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Capítulo I – Foco na Alma
Rio de Janeiro, 1960 — Escola Nacional de Cinema e Rádio
O som dos sapatos de Beatriz ecoava nas escadas da escola. Seu vestido de algodão azul claro marcava a cintura fina, e os cabelos encaracolados estavam soltos em cachos escuros que emolduravam seu lindo rosto. Ela carregava uma pasta de couro e um livro surrado debaixo do braço.
Era a única mulher na turma. Isso ela sabia desde o primeiro minuto. Também era uma das mais inteligentes — isso eles eles iriam descobrir com o tempo.
Ela entrou na sala e procurou um lugar. Havia uma cadeira vazia ao lado de um rapaz alto, louro, de camisa branca enrolada nas mangas e uma caderneta aberta sobre os joelhos. Ele fazia anotações rápidas, quase nervosas, enquanto murmurava algo sobre luz e movimento.
— Com licença — disse ela, educadamente.
Ele ergueu os olhos. Um par de castanho claro, quase verde, muito intensos, beirando ao susto.
— Claro. — Ele afastou a cadeira com o pé. — Está liberada. Mas aviso que o projetor daqui sempre engasga.
— Nada que a gente não consiga dar um jeitinho, ou concertar de alguma forma — respondeu ela, sentando-se.
Ele sorriu, meio sem jeito.
— Roberto. Mas todos me chamam de Beto.
— Beatriz. — Ela o encarou. — Mas pode me chamar de Beatriz mesmo.
Ele riu, surpreso com a firmeza dela. Não havia nenhum traço de timidez em sua postura, embora os olhos dela — castanhos, grandes, atentos — tivessem um brilho contido, como se escondessem algo precioso.
— Você fala como quem já nasceu montando roteiro — ele comentou.
— E você parece alguém que quer dirigir o mundo inteiro ao mesmo tempo — rebateu ela, apontando para o caderno rabiscado.
Ele olhou para os próprios desenhos.
— Talvez porque eu sinta que, se não contar essas histórias, ninguém vai contar por mim.
Ela ficou em silêncio por um instante.
— Eu entendo isso mais do que imagina.
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Nas semanas seguintes, eles se cruzavam com frequência.
Biblioteca. Sala de montagem. Corredores. Café barato na cantina. A cada encontro, os diálogos ficavam mais longos, mais profundos.
— Você sabia que os diretores franceses e americanos tão começando a filmar na rua, com som direto? — disse ele, empolgado, num desses encontros.
— Sei. E também sei que ainda vai levar muito tempo pra esse tipo de liberdade chegar aqui — respondeu ela, firme. — Aqui, uma mulher negra na frente da câmera é sempre mucama ou mulata sensual. Nunca protagonista.
Ele ficou em silêncio. A verdade dela doía — mas era necessária.
— Talvez a gente possa mudar isso — ele disse. — Com o nosso cinema. Com os nossos filmes.
Ela o olhou, surpresa. E por um segundo, viu ali não só o entusiasmo de um estudante apaixonado por arte, mas também a possibilidade de uma parceria verdadeira.
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Na festa dos estudantes, a tensão explodiu.
O salão era simples, com luzes penduradas em fios improvisados. Um rádio tocava Elizeth Cardoso e Elza Soares, e os estudantes dançavam de mãos dadas, sorrindo, rindo alto. Beatriz ficou num canto, observando. Sentia-se deslocada, como tantas vezes. Mas também estranhamente esperançosa.
Beto apareceu do outro lado, de camisa aberta no colarinho e olhar ansioso. Ele a viu e foi até ela sem hesitar.
— Posso te tirar pra dançar?
Ela hesitou. Olhou em volta. Sabia o que aquilo provocaria. Uma mulher negra dançando com um rapaz louro, bonito, forte... Seriam o centro das atenções. E dos julgamentos.
— Tem certeza? — perguntou.
— Não tenho certeza de nada — ele disse, sincero. — Só sei que quero dançar com você.
Ela estendeu a mão. E ele a segurou como se ela fosse feita de vidro e fogo ao mesmo tempo.
Dançaram devagar, os corpos próximos, os rostos quase colados. A música era suave, mas o coração de Beatriz batia como percussão. Sentia o cheiro dele — um misto de sabonete e alguma bebida desconhecida. E ele sentia o perfume dela, um cheiro doce e cálido, como mel com algo de flor, talvez baunilha.
— Me conte mais sobre o que te motivou a estudar aqui, sempre fiquei curioso sobre isso.
— Eu sempre fui apaixona pelas artes, pela fotografia, a música, mas o cinema em especial sempre me comoveu, me fez querer explorar a vida e as possibilidades de contar histórias e realidades diferentes. E pra você, com tem sido toda essa experiência?
— Eu entendo suas motivações Beatriz, também divido dessa paixão pela arte, é o que me motiva, o que me dá ânimo em acordar todos os dias, poder enxergar o mundo através de outra lente, outra órbita— E eles rodaram pela pista de dança, ritmados e mais entrosados do que nunca, desde que se viram naquele primeiro dia de aula, a mão de Beto firma segurando a dela enquanto a rodopiava e continuavam a rir juntos e contar um ao outro de suas vivências com as artes.
— Provavelmente iremos nos machucar se continuarmos indo por esse caminho — ela sussurrou.
— Talvez. Mas e se a gente também se curar?
Foi ele quem a beijou primeiro.
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O quarto de Beto era simples, no alojamento dos rapazes.
A cama estreita, a parede repleta dos pôsteres dos maiores clássicos do cinema internacional colados com fita, algumas fotos de família se espalhavam por perto, ela não deixou de reparar em uma foto específica, que deveria ser do pai de Beto junto de outro jovem, e uma garota mais jovem que Beatriz, ela deduziu que poderiam ser os irmãos mais novos de Beto, o que a intrigou foi o fato de que junto deles tinha uma mulher negra de meia idade, com um lindo sorriso e um cabelo estonteate. Ela desejou perguntar sobre aquilo, mas achou melhor manter a curiosidade para si mesma naquele momento, desejando secretamente ter a oportunidade de voltar aquele quarto e poder escutar sobre as histórias da vida dele.
A janela estava entreaberta para espantar o forte calor que fazia no Rio naquela época do ano. Quando Beto terminou de fechar a porta de se dormitório, eles se olharam por longos segundos, instantaneamente sentiram uma enorme força os puxando para perto um do outro, Beto cruzou a cintura dela com um dos braços, e sentiu mais de perto o cheiro inebriante de sua pele, aquele cheiro de baunilha era inesquecível, em um sinal de afeto, que logo foi substituído pelo desejo, ele sentia por Beatriz uma atração e sentimento ainda inexplorados, que até então estava o consumindo em todas quase todas as ocasiões em que estavam juntos, certamente ele nunca, nem de perto, sentira por outra jovem em sua vida algo parecido com aquilo, e também não fazia ideia de que ela se sentia da mesma forma.
— Se você quiser parar, é só dizer — ele disse, sério, os olhos firmes nos dela.
— Não vou dizer. — Beatriz tirou os sapatos devagar. — Só me promete que isso vai ser nosso. Só nosso. Não dos outros.
— Prometo.
O toque dele foi delicado, reverente. Como se ela fosse algo sagrado. E ela, pela primeira vez, se sentiu vista — inteira. Não como corpo exótico ou objeto de desejo. Mas como mulher. Como ser humano.
Fizeram amor com entrega. Mas também com medo. Medo do depois.
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De manhã, o peso do mundo os esperava.
Beatriz vestiu o vestido de novo. O silêncio era espesso.
— Me desculpa — disse ele, ainda deitado, confuso.
— Por quê?
— Por... tudo. Por não saber como proteger você disso. Da reação das pessoas. Do que vão falar...
— Não precisa me proteger, Beto. Eu sempre andei sozinha. Só... não me deixa mais sozinha aqui dentro.
Ela tocou o peito dele, sobre o coração. Depois se afastou, pegou suas coisas e saiu.
Na semana seguinte, as fofocas começaram. Sorrisos tortos. Sussurros nos corredores. Os dois se evitaram. As conversas cessaram.
Mas a lembrança do toque, do beijo, da entrega... essa ninguém conseguia apagar.
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Dois meses depois, Beto apareceu na sala de aula com um envelope na mão.
— Beatriz — chamou, com cuidado.
Ela o olhou com desconfiança, mas os olhos suavizaram ao vê-lo nervoso.
— Fui aprovado no edital do festival da escola. Vou filmar um curta. Quero você como protagonista.
— Por quê?
— Porque você é a única que carrega verdade nos olhos. E porque o filme é sobre alguém que teve coragem de amar mesmo sabendo o preço.
Ela suspirou. Demorou para responder.
— E qual vai ser o final?
— Isso, só você pode decidir.
Ela estendeu a mão. Ele segurou.
E o rolo da história deles começou a girar de novo.
