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Acordei no meu quarto com uma sensação nova de conforto e familiaridade. Lembro-me de acordar cansado, de não conseguir arranjar energia ou motivação para as mais simples tarefas e ter momentos de confiança dispersos e descontínuos. Mas naquele dia, as coisas estavam bem.
Levantei-me cedo da cama, sem me irritar com o despertador. Espreitei pela janela do meu apartamento. Lá fora, aguardava-me uma linda cidade, Quelimane. Uma cidade verde, mas movimentada, com prédios bonitos, altos e baixos, mas todos naturalmente bem organizados e refletores da mais bela arquitetura portuguesa. Na rua mesmo à minha frente, estava o emblemático café Aurora, do qual já podia sentir o seu especial aroma. E ao longe, como não podia deixar de ser, via-se o prédio mais alto, uma magnífica obra arquitetónica, que até hoje não parava de me deslumbrar, tão imponente, mas bem integrada na paisagem urbana, a sua presença era.
Mas estava na hora de me fazer ao dia, tomei banho, comi um bom pequeno-almoço, e com todo o material que precisava, saí de casa em direção à universidade em que lecionava, como professor de história. Não precisava ir de carro. Não era muito longe. Bastava-me caminhar uns poucos minutos.
Pelo caminho, vi de tudo. Desde o leve trânsito da cidade, às pessoas e os seus afazeres. As pessoas... Isso era o que mais me fascinava. Já não me lembro de quando vim para cá morar, mas as pessoas sempre foram a alma da cidade. Isso pode parecer corriqueiro, mas quando se vê de tudo, cada pessoa, cada rosto, sejam pretos, brancos, ou mestiços, cada uma lidando com as suas preocupações, numa perfeita harmonia contagiante, não se consegue ignorar o sentimento acolhedor que proporciona. Desde os casais apaixonados, passando pelos idosos nostálgicos que confraternizam entre si, pelas famílias numerosas, pelos mais exóticos turistas vindos de todo o mundo, pelos apressados trabalhadores que todas as manhãs vão para o seu ofício, até há alegria das crianças divertidas a brincar no parque do jardim. Tudo estava bem, e não podia estar melhor. Estava como sempre tinha estado, ou como sempre me lembrei.
Cheguei no centro universitário onde lecionava. Era um espaço grande, mas simples. Os seus jardins bem cuidados com vista para o belíssimo rio dos Bons Sinais que banhava a cidade eram o seu destaque principal. Os edifícios em si, não eram mais do que se esperaria encontrar em qualquer espaço de ensino superior, com uma arquitetura modernista marcante e sem exageros. Mas também, não era preciso mais. Dentro das estruturas, os corredores cheios de alunos interessados e entretidos uns com os outros dominavam a alegre paisagem, típica de tal lugar.
Não tardara muito, e estava a dar a minha primeira aula do dia. Um modesto anfiteatro, símbolo universitário, era o espaço onde estaria trancado nas horas seguintes. Alunos, muitos, ou pelo menos, os suficientes para dar razão ao tamanho da sala. A matéria do dia era a mesma de sempre, História do Império e Ultramar. Mas em especial, e no final do ano, estava a dar a história recente.
A aula incidiu sobre como Portugal foi capaz de integrar as suas colónias de tal forma, que contrariando todas as expectativas internacionais, conseguiu criar e solidificar uma consciência ultramarina tão forte, ao ponto de prevalecer no tempo, e erradicando todos os fatores de instabilidade e injustiças anteriores, e que graças a isso, Quelimane, Moçambique, se tinha tornado perfeito exemplo de tal integração, sendo agora uma dais mais belas pérolas africanas, centro populacional e polo económico, representando gente de todas as raças, harmoniosamente, e todas elas portuguesas, como as que se encontravam na sala, diante de mim.
Há hora de almoço, que até é de se ressaltar, não era lá muita, saí para comer qualquer coisa numa cantina próxima, como era de costume. O lugar era muito frequentado, tanto por gente da universidade, como por trabalhadores locais que aí vinham diariamente para comer. Daí a ementa também não ser particularmente diversa, acompanhando os preços acessíveis. Mas a comida valia bem o preço. Já tinha estado em sítios bem mais caros e com pior serviço.
Felizmente, ao chegar relativamente cedo, consegui um bom lugar, que até permitia uma boa vista para o exterior. E qual seria o meu espanto, quando já ia a meio do meu pacato bitoque, a vi. Sentada num banco de jardim, para o qual tinha vista, estava uma linda mulher, e não que isso fosse incomum, de tantas belas mulheres de que a cidade estava repleta. Mas esta, tinha qualquer coisa especial. Era uma mulher jovem, loira, baixinha, com um simples polo azul e uma longa saia cinza, que contrastava com as cores vibrantes do seu cabelo. Mas mesmo isto, não era bem o que me chamou a atenção. Havia mais qualquer coisa, só ainda não sabia bem o que era. Junto a ela, estavam duas crianças das quais ela parecia estar a cuidar. Tinham algo entre os 6 e os 10 anos, sendo que uma era claramente mais velha que a outra, mas de longe não dava bem para ver. Mas obviamente não podiam ser filhas dela.
Observei isto tudo por cerca de 1 minuto, mas depois lembrei-me de que a carne que tinha no prato estava a arrefecer, desviei o olhar por um instante, mas quando voltei a olhar para a moça, qual não foi o meu espanto ao ver que ela já não estava lá. Desapareceu, literalmente, num instante, sem deixar rasto.
“Mas para onde é que terá ido? E como? Que estranho... parecia estar ali tão sossegada e em menos de 5 segundos desaparece-me assim, do nada.”
Mas também não é como se isso fosse afetar muito o meu dia. Afinal, quem é que nunca viu uma mulher bonita e se distraiu um pouco a olhar para ela? Terminei de almoçar e dei o resto das aulas que tinha marcadas para a tarde.
Ao voltar para casa, ao fim do dia, num pude deixar de me deslumbrar com a imensidão da cidade ao cair da noite. A sua vida animada que tinha durante o dia ia desaparecendo, mas em seu lugar tomava espaço uma paz indescritível. A escuridão, apenas interrompida pelas poucas luzes artificiais, carregava consigo este sentimento de serenidade e pertença, que apenas podia ser ampliado pelo leve vento do Índico que trazia consigo o seu cheiro a maresia vindos do oceano.
Estava cumprido mais um dia. Cheguei a casa, e refleti, como sempre, sobre como foi o meu dia. “ Como é que aquela mulher desapareceu do nada, durante o almoço? Não sei, acho que só não a vi sair. Mas de resto, foi normal. O que é bom. ” Significava que tudo estava em paz, e para o dia seguinte, não podia desejar melhor.
