Work Text:
Como fosse um lar, seu corpo a valsa triste
Iluminava e a noite caminhava assim
Era uma daquelas noites difíceis de dormir.
Ela ainda acordava pensando com o presente que ele lhe deu, um só deles, um tempo e espaço sem preocupações, eles eram apenas Eren e Mikasa. Sem se preocupar com guerras, apenas os dois e seu amor. Ali foi tão feliz, por quatro anos viveram em paz. Antes de despertar, antes de ter que cumprir o destino mais cruel.
A noite estava avançada, mas ao longe conseguia ouvir uma canção. De repente ficar deitada não era uma opção. Estava agradável apesar de ser primavera, o frio ainda insistir em dominar as noites, o calor começava a se sobrepor, não precisava se trocar, apenas pegou seu cachecol vermelho, o mesmo que cuidava com carinho há anos, uma das poucas lembranças físicas de seu amor, e enrolou por cima da camisola fina.
Ao sair pode ver a origem da música. Uma fogueira e algumas pessoas dançavam, mas ela foi impelida a seguir para a colina, para a arvore na qual seu amado descansava. Caminhou na madrugada, sozinha, sob a luz do luar. Se perguntou como deveria ser sua aparência para quem a visse, talvez um fantasma, era assim que se sentia, uma assombração, um espectro vazio e triste, ela estava sozinha e ansiava pelo seu amor.
E como um par, o vento e a madrugada
Iluminavam a fada do meu botequim
Uma brisa suave jogou os fios soltos em seu rosto, mas não era tão incômodo quanto as lágrimas que ameaçavam cair. Detestava noites assim. Ele fez as suas escolhas para que ela pudesse viver, mas como viver quando a sua razão de existir não estava mais ali? Quando ela foi a responsável por isso?
As lembranças do tempo juntos eram sua alegria, seu conforto, mas também uma dor incômoda, eles poderiam ter tido e não tiveram. Uma promessa sem futuro, promessas de um futuro, promessas do que poderia ter sido. Perdida em pensamentos chegou ao seu destino sem dificuldades, seus pés a guiava sempre pela trilha, acostumados com cada obstáculo, cada pedra, cada buraco. Desde que o enterrou ali com Armin, refez tantas vezes durante o dia o trajeto e algumas noites como esta.
Para muitas pessoas, a noite poderia ser assustadora, ainda mais na madrugada, porém para Mikasa era reconfortante estar ali, mesmo que a luz do luar fosse a única iluminação ali, ela conseguia enxergar. A árvore, o tumulo... O som da música ainda a alcançava. Fechou os olhos para apreciar os acordes que pareciam ecoar em seu coração, enchendo-a de calor.
Em uma de suas lembranças em seu tempo com Eren da cabana, eles dançaram. O som era tão doce quanto as notas que chegavam até ela. Eren a rodopiava, sua saia inflava e ela ria. Sentia o olhar do amado seguindo cada movimento, cada passo, assim como o toque em sua pele. Era fácil reproduzir. De olhos fechados, deixou que as sensações dominassem seu ser e com passos tímidos começou, um para lá, dois para cá, se sacodia devagar, tendo o vento da noite como par, as estrelas e a lua como testemunha, ela se permitiu dançar.
Seus braços envolveram seu corpo, para suprir a ausência do toque que tanto desejava, um rasgo em seu peito que jurava estar curado parecia sangrar novamente. Era um sentimento agridoce. Sentia-se transportada de volta para a cabana, para sua dança em frente a lareira, com o amor que queimava em seu peito, mas o arrepio na pele a lembrava que seu par era o vento. Não havia calor, além do cachecol enrolado em seu corpo. Eren não estava ali.
Valsando como valsa uma criança
Que entra na roda, a noite tá no fim
Lágrimas teimosas começaram a escorrer, lembrando-a da solidão de sua noite, uma de várias, uma ao longo dos anos. Se pudesse, se tivesse como fazer diferente. Rodopiava solitária, deixando que a camisola rodasse e voltasse a colar em seu corpo, apertava seu colo em busca de consolo, deixava o choro vir para esvaziar a dor que a dominava.
Não se importava com nada, apenas queria dançar, rodar e girar, deixar a dor fluir e assim voltar para aquele momento em que foi tão feliz. Com seus olhos fechados, era fácil transportá-lo para ali. Quase sentia o calor do toque em sua pele, a delicadeza do toque ao girar, a pegada firme que a fazia parar antes que seus lábios tomassem os dela. Tão doce que poderia jurar que ele estava ali.
Seu coração estava leve, cheio. Seus sentidos brincavam com ela. Mikasa podia sentir o cheiro dele na brisa que a envolvia. Cerrou mais os olhos, com medo de que se abri-los, a ilusão iria acabar, ela voltaria estar sozinha, pois agora tinha certeza da presença dele a guiá-la. Os acordes doces, o cheiro familiar, o sabor em seus lábios, nesse momento tudo era real, tão real que a fazia sorrir. Ela sentia seu amor, seu amado, sua vida.
Naquele instante nada importava, deixando-se guiar pela ilusão e pela lembrança de que foi amada. Um amor maior que a vida e a morte, um amor que seria eterno e capaz de transcender por todas as vidas, suas almas estavam conectadas, foi assim quando ele lhe deu o cachecol. Foi assim enquanto viveram na cabana e será assim mais essa noite. Ao longe, os acordes de um bandolim ressoam sinalizando o fim de uma canção, mas para Mikasa, os acordes apenas reforçam que algo maior aconteceu ali.
Ela valsando só na madrugada
Se julgando amada ao som dos bandolins
