Work Text:
Will não sabia se Hannibal ainda estava vivo. Talvez estivesse, talvez não. Era cruelmente irrelevante.
Ele pensava nele todas as noites de qualquer maneira.
A dor era uma coisa curiosa. Ele esperava ódio, esperava a fúria avassaladora que deveria vir ao ser enganado de forma tão completa, tão íntima. Mas não. Ele só sentia aquele buraco escancarado onde algo antes estivera — algo quente, algo vivo. Hannibal o tinha amado. Havia amor nos cortes que deixou, no sangue que derramou. O amor estava ali, retorcido e pútrido, no jogo que brincaram até que tudo se partisse.
Ele deveria estar agradecido por ter sobrevivido. Mas tudo que conseguia sentir era a ausência.
Hannibal Lecter era o Chesapeake Ripper. Hannibal Lecter mentiu para ele. Hannibal Lecter o usou, o manipulou, transformou sua mente em uma prisão da qual não poderia escapar. Hannibal Lecter riu quando Will tentou enganá-lo de volta, riu porque já sabia, já via tudo, como sempre viu.
E, mesmo assim, Will se lembrava da forma como ele segurava seu rosto, do olhar quase devoto que ofereceu antes de cortar seu ventre. Como se dissesse: "Eu te amei o máximo que fui capaz."
"Eu teria fugido com você."
Essa era a lembrança que o mantinha acordado, que latejava por trás dos pontos e das cicatrizes em formação. Porque ele sabia que era verdade. Hannibal teria fugido com ele. Ele teria deixado tudo para trás, teria queimado o mundo inteiro por ele, se Will tivesse dito que sim.
Mas ele não disse. Ele chamou o FBI. Ele o traiu primeiro.
Talvez fosse isso que doesse tanto.
Ele podia odiá-lo pelo sangue derramado, pelas vidas tomadas, pela forma como brincou com sua mente como se fosse um experimento a ser conduzido. Mas não podia odiá-lo por amá-lo.
E ele amava.
Will fechou os olhos. Ele viu Hannibal nos resquícios de sua memória, sorrindo com aquele brilho misterioso nos olhos, como se soubesse de algo que ninguém mais sabia. Como se, no final das contas, tivesse vencido.
E talvez tivesse.
Nos dias que se seguiram, Will tentou odiá-lo.
Ele quis se convencer de que aquela dor era apenas ressentimento, que a ausência de Hannibal era apenas um alívio disfarçado de luto. Mas a verdade era outra.
Hannibal estava em tudo. No cheiro do chá que ele agora evitava. No silêncio da casa, onde ninguém mais tocaria um piano. No vazio ao seu lado na cama, onde deveria estar o calor de um corpo que, contra toda a razão, ele queria de volta.
E isso o enojava.
Ele se lembrava de cada palavra dita naquela noite, de cada promessa silenciosa trocada sob a chuva e o sangue. Lembrava-se de Abigail. Do horror de vê-la viva apenas para morrer outra vez. Lembrava-se do cheiro de ferro, do toque gentil que precedeu o golpe.
“Eu queria tanto que você entendesse.”
Will entendia. Esse era o problema.
Ele entendia o que Hannibal fez. Entendia o amor distorcido por trás de cada ato monstruoso. Entendia o desejo de destruí-lo para mantê-lo para sempre.
Mas também entendia que isso nunca deveria ter sido amor.
Ele deveria se sentir sortudo por ter escapado. Todos ao seu redor diziam isso — Jack, Alana, até mesmo Bedelia, antes de desaparecer sem deixar vestígios. Disseram-lhe que ele era uma vítima. Que foi enganado. Que foi usado.
Eles não estavam errados. Mas também não estavam certos.
Porque, no fundo, Will sabia.
Se tivesse sido apenas uma mentira, não teria doído tanto.
Se tivesse sido apenas manipulação, ele não teria sonhado com a sensação das mãos de Hannibal ao redor do seu rosto, segurando-o como algo precioso, mesmo enquanto o feria.
Se fosse só uma mentira, ele não o teria amado de volta.
Mas Will amou. Deus, ele amou.
E talvez essa fosse a maior traição de todas. Não a de Hannibal.
A sua própria.
Os dias se tornaram semanas, e Will percebeu que estava esperando.
Esperando o quê, exatamente? Uma notícia? Um corpo? Um sinal de que Hannibal ainda estava em algum lugar, rindo daquela dor invisível que deixara para trás?
Ou pior — esperando que ele voltasse.
O pensamento era uma ferida aberta, uma que ele não conseguia estancar. Ele o odiava por tudo que fez. Pelas vidas que tomou. Pela mentira bem tecida em cada momento que compartilharam.
Mas o ódio não era suficiente para afogar o resto.
Ele tentou preencher o vazio com outra coisa. Pegou os cachorros e dirigiu para longe. Foi para uma cidade onde ninguém o conhecia, onde ninguém olhava para ele com pena ou com o conhecimento do que aconteceu. Alugou uma casa pequena perto do mar e passou as noites ouvindo as ondas baterem contra a areia, tentando fingir que não estava ouvindo os ecos de uma voz que sabia que nunca esqueceria.
Mas então ele sonhava.
Nos sonhos, Hannibal estava ali. Às vezes, sorrindo para ele, tranquilo como se nada tivesse mudado. Às vezes, coberto de sangue, os olhos escuros cheios de algo que Will se recusava a nomear. E às vezes, ele sonhava com a chuva, com a cozinha, com o momento exato em que tudo se partiu.
E acordava sempre do mesmo jeito: com o peito doendo, como se a faca ainda estivesse ali.
Era como um término. Um término que nunca deveria ter sido um começo.
Will queria odiá-lo. Queria apagá-lo de si, arrancá-lo da própria pele como algo podre, algo errado.
Mas era tarde demais.
O amor ainda estava ali, afundado em sua carne como uma lâmina que nunca saiu.
E ele sabia — talvez sempre soube — que jamais se curaria disso.
As semanas se transformaram em meses, e Will aprendeu a existir na ausência.
Ele fingia bem. Falava pouco, mantinha a rotina, deixava que o tempo lhe desse a ilusão de normalidade. Mas a verdade era que Hannibal ainda estava lá — em cada sombra alongada pelo entardecer, em cada acorde de piano ouvido à distância, em cada vez que Will pegava a xícara de chá apenas para afastá-la logo depois.
Ele podia ouvir sua própria consciência zombando. Pobre tolo. Você realmente acreditou nele, não foi?
Sim. Acreditou. Acreditou no toque gentil, nos olhares demorados, na promessa não dita de que ele nunca ficaria sozinho de novo. Acreditou que, de alguma forma, Hannibal poderia ser algo diferente por ele.
Mas agora ele via. Agora ele entendia o que sempre esteve ali, o que sempre se escondeu atrás daqueles olhos.
Hannibal nunca fora só um homem. Nunca fora só uma mentira. Ele era algo maior, algo voraz, algo impossível de domesticar. Ele era um devorador de tudo ao seu redor, e Will — pobre, estúpido Will — pensou que pudesse ser exceção.
Enganado. Usado. Manipulado.
Ele podia ouvir Jack dizendo essas palavras. Podia ouvir Alana, Bedelia, qualquer um que tentasse lhe fazer enxergar. Mas a pior voz era a sua própria.
Porque agora, olhando para trás, Will percebia que, no fundo, sempre soube.
Ele viu os sinais. Sentiu o perigo em cada toque. Percebeu a fome naqueles olhos escuros. Mas escolheu ignorar. Escolheu acreditar, porque queria.
Porque o amor o cegou.
E era isso que o destruía. Não apenas a traição, não apenas a mentira. Mas o fato de que, mesmo depois de tudo, mesmo depois de ter sido deixado para morrer naquela cozinha, ele ainda conseguia fechar os olhos e desejar estar errado.
Ainda conseguia imaginar Hannibal voltando.
Ainda conseguia se ver perdoando.
E esse era o pensamento mais terrível de todos.
Porque se Hannibal realmente voltasse, Will sabia que não conseguiria mandá-lo embora.
A verdade se tornou algo insuportável de encarar.
Nos dias solitários à beira do mar, Will tentou se convencer de que havia aprendido a seguir em frente. Ele tentava não pensar nos olhos de Hannibal, na forma como sempre o observavam como se enxergassem algo dentro dele que ninguém mais via. Mas era impossível. Porque todas as noites, quando se via diante de seu próprio reflexo no espelho, percebia que Hannibal realmente enxergou.
Ele soube, antes mesmo de Will admitir para si mesmo. Soube que, apesar de tudo, ele já pertencia a ele.
E como poderia não pertencer? Como poderia escapar?
Will se lembrava da primeira vez que percebeu que estava perdido. Havia algo nos olhos de Hannibal, algo irresistível, algo tão perigoso quanto belo. Ele sabia que se olhasse por muito tempo, se deixasse que aquele olhar o puxasse para dentro, nunca mais encontraria uma saída.
Mas olhou. Deus, como olhou.
Agora, tudo que restava eram as cinzas do que eles poderiam ter sido — ou talvez da ilusão que Will construiu para si mesmo. Ele se lembrava do toque, da promessa velada naquelas mãos que o seguraram com tanto cuidado antes de destruí-lo. Ele se lembrava da forma como Hannibal o fez se sentir: especial, desejado, compreendido.
E depois, se lembrava da dor.
Era disso que ele tentava fugir. Dessa dualidade insuportável. Do fato de que, mesmo depois de ter sido enganado, mesmo depois de ter sido partido ao meio, parte dele ainda desejava tudo aquilo de volta.
Se Hannibal voltasse agora, Will sabia o que deveria fazer. Ele deveria matá-lo. Deveria atirar, deveria cortar sua garganta, deveria acabar com ele da mesma forma que ele acabou com tudo.
Mas ele também sabia a verdade.
Se Hannibal voltasse agora, Will o deixaria entrar.
E talvez essa fosse a pior punição de todas.
O tempo não curou nada.
Will esperou que curasse. Esperou que o oceano lavasse o que restava dele, que o vento levasse as lembranças embora. Mas nada disso aconteceu. Ele ainda sonhava. Ainda ouvia a voz de Hannibal nos momentos de silêncio. Ainda sentia aquela ausência como uma faca cravada entre suas costelas.
Ele sabia que nunca se livraria disso.
E então, uma noite, aconteceu.
A chuva caiu forte contra a casa, lembrando-lhe de outra noite, de outro fim. Ele acendeu uma vela, observando a chama trêmula iluminar a escuridão ao seu redor. Estava acostumado à solidão agora, ao silêncio quase sufocante que preenchia o espaço onde Hannibal deveria estar.
Mas, desta vez, o silêncio foi quebrado.
Três batidas na porta. Suaves. Precisas.
O coração de Will parou.
Não havia necessidade de perguntar quem era. Não havia espaço para dúvida.
Ele se levantou devagar, os passos ecoando pelo chão de madeira. Por um instante, apenas ficou ali, diante da porta, sentindo o peso do momento prender sua respiração no peito.
Ele poderia não abrir. Poderia pegar a arma. Poderia encerrar isso ali mesmo.
Mas era uma mentira. Ele sempre soube como essa história terminaria.
Com as mãos trêmulas, Will abriu a porta.
E ali estava Hannibal. Encharcado pela chuva, os olhos escuros brilhando à luz fraca da vela. Havia um sorriso sutil em seus lábios, um que Will reconheceu imediatamente.
Não era o sorriso de um homem arrependido.
Era o sorriso de alguém que sempre soube que voltaria.
Will fechou os olhos por um instante, sentindo o gosto amargo do destino. E então, lentamente, deu um passo para o lado, permitindo que ele entrasse.
A porta se fechou atrás deles.
