para levantar a camisa e revelar um curativo à esquerda de sua barriga.
— No surto do seu amigo, ele acabou me empurrando contra uma mesa com algumas coisas… — o careca bufa — não sei exatamente oque aconteceu, só lembro de sentir ardência e notar o corte, não foi nada demais
Pac suspira, ele poderia dizer algo em nome de seu irmão, mas sua cabeça ainda estava trabalhando em outras informações. Uma delas era o fato de estar sentindo sua perna, ele não sabia exatamente oque aconteceu com ela já que não foi explicado de maneira clara.
As memórias fragmentadas que surgiam para o detento eram apenas sensações, e uma voz de fundo, familiar e causava arrepios em sua espinha. A risada que aparecia em sua mente claramente era de Cell, ele deve ter entrado em sua cela em algum momento e o atacado desprevenido, e quando seu irmão retornou o nocauteou para concluir o serviço, definitivamente era para Pac ter morrido, ou ficado com alguma sequela, mas o fato de ainda estar sentindo sua perna o deixava encucado.
— Fit… — o moreno o chama, enquanto seus olhos estavam fixos no relevo do lençol, tentando visualizar os dois membros inferiores.
— Sim, Pac? — a voz do zelador era tão suave que fez o coração do detento errar uma batida — do que precisa?
— E-eu…ainda sinto as minhas pernas, as duas, mas uma delas está doendo, e não consigo movê-la
— Oh Pac… — o moreno estremece em desespero com o tom de voz baixo e arrastado do outro.
Os olhares de conectam novamente, Fit tinha uma demonstração de tristeza em seus olhos, não era pena ou dó, era mais próximo a empatia, enquanto o presidiário tinha um olhar questionador e confuso, buscando por respostas.
Lentamente uma das mãos de Fit seguia para a coberta que deixava as pernas escondidas, agarrando e afastando o tecido vagarosamente, aos poucos mostrando o'que estava escondido, seus olhos sempre encontrando os de Pac como uma permissão silenciosa, essa que sempre é concedida.
A sensação foi a mesma do que ser atingido por um raio, um choque tão forte que era como se seu coração acelerasse ao limite, lágrimas começaram a se formar junto a um soluço preso no fundo de sua garganta, da coxa direita para baixo não existe mais nada, ela deveria estar ali, Pac sentia a dor e a queimação da pele, mas não havia nada ali.
— Te levaram para um outro hospital, já que aqui não teriam como cuidar de você — A voz de Fit estava muito distante para Pac — quando te trouxeram de volta, informaram a prisão que tiveram que fazer uma amputação, já que as mordidas infeccionaram
Foi instinto fechar os olhos e levar ambas as mãos até a boca, suprimento um grito angustiante quando a conclusão o atingiu como um caminhão de carga. Aquilo estava sendo demais para processar, Pac só queria desmaiar e não pensar sobre isso, não queria lembrar de mais detalhes do que aconteceu
Seu corpo inteiro tremia de medo e de frio, tudo parecia muito frio.
— Fitch… — os olhos escuros alcançam os cor de mel, lágrimas escorrendo de seus olhos enquanto sua voz chorosa implorava por conforto.
— I got you
Os braços de Fit se envolvem em torno de Pac no mesmo instante, esse mesmo que retribui o gesto o segurando com toda a força que tinha, enterrando o rosto no ombro alheio para derramar seu desespero.
Foi uma surpresa ao sentir um peso sendo colocado em suas costas e lentamente cair em seu colo. Pac afasta um pouco o rosto do ombro do zelador, sem sair do abraço, apenas para se surpreender com o molho de chaves que tanto planejou roubas em suas mãos.
— Fitch o que você…
— Vocês vão fugir daqui — Fit o havia interrompido para afirmar aquilo — eu não vou deixar mais nada machucar vocês
A declaração pegou Pac de surpresa, seus olhos estavam tão vidrados no rosto a sua frente, que ele só sentiu o arrepio quando a mão calejada e familiar segurou sua bochecha. O olhar do detento suavizou no mesmo instante que sentiu o toque, suas bochechas sendo tingidas por um leve tom rosado, combinando com o rosto do homem à sua frente. As mãos de mão ainda estavam enroscadas no tecido das costas de Fit, então um pele puxão foi o suficiente para que ambas as testas se tocassem, esse devia ser o momento que mais estavam próximos.
Estar na presença um do outro era como um segundo de alívio em um mar tempestuoso, um bálsamo para os corpos machucados. Pac puxa seu zelador para outro abraço, dessa vez menos desesperado e mais acolhedor, ele queria conseguir demonstrar um pouco de gratidão por tudo, mas as palavras haviam escapado dele.
<•>
O fogo estava por toda a parte, não era um incêndio, mas sim pilhas de itens aleatórios em chamas em cantos variados das áreas de cela, o bloco interior estava um caos e ameaçava se espalhar para os outros.
Gritos e sirenes eram os sons que empesteiam toda a Alcatraz, sendo brevemente cortados por objetos quebrando ou tiros sendo disparados.
Dois olhares se cruzam no meio da confusão, ambos os corpos parando bruscamente suas corridas para terem certeza do que seus olhos estavam vendo. Pac estava com uma prótese ridiculamente péssima, seu rosto ainda estava pálido e seu peito arfava pelo nervosismo da fuga. Fit estava segurando o braço, membro esse que tinha um rio vermelho o tingindo daquela cor, seu rosto brilhava em dor e adrenalina, a palidez o alcançando pela perda de líquido.
O caos ao redor deles pareceu silenciar enquanto trocavam conversas silenciosas por seus olhares, inúmeras palavras não ditas, mas eles sabiam que aquilo era uma despedida, talvez fosse a última vez que se veriam, e essa constatação era um peso enorme e doloroso que eles carregavam.
Pac infla os pulmões e seus lábios se movimentam, dizendo algo que não foi captado aos ouvidos de Fit, pois o som do mundo ao redor dele se fez alto mais uma vez. O careca até tenta questionar oque foi dito, mas o fugitivo já o deu as costas e desapareceu no meio do tormento, o zelador só pode olhar sua paixão se distanciar, enquanto ele mesmo teve que seguir em frente.
<•>
A chuva era forte do lado de fora das janelas, o outono também trazia um ar gélido pela aproximação do inferno, mas dentro das paredes de sua casa o calor permanecia apesar de sua mente vagar por memórias frias.
Fit estava sentada em seu velho sofá, suas roupas casuais e confortáveis, apesar de seu lado esquerdo estar estranho, a sensação de membro fantasma era péssima. Ele a viu em ação várias vezes, a viu de perto quando esteve cuidando de Pac, mas senti-la era totalmente diferente e torturante, a dor de um braço que não existia mais.
Falando em Pac, o moreno era a única que passava na mente do homem, sendo também a única coisa que faz ele se distrair das dores fantasmas. Já fazia uma semana que o viu pela última vez, no meio da rebelião que aconteceu na prisão, ainda tinha vivido em sua mente a última troca de olhares que tiveram, a dúvida persistente do que Pac o falou antes de desaparecer de vista, esses pensamentos foram os únicos que rondavam sua mente desde que foi demitido do cargo de zelador pela perda do braço.
"Sem um braço, você ficará muito vulnerável entre os trabalhadores, agradecemos os seus serviços Fit, mas pode pegar suas coisas e se retirar", fucking idiots… foi oque o careca pensou enquanto era jogado fora por estar fora de serviços, segundo seus antigos superiores.
Batidas fortes em sua porta da frente o tiram de seus pensamentos depressivos e atordoantes. Resmungando por ter que mover seus músculos cansados, Fit rasteja até a porta e a abrindo já na intenção de mandar qualquer bêbado ou pessoa carente ir há merda. Assim que o dono da residência abre a porta, pronto para expulsar quem o perturbava, sua postura se quebra em segundos ao notar os dois homens de roupas laranjas a sua frente, aquele que bateu em sua porta tinha os cabelos pretos e olhos escuros, encharcado pela chuva.
Fit foi rápido em acolher os dois fugitivos, os tirando da chuva e os dando roupas secas e um banho quente para se esquentarem. Pac precisou de mais cuidados, havia um corte feio que precisava de cuidado, e novamente o careca se viu cuidado de um ferimento do moreno, igual quando se conheceram, e havia isso novamente em seu sonhador e irreal reencontro.
Nesse exato momento, o irmão de Pac dormia no sofá da casa, enquanto o dono da residência estava vagando entre os aparatos da cozinha para preparar algo quente e nutritivo para o fugitivo que ficou acordado, o mesmo que estava ocupando uma das duas cadeiras em sua pequena mesa de jantar, com uma caneca fumegante em mãos.
Eles estavam em um silêncio reconfortante mas desagradável, alguém precisava quebrar o silêncio.
— Como você sabia meu endereço? — Fit já começou com os dois pés na porta.
— Eu sou capaz de roubar muitas coisas, não fui para Alcatraz atoa — Pac diz de maneira zombeteira.
— Yeah , eu não duvido de você, Pac
Com o fogo desligado e a comida pronta, Fit se movimenta para agarrar os braços e talheres, sofrendo com grande dificuldade para completar a tarefa devido a falta de um dos braços.
— Deixa eu ajudar você — Pac oferece já se levantando de seu lugar.
Assim que o fugitivo tenta dar um passo, ele se recorda que estava sem a prótese ferrada que lhe deram na prisão, rapidamente ele tenta se segurar na mesa mas seu corpo já havia cedido a queda, sentindo o corte recém tratado latejar, fazendo Pac urrar de dor.
Foi preciso o início do som para Fit largar o'que estava fazendo, correndo até o detento e o segurando com seu único braço, praticamente levantando e sustentando sozinho o corpo do outro homem que tinha os braços em torno de seu pescoço, enquanto seu único estava contornando a parte superior das costas do moreno.
— Desculpa — Pac diz entre grunhidos, enquanto sua cabeça estava alocada logo abaixo do queixo de Fit — Esqueci que havia tirado a prótese…
— Sua pele precisa de uma pausa, principalmente para cicatrizar os pontos
— Meio difícil fazer isso quando você precisa sobreviver com um maluco na sua cola — Pac revira os olhos, enquanto se afastava, capturando os olhos do careca, seu olhar provocador suavizando de imediato — achei que nunca mais ia te ver…senti sua falta
Fit estava derretido com aquelas palavras, e o moreno se sentia muito bem ao lembrar que era capaz de fazer aquilo.
— Também senti sua falta, Pac — o careca encostas suas testas — nunca me atrai tanto por alguém como você
— Eu algemei o seu coração, meu dengo — o moreno dá um leve tapinha da bochecha do homem mais alto, logo voltando ao seu lugar no ombro do careca para firmar seu peso.
— De-Deigô? — Fit espreme os olhos, tentando pronunciar a palavra desconhecida.
— Dengo! — Pac repete — é um apelido carinhoso, normalmente usado por… — o homem congela, sentindo as pontas das orelhas e o rosto esquentarem.
Fit bufa de forma divertida, era difícil ver o rosto do moreno corar, mas logo sua expressão muda, chamando a atenção do detento.
— Fit? — Pac o chama.
— Eu estive pensando em muitas coisas, Pac — ele levanta a cabeça, olhando para os olhos escuros — mas uma delas é o fato de você ter me dito algo antes de fugir…eu não pude ouvir, e-eu gostaria muito de saber
Dessa vez foi o momento de Fit ficar com o rosto quente, o rubor subindo desde seu pescoço até alcançar as bochechas. Pac tem os olhos levemente arregalados e um rosa resiliente que ainda persistia ali.
— Eu disse "eu gosto de você, Fit" — ele pronuncia com sua voz saindo de forma gentil e suave.
O mais alto engasga, buscando palavras inexistentes para explicar seu espanto com o enorme passo que foi dado com aquelas palavras.
— Wow wow calma, calma — Fit era uma bagunça completa naquele momento — isso é um GRANDE passo, não faça isso tão rápido para não se arrepender Pac
O careca tenta dar uma risada divertida, por mais que oque ressentia em seu tom era a vergonha. Mas o moreno tem um olhar sério e determinado, suas mãos deslizando para envolver a cintura do mais alto.
— Já me arrependo de muitas coisas na minha vida, Fitch — essa era uma das raras vezes que a voz de Pac tomava um tom sério e seco — eu não quero me arrepender de mais uma
O coração do careca cai para seu estômago, sua respiração falha por alguns segundos, o que exatamente seria essa "mais uma"?, Fit talvez não quisesse ouvir a resposta, mas não poderia guardar essa pergunta para sempre.
— Se arrepender do que? Pode ser mais específico, por favor?
Pac nunca desviou o olhar dos olhos cor de mel, ele os manteve conectados e sustentados, uma tensão estranha pairando sobre eles pelo lado de Fit, mas tudo se torna mais estranho quando um sorriso pequeno se forma no rosto do mais baixo.
— Me arrependo de ter entrado na vida do crime, de não ter sido inteligente o suficiente para achar outra alternativa de vida para mim e meu irmão — Pac suspira trêmulo — me arrependo de ter acabado com vida de pessoas…me arrependo de ter ido roubar aquela porra de diamante — ele abaixa a cabeça — Mesmo que todo o dinheiro teria ido pra caridade.
Fit ergue os ombros, sua cabeça ligeiramente inclinada para o lado e sua testa estava completamente franzida, fazendo Pac rir baixo da expressão confusa de seu companheiro, antes de voltar a falar:
— Mas eu não me arrependo de conhecer você — Pac confessa, rindo um pouco mais alto ao sentir o braço de Fit o apertar mais contra o outro homem — já me privei tanto de sentir algo além do medo e da adrenalina…pela primeira vez eu quero sentir como é ser querido, cuidado e protegido, ao invés de proteger
O sorriso de Pac era pequeno, seus olhos estavam caídos, havia quebrado o contato pela primeira vez desde que os conectaram, seus ombros estavam encolhidos e sentia um leve tremor em seu peito, enquanto lágrimas começavam a se formar no canto de seus olhos.
De forma inexperada, Pac se viu sendo colocado de volta na velha e confortável cadeira da cozinha, seu rosto expressava confusão até que uma mão quente tocou a lateral de seu pescoço. O toque fez o moreno lembrar de quando Fit o protegeu de Cell, foi uma onda de estática que passou pelo corpo do fugitivo.
— Pac… — olhos pretos se encontram com os esverdeados — eu…gosto de você, Pac
Um sorriso bobo e enorme se forma no rosto do moreno, uma lágrima teimosa deslizando por seu rosto, essa que rapidamente é pega e limpa pelo polegar de Fit. As mãos dos homem sentado voam até as laterais do corpo do mais alto, segurando o tecido e o puxando para ficarem ainda mais próximos, arrancando risadas do careca, suas testas e narizes batendo gentilmente um no outro.
Definitivamente esse era o momento que mais estiveram próximos, sem dúvidas o mais íntimo e confortável possível.
— Eu realmente quero te beijar agora — Pac diz sem delongas — mas você está pronto pra isso?
— Não me faça me arrepender disso, Pac — Fit fala sem enrolação, cortando a última distância existe entre eles.
Um selar de lábios que ambos estavam esperando a muito tempo, dançando perigosamente em um ambiente nada propício para o florescimento de sentimentos amorosos, e mesmo assim eles o fizeram.
A satisfação de finalmente estar contra Fit e o beijando era algo um tanto indescritível para Pac, ele nunca esperou que tivesse sido de fato capaz de capturar o coração do homem careca. O moreno suspirou contra os lábios de seu amado, querendo manter o calor daquele momento para sempre.
— Gosto de você, também — Pac murmurio entre o beijo, não desejando se afastar completamente.
Fit sorri ainda com os lábios prensados, era um momento que ambos queriam aproveitar ao máximo.
Quando o ar se fez necessário e os lábios são separados, os dois homens caem em meio a uma onda de risos e lágrimas, ainda desacreditados que suas jornadas iriam terminar de uma forma tão certa.
Fit sabia que Pac algemou seu coração, mas ele não fazia ideia de que ele havia feito o mesmo com o moreno. Eles estavam algemados e foi por isso que o fugitivo roubou o endereço do careca, foi por ter seu coração nas mãos de outra pessoa que ele gritou a Fit antes de fugir que gostava dele. Agora eles poderiam viver suas vidas, algemados um ao outro por escolha própria, não por obrigação, estar dentro de paredes quentes, e não mais frias como as da prisão onde se conheceram.
