Work Text:
A cena era repetida todos os dias sem falta.
As crianças seriam acordadas pelos professores do instituto e, evitando cuidadosamente duas crianças muito esquisitas, iriam se dirigir até o refeitório para o café da manhã. A primeira criança era evitada ao mesmo tempo em que faziam de tudo para perturbar sua paz enquanto a segunda era temida e, portanto, deixada só. Era a mesma coisa todos os dias desde que ele se lembra.
As crianças ficariam ocupadas até o intervalo, onde tentariam fazer com que a primeira criança, Xie Ta, chorasse de tristeza ou berrasse de raiva em resposta aos socos e xingamentos.
Mas ele nunca sequer levantou seus olhos.
Todos os dias, sem falta, eles fariam tudo exatamente igual ao dia anterior, tentando desgastar Xie Ta, mas eles nunca foram dignos de uma única olhada do monstro.
Aparentemente, todos do instituto eram mais desinteressantes que um livro de terror sujo.
Até mesmo Bai Liu.
Não importa o quanto ele tentasse, suas palavras ou ações pareciam nunca ser interessantes o suficiente para Xie Ta finalmente levantar a cabeça e perceber que Bai Liu estava lá, para então, olhá-lo nos olhos.
Uma vez, algumas semanas antes de uma outra criança desaparecer, Bai Liu a viu tirar os cabelos que cobriam boa parte do rosto de Xie Ta e viu, por um momento, os olhos que eram cobertos pela franja.
Os lindos olhos azuis brilhantes de Xie Ta eram a única coisa em sua mente por muito tempo.
Bai Liu não era alguém que faria coisas precipitadamente enquanto houvesse a possibilidade de sair no prejuízo de qualquer forma, mas ele sentiu a enorme vontade de arrancar aqueles olhos lindos de Xie Ta e guardar os dois em um lugar seguro para ter eles consigo para sempre.
Talvez só assim Xie Ta não evitaria seu olhar.
Bai Liu sentiu que seus pensamentos eram muito razoáveis e estava preparado para fazer exatamente isso enquanto seguia Xie Ta até o local de sempre, sempre o mesmo, nunca mudando.
Todos os dias, a cena era repetida sem falta. Xie Ta iria para dentro da igreja, sentaria perto da estátua de Deus e leria seus livros de terror rasgados. Como sempre, Bai Liu estaria logo atrás dele e se sentaria perto de Xie Ta, esperando ser visto e chamado.
Eles faziam isso todos os dias, mas Xie Ta não o olhou nenhuma vez.
Bai Liu se interessou em Xie Ta por seu perfil desinteressado, como se mesmo que fosse desmembrado e enterrado, isso não teria nada a ver com ele e só teria olhos para um livro chamado “Como Matar o Slender Man” (que, honestamente, parecia muito interessante mesmo). Mas com o passar do tempo, não ser notado por alguém que Bai Liu ansiava fez ele se sentir fora do controle. Isso o irritava até o âmago.
Xie Ta, com aquele ar desinteressado que agora o irritava. Xie Ta, com aqueles ferimentos esquisitos. Xie Ta, com aquelas bandagens que cobriam seu pescoço. Xie Ta, com sua pele pálida. Xie Ta, com os livros de terror que ele queria ler junto. Xie Ta, com aqueles cabelos brilhantes que cobriam seus olhos lindos, lindos, lindos demais. Xie Ta, com aqueles olhos belíssimos, tudo o que Bai Liu queria era que eles o observassem de volta—
Era inevitável que sempre que pensasse em Xie Ta, Bai Liu fosse tomado por vários desejos que se contrariavam, mas ainda eram tão parecidos. Ele queria a atenção do garoto, isso era certo. Mas como ele a queria era uma questão que ele ainda não havia descoberto.
Muitas vezes, Bai Liu se sentia como um barco à deriva no mar sem destino, levado de um lado para o outro no vento e na chuva, e Bai Liu queria desesperadamente alguém que pudesse firmar ele no lugar.
Ele queria Xie Ta.
Assim como todos os dias desde que Xie Ta apareceu, Bai Liu foi atraído por ele como uma mariposa que é atraída pela luz e se levantou do banco silenciosamente. Assim como todos os dias anteriores, Xie Ta não tirou seus olhos do livro e, como em todos os dias anteriores, Bai Liu pensou em como matar o garoto de uma maneira satisfatória.
Olhe pra mim, ele pensou, olhe pra mim ou eu vou te jogar no lago, me olhe nos olhos e me convide para ler com você. Eu quero ler com você. Eu quero ver os seus olhos lindos olhando para mim depois de terminar a leitura e quero que você me pergunte se eu gostei—
Xie Ta fechou o livro e os pensamentos de Bai Liu pararam de repente, olhando sem piscar.
Isso não acontecia todos os dias.
Xie Ta nunca havia tirado os olhos do livro, nem uma única vez, muito menos o fechou.
Na verdade, a criança chamada Xie Ta apenas deixou o livro de lado e virou levemente a cabeça, nem mesmo colocando a franja que cobria seus olhos de lado ou sequer olhando-o diretamente. Bai Liu parou em seus movimentos e a insanidade de sua mente se acalmou apenas com o propósito de descobrir o que o outro faria.
No final, ele foi destinado a se frustrar, porque Xie Ta abriu o livro novamente e voltou a lê-lo com a mesma atenção de sempre. Mesmo que Bai Liu ficasse aborrecido por ter que espiar este livro específico todas as vezes, ele sabia que era o favorito de Xie Ta, então não se importou que ele voltasse sua atenção para o mesmo livro quase todos os dias.
Afinal, Bai Liu estudava sua pessoa favorita desse mesmo jeito.
Assim como Xie Ta gostava de ler esse mesmo livro, Bai Liu gostava de observar essa pessoa e não achava que chegaria a sentir o mesmo interesse por qualquer outra pessoa no mundo. Xie Ta era uma pessoa tão curiosa e interessante que era como uma âncora mantendo a mente de Bai Liu no presente. Justamente a âncora que ele precisava para deixá-lo firme no lugar.
Ele observava tudo. Todos os dias. Todos sem falta.
Os livros que ele lia, o lugares que frequentava, a maneira como ele respondia depois que era tocado, a comida que ele comia, como agia depois de ser punido, as pequenas feridas no corpo dele, a maneira como ele dormia, observando o leve tremor em suas pálpebras, sentindo o coração dele bater e a maneira como sua pele fria como um cadáver esquentava quando Bai Liu a tocava.
Então ele entendia perfeitamente a obsessão que Xie Ta tinha por esse livro. Esse era um dos poucos aborrecimentos que ele podia aceitar.
E mesmo assim, Xie Ta tirou os olhos do seu precioso livro por um momento e virou sua cabeça para olhar para Bai Liu. Ele estava em um raro momento de bom humor puro e genuíno.
Matar Xie Ta seria como matar a fonte de sua alegria neste momento, então ele obedientemente voltou para o seu lugar, exatos dois bancos atrás dele na igreja, e assistiu Xie Ta ler o seu livro favorito mais uma vez.
Ele levou seus joelhos até o peito e abraçou suas pernas, apoiando a cabeça nelas, vendo o vento que entrava pelas janelas bagunçar o cabelo de Xie Ta e virar as páginas dos livros, fazendo com que ele tivesse que segurá-las no lugar para não atrapalhar a leitura.
Bai Liu olhou ligeiramente para o livro e já sabia em qual parte estava. A favorita de Xie Ta, onde os monstros acabavam com os humanos. Xie Ta leu palavra por palavra com atenção e começou a brilhar de felicidade, algo que Bai Liu aprendeu a reconhecer apenas à pouco tempo. Ele parecia estar sempre brilhando quando lia esse capítulo, uma luz azul em seu cabelo parecia deixar todos incapazes de desviar o olhar. O que normalmente resultava nas outras crianças sendo agressivas.
Ele lembrou como desejou jogar o corpo de Xie Ta no lago e então encarou o garoto brilhante.
… Se Xie Ta o olhasse com os olhos brilhantes diretamente da próxima vez, ele não o jogaria lá.
Ele descobriu cedo que, embora não tivesse ninguém para jogar junto com ele, Xie Ta era um grande fã de jogos de terror onde os humanos eram comidos e aniquilados por monstros, assim como Bai Liu. Eles claramente eram semelhantes em muitos aspectos enquanto eram completamente diferentes em outros. Cada semelhança e diferença aumentava cada vez mais a vontade de ter o garoto ao seu lado. Então eles poderiam jogar jogos de terror todos os dias, sem falta.
Xie Ta deveria estar ao seu lado, do seu, e apenas dele. Bai Liu achava que enlouqueceria se descobrisse que Xie Ta olhava para outras crianças, não com o simples ato de enxergar, mas ver alguém com seus olhos e deixá-los lá porque quer.
O pensamento de outra pessoa chamar a atenção de Xie Ta o deixava doente.
Ele deveria pegar Xie Ta para si logo.
Sim, com certeza. Amanhã, amanhã mesmo, eles estariam lendo aquele livro juntos e jogando jogos de terror juntos, comendo juntos, dormindo juntos, fazendo tudo juntos. E essa se tornaria um cena que se repetiria todos os dias dali em diante, quer Xie Ta goste ou não.
