Chapter Text
11 de abril, 2020
10:00
O carro preto se aproxima da calçada, diminuindo a velocidade antes de parar suavemente em frente ao grande prédio. Os faróis refletem na calçada molhada pela chuva da noite anterior. O trânsito segue intenso pela grande avenida Faria Lima, onde veículos passam em ritmo constante, suas buzinas se misturando ao som abafado da cidade. O motorista verifica o celular rapidamente antes de destravar as portas com um clique discreto, lançando um olhar breve pelo retrovisor, aguardando o passageiro.
— É aqui?
— É, sim, obrigado senhor! — O homem no banco de trás responde, saindo do veículo e caminhando até a fachada envidraçada do edifício imponente que reflete a luz do Sol. As portas giratórias movem-se continuadamente, uma evidência clara do grande fluxo de pessoas por ali.
Segue-se um grande saguão, com um longo e largo corredor que se expande até o prédio ao lado, unindo ambos em uma só construção. “Então é daí que vem o nome torre Alfa e torre Beta” pensou.
— Com licença, eu tenho uma reunião marcada aqui, mas eu não sei exatamente em qual andar fica. Você poderia me ajudar? — O homem anunciou para a mulher atrás da mesa da recepção que lhe responde sem se dar ao trabalho de tirar os olhos do computador — A reserva foi feita no nome de quem?
— Eu não sei se eu posso te dar essa informação moça, é meio confidencial. — Murmurou ele, hesitante. A recepcionista, uma mulher de sorriso fácil, inclina-se ligeiramente sobre o balcão para conseguir olhá-lo com clareza.
O jovem era visivelmente o mais novo ali, com um rosto ainda marcado pela juventude. Seus olhos puxados e cabelos negros lisos reforçavam sua origem asiática, enquanto o suéter vermelho chamativo destoava do ambiente corporativo ao seu redor.
Com um tom profissional, mas amigável, explicou:
— Senhor, eu preciso do nome de quem reservou a sala da reunião para poder te informar onde fica.
— Eu posso usar algum código? Tipo, hm — Ele pensa por alguns instantes, já é um codinome discreto o bastante. — Senhor Vero?
A mulher piscou, divertida, tamborilando os dedos na mesa enquanto procura alguma reserva com esse nome. — Tem uma marcação para as 10 da manhã no andar 8 com Senhor Veríssimo. Posso ver algum documento do senhor?
Ele discretamente a entrega sua carteira de identidade, que logo começa a digitar e lhe entrega um cartão. — É o elevador 3 na sua direita.
— Obrigado! — O jovem agradece, virando-se em direção à catraca mais próxima e se surpreendendo com um homem extremamente grande e forte atrás de si, não podendo deixar de compará-lo mentalmente com uma muralha.
— Prazer! Eu tenho uma reunião marcada com o Senhor Veríssimo! — Ao contrário do jovem antes de si, não teve nenhum receio em proferir o nome do anfitrião com sua voz alta e estridente. — Não lembro o andar, mas eu tô junto com o 'meninow' aqui.
— Muito bem! — A secretária digita mais uma vez no sistema, ainda exibindo seu sorriso inabalável. — Me diga o nome do senhor.
— Christopher!
A recepcionista lhe entrega o cartão de visitante e, antes que o homem se afaste, sussurra:
— Do que esse menino tá falando?
— Não sei, nunca vi ele antes. Ele é meio bobinho, né? — A secretária dá um riso soprado com a confissão, decidindo apressá-lo ao ver alguns homens engravatados se acumulando na fila atrás dele. — Andar 8, elevador 3 à sua direita.
Christopher é seguido pelo jovem até o elevador e aperta o botão calmamente.
— Oito andares… conhecendo o Veríssimo, essa reunião não dura nem meia hora. — Ele cruza os braços, seu sotaque americano carregado se destacando a cada vez que pronunciava alguma palavra com R. — Não sabia que a Ordem agora contratava gente tão nova.
Antes que o rapaz pudesse responder, o elevador chegou. Assim que ambos entraram, Christopher encostou-se a uma das paredes, observando o painel digital marcar o andar de destino automaticamente.
Foi só então que o garoto teve tempo de olhar melhor para ele: alto, muito alto. Grande, muito grande e musculoso. O rapaz já era um homem bastante alto, bem acima da média considerando seu país natal, mas o americano fazia-o parecer uma criança ao lado dele.
O rosto não lhe era estranho. Na verdade, ele conhecia aquele homem muito bem — ou pelo menos a versão dele que aparecia em Hollywood levando socos, fazendo manobras escandalosas em corridas de rua ou fugindo de explosões cinematográficas.
Seus olhos se arregalaram por um instante, Christopher Cohen, o dublê lendário dos filmes de ação que tanto admirava.
Um homem americano já de alguma idade, evidente por seu cabelo totalmente branco. Fazendo as contas, presumiu que já possuía em torno de 60 anos. Sua aptidão física, porém, não falhou nem por um segundo desde quando tinha 27 anos e se tornou o primeiro dublê do Van Damme, — Como os brasileiros diriam, envelheceu como vinho — embora agora tenha uma grande cicatriz de queimadura no lado esquerdo de seu rosto.
Ele queria dizer algo, mas hesitou. Não era hora para isso. Estavam indo para uma missão, a sua primeira missão oficial na Ordem.
O elevador chegou no oitavo andar em um instante, abrindo as portas com um leve som metálico. Christopher saiu primeiro, sem perceber o olhar admirador do jovem atrás de si. O rapaz respirou fundo e o seguiu, tentando esconder o quanto ficou empolgado em estar na mesma equipe que alguém como o dublê.
Segundos depois, ao avistar dois rostos conhecidos, ele já não conseguiu segurar o entusiasmo.
— Toma cuidado com o que você fala, Thiago. Precisamos ser discretos. — Uma voz feminina é descontinuada por uma voz elétrica e alegre.
— Liz-senpai! Thiago-sensei!
— Joui? — Os dois, que conversavam tranquilamente encostados na porta enquanto aguardavam os outros colegas, saltaram no lugar, pegando-se desprevenidos pelo chamado abrupto.
Ali estavam Elizabeth Webber e Thiago Fritz — veteranos da Ordo Realitas e mentores do jovem e empolgado Joui Jouki.
— O que você tava dizendo sobre sermos discretos mesmo, Liz? — A mulher fuzila o outro com os olhos.
Elizabeth, médica e cientista forense extremamente obstinada, nunca cedia sem uma boa luta, fosse contra um inimigo ou uma ideia contrária. Ao seu lado, Thiago, jornalista de palavras afiadas e carisma inegável, sabia como dobrar qualquer um com sua lábia afiada.
— Joui? O que você tá fazendo aqui? — Thiago tenta questionar o pupilo, mas é interrompido por um abraço abrupto.
— Thiago! Quanto tempo 'meninow'! Não te vejo desde que você era pequenininho! How are you? Como você tá? — Christopher, animado, aperta ainda mais os braços em volta do homem. Thiago o conhecia como um dos velhos melhores amigos de seu pai.
— Eu tô ótimo, Christopher! Não aperta meus pulmões, eu sou ex-fumante. — O homem tenta retaliar, mas não é páreo para os braços musculosos do americano, que agora o balançava levemente no ar. — Argh! Cris, eu não consigo... respirar!
Thiago é um homem de estatura média e magro, com uma barba mediana e com uma cicatriz irregular que corre do seu ouvido esquerdo até a bochecha, vestígio de um acidente passado que, segundo ele, quase lhe custou a audição.
— Joui, o que você tá fazendo aqui? — A mulher, que até então apenas oscilava seus olhos entre um olhar confuso para Thiago e um olhar severo para Joui, intervém pela primeira vez desde que os dois apareceram no corredor.
— Eu recebi uma mensagem... você sabe, do Sr. V., — Joui insistia chamá-lo por um codinome mesmo entre seus colegas. — me falando para vir para cá imediatamente e,
— E quem é essa moça bonita? É sua namorada, Thiago? — Elizabeth esconde seu rosto levemente vermelho com as mãos, virando-se de costas para os demais, envergonhada com a mera suposição.
Elizabeth Webber, ou Liz, como os mais próximos a chamam; É uma mulher alta, de pele clara e cabelos pretos curtos, arranjado cuidadosamente em um penteado metade preso em um coque e metade solto. É uma mulher de classe e bem posturada, exibindo seu jaleco branco alinhado e um par de saltos gatinhos pretos que contrastavam com a simplicidade da camiseta rosa e as calças pantalonas pretas.
— Liz, esse é um velho amigo do meu pai...
— Christopher Cohen, menina! Eu peguei esse meninow aqui no colo! — Dava batidinhas - nada leves - nas costas de Thiago ao mesmo tempo que falava. A voz barulhenta, mas agradável de Christopher ecoava pelo corredor meio vazio do grande prédio. — Vamos lá ver o que esse velho fanfarrão tá aprontando! — Sem cerimônias, abriu a porta imponente da sala marcada especialmente para eles.
A porta dupla de madeira maciça se abriu sem esforço, revelando um amplo escritório que destoava do modernismo implacável da torre Alfa. A decoração ali dentro parecia uma cápsula do tempo, remetendo diretamente aos anos 80, com um charme nostálgico evidente em cada detalhe.
Logo na entrada, um pequeno sofá laranja de design retrô repousava em frente a porta para que qualquer um que entrasse batesse os olhos nele, era ladeado por uma mesinha de centro de vidro. Sob esta, um tapete verde-musgo levemente azulado se estendia pelo chão, seu tecido levemente gasto revelando anos de uso ou, talvez, uma escolha intencional para manter a autenticidade da época.
O ponto principal da sala era a grande mesa de madeira posicionada ao centro, com oito cadeiras bem distribuídas ao redor. Sobre cada assento, repousava uma pasta organizada metodicamente. As cadeiras nas extremidades da mesa já estavam ocupadas. Na ponta direita, uma pessoa trabalhava diante de um computador, a luz da tela refletindo sutilmente em seu rosto. Na esquerda, o homem responsável por aquele encontro. Senhor Veríssimo.
Seus olhos castanhos passeavam por todos atrás da porta, — Senhorita Webber, senhores. — parando no homem mais velho no meio. — Christopher.
As janelas, posicionadas estrategicamente na extremidade oposta da sala, deixavam a luz matinal invadir o ambiente, lançando sombras suaves sobre os móveis e às duas pessoas. A luz do Sol criava um jogo de contrastes entre o brilho quente e o tom mais frio do mobiliário vintage, como se o escritório estivesse preso em um limbo entre o passado e o presente.
Perto da entrada, vasos de plantas altas quebravam a formalidade do espaço, trazendo um toque de vida à decoração predominantemente de tons terrosos. Havia uma sensação quase paradoxal no ar—embora o espaço pertencesse a um arranha-céu ultramoderno, cada detalhe interno parecia ter sido meticulosamente planejado para transportar aqueles que entrassem diretamente para quatro décadas atrás.
— Ah não, isso não tá acontecendo. — A pessoa que estava com os olhos vidrados no computador finalmente se vira para ver os novos colegas.
— Cesar? O que você tá fazendo aqui? — A voz estridente de Christopher ecoa pela sala meio vazia. Quase grita um tom surpreso, no fundo sendo possível notar uma certa decepção. Não com Cesar, mas com o homem ternado à sua frente. Claramente não esperava vê-lo aqui. — Veríssimo, eu te disse para deixar a minha família longe disso. Eu sempre disse para deixar o meu filho fora dos assuntos da Ordem!
— Eu sei disso, Christopher. Mas o Cesar veio até mim por vontade própria. — O homem grisalho se defendia calmamente. O semblante sério, um rosto autoritário quase tão marcado pelo tempo quanto a sala. — Você sabe melhor do que ninguém que na nossa situação atual, quanto mais pessoas melhor.
Joui desvia sua atenção de Veríssimo para o homem perpendicular a si. Cesar, como Veríssimo o apresentou e como seu pai anunciou em alto e bom som. Um homem esguio e aparentemente alto, com uma postura ligeiramente curvada que lembra um pouco a de um camarão. A luz da janela o iluminava suavemente, desenhando contornos delicados em seu rosto e realçando a textura desalinhada dos cabelos. Seus cabelos cacheados chegam-lhe nos ombros, desordenados de um jeito naturalmente bonito que, a cada vez que levanta o rosto, sua franja ameaça cair sobre seus olhos. Seu olhar é cansado — como se já tivesse vivido mais do que gostaria — mas é fracamente escondido pelos óculos de grau que usava para conseguir enxergar a tela de muito perto.
Os dedos finos e longos teclam rapidamente, a tela piscando com informações que nem se Joui tentasse, entenderia do que se tratam. Seus movimentos são precisos, mas suaves. Havia algo na forma que ele se movia que prendia os olhos de Joui nele por um instante a mais do que deveria.
A tensão na sala se condensava a cada segundo que passava. Christopher atravessou o espaço entre eles em passos firmes, sua expressão carregada de preocupação e uma angústia que transparecia em cada linha de seu rosto marcado pelo tempo.
— Cesar, meu filho… — Sua voz saiu mais baixa do que pretendia, mas carregada de urgência. Ele finalmente parou diante do filho, tentando capturar seu olhar. — Você sabe o que você tá fazendo? Você sabe no que tá se metendo?
Mas Cesar sequer ergueu os olhos do computador. Seu foco era total na tela à sua frente, como se qualquer segundo perdido ali fosse mais importante do que qualquer outra coisa naquela sala.
— Sai pra lá, Christopher. Tô ocupado com uma parada importante. — Ele gesticulou de forma displicente, como quem espanta um incômodo menor, antes de continuar digitando.
A forma casual e distante com que foi descartado atingiu Christopher como um golpe seco no peito. Ele engoliu em seco, a mão apertando o punho inconscientemente.
— Ocupado? Filho, a gente não se vê há um mês! — Sua voz soava cada vez mais carregada de frustração. — Como você descobriu sobre isso?
Dessa vez, Cesar afastou as mãos do teclado. Recostou-se na cadeira, cruzando os braços e, finalmente, encarou o pai. Seu olhar era frio, cético.
— Um mês é um pouco demais pra quem se diz meu pai, não?
O silêncio que se seguiu pesou como chumbo.
Christopher abriu a boca para responder, mas nada saiu. Porque, no fundo, ele sabia que não tinha uma defesa. Cesar não desviava o olhar, mesmo encarando-o de baixo, havia uma firmeza absoluta em sua postura, uma dominância que deixava claro que ele não estava esperando justificativas.
Antes que Christopher pudesse encontrar palavras, a voz afiada de Elizabeth cortou o ar.
— Olha, eu não queria ter que repetir a mesma coisa do Casos de Família, — Liz avançou, os saltos ecoando contra o chão polido enquanto parava em frente a Veríssimo. O dedo indicador apontado diretamente para seu rosto. — Mas o que o Joui tá fazendo aqui? A Ordem recruta crianças agora?
— E quanto ao meu menino? — Christopher girou sobre os calcanhares para encarar Veríssimo, a indignação em sua voz se alinhando à de Elizabeth. — Desde quando a gente coloca a família nisso aqui?
Veríssimo suspirou pesadamente, pressionando as têmporas com os dedos, como se estivesse reunindo paciência para lidar com os dois ao mesmo tempo.
— Eu não queria recorrer a isso, mas… Cesar, você pode me emprestar sua faca?
Cesar girou os olhos, mas sem hesitar, enfiou a mão no bolso e puxou um objeto pequeno, colocando-o na palma estendida de Veríssimo.
— Não vai sujar, hein.
A lâmina vermelha curvada brilhou sob a luz do escritório. Uma karambit, como os jogadores de Counter-Strike chamariam.
— Não se preocupe. — O gesto fez Christopher apertar os dentes. Ele olhou para o objeto na mão de Veríssimo e depois de volta para o filho. — Eu não vou.
E então Veríssimo moveu-se.
Rápido.
Levantou-se em um só impulso e, com um giro fluido do pulso, lançou a karambit pelo ar.
Os olhos de todos se arregalaram quando a lâmina cruzou o ar. Era rápida. Direta. Precisamente mortal.
— JOUI! — O grito de Elizabeth rompeu o silêncio.
A lâmina cortava o espaço entre eles, indo direto na direção dos olhos do japonês. Mas antes que qualquer um pudesse reagir, antes que o pânico pudesse se espalhar pela sala, um único movimento desviou o desfecho da tragédia.
Joui inclinou o corpo para o lado no último instante, os fios de seu cabelo balançando com o deslocamento de ar. Sua mão se ergueu num reflexo preciso, os dedos se fechando firmemente em torno da empunhadura da faca.
O silêncio pairou no ambiente.
Ele piscou, avaliando o objeto em suas mãos antes de abrir um sorriso despreocupado.
— Wow, que faca descolada! Acho que vamos ser bons amigos, Cesar-kun! — Ele gira a lâmina em seus dedos habilidosamente antes de a firmar de vez. E sorria, seus olhos puxados acompanhando o movimento dos lábios.
O choque estampava os rostos de Christopher, Elizabeth e Thiago. Eles se entreolharam, tentando compreender o que acabara de acontecer. O rapaz, que até então parecia desengonçado e fora de lugar, havia capturado uma faca em pleno ar com a naturalidade de quem pegava uma bola jogada por um amigo.
— ...Ok. Você me convenceu que esse meninow é bom. — Christopher fala, então virando a atenção para o amigo mais uma vez. — Mas e quanto ao meu filho?
— Cesar, — Começou, num tom quase casual. — por quantas câmeras de segurança os seus colegas foram vistos até chegar neste prédio? — Veríssimo dizia ao mesmo tempo que dava a volta pela mesa, parando de costas para Cesar, observando alguns quadros na parede.
Cesar nem precisou olhar para Veríssimo para responder.
Ele ajeita-se na cadeira, voltando à sua posição original com as costas curvadas e as mãos no teclado.
— Joui foi visto por quatro câmeras. O Christopher por treze. — Uma pequena pausa. — E Liz e Thiago pelas mesmas dezesseis.
— E você? — Christopher cruzou os braços, a voz carregada de suspeita. — Por quantas câmeras você foi visto?
Cesar não desviou os olhos da tela enquanto respondia, a voz carregada de tédio.
— Nenhuma.
O silêncio pesou por um instante. A afirmação fez Christopher franzir o cenho e Elizabeth piscar. A mulher sendo quem reagiu primeiro.
— Nenhuma? Você tá me dizendo que conseguiu entrar num prédio de 40 andares sem ser filmado uma única vez?
Cesar finalmente desviou os olhos do monitor, lançando um olhar enviesado para Liz, como se tivesse feito uma pergunta óbvia.
— Eu não sou idiota de sair desfilando na frente das câmeras.
O tom de provocação fez Thiago bufar uma risada baixa, enquanto Elizabeth revirava os olhos. Christopher, no entanto, manteve o olhar fixo no filho, analisando-o.
— Você sempre foi esperto, Cesar. Mas inteligência não é tudo. — Sua voz estava mais grave agora, carregada de algo que se assemelhava a preocupação genuína. — Não é só um jogo. Não dá pra simplesmente apertar "restart" se der merda.
Cesar não respondeu de imediato. Seus dedos pairaram sobre o teclado por um momento antes de continuar digitando.
— Eu sei o que tô fazendo.
A sala estava silenciosa, todos os olhares caindo sobre Cesar. O peso de tantos olhos nele começam a pressioná-lo, tornando seus ombros tensos.
— O sistema de segurança daqui é patético… — murmurou, sem tirar os olhos do monitor. — A criptografia é básica, a autenticação é cheia de brechas… Sinceramente, qualquer que foi a pessoa que tenha programado isso não esperava uma invasão.
Seu tom começou firme, seguro, mas aos poucos foi diminuindo. A sensação de ser o centro das atenções era desconfortável. Ele odiava isso. Cada um daqueles olhares parecia amplificar a pressão sobre ele, tornando sua voz mais baixa, menos assertiva.
— … Na verdade, dependendo da abordagem… — Ele pigarreou, desviando os olhos da tela rapidamente. — Mas não que isso seja importante…
Joui, que agora estava em frente à mesa, deu dois passos e inclinou a cabeça, franzindo o cenho.
— Hm? O que você disse? — Sem pensar muito, inclinou-se ligeiramente para frente, tentando captar melhor o que ele dizia, apoiando uma das mãos no encosto da cadeira de Cesar para manter o equilíbrio enquanto se aproximava sutilmente. Agora, a pouca distância entre os dois fez com que o calor de seus corpos se tornasse perceptível.
Cesar congelou. A voz, já antes insegura, morreu completamente em sua garganta ao sentir Joui tão perto.
— E-Eu disse que... — Sua voz falhou, tornando-se apenas um ruído baixo.
Seu olhar, que até então evitava qualquer contato direto, moveu-se hesitante até o lado, encontrando os olhos acobreados do outro bem de perto.
Aproximado daquele jeito, Joui conseguia enxergar melhor os detalhes suaves do rosto de Cesar—o tom frio de sua pele, a forma como a luz da janela desenhava uma linha sutil em sua mandíbula, e principalmente, a cor avermelhada que agora tingia suas bochechas.
— H-hm… — Cesar pigarreou, desviando os olhos rapidamente, mas a vermelhidão só aumentava. Não sabia se era pela proximidade inesperada ou pelo fato de que ainda estava sendo observado. Talvez os dois.
Joui, por outro lado, parecia alheio ao efeito que sua aproximação causava. Apenas esperava pacientemente pela resposta, o rosto ainda inclinado na direção dele, como se nada estivesse fora do normal.
Cesar franziu o cenho, respirando fundo.
— Nada. Não disse nada. — Ele voltou a teclar furiosamente como se aquilo fosse dissipar a estranha eletricidade que se instalara no ar, tentando se esconder atrás do monitor.
— Você tá mesmo metido nisso até o pescoço, né? — A voz de Christopher saiu baixa, mas cheia de algo que ninguém conseguia definir bem; decepção ou medo.
Cesar não respondeu. Apenas voltou a se encostar na cadeira, se escondendo entre as próprias madeixas negras e tamborilando os dedos contra a mesa, como se estivesse esperando que aquilo terminasse logo.
— Ótimo, obrigado Cesar. — Veríssimo começa, agora virando-se de volta para os outros. – Como podem ver, nenhum de vocês está aqui por acaso. Sentem-se, favor.
Todos ocupam um assento na mesa: Christopher ao lado de Cesar, Thiago onde Veríssimo estava sentado anteriormente e Liz e Joui, respectivamente, nas cadeiras ao lado dele.
— Na frente de vocês tem uma pasta com uma foto de uma das equipes mais experientes da Ordem. — Veríssimo continuava passeando pela sala com suas mãos cruzadas atrás das costas. — Conheçam a Equipe Kelvin.
Afixado na pasta de cada um, uma foto com um papel de relatório. Na foto, era possível ver três pessoas: No meio, um homem alto e forte de cabelos escuros penteados para cima com as mãos nos bolsos e uma expressão confiante. Na esquerda, um homem também alto e forte, embora alguns centímetros mais baixo do que o do meio. Tinha o cabelo castanho claro raspado nos cantos e um cavanhaque da mesma cor apenas no queixo. Na extrema direita, uma mulher negra e alta, também musculosa como os seus parceiros de equipe. Tinha os cabelos pretos volumosos e curtos cortados de forma arredondada e os braços cruzados sob o peito.
Os três agentes possuíam a mesma tatuagem no braço direito.
Veríssimo dá um suspiro antes de continuar a falar sobre a equipe desaparecida.
— Na esquerda, Kenan Thomas. No meio, Miguel Cariad e na direita, Mariana Larona. Treinados por Chizue Akechi e pelo pai do Thiago, Arnaldo Fritz. — Thiago levanta o rosto, que antes analisava a foto, após ouvir o nome do pai.
— Há quatro meses, na cidade de Carpazinha, um policial chamado Rafael Montes foi encontrado morto com esse símbolo na testa. — Aponta para a foto embaixo da anterior para a pessoa mais próxima. Nesse caso, Joui. — Um símbolo usado pelos ocultistas.
A foto de Polaroid mostrava apenas a testa do homem com um símbolo em espiral queimado na testa.
— Um mês atrás, a equipe Kelvin se dirigiu até a cidade para investigar o caso... — Veríssimo parecia carregar um peso na voz, como se aqueles agentes fossem realmente importantes demais para serem perdidos. — Eles sempre foram muito disciplinados e enviavam relatórios constantemente relatando as missões. No entanto, o único relatório enviado está nas mãos de vocês.
Voltando no papel onde a foto do grupo estava afixada, lia-se:
"RELATÓRIO EQUIPE KELVIN
11/03, 23h14
..
Relatório inicial: ficando em um hotel próximo de onde o corpo foi encontrado, identificamos envolvimento de ocultistas. Sem dúvidas, o problema é maior que prevíamos. A cobertura de telefone na região é quase inexistente. Mais informações em breve."
— E por isso chamei vocês aqui. Sua missão é ir até a cidade de Carpazinha descobrir o que aconteceu com a Equipe Kelvin, auxiliá-los no que for preciso e trazê-los de volta em segurança.
Se inclinou sobre a mesa, apoiando as mãos na superfície com firmeza, os dedos pressionando a madeira como se pudessem gravar as suas digitais ali. A silhueta autoritária de Veríssimo era delineada pela luz da janela e o seu rosto era omitido pelas sombras, tornando-o ainda mais intimidador. Seu olhar, duro e avaliador, percorreu lentamente a equipe recém-formada, como se pudesse enxergar através de cada um, despindo-os de qualquer pretensão de confiança. Não havia espaço para hesitação ali - e todos sentiam isso.
— Tudo o que precisam estão nos dossiês na frente de vocês. Cesar vai entrar no sistema de companhias aéreas emitir bilhetes que protegerão suas identidades e permitirão o transporte do equipamento necessário. — Sua atenção é chamada para Cesar assim que percebe o movimento dele de fazer a tarefa que havia lhe sido imposta. — Sejam cuidadosos, olhos sempre abertos.
