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O dia de Alec não ia nada bem.
Tudo começara como um dia normal na estrada. Acordar cedo. Se preparar em silêncio enquanto os rapazes acordavam. Sorrir pacificamente enquanto eles faziam barulho, e só começar a comunicação depois da primeira caneca de chá.
Não era uma existência ruim.
Ao contrário da prisão que, conforme ele descobrira nos últimos 30 minutos, era uma existência bem ruim.
— Alec. Querido. Para de bater o pé no chão. Está me dando uma dor de cabeça horrível.
Certo. Dante tinha levado uma pancada na cabeça e estava com a mão pressionada sobre o galo que subia.
Alec não respondeu. Não porque não tinha uma dúzia de coisas para dizer, mas porque não sabia bem como agir depois do que acontecera hoje.
— Não sei porque está tão nervoso. Olívia vai tirar a gente daqui rapidinho. Vocês sabem que ninguém resiste ao charme dela. — Oliver estava jogado sobre o cadre oposto, os braços cruzados atrás da cabeça, os calcanhares cruzados à frente.
— Todo mundo tem medo dela, você quer dizer? — Sugeriu Chris, na ponta dos pés olhando pela janela.
Mais uma vez, Alec não respondeu. Claro, estar preso era ruim. Claro, Olívia conseguiria tirá-los dali rapidinho.
Mas tinha uma coisa que não poderia ser consertada.
Chris olhou para ele e apontou para a janela.
— Você é mais alto. Olha aí para ver se ela está chegando. — Quando Alec não se mexeu, ele soltou o ar. — Alec, a gente achou que você sabia.
Os outros dois trocaram um olhar. Ele olhou para cada um e se levantou, indo até a janela. Realmente, na ponta dos pés, ele via um pouco mais da rua. O palanque ainda estava montado, mas ninguém mais estava reunido. Não havia mais música, como se tocá-la pudesse trazê-los de volta.
Os dedos de Alec coçaram, a falta do violino quase como a de um membro. Se ele soubesse que o que fazia… se soubesse que sua música era magia, ele teria conseguido parar?
— E aí, algum sinal dela? — Oliver perguntou, tentando ver entre as barras da porta.
Ele balançou a cabeça para afastar os pensamentos e olhou para fora novamente. Certa como uma nova manhã, lá vinha Olívia batendo os pés pelo meio da praça, quase passando por cima de barracas de venda e pedestres igualmente.
— É, — Alec falou pela primeira vez desde a prisão — lá vem a Olívia.
Não eram muitas crianças plebeias que tinham acesso a instrumentos musicais.
Alec teve a sorte de ter um pai luthier. Seus brinquedos, desde pequeno, eram esculpidos em madeira. Pequenas musas com vestidos longos ou cavalos de guerra com guerreiros montados. Tinha um piano de uma só escala, perfeitamente proporcional para os seus dedinhos pequenos.
Mas de longe, seu favorito sempre foi o violino. Talvez tivesse sido um erro Adam ter dito ao filho que era o instrumento mais difícil. Alec tinha o péssimo hábito de querer ser o melhor em tudo – e o péssimo hábito de não ser o melhor em nada. Ou talvez tenham sido os instintos que tomavam conta quando ele tocava as cordas. O choque de tocar uma nota errada, a empolgação de tocar a nota certa.
A vizinhança já não via com bons olhos um garoto criado apenas com o pai em casa e a impressão do povo não melhorou com o constante assassinato das cordas do violino.
Com o tempo, porém, os sons esganiçados se tornaram notas. As notas se tornaram músicas. E tornou-se inegável. Alec tinha finalmente se tornado bom.
O passo seguinte, o pai tendo há muito tempo desistido de passar seu negócio para as mãos delicadas de músico do filho, foi começar a tocar por dinheiro. A cidade, tendo visto toda sua evolução, não foi a mais receptiva. O jeito foi partir em busca do próprio sucesso.
O próprio sucesso, ao que ele não sabia, envolvia muito acampamento, muita caminhada e pouca recompensa.
Tinha encontrado os rapazes por acaso. Estavam tocando na mesma cidade. Por um breve momento, a música deles sincronizou-se com a dele e houve um leve choque nos dedos. Não tinha bem certeza de como tinha convencido os rapazes – e, acima de tudo, Olívia – a deixá-lo se juntar. Mas sua intuição tinha estado certa: ele se encaixou perfeitamente, como se sempre tivesse estado ali.
Essa cidade era só mais uma na trilha infindável até a capital. Depois dariam meia volta e fariam o caminho de volta por outra estrada. E assim sucessivamente.
Mas algo fora diferente hoje. Suas mãos tinham deslizado com mais facilidade. Ele tinha ido além do que fizeram nos ensaios, tocando notas a mais, inserindo o instrumento em horas não planejadas.
E aí, o ar começou a vibrar. Isso não é tão incomum na música. O brilho foi um pouco demais para a plateia.
E, quando estavam sendo presos por associação com as fadas, tudo que seus colegas de banda tinham a dizer foi “Como é que você não sabe controlar isso ainda?”.
— O que?! — Ele tinha dito. — Controlar o que?
— Uh, a razão de a gente estar indo preso com algemas de ferro? — Oliver tinha apontado para a algema que o prendia à carroça que os transportava. — A magia?
— Magia?
— Você sabe… — Chris tinha encorajado. — Como a que eu faço para acender o fogo.
— Como o Dante faz para conseguir bons cachês — Oliver apontou para Dante, que virou o rosto.
— Eu uso meu belo rosto e carisma excepcional e só um pouco de magia, muito obrigado.
Alec tinha piscado várias vezes, sua visão ficando embaçada.
— Vocês acham que ele está meio verde? — Christopher perguntara.
— Tudo bem, Alec, todo mundo já deu um deslize. — Oliver só dera de ombros.
Dante o tinha encarado o tempo todo.
— Você… não sabia?
— Sabia o quê?
— Alec… você não conhece sua mãe. Você nunca suspeitou que ela podia ser… — De todas as coisas que esperava ouvir, a última era a mãe. Alec balançou a cabeça. — Uma fada. Como o Chris.
Christopher acenou.
— Oi.
— Ou meu pai. — Oliver adicionou. — Ou o Dante.
— Eu não gosto desse termo. — Dante tinha dito, alongando-se. — Eu prefiro feérico.
Fora mais ou menos aí que Alec perdera a capacidade de falar.
Olívia chegou à prisão com o fogo de sempre no olhar. Os rapazes esperaram, em silêncio, olhando para o chão, enquanto ela dava uma bronca em cada um dos oficiais, chegando ao ponto de inferir que suas mães ficariam muito decepcionadas pelo seu comportamento.
Por fim, conforme esperado, a porta se abriu e um guarda mau-humorado entregou um papel à Oliver.
— Uma multa. Considere isso seu último aviso. Volte para onde vocês vieram e não saiam de lá. Os músicos daqui já sofrem o suficiente sem vocês virem roubar o trabalho deles.
Alec segurou a manga de Christopher quando o viu abrindo a boca para dizer “pode ter duas bandas na mesma cidade, sabia?”. Quando o amigo olhou para ele, ele só balançou a cabeça. Já se sentia mal o suficiente de ter feito todos serem presos.
Olívia estava esperando na entrada de braços cruzados e olhou feio para o guarda antes de fazer um sinal para que todos saíssem. Ela fechou a porta atrás do grupo, mas não disse nada, tomando o caminho da carroça.
— Apostas: quem acha que o Alec sobrevive a noite? — Dante perguntou.
— Eu não.
— Eu não.
Concordaram os outros dois. Ele olhou feio de um para o outro.
— Não se preocupe, Alec, — Dante disse, dando um tapinha no ombro dele. — Eu aposto em você.
A carroça era uma coisinha torta de madeira pintada de vermelho. Dentro, havia quatro camas e uma rede. Era um inferno de quente no verão e um inferno diferente no inverno. Quando vinham às cidades, normalmente a deixavam na estrebaria. Mas com os problemas na praça, Olívia tinha sido rápida em mover a sua casa e meio de locomoção antes que ficassem sem nada.
Quando a alcançaram, já fora da cidade, Olívia já estava mais calma. Ela puxou um dos bancos deles para fora e se sentou, esperando que os rapazes começassem a fogueira. Oliver foi o primeiro a entender a dica, entrando na floresta para coletar madeira. Chris sussurrou boa sorte antes de seguir atrás dele.
— Quer me explicar o que aconteceu lá? — Olívia perguntou. Enquanto os olhos azuis eram sempre compreensivos em Oliver, em Olívia, eles tomavam um tom de cinza que lembravam nuvens de tempestade ou metal bruto.
— Pega leve com ele, Liv. — Dante se colocou ao lado de Alec, que tinha cruzado os braços. — Ele disse que não sabia.
— Não sabia do que? — Olívia ergueu uma sobrancelha.
Dante olhou para Alec, esperando que ele respondesse.
— Ele não sabia que tinha magia — Dante concluiu quando ficou claro que Alec não ia dizer nada.
— Bem, agora ele e toda a cidade sabem. — Ela olhou direto nos olhos de Alec. — Não me importa o que você sabe ou não sabe. Aprende. A gente já tem problemas o suficiente sem isso.
— Isso é uma fase. — Dante se sentou sobre a grama, pressionando a mão sobre o galo na cabeça. — Os humanos têm dessas às vezes. Às vezes nos amam, às vezes nos odeiam.
— Bem, eu vivo agora e eu gosto de ficar na cidade em vez de ser expulsa. E enquanto vocês forem andar com o meu irmão por aí, vocês vão me ajudar a manter ele alimentado e fora da cadeia, ou eu vou transformar essas orelhas pontudas em orelhas redondas rapidinho.
Dante protegeu as próprias orelhas como se já não fossem redondas. Mesmo Alec sentiu as próprias ficando mais quentes, como se soubessem que estavam em perigo.
