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Punição

Summary:

Lestat reflete sobre séculos de abandono, amor e culpa — da morte de Cláudia ao afastamento de Louis, de Gabrielle a Nick, de Magnus a Marius. Nas ruínas do que um dia foi seu lar, ele questiona se a vida eterna é um dom ou uma maldição, e se sua maior punição não é, na verdade, a solidão a que foi condenado.

One-shot. Angst. Fiel ao cânone.

Work Text:

A ideia era puni-los, mas acabou que quem saiu com a maior pena fui eu.

Eu o magnânimo vampiro Lestat, aquele que provou o sangue dos antigos, que foi criado pelo infame Magnus. Lestat Lioncourt que foi pupilo de Marius de Romanus, que sempre foi conhecido como moleque, incomparável, o infame que criou o teatro dos vampiros. Um ser que carrega o poder de eras incomparáveis, e que agora observa sua filha queimar sob o sol.

                Eu deveria me vangloriar, afinal, Louis e Claudia, meus filhos amados se voltaram contra mim, foram eles que tentaram me matar, mas não me sinto assim. Eu que era conhecido ainda quando humano como o matador de lobos, agora não passo de uma sombra pálida e obtusa. O que aconteceu no teatro... Ter a Cláudia, minha bela e doce criança vampira, gritando de dor, enquanto meu amado Louis era afastado...

                Sou sentimental, amo demais, sinto demais, o que os humanos sentem não é nada comparado a dor que sinto agora. A dor da traição de meus filhos, mas porque sinto que eu que os trai? Eu dei o dom das trevas, eu os convidei a caminhar no Jardim Selvagem comigo..., mas escondi as grandes leis, escondi o real alcance dos meus poderes, escondi quem eu era.

                Quando pedi Nick, eu me fechei, eu quis desistir, era ainda um ser patético. Se olhar para minha vida sempre foi assim. Rejeitado por um pai e irmãos que se achavam superiores, que me tiraram da vida de conhecimentos que o sacerdócio poderia me dar. Por uma mãe infeliz, minha amada Gabrielle, que definhava em um casamento infeliz, doente e que dei o dom das trevas para que sobrevivesse e depois me abandonasse...

                Quantos me abandonaram ao longo da minha vida? Magnus que se lançou ao fogo após de criar, um ser belo e forte, oposto do ser decadente que era. Magnus podia ter sangue antigo, porém sua aparecia lhe causava repulsa, por isso eu era seu filho perfeito, o herdeiro de seu poder, seu projeto egoísta. Marius, me amou, me acolheu quando não sabia nada sobre o que havia me tornado, porém eu o trai quando me aproximei daqueles que dormem, nossos pais, Akasha e Enkil, e ele me abandonou...

Não me julguem caso misture as ordens dos fatos, afinal são séculos de vida, e uma vida cheia de solidão e a memória, mesmo a de um vampiro não é confiável. Mas continuando, busquei o amor de minha mãe, quando soube de sua doença, fui até ela, dei o dom das trevas. De seus filhos, eu era o mais parecido com ela fisicamente. Eu era sua projeção do masculino, ela via em mim seus sonhos. Foi de amada mãe, para amada filha, que agora estava forte e bela, por isso se cansou de viver presa a alguém, foi presa ao meu pai por tantos anos em um casamento sem amor, quando teve a oportunidade, apenas me deixou.

Nick, meu amado violinista, aquele que com sua música tocou minha alma, eu o amei e o quis ao meu lado. Sempre fui artístico. Fugi com o teatro, porém fui arrastado novamente para a casa paterna pelos meus malditos irmãos, todos subservientes ao meu pai. Nick era minha projeção artística, me apaixonei por sua luz, por sua música, mas a melancolia de uma vida imortal não era para ele, Armand apenas o empurrou para a morte, eu apenas observei. Mas Nick, preferiu morrer a continuar ao meu lado.

Até agora narrei quantos abandonos? Quatro?

Como não se tornar melancólico olhando a minha vida? Como não deixar que a dor me consuma? Como não deixar que meu ser seja corroído por esse sentimento que sufoca a séculos e séculos e séculos. Agora, novamente Louis e Cláudia. Louis era fraco, Claúdia espetacularmente poderosa, até para seu próprio bem. Eles se completavam e ambos me completavam.

Fomos um coven e tanto, ele melancólico por deixar a vida humana, se recusava a matar, viva de ratos. Ela, minha criança, minha caçadora cruel e insaciável. A filha que me orgulhei tanto, mesmo sabendo que apenas sua existência era um pecado contra nossa espécie. Uma criança vampira, que conforme envelhecia, tinha desejos humanos, que não era satisfeito, uma mulher presa em corpo infantil, começou a odiar a mim, seu criador, seu pai imortal.

Uma união sombria, meus mais amados, aqueles que mais suprimiram minha solidão, também foi o abandono que mais doeu. Tentaram me matar e nos levou ao ponto em que estamos agora. As cinzas de Cláudia irão me assombrar pela eternidade, sua dor era minha dor. Eu sempre serei o real culpado por sua morte, por mais que não tenha sido o executor, no momento que impedir sua subida aos céus, quando dei o dom, eu a condenei.

Eu deveria me vangloriar, com a ajuda do coven do teatro, consegui me vingar, consegui que Claúdia fosse punida e Louis aprisionado. Por que diabos então me sinto tão derrotado? Eles continuam entrando em minha miserável vida imortal e saindo, não sou digno de amar? A minha punição pelos meus crimes, pelas mortes que causei de famílias inocentes era essa? Ser abandonado inúmeras e inúmeras vezes? Um vazio que nunca será preenchido?

Estou agora nas ruínas daquele que já foi no passado o castelo do senhor Lioncourt, dono das terras e senhor decadente, também conhecido como meu pai. Será que se tivesse sido amado por sua família seria diferente? Muitos serão os anos que poderia pensar sobre isso, agora queria apenas chorar, deixar que lágrimas de sangue corram sobre meu rosto pálido e perfeito. Eu causei a morte da minha amada criança, por minha causa Louis se afastou. Se sou um assassino cruel, por que anseio tanto por ser amado?

Sim, quando mais cruel, mais quero ser amado. A morte parece agora uma opção ruim, mas mesmo eu, com todo meu poder, sou covarde demais para fazer como Magnus e dar fim a minha vida. Sou um fantoche na mão da eternidade e se a minha punição for essa, viver em eterna solidão, só posso dizer que irei seguir aceitando minha sentença, enquanto caminhar pelo Jardim Selvagem.