Chapter Text
Robin tinha a teoria de que quando The Beatles tocava no rádio, nada de ruim aconteceria. “A Hard Days Night” tocava no rádio da lanchonete em frente Babel no dia em que viu o seu nome no topo da lista de aceitos na universidade Oxford — talvez fosse um prenuncio do que viria. “Twist and Shout” no rádio do pub, minutos antes de Robin deixar a sua mesa para ir ao banheiro, coincidentemente Rosie Armstrong estava na fila do banheiro, e naquela noite se beijaram na penumbra da lateral do palco — não deram certo depois disso, mas não era culpa dos Beatles. “I Want To Hold Your Hand” foi como um abraço depois de sair de uma prova de História das Ideias Linguísticas, que não teria sido grande problema, afinal Robin era muito bom com linguística, o grau de dificuldade vinha por causa do professor que a ministrava: Richard Lovell.
O pequeno rádio na recepção, comandado por uma secretária que digitava furiosamente em sua máquina de escrever, tocava “Come Together”. Era uma das preferidas de Robin, fazia menos de dois meses que Abbey Road fora lançado tornando aquela faixa de pedestres em um imediato ponto turístico, e se tornara um dos álbuns preferidos de Robin. Ainda assim, suas pernas debatiam-se em um movimento ansioso, enquanto mordia a lateral do dedão esquerdo. Era Richard Lovell de novo.
A porta da sala dele abriu. Podia se tratar de um professor de Oxford, no entanto, ser chamado na sala dele era o equivalente ao ser chamado pelo diretor na época da escola. Robin era um aluno excelente, com um currículo invejável, fumara maconha uma única vez — naquela semana. Richard normalmente não o chamava em seu escritório, afinal dividiam a mesma residência, bastava gritá-lo ou pedir que sra. Piper o chamasse; aquilo tinha a ver com a universidade e isso era o que tirava Robin do eixo.
O pai surgiu na abertura da porta: cabelo penteado de lado e o bigode milimetricamente aparado.
— Entre, por favor, Robin — ele pediu no seu tom de professor; que fez Robin atender de imediato. — E abaixe esse som, senhorita Fraser. Já basta eu ouvir isso o dia inteiro em casa.
Robin captou que alfinetada, na verdade, era para si. Richard o assustava em muitos aspectos da vida, mas não quando dizia respeito a música. Ele deveria estar grato que Robin se cansara um pouco de Led Zeppelin: Robert Plant gritava muito mais do que John Lennon.
A sala do pai era grande o suficiente para comportar todo o material de estudo e o ego inflado dele. Ao menos, era o que Robin ouvira outros alunos comentarem perto dele, sem nem sonharem que ele era filho do assunto da roda — e ele concordava. Sentou-se na cadeira de frente para a mesa, sabia que convite viria de qualquer forma e suas pernas não tinham força para sustentar o seu corpo.
— Acredito que esteja ciente do evento desse fim de semana — Lovell falou ao sentar-se de frente para o filho.
Não tinha como não estar. Um jantar de gala anual promovido pela reitoria de Oxford, que em outros momento, até membros da família real britânica estiveram presentes — agora, teriam sorte se algum lorde meio desconhecido surgisse. Premiavam alguns membros do corpo docente por seus grandes feitos acadêmicos; e Richard seria homenageado nessa edição. Se o pai era torturado com Abbey Road ; Robin era atormentado com os ensaios do discurso. Muito floreado, muito narcisista, muito branco . Mas eram conclusões que guardavam para si mesmo, não era como se fosse um insulto para Richard dizer que o seu discurso beirava o nacionalismo — flertando com o fascismo.
— Me lembro sim.
— É um jantar de gala importante para a universidade, porque recebemos muitas visitas ilustres. É o momento para exibirmos aquilo que viemos fazendo nos últimos anos.
Robin assentiu. Ele sabia todos os detalhes, afinal Richard participava todos os anos como parte do corpo docente. Estava careca de saber sobre o que era.
— Não é habitual alunos da graduação participarem. — A entonação de Richard mudava quando falava “graduação”, a entonação de alguém que acabara de provar um doce e odiara. — No entanto, preciso que você esteja presente.
— Eu? — O pronome escorregou da sua boca surpresa.
Robin possuía o maior coeficiente de rendimento da sua turma, no último ano da graduação carregava um currículo quilométrico com todas as suas conquistas que incluíam bolsas, prêmios e intercâmbios. E mesmo com toda a sua excelência, era a primeira vez que era convidado para participar do evento.
— Para o quê?
Não se espantaria se o pai falasse que faltava um garçom e precisavam que ele servisse os convidados.
— Você é o nosso graduando mais proficiente no chinês. — Deveria ser algo bom, mas o amargor de Richard evidenciou-se um pouco mais.
— Sim — ele concordou em um tom de dúvida.
Sua proficiente não era um mérito de Babel. Nascera na Inglaterra, assim como o seu irmão mais velho, mas a mãe era chinesa. Após o divórcio, Richard permaneceu em sua amada ilha, enquanto mãe e criança foram para a China. Robin viveu no país asiático do primeiro até o nono ano da sua vida, então a mãe faleceu e coube a Richard assumir a paternidade que lhe fora poupada por todo aquele tempo. Às vezes, Robin sentia saudade de quando o pai era apenas a pensão muito generosa em libras esterlinas convertida em yuan.
— Preciso que assuma a importante tarefa de intérprete de chinês para inglês.
A proposta o surpreendeu. Estava acostumado as traduções em Babel. Richard, ao assumir a sua educação e de Griffin, os preparou para a vida acadêmica, e cada um ingressou em Oxford com pelo menos quatro línguas. Então Robin foi aceito no programa de tradução logo no primeiro semestre. Trabalhar como intérprete era uma novidade.
— Griffin não poderia fazer isso? — perguntou um tanto acanhado, o rosto de Richard endureceu de imediato. Era a reação natural dele sempre que o primogênito era citado, mas Griffin já estava praticamente com o título de mestre garantido, os alunos da pós-graduação eram mais tolerados no evento.
— Para de viver a sombra do seu irmão! — Richard praticamente gritou. Robin se encolheu como um filhote. Então o pai respirou fundo. — E eu tentei falar com ele, mas prefiro não replicar as palavras que ouvi.
Isso fazia mais sentido. No entanto, o fato de Richard ter procurado por Griffin significava que era algo sério. Ou Richard teria preferido cortar um braço fora a ter que pedir o que quer que fosse a Griffin.
— Zhao Yun é filho de uma família Henan — explicou o pai. — Onde prosperaram durante aquela política econômica absurda implementada por Mao Zedong. Até que afundaram o país em fome e caos econômico, na crença de que superariam o atraso rural ao usar pseudociência para alcançar o que nós temos.
Richard soltou uma risada sincera. Robin não tinha certeza da relevância dessas informações para o trabalho de interpretação.
— Se podemos tirar algo de bom dessa abominação, a indústria descentralizada incentivada pelo governo, em que o Estado incentivou a população a criar indústrias caseiras, a família Zhao encontrou a saída deles do caos que estava prestes a explodir. — Richard juntou as mãos sobre a mesa, Robin sentia-se em uma de suas aulas. — Agora eles possuem um rentável negócio de aço em Shenyang, que até onde sei começou com produção artesanal de aço em fornos improvisados no quintal da casa em Henan.
Robin se remexeu em seu lugar. O pai possuía um talento excepcional para deixar as pessoas desconfortáveis com o conforto dele.
— A família Zhao é uma família de novos ricos. E estão entre os convidados dessa noite. — A satisfação de Richard murchou um pouco. — Annie Billingham é a segunda filha do Earl de Essex, estudante de direito em Cambridge. E é uma pretendente de casamento para Zhao Yun.
Robin não conteve a sua careta. De repente, tinham voltado no tempo.
— Eles querem se casar e não falam a mesma língua?
— E isso alguma vez foi um problema em casamentos arranjados? — Richard o rebateu. Era um ponto válido, o que deixou aquilo ainda mais estranho. Estavam em 1969, não no século dezoito. — O interesse inicial partiu de Zhao Wen, o pai de Yun. O interesse chinês em se aproximar do império britânico não terminou com o fiasco da política econômica de Mao Zedong. Ao menos agora a indústria tem algo a nos oferecer.
— Então o meu trabalho é interpretar a conversa entre Yun e Annie? — Já se sentia constrangido antes mesmo de se tornar a vela no meio daquela conversa.
— Não.
Robin encarou o pai sem esconder a sua confusão.
— Como assim?
— É a primeira interação entre Yun e Annie. Tudo o que um sabe sobre o outro, foi por intermédio de terceiros. E por mais que tenhamos nos esforçados para tornar Annie o menos interessante possível, Wen insistiu que o filho a conhecesse. — Richard rolou os olhos, um movimento rebelde que ele não costumava demonstrar. — Yun está encantado pela fisionomia de Annie. O que não podemos julgá-lo, afinal a lady Billingham é mesmo uma beleza incomparável, mais do que Yun pode encontrar em sua terra.
— Vocês estavam tentando impedir esse casamento? — Robin preferiu ignorar o último comentário. — Mas não seria benéfico economicamente?
Sentiu que havia perdido alguma informação no meio da conversa.
— Lorde Edward Billingham além de ter perdido todas as suas finanças, é um perigo para a estabilidade da política da Grã-Bretanha. — Com estabilidade, Richard Lovell só podia estar se referindo a grande ameaça do comunismo. — Quais benefícios podemos obter com um casamento desse? O próximo passo é Annie convencer Yun de mulheres são iguais aos homens e que imigrantes deveriam se tornar cidadãos ingleses.
— Que horrível seria.
— Um disparate! E, por isso, cabe a você fazê-la desistir desse casamento.
— Eu?! Como que eu vou fazer isso?
— Robin, filho, você tem a arma mais poderosa: a língua.
— Está sugerindo que eu faça a interpretação errada?
— Sugerindo não. Mandando. Sua função é alterar a interpretação a fim de convencer Annie Billingham de que não deve aceitar casar-se com Zhao Yun.
