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Memento

Summary:

Em um dia como qualquer outro, Armand fazia compras quando presenciou um homem de idade avançada ter um ataque e cair no chão em espasmos. Ele socorre esse senhor sem pensar duas vezes. Algumas pessoas pararam para observar assustadas a cena, sem interferir, como sombras compondo o fundo de um quadro, sussurrando imóveis. O jovem toma a decisão de acompanhar na ambulância o senhor que estava sem documentos e sem telefone. No hospital, Armand fica ao lado dele esperando alguma resposta, quem era esse desconhecido?

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Os poucos carros enxarcados do estacionamento pareciam entristecer ainda mais a paisagem urbana. A falta de claridade poderia confundir a razão do relógio que marcava 8h da manhã em um temporal que consumia qualquer vestígio do sol. Fora do supermercado a chuva torrencial marcava o céu acinzentado e os corações preocupados em encarar esse tempo. O clima parecia anestesiar a coragem e por isso muita gente preferia o conforto de suas casas, procurando boas desculpas para dar aos seus chefes e se recolher no quentinho da coberta, de um café e um bom filme.

Mas esse não era o caso de Armand. Como os outros clientes com seus carrinhos de metal, ele analisava as muitas laranjas em sua frente a procura das mais doces. A monotonia foi quebrada ao ouvir perto de si alguém soluçando alto como se estivesse em busca de ar. Seus calcanhares giraram e ele pode ver um senhor caindo de costas com um baque no chão liso e brilhante. Os braços e pernas do desconhecido tensionavam violentamente contra o chão, elevando sua coluna. Parecia que o homem queria executar a ponte em um exercício de yoga, mas sem ter a flexibilidade. Armand arregalou os olhos para a situação tão repentina. As calças do homem começaram a ficar molhadas na região da virilha e suas mãos contorcidas fechavam os dedos estranhamente. Os glóbulos oculares revirando para cima, parecia uma possessão.

Armand gritou (Socorro! Socorro! Alguém!) procurando por ajuda ao redor. A frequência da sua respiração aumentava a cada segundo. Ele lembrou de ligar para a ambulância e assim o fez explicando a situação e o local enquanto se ajoelhava perante o homem em convulsão. O rapaz procurou por carteira ou celular nos bolsos do mais velho sem sucesso. As pessoas ao redor cochichavam e julgavam o ato (Ele quer pegar dinheiro do velho? Aproveitador...), sem se aproximar apenas para observar a cena como a um espetáculo gratuito. Ninguém ali anunciou ser um parente ou um conhecido. O corpo do idoso pareceu relaxar aos poucos antes de começar a tremer cada fração de músculo. Da cabeça aos pés, o homem parecia estar levando um choque de uma fonte elétrica invisível. Saliva estava sendo derramada dos cantos de seus lábios finos.

Então Armand improvisou uma espécie de travesseiro-caixa-de-cereal elevando a nuca do senhor. Sem pensar duas vezes também se esforçou para virar o corpo para o lado. Depois do que pareceram horas, o físico do homem havia ficado finalmente estático. Os olhos do idoso estavam fechados e suas feições eram nitidamente de alguém inconsciente. As outras pessoas agora se dispersavam e apenas Armand continuava ali. Do lado de fora ouviam-se sirenes e dois paramédicos entravam. Armand respirou aliviado com a presença daquelas criaturas. Eles perguntaram quem havia deixado o senhor nessa posição enquanto depositavam com muito esforço o homem na maca depois de checar seus batimentos.

Armand estava bastante preocupado com a situação de alguém que era um total desconhecido. Não deixou de notar a aliança no dedo do homem. Era casado. Bom, era o pai ou avô de alguém nessa situação. Explicou aos paramédicos que viu quando o ataque começou e por alguma razão desconhecida ele soube o que fazer. O pobre homem havia se mijado, estava sozinho e sem documentos. Armand aceitou o convite para ir ao hospital acompanhar o senhor. Era o certo a se fazer por qualquer pessoa. Poderia fazer as compras depois do almoço.

Já no hospital, Armand pensou que fosse ser difícil sair da recepção pois não havia qualquer forma de identificar o homem. No entanto, uma das recepcionistas disse que já conhecia o senhor Molloy, ele adorava fofocar com ela e suas vindas ao hospital eram recentes. Disse ainda que o homem não tinha nenhum parente em sua lista de contato registrada no novo sistema. A chuva havia diminuído, mas Armand preferia manter o casaco.

Então Daniel era o nome do senhor que descansava em um quarto confortável do prédio hospitalar.

Armand havia guardado os óculos que sobrevivera a queda do senhor  no casaco em que usava. Esperaria Daniel acordar para poder se despedir e o mais velho seguiria para bater um raio-X, ter certeza de que não havia fraturas em seu quadril. E o dia voltaria a ser como todos os outros.

Armand

Quê? O nome saiu como um sopro dos lábios maduros e sonolentos. Como esse homem poderia saber o seu nome? Ele era algum tipo de stalker esquisito e pervertido que fingiu a convulsão? Calma. O ataque foi real pelo menos disso tinha certeza. Mas por que motivo um estranho chamaria exatamente seu nome? Talvez ele tenha confundido e o que ouvira não passasse apenas de um velho balbuciando.

Oh... Armand

Agora não restavam dúvidas. Isso era algum tipo de piada? Quando iria sair o apresentador de algum canto e lhe parabenizar ou algo do tipo? Ele iria aparecer na televisão como um mocinho?

As pálpebras relaxadas de Daniel finalmente se levantaram para ver o rosto do rapaz o encarando. Uma expressão genuinamente preocupada de grandes olhos amendoados castanhos, uma coruja vigilante, faminto por respostas. Armand fixava sua atenção naqueles olhos claros esverdeados, um lago sereno e cristalino.

Agora ele iria obter respostas. Seu celular começou a tocar. As mãos foram ávidas no bolso de seu casaco, trazendo consigo não só o aparelho, mas uma carteira de couro que esparramou no chão como uma fruta mole. Os documentos se espalharam no piso branco. O toque do celular era na verdade o alarme muito específico daquela hora de todos os dias. O aviso para tomar a medicação. Mas Armand achou aquilo deveras engraçado, pois não se lembrava de ter que tomar nenhum remédio e muito menos havia trazido alguma cartela em seu bolso. O que estava acontecendo?

Então antes de voltar sua atenção para o homem, recolheu os papeis no chão. Sentiu sua respiração parar por um momento. Não acreditou no que acabara de ler.

 

Era o nome completo do grisalho. Daniel Molloy. Data de nascimento, tipo sanguíneo. Tudo. Mas como isso era possível? Tinha certeza de que não havia encontrado nenhuma carteira nos bolsos de Daniel. O homem na cama agora estava sentado. Observando a situação pacientemente. Nenhum pouco intrigado, o oposto do rapaz.

Duas enfermeiras passaram pelo quarto e observaram os dois trocando palavras.

“Parece que o senhor Molloy teve outro ataque.”

“Aquele era o filho dele? Gostei do tipo.”

“É bom você tirar os olhos porque aquele ali já tem dono. Eles são casados.”

“Nossa... Até que são fofos.”

“Sim e duvido que você não se cansaria do rapaz.”

“Como assim?”

“Ele tem um problema. Coitado. Tão jovem. Deve ser pesado para o senhor Molloy ter que lidar com isso todos os dias. Imagina acordar ao lado de alguém que você ama e essa pessoa não te reconhecer. A memória é um monstro.”