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A snowing night in Rome.

Summary:

Depois de uma temporada exaustiva nos circuitos de voleibol e tênis, a capitã Gabriela e a tenista Bia Haddad finalmente encontram um tempo para livrarem suas mentes dos tormentos constantes.

Notes:

Literalmente minha primeira vez escrevendo, perdão.

Chapter 1: A snowing night in Rome.

Chapter Text

Meu nariz estava gelado.
O frio em Roma parecia ser extra-cruel durante a noite. As articulações doloridas e dedos congelantes eram um aviso significativo de que o aquecimento global já não estava à espreita, ele havia chegado.
A vista da praia durante a noite era sustentada somente por pequenos postes de luz, a ausência de ondas fazia com que o silêncio absoluto cobrisse cada recinto da cidade. Meu casaco fino já não era mais capaz de me proteger do clima hostil e os pensamentos que decidiam espreitar em minha mente, como se sentissem a brecha do silêncio.

"Achei que a gente ia fazer alguma coisa diferente, mas não esperava que fosse ser tomar banho de mar em pleno inverno."

A voz rouca e familiar tinha um tom ainda mais caloroso em minha língua materna. Gabi estava coberta dos pés à cabeça, nenhum floco de neve seria capaz de incomodá-la. Seus cabelos cacheados escapavam da touca de crochêt azul, o comprimento parecia ter dobrado desde a última vez em que os vimos. As mãos enluvadas se esfregavam para criar mais calor, mas nenhum movimento era capaz de esconder seu sorriso. Sua presença tão reconfortante era capaz de me causar nós na garganta, ao mesmo tempo que era fácil estar ao redor dela, parecia impossível verbalizar qualquer pensamento.

"Oi."  Foi a única coisa que manejei a dizer, a condensação de cada letra se espalhava pelo ar, assim como o farfalhar das areias denunciava o agitar dos ventos.

Por alguns segundos éramos crianças novamente, meninas, se conhecendo pela primeira vez. Poderia ficar observando-a por horas, seja jogando vôlei, tocando violão ou simplesmente existindo. Gabriela sempre teve essa aura magnética, e com o passar dos anos esse traço foi somente aumentando, ao ponto de sempre me trazer de volta à ela.
Ela se aproximou, de maneira cautelosa seus braços me envolveram. O abraço continuava forte e reconfortante, mas ao mesmo tempo parecia algo tão íntimo que reverberava em cada espaço de meu corpo como uma harpa. Logo, Gabriela era aquela melodia indecifrável, doce e calorosa, mas florescente e possante.
Ademais, era divertido notar a capitã da seleção brasileira ficar na ponta dos pés para chegar à minha altura.

"Como você está?"  Sua voz ecoou em meus ouvidos como uma nota estendida, com o seu queixo em meu ombro, me peguei implorando ao universo para que esse momento durasse para sempre, emoldurado em um globo de neve.

"Tudo bem e você?" Entrelaçei meu abraço sobre sua cintura, apertando seu casaco fofinho.

"Você está na Itália em plena temporada, Beatriz. Não precisa mentir para mim."

Suas mãos afagavam lentamente minhas costas e de maneira discreta.
Não queria chorar, eu não poderia chorar. Não importava o quão difícil estivesse o circuito, eu deveria segurar as pontas, ser o exemplo para as novas gerações. No momento eu não era nem um exemplo para mim mesma.

Gabi se afastou um pouco, mas suas mãos cobriam as minhas, as luvas aquecendo minhas palmas frias.
Seu calor sempre me deixava emotiva. A Gabriela, melhor jogadora do mundo, capitã do time brasileiro de vôlei, parecia sempre uma figura inalcançavel, a estrutura inabalável de aspecto sempre sereno, ela era quem sempre almejei ser. Porém, quando aqueles olhos profundamente mélicos e gentis me observavam atentamente, a única coisa que eu via era aquela Gabizinha, que uma vez chegou até minha mãe, perguntando se eu poderia jogar tênis com ela.

O rosto denso era só uma máscara para uma mulher que não parava de assumir responsabilidades e mesmo depois de anos achava que não conseguiria dar conta. E isso era bizarro já que Gabriela lutou e vem conquistando tudo que há possível no seu esporte e mesmo assim tem momentos em que a vejo respirar profundamente, mas nunca por medo e sim uma inspiração profunda de sempre se superar.

Aos poucos começamos a andar pela costa da praia, o vento frio arrepiava cada pelo do meu corpo e deixava meu cabelo com um aspecto estranho, mas entre ruas asfaltadas e uma parada água salgada, eu só conseguia agradecer por finalmente estar de volta aos braços da minha pessoa.

Antes de chegarmos ao fim da praia e o início da estrada para o farol, Gabi parou abruptamente. De modo hábil, suas mãos retiraram de modo veloz seu cachecol vermelho e antes que eu pudesse protestar ela voltou à ponta dos pés para enrolar a peça em meu pescoço.

"Você está tremendo Bia."

"Ta tudo bem."  Assim que fiz menção de retirar o tecido, ela colocou a mão sobre a minha.

"Uma vez na vida deixa alguém cuidar de você, por favor." Súplica não combinava com ela, era estranho.

"Mas aí você vai ficar com frio." Eu disse ao colocar as mãos nos bolsos.

"Prefiro passar um tiquinho de frio do que ver você congelar ou pior ficar gripada!"

Ela deu um pequeno espirro, parecendo uma gatinha assustada, mas mesmo assim colocou uma mão sobre a minha para me impedir de devolver o cachecol.
Acho que no fundo ela nunca saberia o quanto esse momentos entre nós eram especiais para mim. Era como voltar a ser uma pessoa normal só que ao lado de alguém especial, eu poderia ser somente eu.
De modo inconsciente afastei alguns cachos que caíam sobre os olhos de Gabi.

"Gabriela." Minha voz parecia mais trêmula do que me lembrava, meu coração acelerava toda a vez que meus lábios pronunciavam esse nome.

"Beatriz." Ela sorriu e de maneira singela tudo parecia fazer sentido, tudo valia a pena.

Minha mente parecia uma tela em branco esperando para que Gabi ditasse as cores e os desenhos. Meu polegar acariciava gentilmente sua bochecha. Pude jurar que ela ficou um pouco vermelha, mas não queria estragar o momento.

Por meros segundos, nossas respirações se equalizaram, e nossos batimentos se sincronizaram, seus olhos escuros e profundos que sempre demonstravam seriedade pareciam somente uma sequência hipnotizante de notas musicais. Seus brincos brilhavam sob a luz do luar, lembrando-me que em algum momento nós teríamos que nos separar novamente, somente esse pensamento era o suficiente para fazer com que meu peito ricocheteasse.
O vapor de nossas inspirações criava uma camada fina.
Curvei-me devegar, esperando que ela negasse ou se afastasse, nossos narizes gelados se tocando.
Nossos lábios se encontraram lentamente. O beijo era calmo e suave, as mãos de Gabriela combriam minhas bochechas, a luva fazendo cócegas em meu rosto. Estávamos em harmonia.

No fundo, somente queria que ela me desse sua mão, devolvesse a mim o ar que parecia roubar sempre que a via, e dissese que me amava. Porque eu a amava mais que qualquer troféu ou título existente. Não importava a distância ou os desafios, ela era única coisa em que eu não  conseguia parar de pensar e tentei, tentei muito.
Ao fim gentil do beijo, Gabi colou nossas testas.

"Você é a heroína de todo mundo...comigo você pode ser só a Beatriz Haddad Maia, aquela garota de São Paulo. Isso já é muito mais que suficiente para mim." Ela depositou um leve beijo em minha testa.

"Você também não precisa ser forte o tempo todo, capitã." O apelido a fez sorrir, o que automaticamente me fez sorrir também.