Chapter Text
Lá fora, passava um carro de sirene ligada.
Tinha sido perto. O giroflex atirava luzes nos vitrais já coloridos. Ambulância ou polícia, coisa boa, não era. Não que fosse, ou tivesse como se meter. Ou tinha?
— Fico te devendo essa, tá? — Shimeko disse, de passagem. — Nem sei como agradeço.
— Esquenta não. — Lucy parou de secar um prato. Acenou para a partida dela. — Daqui a pouco, tô em casa.
Correndo sem jeito, Shimeko ia embora sem trancar a porta. Coitada. Marcara errado o horário de uma entrega; não dissera do quê. Justo no dia dela de fechar.
Poderia ser Lucy no apartamento recebendo, mas tudo bem. O revezamento delas era mais informal que qualquer coisa. Trocavam por outro dia, quando as pernas a estivessem matando, e ficava por isso.
Shimeko era uma excelente colega de quarto. Melhor do que poderia ter pedido, e ainda acertara de primeira. Gente era difícil. Muito podia dar errado. Não dera. Ambas limpavam o suficiente, usavam fones de ouvido e dormiam em horários insanos.
O único hábito repreensível era a fofoca. Nem era sobre funcionários. Faltavam alvos suficientes. Fora as duas, eram só o gerente e a esposa dele. Era da vida dos clientes, sobre as quais sabia um monte. “Falam perto de mim, tô escutando. Não é culpa minha”, Shimeko dizia. Acabava não usando a informação para nada.
Pratos para o armário, xícaras para o escorredor. Máquinas de espresso limpas. Lixo no lixo, e lavar as mãos. Faltava algum produto? Abriu a geladeira. Não parece.
Lucy tirou o avental. Trocar de roupa e penteado, então. Foi ao vestiário para tanto.
Há uns meses, se enfezara do comprimento do cabelo. Salões bons com “cabelo de estrangeiro” eram caros. Mesmo que haja “estrangeiros” por todo lado. Cortara em casa, até um palmo abaixo do ombro. Ainda ficava bem nos coques elaborados, com mil tutoriais para testar.
Lucy voltou ao café deserto. A gola alta e calça de moletom eram o abraço ao fim do expediente. Escurecera lá fora. A placa na entrada tinha o lado de “aberto” para dentro. Shimeko virou o “fechado” para a rua. Ótimo.
E a porta abriu. Devia ser a própria Shimeko.
Hã?
— Licença — Kyouka disse.
O que será que foi?
— Pode entrar — Lucy respondeu. — Mas já guardei tudo…
— Não tem problema.
Ela conhece os horários. Não deve ter sido erro.
— Esqueceu alguma coisa? — Lucy insistiu. — Olho os achados e perdidos, se quiser.
— Não, na verdade. — Kyouka olhava para o exterior anoitecido. — Você tem um momento?
— Tenho.
Quer falar comigo, veio sozinha, sabe que também tô. Ou é má notícia, ou maluquice. Duvidava da segunda opção. Os passos calculados, os gestos precisos. Até a expressão meio vazia. Era a mesma Kyouka de sempre, ou o melhor imitador do mundo.
— Não tem jeito fácil, então… — Kyouka suspirou. — Tem algo que queria te dizer.
— …Fica à vontade.
Lucy evitou rir. Vai se declarar pra mim?
— Já gosto do Atsushi há um tempo. — Kyouka retribuiu o olhar. — E isso te diz respeito.
É, diz.
— Vou contar pra ele no Natal desse ano — Kyouka disse —, daqui a um mês e pouco, dois. Queria que soubesse—
“Contar”?
— Quê? — Lucy deixou escapar.
— Hm?
Fazia mais silêncio na rua.
— Ele não sabe? — Lucy perguntou.
— Não.
— Vocês não namoram?
— …Não.
— É sério? — A risada quase escapava dela. — Tá de brincadeira, né?
Cadê a câmera dessa pegadinha?
— A gente não tem nada. Nunca teve. — Kyouka piscou duas vezes, o rosto mais em branco que de costume. — Vocês também não, pelo visto.
— Não. Não temos.
— Ah — Kyouka disse. Parece que minha cabeça deu um nó. — Funcionou
— Funcionou o quê? — Lucy riu de nervoso.
— Eu não sabia. — Kyouka se abraçava pelos cotovelos. — Falei pra averiguar sua reação.
Detetives e planos.
— Se você tivesse chegado primeiro, eu não ia me meter. — Kyouka deu de ombros. — Não fazia ideia.
— A gente pode ter essa conversa ali? — Lucy indicou uma mesa. — Já volto.
— Ué?
— Vou arranjar algo pra tomar.
— Não… não precisa. Nem recebi ainda.
— Ninguém sabe, ninguém viu. Só um momento.
Lucy deu a volta no balcão. Qual bebida suja menos louça? Olhava para o armário de copos, e ele não respondia. O que eu achava? Que a porcelana fala? Vai soda de melão, por hoje.
— Certeza que não tem problema? — Kyouka disse.
— Nem de longe. Sem sorvete, pode ser?
— Pode…
Xarope primeiro, água com gás depois, num copo com gelo até a boca. Anos que moro aqui, ainda me surpreendo. Que bebida radioativa.
— Também não precisa da cereja — Kyouka avisou.
— Tarde demais. — Lucy abria a geladeira. — Cadê esse pote… Juro que vi.
Num instante procurando, ocorreu. Poderia ter sido infinitamente pior.
Era verdade; os dois combinavam. Até moravam juntos. Mais hora, menos hora, o assunto ia surgir.
— Não achou? — Kyouka disse.
Sem responder, Lucy avistou o frasco na porta.
Ignorando a bandeja, levou os copos à mesa. Sentar-se foi mais que bem-vindo aos pés.
Lucy suspirou, as costas se moldando ao banco. Disse:
— Ah, esqueci o canudo.
— Não precisa. Eu nem devia ter vindo quando já fechou.
— Sem problema. Eu é que devia…
Ter tomado a iniciativa com ele antes?
— Tá passando mal? — Kyouka perguntou.
— Oi?
— Achei que tinha te visto tremendo.
Lucy encarou de volta. Isso até baixar as mãos frias na mesa.
— É só… muita informação — forçou-se a dizer. — Eu não esperava.
Isso é bom ou ruim? Não sei. Tô a um passo de esquecer até meu nome.
— Eu também não. — Kyouka sorriu de leve. Segurava o copo com as pontas dos dedos. — Eu me preparei pra voltar pra casa chorando.
E ter que fingir que nada aconteceu.
— Se ele perguntasse, nem sei o que ia dizer. — Kyouka espiava pelo vitral. — Foi toda uma coisa ter vindo aqui.
— Uma “coisa”?
— Eu não ia ter essa conversa com ele do lado. Tive que dar um jeito.
De novo, ela tinha um plano. Mas que hábito.
— Posso perguntar que jeito? — Lucy disse.
— Pedi ao Kunikida-san pra me dar mais trabalho. Qualquer coisa, até separar o lixo. Fiquei até um pouco mais tarde. — Kyouka bebeu da soda. — E também…
— Também?
— Armei uma coisa de manhã. Passei prancha no cabelo e deixei na tomada.
— Ligada? — Arriscar pôr fogo na casa pra falar comigo?
— Desligada. Falei pro Atsushi que não tinha certeza. Ele entrou em pânico, mas foi lá ver.
— Deixa eu adivinhar — Lucy disse —: “tudo bem, não é culpa sua, você só se enganou, acidentes acontecem”…
— Bem isso. — Kyouka impediu uma risadinha. — E “seria perigoso se estivesse ligada, e ninguém desligasse”.
— Escutei isso na voz dele.
— Foi por mensagem, e até eu escutei. — Kyouka pescou a cereja pelo cabo e a comeu. — Ele acreditou. Nem perguntou nada.
De fato, não é difícil. Lucy se encontrou sorrindo de volta.
Por que não te odeio?
Em tese, não era para ser? Era. Assim seguiam todas as histórias do tipo. E lá se encontrava, sendo cordial, oferecendo bebida de graça.
Por que nunca te odiei?
“Não te odeio, pelo contrário” não explicava direito. “Amizade” também não. Tinham concordado em casos pontuais. A maioria, tirando sarro de um mesmo coitado.
— Alguém sabe que a gente tá aqui? — Lucy perguntou.
— Só se você contar. Eu não vou falar nada.
— Nem o Kunikida-san?
— Eu não disse pra ele o motivo. Se ele entendeu sozinho, não sei.
— Talvez. — Lucy tomou o primeiro gole da soda. — Ele é casado, afinal.
— Já faz meses. — Kyouka fez cara de indignação. — O tempo voa.
Voa mesmo. Foi por volta do começo do ano.
— Digo. Talvez ele tenha entendido — Kyouka prosseguiu. — Eu não citei nomes, mas meio que conversei com ele.
— Serviu de alguma coisa?
— Ah… Bom. — Kyouka bebeu mais. — Ele disse algo como “nem eu sei como acabei casado”.
— E com quem, ainda.
— Que maldade. — Kyouka escondia um sorriso com a mão e olhava para lá. O Atsushi faz igual. — Ele ajudou um pouco. Não vou desmerecer.
— O que ele disse?
— É mais fácil você ler a conversa.
Kyouka entregou o celular com o aplicativo aberto. Não era o flip phone, o memento dos pais, há um tempo.
Kunikida:
Se eu tiver algo útil a dizer, é algo que eu queria ter dito pra mim mesmo.
As coisas podem sair do esperado, e frequentemente vão sair. Não é o fim do mundo.
Isso não é difícil de entender, mas é difícil se fazer entender.
Existe vida após um erro, e você vai se recuperar.
Eu, por exemplo. Não consigo me imaginar com outra pessoa.
Você:
(figurinha de risada)
Sério?
Kunikida:
Sério.
Não traria nada de positivo.
Seria sonhar com uma vida que não tenho.
É injusto com ele, e injusto comigo mesmo.
Eu também não quereria que ele sonhasse com uma vida que não tem.
Não é isso que quero oferecer. A gente se propôs a se fazer feliz.
Você:
Vocês se dão muito bem…
Kunikida:
Dentro do possível.
(figurinha conformada)
A questão é que não existe vida sem problemas.
Eu tinha do que reclamar até quando estava solteiro.
Ou principalmente naquela época. lol
Isso ajuda em algo?
Você:
Até que sim!
Obrigada.
(figurinha agradecida)
Fugiu do previsto. Isso, sem dúvida. Lucy devolveu o celular. Tem coisas pras quais nunca pude ter plano.
O pessoal faz piada. Como ajo ao redor dele e tal. Nunca contei pra ninguém. Não tenho vergonha. Mas parece que precisa continuar como está. Senão, estrago tudo.
— Kunikida-san tem razão. — Kyouka balançava o copo até tomar mais soda.
Em relação a quê?
Kyouka a encarava em dúvida. Perguntou:
— Que foi?
— Ah — Lucy gaguejou. Pensei um monte, não disse nada. — Desculpa. É aquele negócio.
— Negócio?
— “Ei, Merry, por que a cara de falando sozinha?” ou sei lá.
— Parece, mesmo. — Kyouka retornava à expressão vazia. Ela achou graça. — Por que não só fala?
— Vão achar que sou doida.
— Todo mundo faz isso. É normal.
— Não é, não.
— Claro que é. — Kyouka inclinou a cabeça ao lado. — No exterior, não é?
— Não deve ser. — Eu acho…? — Enfim, isso à parte. Não tá tarde?
— Deve estar. — Kyouka abanou a mão. — O perigo é que tem que ter medo de mim.
Verdade.
— Já me seguiram na rua por aqui — Lucy comentou. — Entrei na sala da Anne e fiquei mexendo no celular.
— Assaltante ou stalker?
— Nem sei. Acho que stalker. Tem uns obcecados por estrangeiras.
— Se ando sozinha, acontece direto. Despistar é a coisa mais fácil do mundo. — Kyouka bebeu soda. — São uns amadores.
Quem vê, nem imagina. Ela não cresceu muito, do que me lembro.
— O resto da Agência já foi embora? — Lucy perguntou.
— A maioria. Não tô com pressa. Nada pra fazer em casa. — Eu também não. Kyouka apoiou o rosto na mão e o cotovelo na mesa. — Pelo menos, nada que eu queira.
— Muito trabalho, esses dias?
— Já foi pior. O caso mais difícil foi o que a gente te chamou.
— Mês passado, então. — Um baile de máscaras, contrabando… Infiltrei a galera toda lá. — Pagou até bem, esse.
— Não deu medo?
— É chato se eu roubar sua frase? — Lucy sorriu, arrancando com os dentes a cereja do cabo. — Eu dou medo no perigo.
Kyouka riu também. Disse:
— Já falaram em te contratar.
— A sério ou não tanto?
— Não tenho certeza. Foi mais de uma vez.
— Não sei se eu aceitaria.
— Hm… É, dá pra entender. — Kyouka olhou para fora. Havia pouco a ser visto, os postes já acesos. — Não é fácil sempre. Mas alguém sente vontade de trabalhar todo dia?
…Acho que minha cara diz tudo.
— É porque é trabalho. — Kyouka bebeu a soda até o fim. — Fazer o quê.
Melhor eu secar isso aqui, senão, esquenta. Lucy virou o copo também, e o deixou na mesa. Que momento esquisito.
— Vou parar de te segurar aqui. — Kyouka ficou de pé. — Não quero atrapalhar mais.
Tem alguém te esperando.
— Espera só eu lavar isso. — Lucy recolheu os copos. — Senão, é trabalho pra amanhã.
Lucy deu a volta no balcão. Reclamando ou não, precisava da louça limpa. Vidro ainda era das mais fáceis. Eram dois copos, que a bucha dava conta. Nem se deu ao trabalho de ligar a lavadora.
Secando as mãos, viu Kyouka digitando numa conversa. Mesmo de longe, a foto de perfil entregou. Você trabalha com ele. Divide a vida toda. Dorme e acorda ao lado, todo dia. Falando assim, parece até bom.
Como aguenta?
— Quer companhia até a estação? — Lucy perguntou.
— Você quem sabe. É o que eu disse.
— Vai que a gente pega um sem-vergonha no pulo.
— Ou só porque é pro mesmo lado. — Kyouka sorriu. — Você tem meu número?
— Não tenho certeza. — Por quê? — É o no grupo do mês passado?
— Tenho dois. Coisa da Agência. Clientes não pegam o contato pessoal.
Compenetrada, Kyouka clicava no celular. O de Lucy vibrou no bolso.
— Mandei mensagem do outro. — Kyouka travou a tela. — Salva quando puder.
Você não me odeia. Lucy desperdiçou um instantinho. Então, fez que sim com a cabeça.
Acho que tudo bem assim.
