Actions

Work Header

Segunda-feira

Summary:

O vampiro Armand encontra uma forma de organizar sua existência após superar o divórcio e criar uma rotina em sua nova fase morando com o ex-jornalista investigativo e atual milionário Daniel Molloy.

Notes:

(See the end of the work for notes.)

Work Text:

***

 

Amanheceu.

Hora do banho de espuma às 6 e meia. Desde que começamos a morar juntos criamos uma certa rotina, um contrato diário eficiente. Antes de chegar a isso conversamos por dias, semanas, principalmente nos intervalos do trabalho dele. Eu o procurei. Ter sido abandonado me fez ser mais humilde na minha opinião. Sinceramente, acredito que miserável seja mais adequado, tendo em vista que Louis me deixou apenas com a roupa do corpo. Ele é um grande homem de negócios, mas preferiu omitir minha participação na empresa. Enfim, queria fazer o certo pelo menos uma vez. Louis estava certo, ele é fascinante, mas nunca vou confessar isso para o Daniel. Nunca vou admitir também em voz alta que fui covarde ao fugir depois de cria-lo.

Agora esse era o nosso novo normal. Primeiro, realmente acreditei que ele fosse me rejeitar. Inacreditável. Eu tenho amado passar as manhãs em uma banheira, ervas especiais decoram o banheiro e exalam uma essência afrodisíaca.

Urgh. A água morna relaxa meus músculos tensos há 500 anos como se fosse automático. Assopro as bolhas redondas de espuma para longe. Basta. A água escorre pelo chão enquanto busco pelo roupão. Eu sinto o perfume da essência dos sais de banho na minha pele, esses humanos não brincam em serviço.

Geralmente visto um blazer azul marinho por cima de uma regata branca, na parte de baixo apenas um short pijama e meias brancas. Não preciso de muito para modelar meu cabelo. Essa é a vantagem do trabalho home office, tem essa moda meio termo, parte casual, parte profissional. Ninguém em sã consciência andaria nas ruas assim, mas esse século tem suas peculiaridades.

Não preciso de um café da manhã, apenas de pequenos lanches. Desde que tenho vivido com Daniel, sinto essa necessidade de me alimentar com frutas. Nutrir meu sangue apenas com açúcar natural, não muito diferente de quando eu vivia com meu ex-marido. Dessa vez, sou eu quem escolho o cardápio. Então eu preparo uma salada de manga, uva sem semente e maçã. As vezes adiciono própolis. Fruta do dragão, melão. Por fim como uma fatia de melancia, odeio ter que tirar as sementes.

Pode parecer estranho para um vampiro na minha condição, mas eu gosto de ir a feira orgânica em busca do meu banquete verde. Gosto de pensar que tenho minhas excentricidades. De certa forma estou contribuindo com a economia local. Um feirante desaparece e três dias depois há um rosto diferente em seu local de trabalho. O mundo continua a girar e tempo é dinheiro como eles dizem, há muitas bocas para alimentar.  Eles tentam me enganar com os abacaxis toda a vez. Comida humana não tem muito sabor na minha língua, mas é melhor que muita coisa que já provei.

Então me sento em frente ao monitor mais recente da 4pple, esperando meus subordinados entrarem na reunião. Embora a pandemia tenha acabado, sua herança ainda é presente nas nossas vidas. Direciono um grupo de marketing localizado em Los Angeles e Xangai, são todos especialistas em propaganda para os estúdios de cinema. Gosto de fazê-los pensar que tem autonomia, mas a decisão final é minha. Eles insistem em ter um projeto de remodelar a imagem de um filme musical envolvido em polêmicas, mas eu realmente não quero me envolver em termos políticos norte-americanos no momento, melhor arquivarmos essa ideia. Entendo a frustração deles, mas nossa reputação como empresa também está em jogo na China. E mais uma vez, Daniel demonstrou muita generosidade. Estou em uma posição avançada graças as conexões que ele tem.

Caso você esteja se perguntando o porquê de um vampiro tão antigo se importar com assuntos humanos lá vai: eu gosto de interpretar papeis sociais. Acho elegante. E muitos gostariam de ser iguais a mim, ter o meu rosto, ter o meu emprego. Pelo menos foi isso que li nas redes sociais. Na verdade, isso me tira do tédio quando Daniel está ocupado dormindo ou gerindo o documentário do Lestat.

Ele não trabalha nas segundas, prefere adormecer durante o dia, mas nada me impede de acordá-lo as 14h da tarde. Seu corpo deitado de bruços na cama de casal me lembra um urso hibernando. Ele se recusa a dormir em um caixão próprio, mas aceita ficar por baixo no meu quando o chamo (depois de muita insistência). Meus dedos acariciam seus cabelos grisalhos macios, como se fosse feito de algodão. O quarto está um breu, exceto pela vaga luz que invade pela porta, nada que possa machucá-lo. O suficiente para observar sua feição relaxada.

Eu deito meu corpo por cima dele, meus lábios acariciam levemente seu pescoço, soprando em seu ouvido.

“Senhor, já é hora do seu almoço, preguiçoso

Os olhos dele se abrem, como se uma estátua tivesse ganhado vida com essas palavras mágicas. Esse cidadão sênior deve ser o único ser no planeta inteiro que tem a coragem de empurrar uma criatura da noite tão antiga quanto a vênus de Botticelli e perigosa quanto uma bomba atômica para o outro lado da cama só para ficar de conchinha.

“Bom dia, pra você também ” Sua voz meio atordoada de sono, uma mão envolve meu abdômen e a outra segura gentilmente meu pescoço. “Esse cheiro de hortelã, campo verdejante, grama molhada...”

Sem me deixar responder, as presas de Daniel deslizam sob a pele do meu pescoço. As pequenas pontas afiadas provocando suspiros em mim, odeio quando ele brinca com a comida. Me viro para juntar nossos lábios. Todos os meus pensamentos se misturam quando a língua dele dança com a minha. Sabe explorar minha boca e isso me desmonta. Minha vontade é de passar décadas só assim com ele na cama, sem dar a mínima para o mundo lá fora. Daniel segura minha cintura e me puxa com força para mais perto, nossos corpos se chocam e uma onda elétrica percorre meu pescoço até lá embaixo.

“Nada mal para alguém que mete o nariz onde não é chamado”

“Bom, se não fosse pelo meu espírito fofoqueiro você não estaria me procurando na cama todos os dias”

Falando em nariz, ele quebra nosso beijo e volta para o meu pescoço. Sua respiração fria na minha pele tem um poder anestésico, ele lambe a região, circulando. Meu corpo recebe com muito prazer as presas de Daniel. Em um primeiro momento são como agulhas, que logo se tornam um elo entre nossos corpos, como se a boca dele pertencesse no meu corpo. Afinal, dividimos o mesmo sangue. Através desse fluido posso ver suas memórias e sentir suas emoções. A sensação é inebriante. Eu sei que ele sente um calor invadi-lo com meu sangue. Não há conexão maior. Eu sou o oxigênio dele. Se eu estivesse vivo, com certeza meu rosto estaria vermelho. Não consigo evitar, ronrono como um gato no cio enquanto ele se alimenta, roçando minha coxa no meio das suas pernas. Meu corpo inteiro se arrepia. Essa ligação é única.

“Só porque eu quase drenei você até a morte, não é justo que você dê o troco na mesma moeda” Sou obrigado a separar nossos corpos. Envolvo um pequeno papel em meu pescoço.

“Eu nunca secaria minha fonte favorita” Ele sorri de lado para mim “Nenhuma droga ou vício se compara ao seu gosto”

“Cala boca” reviro os olhos.

 

 

 

Notes:

Na série o Armand confessa que só a ideia de criar um vampiro é repugnante para ele. Mas sabemos o quanto nosso Arun quis afrontar o Louis ao transformar o Daniel em vampiro, se contradizendo como sempre. Então minha intenção foi criar um Armand agindo como um protetor familiar da sua criação. Uma espécie de mãe pardal que alimenta seu filhote no ninho e ao mesmo tempo um companheiro reforçando um laço de dependência no outro. Essa é minha primeira publicação de fanfic.