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Mais que menos

Summary:

A primeira vez, uma provocação. A segunda, um jogo. A terceira, um impulso. A quarta, um momento que ambas fingiram não ter acontecido.

Seria a quinta, enfim, a verdade?

Ou: 4 vezes em que Regina beijou Cady + 1 em que Cady retribuiu

Notes:

Daí que eu assisti Meninas Malvadas - O Musical ao vivo e tive uma ideia.

(See the end of the work for more notes.)

Work Text:

I. “Pra sua sorte, eu tô aqui pra cuidar muito bem de você.”

Era a terceira semana que Cady estava sentando com as Poderosas. Quando entrou em North Shore, jamais imaginou que sua vida tomaria esse rumo. Vinda de um lugar onde seu melhor passatempo era tentar adivinhar o pássaro pelo som, sua vida daria uma guinada de 180 graus, mas não imaginava que também seria virada de cabeça para baixo e chacoalhada para todos os lados.

Estar sob a proteção de Regina George, a chamada abelha-rainha, era uma experiência muito mais interessante do que ela poderia prever. Regina era um furacão, capaz de transformar qualquer ambiente em um palco onde só ela brilhava. E, a cada dia que passava, percebia que a única certeza que tinha sobre a Predadora-Mor era de sua imprevisibilidade. De uma hora para outra, Regina poderia passar de aliada a inimiga, e absolutamente ninguém gostaria de estar contra ela. 

Cady inclusa. 

O que ela mais queria ao estudar em uma escola com outras pessoas, ao invés de ser educada em casa, era fazer algumas amizades, passar despercebida e evitar grandes confusões. Nunca foi do seu feitio quebrar regras ou ir contra o que seus pais diziam que era melhor pra ela. Sendo uma pessoa com tendência a querer agradar a todos, e tentando se enturmar, Cady não teve outra resposta além de aceitar quando Janis sugeriu que ela se infiltrasse no grupo das garotas mais populares da escola. Como poderia dizer não a sua primeira amiga? Além disso, a escolha entre sentar com três meninas ou comer sozinha no banheiro parecia fácil demais.

E foi assim que Cady se encontrou sentada na cama de casal do quarto exageradamente luxuoso de Regina em uma terça-feira à tarde, acompanhada, é claro, pelas sempre presentes outras Poderosas - Gretchen e Karen. As meninas estavam empenhadas em uma discussão sobre qual dos garotos da escola havia ficado mais bombado durante o verão.

Cady nunca tinha precisado pensar sobre popularidade, sobre quem estava mais bonito ou sobre como ser desejada era quase uma questão de sobrevivência social ali. Tudo aquilo era um universo novo, com regras que ela ainda estava tentando entender.

“Claro que o Shane Oman foi quem ficou mais gostoso nas férias. Eu jamais ficaria com gente feia.” Regina deu sua opinião, encerrando qualquer argumento que as outras duas pudessem ter “E você, Cady? Já tem os olhos em alguém?”

Cady se virou, pega de surpresa, piscando duas vezes vezes até perceber que Regina estava, de fato, se dirigindo a ela.

“Não, ainda não tive tempo de me interessar por ninguém.” Mentira. Aaron Samuels . O garoto mais bonito da escola e o foco de toda sua atenção nas aulas que compartilhavam. Porém, o pior detalhe: ex-namorado de Regina. 

Por mais que Cady não tivesse experiência em amizades adolescentes, sabia que ex de amiga era uma linha intransponível, mesmo que eles tenham continuado amigos após o término. O que a deixava em uma situação, no mínimo, desconfortável e sem saber o que fazer, como uma tonta.

“Ah, mas o contrário com certeza já aconteceu, não? Nenhum garoto veio falar com você?” Regina pressionou, olhando fundo nos seus olhos, mas com ar de quem não se importava. Uma felina pronta para o ataque. 

“Eles sempre vão atrás de carne fresca.” Gretchen acrescentou, concordando com a amiga.

“Mas hoje o cardápio era vegetariano.” Karen disse, confusa.

“Enfim,” Regina cortou. “O brinquedo novo é sempre mais interessante. Só toma cuidado, viu, Cady? Nunca se sabe as verdadeiras intenções dos garotos.” A loira disse em tom amigável, mas Cady sentiu uma ameaça velada. Impressionante como Regina conseguia sentir que algo estava errado.

“Pode deixar.” Cady disse com pouca segurança.

“Meninas, venham lanchar! Eu fiz uma nova receita de brownie funcional que só queimou um pouco nas bordas, mas o meio está divino. E vocês não comeram nada desde que chegaram” A Sra George gritou do primeiro andar, fazendo Regina revirar os olhos.

“Vão descendo, eu já vou entregar a blusa rosa que prometi pra Cady usar amanhã.” E virando-se para Cady, completou: “Se você aparecer com outra camisa polo, eu juro que te jogo na frente do ônibus.” Ela riu. “Brincadeira… ou talvez não.”

Karen levou Gretchen pelos braços, quase a arrastando, já que a morena não queria deixar o lado de Regina. Ao ficarem a sós, Regina caminhou até as portas duplas de seu closet e começou a passar por uma interminável fileira de cabides até decidir por um.

“Essa.” Ela tirou uma blusa ajustada, curta demais para o que poderia ser considerado apropriado para o ambiente escolar. “Vai destacar o que você tem de melhor.” Completou, estendendo o minúsculo pedaço de pano na direção de Cady.

“Obrigada. Ainda não consegui atualizar meu guarda-roupa.” Cady respondeu, abaixando a cabeça, envergonhada, até sentir uma mão delicada em seu queixo, levantando-o. 

Ela ficou paralisada enquanto Regina se aproximava, até a loira mudar de rota e virar seu rosto, depositando um beijo suave em sua bochecha. Breve, mas suficiente para acender algo em seu peito.

“É pra isso que servem as amigas, boba.” Regina disse, ainda próxima de seu rosto “E, pra sua sorte, eu tô aqui pra cuidar muito bem de você.”

Cady permaneceu imóvel, sem saber como reagir. Por que seu coração estava disparado, como se fosse alçar voo? Por que Regina a olhava daquele jeito, como se Cady fosse sua próxima refeição? 

A novata apenas assentiu e ficou parada no meio do quarto, esperando que Regina dissesse mais alguma coisa, mas a loira já estava a caminho da porta. Parou no batente e se encostou casualmente.

“Você não vem? Se a gente não descer nos próximos trinta segundos, minha mãe vai dar um show. Ou pior, a Gretchen.”

“Claro.” Cady foi tirada de seu torpor e seguiu Regina, como todos os outros faziam. Pelo jeito, não ser afetada pela loira estava se provando cada vez mais difícil. Ao mesmo tempo que Cady sabia o quão performática Regina poderia ser, ela ainda enxergava algo a mais no olhar da amiga quando era direcionado a ela. 

E, por mais inteligente que Cady fosse em matemática, essa era uma conta que ela simplesmente não conseguia fechar. 

 

II. Verdade ou Desafio

A casa de Shane Oman não era tão grandiosa quanto a de Regina George, mas naquela noite isso pouco importava. O que realmente fazia diferença era o fato de que seus pais estavam fora e isso significava uma coisa: liberdade. Sem regras, sem supervisão, sem ninguém para controlar a quantidade de álcool que circulava pela sala.

Essa era uma reunião para os amigos mais íntimos, jogados entre o sofá, as poltronas e as almofadas espalhadas pelo chão. Algumas latas estavam empilhadas na mesinha de centro, a música tocava num volume confortável e o cheiro de cerveja misturado ao perfume caro de Regina pairava no ar.

Cady ainda não sabia muito bem o que estava fazendo ali. Ou melhor, sabia. Fazer parte do círculo das Poderosas significava receber convites para esse tipo de evento.

“E se a gente movimentasse as coisas por aqui?” Regina disse, a voz comandando a sala sem precisar subir o tom.

“E o que você tem em mente, gata?” Shane perguntou, erguendo a cerveja número já perdi a conta e dando um gole

“Verdade ou desafio.” A loira respondeu, já deixando claro qual categoria ela iria escolher. “Só precisamos de uma garrafa pra rodar”

“Podemos usar minha” Gretchen ofereceu, ansiosa para fazer algo para Regina.

“Mas a sua garrafa tá praticamente cheia” Aaron observou

Não querendo desapontar Regina, Gretchen virou todo o conteúdo de uma vez só, quase engasgando com a velocidade que o líquido desceu por sua garganta. Seus olhos lacrimejaram quando terminou, mas ela apenas ergueu a garrafa vazia com um sorriso.

“Agora não mais.” Ela colocou a garrafa no centro, recebendo um sorriso satisfeito de Regina.

“Vocês já sabem as regras: o fundo da garrafa pergunta ou lança o desafio, quem a garrafa apontar tem que responder.”

O grupo rapidamente se reorganizou. Shane e Regina sentaram-se opostos, para lançarem desafios um para o outro. Shane ficou ao lado de Cady, o que fez Gretchen correr para garantir seu lugar ao lado de Regina. Aaron ficou sentado do lado oposto a Cady e, no fim, sobrou um espaço para Karen, que estava ali apenas pela diversão.

Todos já tinham bebido mais do que deveriam. As risadas estavam mais soltas, as palavras mais arrastadas. O ambiente perfeito para tomar decisões impensadas.

“Vamos começar.” Shane anunciou, girando a garrafa. O vidro rodou no chão, deslizando até parar… apontando para Regina.

Ele sorriu de canto, malicioso. Regina ergueu as sobrancelhas, desafiadora.

“Que interessante! E aí, Regê, qual vai ser?”

“Desafio, claro.” Ela ajeitou a postura, os ombros erguidos com confiança.

Shane fingiu pensar, mas o brilho no olhar denunciava que ele já tinha algo preparado.

“Eu te desafio a beijar…” Ele fez uma pausa dramática, olhando ao redor da roda, antes de apontar. “O Aaron.”

Esse não era o combinado.

Quando Regina convenceu Shane a fazer a social na sua casa, tudo já estava planejado. Ela não queria beijar Aaron. Ela queria beijar Cady, precisava tirar essa vontade do sistema.

Desde que a novata chegou, Regina sentiu algo diferente. Não era como todas as outras vezes em que alguém capturava seu interesse temporário, era algo mais. Diferente. Intenso.

E quase ninguém sabia disso.

Por trás de toda a pose impecável, Regina tinha medo. Medo de perder seu posto no topo da cadeia alimentar caso alguém descobrisse que ela gostava de garotas. As pessoas sempre assumiram muita coisa sobre ela, inclusive sua sexualidade – que ela mesma tentou mascarar ao namorar o garoto mais popular da escola.

Com Shane era diferente. Eles se entendiam. Shane era “gay demais da conta”, como ele próprio dizia. Os dois se usavam como fachada para se descobrirem sem que ninguém percebesse. Mas agora, dentre todas as pessoas que caíam aos seus pés, ela escolheu justamente a que não poderia ter. Típico. Vendo Shane estragar o plano, Regina sentiu uma irritação subir.

“Sério, Shane? Meu ex?” Regina lançou um olhar fulminante para o amigo.

“Você quem escolheu desafio, baby.” Ele riu, se divertindo com o próprio caos. “Se não fizer, tá fora. Regras são regras.”

Regina revirou os olhos e virou-se para Aaron. Ele deu de ombros, despreocupado.

“Nada que a gente já não tenha feito, né?” Ele disse, e então se inclinaram para um beijo rápido e sem emoção.

Cady observou em silêncio, algo dentro dela se revirou.

Nas semanas em que estava andando com as Poderosas, percebeu que se sentia cada vez mais atraída pela Predadora-Mor. No começo, achou que fosse apenas admiração – Regina exalava poder, era natural querer estar perto dela. Mas, conforme os dias passavam, Cady notou que o que sentia se parecia muito com a forma como Aaron a fazia se sentir.

Talvez até mais.

Ela não sabia o que pensar sobre isso. Não podia pensar sobre isso.

Janis tinha sido completamente isolada e humilhada depois que Regina espalhou boatos sobre sua sexualidade. Cady sabia o risco que correria se admitisse para si mesma que talvez... talvez se sentisse diferente. Regina nunca se interessaria por alguém como ela. Por uma mulher.

“Realmente te faltou criatividade, Shane.” Aaron comentou.

“Estou guardando o melhor para depois.” e girou a garrafa, deslizando até parar em Karen.

“O que você escolhe, amiga?” Gretchen perguntou, já levemente tonta

“Verdade.”

Gretchen piscou algumas vezes, tentando organizar seus pensamentos, e então sorriu maliciosa.

“É verdade que na última festa na minha casa você vomitou no vaso caríssimo da minha mãe?”

“Não.” Ela disse com simplicidade. “Foi o Aaron.”

“Karen! Você tinha prometido não contar!” Aaron exclamou.

“Opa.” Ela deu uma risadinha, erguendo as mãos. “Então vou contar que eu sei disso porque estava ficando com um matleta logo ali do lado.” Ela deu de ombros. “Pronto, agora estamos quites.”

“Você só pode estar mentindo.” Regina olhou para ela, incrédula. “Você ficou com um nerd ?!”

“Tá bom, eu to mentindo.” Karen deu um suspiro dramático. “Na verdade, naquela noite foram dois.”

Ninguém aguentou e a roda caiu na risada.

“Ai, Karen, só você.” Cady disse, sacudindo a cabeça, tentando ignorar a pontada no peito que ainda restava depois do beijo de Regina e Aaron.

“Vamos continuar?” Aaron sugeriu.

“A gente ainda vai ter uma conversa sobre o vaso, Samuels.” Gretchen disse interrompida por um soluço e girou a garrafa, que novamente caiu em Shane para Regina.

“Essa garrafa tá viciada?” Aaron resmungou.

"Desafio" Regina disse antes mesmo que a perguntassem.

Shane sorriu de lado. “Alguma hora você vai ter que escolher verdade, Regina.”

“Não enquanto eu estiver cumprindo os desafios.” Ela rebateu, cruzando os braços. “Manda.”

Shane inclinou a cabeça. E então, com um sorriso, disse:

“Quero que você beije outra pessoa.” Ele fez uma pausa, apenas para aumentar a tensão. “A Cady.

O tempo parou.

Cady engasgou com a cerveja, tossindo para disfarçar o choque. Seu coração acelerou, os olhos disparando para Regina. Na primeira rodada, ao ver Regina e Aaron se beijando bem na sua frente, ela finalmente entendeu o significado de tanto faz. Mas agora? Agora era diferente. 

Regina virou o rosto para Cady, seus olhos analisando cada mínima reação. “E aí, Cady? Vai sair?” Regina desafiou, o queixo erguido, o olhar impassível, mas algo fraquejou. Uma fração de segundo de hesitação. Preocupação? Insegurança?

Cady não sabia o que era mais assustador: a possibilidade de Regina estar brincando com ela ou a possibilidade de Regina não estar brincando.

Cady respirou fundo. E então, como se estivesse fora do próprio corpo, ouviu a si mesma dizer:

“Claro que não. Regras são regras.”

Regina poderia explodir de alegria, mas se conteve. Lentamente, ajoelhou-se diante de Cady, aproximando-se até que seus rostos estivessem a centímetros de distância.

Cady prendeu a respiração e Regina sorriu antes de finalmente encostar seus lábios no dela. Foi breve, tão rápido que Cady mal teve tempo de fechar os olhos. Tão rápido que Cady se perguntou se realmente havia acontecido.

Regina não queria se afastar.

Cady não queria que Regina se afastasse.

Por um instante, Regina sentiu uma vontade absurda de voltar e beijá-la de verdade. Quando olhou para Cady, viu que a amiga ainda estava imóvel, os olhos arregalados, os lábios ligeiramente entreabertos. Como se estivesse esperando mais. Como se tivesse sentido exatamente a mesma coisa.

Regina se forçou a manter a expressão indiferente. Riu de leve e inclinou-se para trás, ajeitando-se no lugar como se nada tivesse acontecido.

“Eu tenho certeza que você pode fazer melhor do que isso.” Shane provocou.

Regina riu e respondeu “Deixo suas fantasias pro seu quarto, querido.” Sua voz saiu doce e venenosa, cheia do sarcasmo de sempre.

A roda seguiu em frente, mas Cady não conseguia sair daquele momento. Seu coração continuava acelerado, sua mente em um turbilhão.

Regina estava presa no fato de que, por mais que tivesse sido um selinho insignificante, o choque percorreu cada nervo do seu corpo. Ela realmente queria mais. E Regina George não queria ninguém. Regina tinha pessoas. Escolhia, pegava, descartava. Mas nunca queria.

Até agora.

Ela se recusava a olhar para Cady. Porque se olhasse, talvez visse nos olhos dela o mesmo que sentia. E Regina não estava pronta para lidar com isso.

Então, decidiu que não lidaria.

Levantou o queixo, ajustou a postura e colocou um sorriso no rosto, aquele sorriso ensaiado, impecável, que não deixava ninguém ver o que se passava por dentro.

Porque se tinha uma coisa que Regina George sabia fazer melhor do que qualquer um, era fingir que nada a afetava.

 

III. "Como assim você nunca beijou ninguém?!"

As ruas estavam silenciosas naquela hora da noite, o barulho do motor preenchendo o silêncio. Como a motorista da rodada, Regina havia parado de beber algumas horas antes, garantindo que estivesse sóbria o suficiente para levar todos para casa. Agora, depois de deixar Gretchen e Karen, restavam apenas ela e Cady no carro.

A ruiva também já não estava mais tão afetada pelo álcool. Depois do momento com Regina no jogo, simplesmente não conseguiu beber mais nada. Sua mente estava inquieta, revivendo aquela cena repetidamente, tentando decifrar o que aquilo significava — se significava alguma coisa.

O carro desacelerou e Regina encostou na frente da casa de Cady.

"Tá entregue." Ela disse, apoiando as mãos no volante antes de se virar para a garota ao seu lado.

"Obrigada pela carona, Regina." Cady sorriu de leve, soltando o cinto de segurança. "Eu acabei me divertindo bastante."

Regina assentiu. "Eu também, Heron." Fez uma pausa e completou: "E ah, não liga para o Shane, viu? Às vezes ele pode ser um pouco... demais."

Cady riu, dando de ombros. "Ah, relaxa. Eu já me acostumei." Ela hesitou por um segundo, mordendo o lábio antes de continuar. "Mas preciso dizer que fiquei surpresa quando ele te desafiou a me beijar."

Regina arqueou uma sobrancelha, o coração acelerando um pouco. "Você ficou desconfortável?" Sua voz saiu mais cuidadosa do que ela esperava. Por um instante, o arrependimento passou por sua mente. Será que tinha forçado demais? Criado uma situação que Cady não queria?

Mas então Cady negou rapidamente, e Regina soltou uma respiração que nem percebeu que estava prendendo.

"Não, não." completou envergonhada: "É só que, se tivéssemos passado mais alguns segundos ali, teria sido meu primeiro beijo."

"Cala a boca." Regina respondeu incrédula. "Como assim você nunca beijou ninguém?!"

Cady desviou o olhar, sentindo o rosto esquentar. "Nunca tive muitas opções, pra ser sincera."

Ela sempre foi romântica no âmago. Quando mais nova, sonhava que seu primeiro beijo seria com alguém que amasse e que a amasse de volta. Com o passar dos anos, o idealismo foi se desgastando, mas, crescendo com mais animais do que humanos ao redor, o romance nunca pareceu uma possibilidade real. Agora, em North Shore, tudo parecia um campo minado. Ela precisava pensar sobre cada passo que dava, para não cometer o temido suicídio social. E, no fim, não restavam muitas opções.

Ainda mais quando aparentemente a única opção que ela realmente queria estava sentada bem ali, ao seu lado. E ao mesmo tempo a quilômetros de distância.

"Impossível." Regina repetiu, genuinamente surpresa.

Cady riu, um pouco amarga. "Nem todo mundo tem o mundo aos pés igual a você, Regina." Engraçado como eu não quero o mundo. Eu quero você. Regina pensou. Mas, ao invés disso, disse apenas:

"Detalhes." Regina deu de ombros. "Mas temos que resolver isso."

Cady franziu o cenho. "O que você quer dizer?"

"Você está no ensino médio agora, Cady. Precisa pelo menos começar a treinar pra quando rolar com alguém que te interesse."

A ruiva piscou, confusa. "E como você sugere que eu faça isso?" Treinar com o que? Uma metade de laranja?

Regina se virou um pouco mais no banco, como se a ideia tivesse acabado de tomar forma em sua mente. "Eu posso te ajudar."

"Como?" Cady piscou de novo.

Regina mordeu o lábio, pausando por um segundo antes de simplesmente dizer: "Treina comigo."

O silêncio se instalou no carro. Regina sentiu o próprio coração disparar. Não tinha planejado ser tão direta, muito menos sugerir isso. Mas agora que as palavras estavam soltas no ar, ela não queria voltar atrás.

"Você realmente tá me dizendo que quer que eu te use como cobaia?" Cady disse com os olhos arregalados. 

Regina assentiu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. "Exatamente, porque eu sou uma amiga boa assim. Eu tenho experiência, treina comigo e quando o seu primeiro beijo de verdade rolar você já vai saber o que fazer.” Ela segurou o olhar de Cady e, mais baixo, acrescentou: “Deixa que eu te guio."

Cady não conseguia se mexer. Sua mente gritava em alerta, tentando entender o que estava acontecendo. Isso não é real. Regina George não pode estar sugerindo isso.

Mas Regina estava ali, olhando para ela daquela maneira que fazia seu coração disparar e suas certezas evaporarem.

A loira soltou o cinto de segurança devagar e se inclinou, diminuindo a distância entre elas, mas sem pressa. Estava dando a Cady todas as chances de recuar, de sair do carro, de dizer não .

Mas Cady não queria fugir.

Regina ergueu as mãos devagar, tocando o rosto da ruiva com suavidade, o polegar deslizando sobre sua bochecha. Seus olhos brilharam sob a luz fraca da rua quando ela sussurrou:

"Posso?"

A respiração de Cady travou. Regina estava tão perto que ela sentia o calor de sua pele, o perfume caro.

Sem confiar na própria voz, apenas assentiu. Qualquer palavra parecia ser demais e capaz de quebrar o momento que tinha se instalado entre as duas.

Cady sentiu um arrepio subir pela espinha no instante em que os lábios de Regina encostaram nos seus. Foi um toque leve, hesitante, quase como se a loira estivesse perguntando de novo se ela realmente queria aquilo. Como se desse a Cady mais uma chance de desistir.

O primeiro beijo foi como na social, apenas um selinho, um teste. O segundo veio logo depois, um pouco mais firme, Regina pressionando os lábios de leve contra os dela. Foi o suficiente para fazer Cady prender a respiração. Seu coração batia forte e tudo parecia estar em câmera lenta, como se o mundo inteiro tivesse se reduzido a esse momento dentro do carro.

Regina inclinou o rosto, diminuindo mais a distância entre elas, e aprofundou o beijo com uma lentidão quase torturante. Seus lábios se moveram com calma, como se estivessem explorando um território novo, esperando que Cady acompanhasse. E mesmo sem saber exatamente o que estava fazendo, Cady respondeu, movendo a boca de volta da maneira que parecia mais natural.

As mãos de Regina deslizaram pelo rosto de Cady, descansando em seu pescoço antes de irem em direção ao seu cabelo. O toque era firme, mas ao mesmo tempo delicado, como se Regina quisesse sentir cada detalhe. Cady sentiu um calor subindo pelo peito e se espalhando por todo o corpo. 

Era muito mais do que ela esperava.

Regina aprofundou o beijo um pouco mais, puxando Cady para mais perto como se não quisesse que aquele momento acabasse tão cedo. Os lábios das duas se encaixaram de uma maneira quase instintiva, e por alguns segundos nada mais importava.

Foi Regina quem quebrou o contato primeiro, afastando-se apenas o suficiente para que seus rostos ainda estivessem próximos. Suas respirações estavam descompassadas, misturadas no pequeno espaço entre elas.

Cady abriu os olhos devagar, os lábios ainda entreabertos, tentando recuperar o fôlego. Regina a observava com um olhar intenso, os olhos mais escuros do que antes, os lábios levemente inchados do beijo.

Por um instante, nenhuma das duas disse nada.

Regina passou o polegar pelo canto da boca de Cady, como se quisesse prolongar o momento pelo máximo de tempo possível. Ela abriu um sorriso pequeno, mas havia algo em sua expressão que Cady não conseguia decifrar.

Regina George não parecia alguém que beijava outra pessoa apenas por treino .

Cady também não sentia como se tivesse acabado de treinar um beijo.

Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, Regina inclinou a cabeça e quebrou o silêncio:

"Viu? Agora você já sabe o que fazer."

Cady não soube responder. Porque, na verdade, o único pensamento que passava por sua mente era: "Eu só quero fazer isso de novo."

Então o ar dentro do carro pareceu sufocante demais. Ela precisava sair dali, precisava ficar sozinha para processar o que tinha acabado de acontecer. Engolindo em seco, ela piscou algumas vezes e finalmente levou a mão até a maçaneta do carro, abrindo a porta. 

"Boa noite, Regina," ela disse simplesmente.

Regina apenas inclinou a cabeça para o lado, abrindo um pequeno sorriso de canto de boca.  

"Boa noite, Cady,"

Com o coração parecendo uma bateria de escola de samba, Cady fechou a porta do carro e seguiu para dentro de casa, sentindo os lábios formigarem como se Regina ainda estivesse ali.

Regina ficou parada por alguns segundos depois que Cady saiu. Suas mãos estavam no volante, mas seus pensamentos estavam em qualquer outro lugar, menos ali.

Ela sabia que deveria ligar o carro e ir pra casa. Ligar o rádio e simplesmente seguir em frente. Mas sua mente estava presa no jeito como os lábios de Cady tinham se movido hesitantes no começo, depois curiosos, depois... perigosamente bons.

Ela deveria ter mantido o plano original. Um selinho rápido, um momento divertido apenas para matar a curiosidade. Mas não . Ela teve que ir além. Regina soltou o ar devagar, apoiando a cabeça no banco do carro.

"Isso não significou nada."

Era o que deveria pensar. O que precisava pensar. Mas então por que seus dedos estavam coçando para tocar o próprio lábio? Por que ela ainda sentia um aperto estranho no peito tentando memorizar cada detalhe?

Ela balançou a cabeça, tentando afastar os pensamentos.

Isso não mudava nada. Ela era Regina George. Ela controlava as coisas. E quando encontrasse Cady nos corredores da escola, iria agir como se nada tivesse acontecido. Decidida, Regina girou a chave na ignição e acelerou, deixando a casa de Cady para trás.

Mas, por mais que tentasse, não conseguiu evitar que um sorriso aparecesse no seu rosto.

 

IV. “Você precisa descansar”

Como planejado, na segunda-feira seguinte, Regina fingiu que nada de diferente havia acontecido. Chegou à escola com a mesma pose confiante de sempre, os ombros erguidos e a expressão impecável. A única diferença era o corretivo extra que precisou passar para esconder as olheiras, resultado de uma noite inteira tentando não lembrar do que aconteceu. E falhando miseravelmente, é claro.

Cady, por sua vez, percebendo a atitude de Regina, seguiu o fluxo. Mas, no fundo, sentiu uma pontada de rejeição crescendo. Teria sido o momento no carro realmente tão insignificante para Regina? Para Cady, tinha sido tudo.

No almoço, Gretchen, como sempre animada para planejar tudo, perguntou: "O que vamos fazer no fim de semana?"

"Eu tenho um compromisso fora da cidade com os meus pais." Cady, que nem havia tocado na própria comida, respondeu sem entusiasmo.

"Seus pais vão estar fora de casa? Você sabe o que isso significa?" Regina perguntou com brilho nos olhos.

"Festa na casa da Cady!" Karen exclamou, batendo palmas.

"O que? Não! Eu vou viajar com eles. E, mesmo que não fosse, eles nunca deixariam."

Regina inclinou-se levemente para frente, sua voz ficando mais suave. "E não tem nada que possamos fazer para te convencer a ficar?"

Os olhos de Cady encontraram os de Regina por um momento. Havia algo ali, algo que ela não sabia se queria ou se podia decifrar.

"Você não se divertiu semana passada na casa do Shane?" Regina perguntou com falsa inocência, e Cady sentiu um aperto no peito.

Mencionar aquela noite era um golpe baixo.

"Sim, mas—"

"Fica. Fala pra eles que você não vai estar sozinha. Diz que vai dormir lá em casa. Por favor, Cady. "

Cady piscou. Havia mesmo ouvido isso? Regina George... pedindo por algo? Gretchen também parecia surpresa, pois virou o rosto tão rápido que quase deslocou o pescoço. Em todos os anos de amizade, ela conseguia contar nos dedos de uma mão as vezes que viu Regina pedir algo educadamente. Regina mandava, Regina exigia. Ela não dizia “por favor”.

O coração de Cady acelerou. Era óbvio o que Regina estava tentando fazer. E, pior, estava funcionando. Como negar alguma coisa com a loira pedindo daquele jeito?

"Vou ver o que consigo fazer", respondeu finalmente.

Regina abriu um sorriso triunfante, encostando na cadeira como alguém que já ganhou.

"Mas se rolar, vai ser algo pequeno!" Cady completou, tentando manter alguma aparência de controle.

Mas é claro que, no final, Regina teve o que queria.

Cady conseguiu convencer os pais a deixá-la ficar com a desculpa que passaria o fim de semana na casa de Regina. Algo completamente normal para meninas que queriam se enturmar. Mas o que era para ser uma pequena reunião do círculo mais próximo, se transformou em uma festa completamente fora de controle. Pessoas que Cady sequer conhecia estavam bebendo e dançando na sua sala. 

Ela estava no meio de salvar uma das esculturas de sua mãe das mãos de um garoto visivelmente alcoolizado quando seu olhar foi atraído para o outro lado da sala.

Encostados na parede, Regina e Shane estavam se agarrando.

A cena a atingiu como um soco no estômago. Ela sabia que aquilo não deveria surpreendê-la, Regina podia ficar com quem quisesse. Mas, depois do que aconteceu entre as duas, Cady ainda tinha uma esperança boba de que talvez tivesse significado algo para a loira também.

Como pôde ter sido tão estúpida?

A música estava alta demais, o ambiente cheio demais, sua cabeça confusa demais. O que começou com apenas alguns drinks acabou virando muito mais. Um escape para o que seu coração estava sentindo.

"E aí, Cady?" A voz de Aaron a surpreendeu. Ele apareceu ao seu lado, um sorriso no rosto. "Curtindo? Não achei que você fosse do tipo que dá festas assim."

Cady piscou algumas vezes, tentando focar. "É… nem eu, pra ser sincera. Era pra ser algo pequeno."

"Isso que acontece quando você deixa as Poderosas organizarem sua festa." Aaron disse rindo. 

"Vou lembrar disso na próxima."

Ele a observou por um instante antes de sorrir. "Mas fico feliz que tenha dado essa festa. Em qual outro lugar eu te veria usando esse vestido? Ele fica lindo em você."

Aaron colocou a mão levemente em sua cintura.

Cady, já tonta pelo álcool e pela confusão dos próprios sentimentos, demorou um segundo para processar a situação. Aaron Samuels estava flertando com ela. Semanas atrás ela teria dado tudo por esse momento, mas não agora.

Outro rosto veio à sua mente. Um par de olhos castanhos. Um sorriso que deixava todos de joelhos.

Aaron se inclinou um pouco mais perto, a voz suave: "Acho que qualquer oportunidade de estar com você precisa ser aproveitada."

O pânico subiu pelo peito de Cady. Ela precisava sair dali. Rápido.

Foi então que, como um milagre, seu olhar encontrou Karen no meio da sala. A amiga estava parada na frente de uma luminária acesa, piscando sem parar.

"Eu preciso ir!" Cady disse de repente, se afastando de Aaron.

"Pra onde?" Ele riu. "Essa é a sua casa."

"Eu- eu prometi ajudar a Karen!"

Aaron não parecia acreditar nela. "Com o que?"

"Ela tá achando que pode se comunicar com a lâmpada por código Morse." Cady mentiu sem pensar, mas tinha uma vaga lembrança da amiga de fato ter mencionado isso uma vez. 

"O que?" Aaron piscou, processando. 

"Sim! E eu prometi ensinar a ela que isso não funciona." Cady já estava recuando. "Se eu não for agora, ela vai acabar fazendo perguntas pra geladeira depois."

Aaron olhou por cima do ombro e viu Karen, agora batendo de leve na lâmpada e movendo os lábios, como se estivesse falando com ela. A lâmpada piscou e a garota arregalou os olhos. 

"Uau, essa é nova", ele disse, impressionado.

"Pois é! Então, se me dá licença!" E, antes que Aaron pudesse responder, Cady fugiu e subiu as escadas.

Regina, que estava observando a interação de longe, não esperou antes de discretamente ir atrás dela.

Ao chegar no quarto de Cady, Regina a encontrou encostada na parede, as luzes apagadas e a porta entreaberta. 

"Cady?" chamou, hesitante.

"Vai embora", veio a resposta arrastada.

"Não antes de você me dizer se está bem."

"Você aqui não vai melhorar nada."

Regina sentiu uma pontada no peito, algo parecido com culpa, algo que ela não queria nomear. Estava prestes a sair quando ouviu Cady correr para o banheiro.

Rapidamente, fechou a porta e foi atrás. Encontrou a ruiva sentada no chão, vomitando tudo o que tinha — e o que não tinha também.

"Acho que alguém exagerou na bebida, hein?" Regina disse, abaixando-se para segurar os cabelos de Cady e sua testa quando outra onda de enjoo veio.

Cady soltou uma risada fraca e amarga. "Eu te odeio. Isso é tudo sua culpa."

Regina arqueou as sobrancelhas. "Minha culpa? Eu nem te dei um drink hoje."

Cady limpou a boca com as costas da mão antes de encará-la, os olhos brilhando não apenas pela bebida, mas por algo mais profundo. "Não, mas me deu um beijo." Regina congelou. "E outro no Shane."

Pela primeira vez em muito tempo, Regina George não sabia o que dizer.

Ela abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Regina sempre tinha uma resposta para tudo, mesmo que fosse um comentário ácido ou uma mentira. Mas agora? Agora estava ali, ajoelhada no chão do banheiro de uma Cady Heron muito alcoolizada, segurando seu cabelo e sendo confrontada de um jeito que a fazia querer sair correndo e, ao mesmo tempo, ficar.

"Engraçado, né? Eu passei dias tentando entender se aquele beijo no carro significava alguma coisa. Me perguntando se eu tinha imaginado tudo. Se eu era uma idiota por achar que..." Ela pausou antes de continuar. "E então eu vejo você com Shane, como se nada tivesse acontecido. Como se fosse só mais uma brincadeira pra você."

Regina sentiu a garganta apertar, mas sua primeira reação foi se defender. "Você sabia que era um treino."

"Um treino?!" Cady repetiu, incrédula. "Ah, claro! Porque você, Regina George, quer ajudar a coitada da garota nova a aprender a beijar! Me diz, então... Quantas outras meninas você treinou?"

Regina travou e mais uma vez não sabia o que dizer. Ela queria ter uma resposta pronta, algo que não demonstrasse vulnerabilidade, mas a verdade era que nunca tinha feito aquilo com ninguém. Nunca tinha sequer pensado em sugerir algo assim para qualquer outra pessoa. O problema era que confessar isso seria admitir que havia algo diferente ali.

Ela respirou fundo e cruzou os braços, recostando-se na parede do banheiro "Por que você tá tão brava? Você gosta do Aaron, não gosta?"

"O quê?" Cady piscou, surpresa com a mudança repentina de assunto. 

"O Aaron. Você passou semanas babando nele, é óbvio que eu percebi." Regina forçou um sorriso. "E parece que conseguiu, já que ele tava praticamente grudado em você lá embaixo."

"Isso não tem nada a ver com o Aaron." Cady sentiu a frustração aumentar. 

"Não tem?" Regina arqueou uma sobrancelha. "Porque de onde eu tava, parecia que ele tava prestes a te beijar."

"Mas eu não queria que ele me beijasse!" Cady rebateu sem pensar.

"Não queria? Então quem você queria que te beijasse?" A pergunta saiu antes que Regina pudesse impedir. 

Cady abriu a boca, mas fechou em seguida. Não tinha mais certeza se queria dizer em voz alta o que seu coração já gritava há dias.

Regina percebeu a hesitação e, por um segundo, sentiu um pânico irracional. Ela respirou fundo e finalmente se aproximou ao invés de recuar.

Os olhos de Cady estavam vermelhos, um misto de álcool, choro reprimido e todo o desgaste emocional daquela conversa. Regina cuidadosamente levou uma mão ao rosto de Cady e afastou uma mecha de cabelo do seu rosto.  

"Eu sei que eu sou uma merda nisso, tá?" A voz mais suave do que nunca. "E eu sei que estraguei tudo, mas eu não queria que parecesse uma brincadeira. Porque não foi."

Os olhos de Cady se arregalaram levemente.

Regina suspirou, desviando o olhar por um momento antes de voltar a encará-la. "Eu só... eu não sei o que fazer com isso, Cady."

Cady sentiu o coração disparar. "Com o que?"

"Com você." Regina sorriu de lado, sem humor. "Comigo."

Havia algo tão genuíno naquela confissão que fez Cady prender a respiração.

Regina então se inclinou e depositou um beijo delicado na testa da outra garota. O toque foi breve, mas carregado de algo que nenhuma das duas conseguia dar nome ainda.

"Você precisa descansar." A voz de Regina era baixa, quase um sussurro.

Ela se afastou devagar, observando Cady por mais alguns segundos antes de finalmente se levantar e ir em direção à porta.

Cady a observou sair, ainda sentindo o calor do beijo em sua pele, e percebeu que, pela primeira vez, Regina George não era tão inalcançável quanto parecia.

E talvez isso significasse algo.



+1. “Eu só queria que acontecesse de novo” 

Domingos deveriam ser dias calmos, pacíficos. O dia de acordar tarde, enrolar na cama até que fosse socialmente inaceitável continuar deitada e, depois, passar o resto do dia, sem fazer muita coisa além de lamentar o fim do final de semana e temer a chegada da segunda.

Mas Cady já havia acordado errada.

Nunca em sua vida sua cabeça pesou tanto. Cada som parecia amplificado a um nível insuportável. O canto dos pássaros do lado de fora soava como uma banda desafinada tocando diretamente dentro do seu cérebro. Quando abriu os olhos e a luz inundou sua visão, ela amaldiçoou a existência do Sol. Sempre preferiu a noite, de qualquer forma.

Com um esforço quase sobrenatural, virou-se na cama e foi então que percebeu um copo de água e uma cartela de comprimidos em sua mesa de cabeceira. Ela não se lembrava de tê-los colocado ali. Aliás, muitas coisas da noite anterior ainda escapavam de sua memória.

Até que viu o bilhete.

"Acho que você vai precisar.
— R"

Regina.

E então, como uma onda gigantesca, as lembranças vieram todas de uma vez.

Regina e Shane se beijando. Aaron flertando com ela. Cady fugindo. Regina indo atrás. Cady vomitando enquanto Regina segurava seu cabelo. E, mais surpreendente ainda, Regina ficando.

Não só tinha ficado, como se dera ao trabalho de, antes de ir embora, preparar um pequeno kit de sobrevivência para a ressaca que agora se instalava em cada célula do corpo de Cady.

Quando Regina foi embora na noite anterior, Cady ainda ficou mais um tempo no banheiro, não conseguindo confiar em suas pernas e nem em sua mente que estava a mil com tudo que acabara de acontecer. 

Cady sentou-se na cama devagar, massageando as têmporas. Regina não teria feito tudo isso por uma brincadeira. Ela mesma confirmou que queria beijá-la. Não sabia até onde isso significava alguma coisa para a loira, mas era mais do que Cady esperava. Mais do que jamais acreditou que poderia acontecer.

Mas não havia a menor condição de lidar com essa informação antes do café da manhã. Pegou o comprimido e engoliu de uma vez, acompanhando com um gole de água.

Ao descer as escadas, encontrou a casa em um estado deplorável. Era como se um furacão tivesse passado por ali e resolvido passar mais uma vez, só para garantir que tudo estivesse completamente destruído. Copos, latas, garrafas e embalagens de salgadinhos estavam espalhados por todos os cantos. O cheiro que pairava no ar era um misto de álcool, suor e algo muito, muito pior.

Quando entrou na cozinha, encontrou a origem daquele fedor insuportável.

Alguém havia vomitado dentro do forno.

No forno.

Não que ela quisesse que vomitassem em qualquer canto da casa, mas o forno?! Havia literalmente uma pia a menos de um metro dali. O quão bêbado alguém precisava estar para achar que aquele era o melhor lugar para deixar o estômago?!

Cady respirou fundo, reprimindo um grito de frustração e voltando para a sala, onde encontrou duas figuras largadas no sofá. Felizmente, eram suas amigas.

Gretchen estava deitada de lado, com o cabelo bagunçado e um cobertor jogado displicentemente sobre as pernas. Karen, por outro lado, dormia de boca aberta, roncando levemente, com um dos braços pendurado para fora do sofá e a blusa ligeiramente virada ao avesso.

Cady pigarreou, mas nenhuma das duas se mexeu. Ela tentou de novo, dessa vez mais alto.

Gretchen resmungou algo que nem o maior linguista entenderia e afundou o rosto na almofada. Karen abriu um olho, olhou para Cady e sorriu sonolenta. 

"Ah, você sobreviveu", murmurou, antes de bocejar e se espreguiçar como se nada estivesse errado e ela pronta para mais um dia normal.

"Vocês duas precisam me ajudar a limpar essa bagunça", Cady disse, abrindo os braços e apontando para o caos ao redor.

"Limpar? Tipo… agora?" Gretchen se virou, o braço ainda cobrindo os olhos e incapaz de sequer cogitar a possibilidade de levantar.

"Sim, agora! Antes que meus pais voltem e me mandem de volta pro Quênia com uma passagem só de ida!"

"Mas e se a gente simplesmente sair e fingir que nada aconteceu?" Karen sugeriu

Cady suspirou, colocando a mão na testa. Ela definitivamente ainda não estava sóbria o suficiente para lidar com isso  "Karen, essa é a minha casa."

"Você pode dizer que foi um furacão, parece que passou um por aqui mesmo. A minha tia teve que passar vários meses lá em casa porque um furacão destruiu a casa dela."

Cady olhou para Gretchen em busca de qualquer sinal de apoio, mas a morena apenas deu de ombros.

"Não foi um furacão, Karen", Cady respondeu "Pelo amor de Deus, me ajudem!"

"Cady, a gente ainda tá de ressaca", Gretchen reclamou, se virando novamente para o lado. "Dá umas horas, a gente vê isso depois."

"É, e eu ainda tô muito cansada de dançar ontem! A gente inventou tanta coreografia nova. Eu arrasei, você viu?" Karen exclamou animada, sentando-se abruptamente e vendo o mundo girar. “A sala tá mexendo?”

Cady não sabia mais o que dizer. "Tá, então pelo menos me digam quem foi o infeliz que vomitou no meu forno."

Os olhos de Gretchen se arregalaram. "Pera, no seu forno?" Sua voz subiu uma oitava. "Meu Deus, que galera sem limite" continuou, dando uma risada forçada

Karen olhou para ela e apontou. "Foi você, né?"

Gretchen gemeu, cobrindo o rosto com as mãos. "Eu achei que fosse um cesto de roupa suja!"

"Gretchen, minha cozinha não tem um cesto de roupa suja! E mesmo se tivesse, não teria sido melhor!" Cady se arrependeu de ter saído da cama. Nem meia hora do seu dia e ele já parecia interminável.

"Eu tava muito bêbada! Eu nem lembro direito! Foi um acidente!" Gretchen começou a entrar em desespero, sentando-se no sofá e segurando a cabeça. 

"Então você vai me ajudar a limpar, certo?" Cady cruzou os braços. 

Gretchen hesitou, tentando pensar em qualquer desculpa boa o suficiente para se livrar desse trabalho. E falhando. "Droga, tá bom."

Karen sorriu e se jogou novamente no sofá. "Eu não vomitei nem no forno e nem no cesto, vou continuar dormindo.”

Cady revirou os olhos. "Você pelo menos pode jogar as latas fora?"

Karen pensou por um momento "Hmm… não. Mas eu posso ficar aqui igual uma líder de torcida por vocês!” Se sentando com os braços levantados e se arrependendo no mesmo instante.

"Ótimo", Cady resmungou, entendendo que essa discussão não levaria a lugar algum.

Enquanto pegavam sacos de lixo e começavam a recolher os destroços da noite anterior, Gretchen lançou um olhar curioso para Cady.

"Aliás, posso perguntar uma coisa? Por que você fugiu do Aaron ontem? Eu vi vocês dois juntos e, amiga, parecia que ele tava prestes a te beijar."

Cady sentiu um frio na barriga.

"Eu… eu só não queria", respondeu rapidamente, jogando uma lata vazia dentro do saco.

Gretchen arqueou uma sobrancelha. "Mas você não era louca por ele?"

Cady hesitou. Até algumas semanas atrás, ela mesma teria dito que sim. Mas agora a resposta era um pouco mais complicada.

"Não é tão simples assim", respondeu. "Eu só não tava no clima."

Gretchen não parecia ter acreditado, mas ao abrir o forno para ver o que lhe esperava decidiu não perguntar mais.

Karen, ainda do sofá falou “Cady, será que você é alérgica ao Aaron?"

“Karen, como assim?”

"É que quando eu como camarão, minha garganta trava e eu quase morro", Karen explicou com a maior seriedade do mundo. "Talvez o Aaron seja o seu camarão."

"Meu Deus. Esse papo às nove da manhã" Gretchen cobriu o rosto com as mãos e murmurou

Cady apenas suspirou. "Sim, Karen. O Aaron deve ser meu camarão."

Karen assentiu, satisfeita. "Tá explicado então! Você pode até querer comer e é gostoso, mas sabe que não vale o trabalho."

Gretchen e Cady continuaram recolhendo os restos da sala e Cady tentou soar casual quando perguntou:

“Vocês sabem da Regina?”

Gretchen parou o que estava fazendo por um momento e franziu a testa, como se tentasse puxar a memória de um canto muito específico do cérebro. "Hmm… acho que ela foi embora logo depois de você sumir. Shane ofereceu uma carona, mas ela recusou."

"Ela não foi embora com o Shane?" Cady perguntou, surpresa.

"Não. O que é bizarro, porque até meia hora antes eu não sabia quem era ele e quem era ela naquela parede." Gretchen disse apontando. "Mas a Regina é assim. Um minuto quer alguém, no outro, já esqueceu."

Cady mordeu o lábio, mas não disse nada. Gretchen não sabia de tudo que havia acontecido no segundo andar. Não sabia que Regina lhe deu um beijo na testa como se significasse alguma coisa. 

Gretchen e Karen começaram uma discussão sobre algo que Karen jurava que era verdade porque havia visto no TikTok. Cady ignorou ambas e pegou o celular. Nenhuma mensagem de Regina. O bilhete foi a única coisa que restou da loira naquela manhã caótica.

"Você tentou mandar mensagem?” Gretchen disse, voltando a atenção para Cady. "Ela não mandou nada no grupo."

"Não", Cady admitiu. Será que deveria mesmo mandar alguma coisa? "Acho que ela só foi pra casa mesmo."

Gretchen deu de ombros, já enviando uma mensagem para Regina, pois odiava ficar sem saber do paradeiro da amiga "Bom, eu mandei. Se quiser, manda também. Mas agora, por favor, vamos continuar limpando essa bagunça que quando mais cedo terminarmos, mais cedo posso ir pra casa voltar a dormir."

Cady soltou um suspiro exausto, mas guardou o celular no bolso e voltou a recolher o lixo. Mais do que queria admitir, ela esperava que Regina mandasse uma mensagem primeiro.

———

Falar que Regina George havia acordado era um exagero. Ela rolou na cama por horas até finalmente desistir e decidir levantar. Tomou algo sem muita vontade e saiu para correr, na esperança de que o ar fresco da manhã clareasse seus pensamentos. Não funcionou. Sua mente sempre voltava para o mesmo lugar.

Cady.

Ela havia sido muito mais vulnerável do que pretendia com Cady na noite anterior. Um beijo na testa? O que ela estava pensando?! Regina não fazia esse tipo de coisa. Mas, ao mesmo tempo, sentia um calor reconfortante no peito ao lembrar que, de alguma forma, conseguiu ajudar Cady. Regina tinha ficado.

Ela ficou porque não queria deixá-la sozinha. Porque alguma coisa dentro dela não permitia que simplesmente desse de ombros e fosse embora. E, se estava sendo honesta consigo mesma, não queria ir. Ainda que, para isso, tivesse que admitir um pouco mais do que gostaria. 

A verdade era que Regina não esperava que Cady se lembrasse da conversa no banheiro. Ela estava bêbada demais para se dar conta de muita coisa, certo? Mesmo assim, Regina seguia pegando o celular com frequência, esperando uma mensagem. Qualquer mensagem.

Mas nada.

Poucas horas se passaram e nenhum sinal de vida, nem de Cady nem de suas outras amigas. A ressaca devia estar levando a melhor de todas.

Então, uma notificação. Regina deu um pulo.

Gretchen.

A loira abriu o mais rápido que conseguiu, mas logo se arrependeu.

"Você não vai acreditar. Cady nos obrigou a limpar a casa dela. EU estou limpando uma casa que nem é minha. Enfim, chegou bem?"

Regina revirou os olhos.

Então Cady estava acordada o suficiente para forçar Gretchen e Karen a limparem a casa, mas não para falar com ela? Tudo bem. O comprimido que ela deixou provavelmente não tinha feito efeito ainda. Se é que Cady sequer o tomou.

O dia inteiro se passou e Regina jamais admitiria que ficou boa parte dele pegando o celular o mais rápido que conseguia a cada nova notificação. Mas nunca era Cady.

Tudo bem. Se para Cady aquilo não significava nada, então para Regina também não.

E assim a semana se desenrolou, com ambas mantendo o teatro de que nada havia mudado. Elas continuaram sentando juntas, falando sobre assuntos triviais. Nenhuma das duas mencionou a noite da festa, o beijo no carro, o cuidado no banheiro. Era como se tivessem feito um pacto silencioso de que o assunto estava encerrado. Exceto pelo fato de que não estava.

Até que foram forçadas a fazer um trabalho de biologia em dupla. Elas não tinham escolha e nenhuma desculpa seria convincente o suficiente. E foi assim que elas acabaram, mais uma vez, sozinhas no quarto de Regina. A tensão era quase palpável.

Regina fingia estar concentrada nos livros, mas suas respostas eram monossilábicas. Cady tentava focar no trabalho, mas cada vez que Regina mordia o lábio ou mexia no cabelo, seu cérebro entrava em pane.

Até que, de repente, Cady não conseguiu mais segurar.

"Por que você fica brincando comigo?" As palavras saindo antes que pudesse impedi-las. A voz dela soou frustrada, cheia de sentimentos reprimidos há tempo demais. 

Regina finalmente olhou pra ela e Cady se levantou, incapaz de ficar parada. "Você me beija, cuida de mim e depois age como se não significasse nada!"

Regina cruzou os braços, defensiva. "E se significasse?"

Cady piscou, surpresa com a resposta. Sua garganta secou, mas ela se forçou a continuar. "Se significasse, você teria dito alguma coisa."

"Curioso você dizer isso.” A loira inclinou a cabeça. “Depois da festa na sua casa, eu não recebi uma única mensagem sua."

"Eu estava com a pior ressaca da minha vida!" Cady rebateu, cruzando os braços também. Mas, em seguida, acrescentou em um tom mais baixo: "E também esperava que você me mandasse mensagem primeiro."

Regina ficou em silêncio por um momento antes de soltar uma risada curta, sem humor. "Então, no fim, nenhuma das duas otárias mandou nada e ficamos remoendo isso até agora." Ela balançou a cabeça, levantando-se até encontrar Cady no meio do quarto. "Talvez seja mais fácil assim mesmo. Ignorar."

"Fácil? Pra quem? Porque, pra mim, não é. Pra mim, foi a única coisa real que aconteceu nas últimas semanas." Cady deu um passo à frente, os olhos queimando com algo que ela não conseguia mais segurar.

Regina abriu a boca para retrucar, mas antes que conseguisse, Cady soltou um suspiro e sussurrou:

"Eu só queria que acontecesse de novo."

E então, sem dar tempo para mudar de ideia, ela fechou o espaço entre elas, segurou o rosto de Regina e a beijou. 

Foi um beijo intenso e cheio de emoção. Cady tentava passar toda a frustração, desejo e confusão dos últimos dias.

Regina congelou por um segundo com a surpresa. Mas então cedeu, segurando Cady pela cintura, puxando para mais perto.

Quando se afastaram, o único som que quebrava o silêncio era o da respiração ofegante das duas. Ambas com o coração batendo tão forte que não sabiam mais qual era o seu e qual o da outra.

Regina estava tonta, não pelo beijo apenas, mas sim pelo jeito que Cady a olhava. Os olhos da ruiva olhavam tão intensos para dentro dos seus que Regina se sentia exposta e ela odiava se sentir assim. Regina piscou algumas vezes, tentando processar que, pela primeira vez, era Cady quem tinha iniciado algo.

A ruiva continuou com as mãos no ombro de Regina, o olhar decidido.

“Eu sabia que você também sentia.” murmurou

Regina, desesperada para retomar o controle da situação tentou “E o que te dá essa certeza?”

"Porque você ainda tá segurando minha cintura como se não quisesse me soltar." Cady respondeu com um sorriso de canto.

"Eu—" Regina começou, mas parou. Sem saber como responder, soltou Cady, mas não se afastou. "Isso- Isso é complicado," Regina murmurou, ainda perto demais.

"Quando é que alguma coisa com você não foi complicada?" Cady soltou uma risada leve. 

Regina revirou os olhos, mas não conseguiu evitar um pequeno sorriso.

"Depois de tudo ainda quer continuar fingindo que não está morrendo de vontade de me beijar de novo?" Cady provocou, cruzando os braços.

Regina sentiu o sangue indo para as bochechas. Ela ainda se recusava a acreditar que Cady a lia tão bem. Soltou um suspiro, passando a mão pelo cabelo como se estivesse finalmente se rendendo. "Você vai ser um problema pra mim, não vai?"

"Isso depende. Você quer que eu seja?" Cady sorriu, inclinando a cabeça. 

Regina encarou aqueles olhos castanhos, cheios de expectativa. Sabia que não importava o quanto tentasse se enganar—já estava entregue.

Então, fez a única coisa que parecia certa naquele momento. Pegou Cady pela gola da camisa e a puxou para um beijo. Dessa vez, não havia hesitação. Nenhum jogo. Nenhuma barreira.

Apenas elas.

O beijo era quente, firme, cheio de algo que Regina demorou a aceitar que sentia. Mas, no segundo em que Cady suspirou contra seus lábios e sorriu contra o beijo, Regina soube.

E, pela primeira vez, ela não tinha medo disso.

Notes:

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