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tomioka estava sentado no engawa, com um pequeno prato ao lado dele com alguns caroços dos pêssegos que comiam, ele, o pequeno loiro faminto enrolado na faixa em seu peito e não o suficiente, o que estava em sua barriga ainda pouco rechonchuda.
ele olhou para os olhos azuis do filhote refletindo os dele, mordendo um pedaço da fruta para dá-lo, como um pássaro, kanzaburo teria adorado conhecê-los. o canto de seus lábios se levantaram levemente ao lembrar de como ele descansava sobre sua primeira barriga, depois de já cego como se aninhava perto da cabeça de seu filhote como tanto fazia consigo, ele sentia falta de seu velho amigo.
ele suspirou com as memórias invadindo sua mente, a suave brisa do outono balançando os cabelos recém crescidos e bagunçados, igualmente aos fios do mini rengoku em seu peito. estava levando os dedos sujos até a boca para limpar quando seu rosto se virou em direção às árvores, um barulho estranho chamando sua atenção, seu corpo enrijeceu.
apesar de kibutsuji ter sido derrotado, ainda haviam, embora pouquíssimos, alguns onis sobreviventes desesperados para se manterem vivos, mesmo que sem seu criador ou a cura o destino seja inevitavelmente a morte.
discretamente, o ômega envolveu passou o braço por seu filhote e subiu uma das pernas para tentar esconder a pequena barriga, instintivamente os protegendo.
o barulho havia parado, mas algo ainda o incomodava. com seu yukata frouxo mostrando um pouco mais de pele do que deveria, se levantou devagar e cuidadosamente, levando junto de si o pequeno prato com caroços e entrando em casa antes de fechar o shoji. ele balançou o pequeno em seu colo para que ele descansasse, seguindo para a cozinha à procura de um outro rengoku.
havia se aproximado muito de senjuro durante e depois da recuperação do irmão dele, o garoto se apegou a giyuu profundamente, e o ômega reciprocou, até mesmo o marcando como um de seus filhotes. era impressionante como eles eram fisicamente idênticos mas tinham personalidades tão distintas, mesmo com a essência rengoku sempre intacta.
o encontrou esquentando um pouco de chá, levantando o rosto quando notou sua presença, abrindo um sorriso gentil como sempre. "giyuu-san!" mas logo uma ruga apareceu entre suas sobrancelhas "está tudo bem? parece preocupado..."
deixou o prato de lado e foi até o loiro, o trazendo para perto de si e o marcando com seu cheiro, um hábito. "sim." respondeu calmamente, afagando os cabelos dele e sentindo ele o abraçar o mais forte que sua barriga e o outro filhote enrolado o permitiam. ele teria continuado numa conversa, mas outro barulho chamou sua atenção, mais alto, mais próximo do que antes.
independentemente da classificação, ser um caçador exige que seu corpo desenvolva mais suas próprias capacidades, e lidando com criaturas tão sorrateiras, a audição era crucial. por isso tomioka manteve senjuro junto de si, olhando ao redor e farejando o ar em busca de sinais, desconfiado e com um pressentimento ruim.
ele não podia ver e nem sentir o cheiro com clareza, mas agarrou a mão do jovem rengoku e o puxou junto de si para outro cômodo. estava próximo do entardecer e kyojuro ainda não havia chegado do mercado, seu filhote pareceu sentir sua preocupação exalando em seu cheiro e se remexeu entre as faixas de pano, assim como senjuro se agarrou à ele, um pouco nervoso. "giyuu-san, tem algo errado?"
pode não ser nada. tomioka pensou, balançando a cabeça negativamente e beijando a testa do loiro, liberou feromônios tranquilizantes para tentar acalmar seus filhotes, mesmo ainda alerta, os mantendo junto de si o tempo todo.
naquele cômodo estavam as nichirin que usaram por tanto tempo, descansando juntas sobre o suporte, conseguia ver seu reflexo nas lâminas, pegando a que lhe pertencia. giyuu respirou fundo mas cortado, passos ecoando até seus ouvidos, fazendo suas sobrancelhas franzirem e olhos afiarem. ele não conseguia distinguir o cheiro, mas não era bom, e com certeza não era de seu alfa.
se abaixando, colocou senjuro para trás de si e cobriu o outro filhote com o braço, a barriga protegida pela perna, pôde ouvir algo cair no chão do lado de fora, seco e quase quieto. o ômega rosnou em seu interior, apertando o cabo da nichirin com mais força, se pondo em posição.
uma silhueta surgiu no papel do shoji, curvada e lenta como se estivesse estudando todo o local cuidadosamente. a garganta de giyuu secou com o pensamento de que aquilo poderia ser kyojuro, sentindo as mãos trêmulas de senjuro segurarem seu yukata e o pequeno em seu peito resmungar baixo.
a silhueta se moveu, se aproximou, parando frente ao shoji, como se soubesse que atrás daquilo havia algo ou alguém. não como se fosse difícil de duvidar, ainda mais com o cheiro nervoso de giyuu exalando levemente e provavelmente passando por entre as frestas, ele sabia que estavam comprometidos.
tomioka mostrou as presas e conteve um rosnado algo, olhando fixamente para a sombra enquanto tentava pegar fôlego. tudo que conseguia pensar era em proteger seus filhotes, e assim faria, sem hesitar em exterminar qualquer mínima ameaça.
a sombra se aproximou mais, passos ecoando até que fossem abafados pela madeira do shoji deslizando lentamente, dedos esguios e pálidos como os de um defunto entrando pela fresta, unhas mal cortadas se agarrando na borda. se revelando logo, empurrou o shoji de vez e exibiu seu sorriso, o sorriso sujo de quem estava faminto e havia acabado de encontrar um banquete.
tudo rapidamente, o filhote no peito do ômega choramingou alto e senjuro congelou, completamente assustado, se agarrando mais ainda ao de cabelos pretos e tentando se esconder atrás dele. giyuu rosnou alto diante da criatura que punha os pés para dentro, regulando a respiração para se impulsionar.
e assim que o oni deu seu primeiro passo, com os olhos esfomeados no filhote sonolento que estava no colo do ômega, tomioka agiu.
como um mar em tempestade, sua lâmina se chocou como uma onda impiedosa e feroz no pescoço da criatura, mesmo ele que tenha tentado resistir com as mãos fracas e raivosas. no fundo, sentiu pena de vê-lo virar poeira tão facilmente, embanhando sua nichirin no nada em seu quadril, apenas por costume.
"giyuu-san!" senjuro chamou assustado, ainda trêmulo ao se agarrar no ômega. giyuu teria confortado o filhote imediatamente, porém, passos fortes ecoaram quase que pela casa inteira, mantendo-o em alerta.
ele agarrou senjuro contra si, afudando o rosto dele em seu ombro e se abaixou novamente, escondendo o filhote em seu peito entre ele e o loiro, colocando a nichirin em posição à frente deles. estranhamente, o barulho se intensificava por todos os lados, como se estivesse passando por todos os lugares, até que-
"giyuu!" o alfa freiou os pés frente a eles no corredor, ofegante e descabelado como se tivesse corrido por mil léguas, segurando um vaso pequeno que teria usado para combater alguma ameaça na falta de sua arma original.
tomioka baixou a guarda, suspirando quando cheiro do parceiro invadiu seus pulmões, preocupado e assustado, apenas colocou cuidadosamente sua nichirin no chão e o olhou, sabendo que ele entenderia seu convite. e rengoku entendeu, largando a peça e correndo para abraçá-los, os cheirando e fechando os olhos enquanto agradecia sussurrado por estarem bem, por estarem vivos.
ele passou as mãos pelos fios loiros do irmão, deixando seu cheiro no topo de sua cabeça e sorrindo para o rosto choroso do garoto que se aninhou entre os dois adultos. kyojuro apenas o acolheu, dessa vez puxando giyuu e esfregando as bochechas, o marcando com seu cheiro também, podia sentí-lo ronronar e fungar seu pescoço em buscar de mais.
então seu olho pousou finalmente no pequeno contra o peito dele, tão sereno dormindo como se nada tivesse acontecido, pequenos fios loiros bagunçados contra o rosto e a boca babona, definitivamente bem.
levou a mão para dentro do yukata desleixado do marido e fechou o olhos quando sentiu a barriga pouco grande, apenas aproveitando a sensação. "todos estão bem..."
[...]
o pesadelo havia acabado e kyojuro soube de tudo com detalhes graças à senjuro, que narrou o acontecido durante a janta. o mais velho apenas suspirou e disfarçou, mas se sentiu culpado por ter demorado tanto fora de casa.
ele confiava em giyuu cegamente, isso era claro para todos, sabia que ele era forte, mas a insegurança lhe afetava ainda mais desde a volta do trem. rengoku detestou ser afastado como um obsoleto, detestou que seu ômega grávido tenha se colocado em risco porque ele demorou, detestava não estar ali e ser capaz de mantê-los seguros como um dia ele foi.
ele achava que havia seguido em frente com isso, depois de todo o tempo que giyuu passou junto a si, depois de todo o encorajamento que teve dos próximos, mas parece que não havia.
sentado no engawa, olhando fixamente para as árvores, como se estivesse esperando algo sair dali para que pudesse combater e provar que ainda tinha valor.
"kyojuro."
ele se virou, o olho bicolor embaçado por uma lágrima que se recusava a escorrer. escondendo senjuro que colocava o sobrinho para dormir no ninho, tomioka fechou o shoji, olhando para o marido e se aproximando, com uma das mãos dentro do yukata frouxo, se sentando ao seu lado silenciosamente.
"me desculpe." o alfa pediu rouco, sentindo as mãos geladas o puxando para baixo, deitando sua cabeça no ombro do outro. suas mãos correram por ele, o agarrando como se fosse perdê-lo a qualquer momento.
"está tudo bem." giyuu murmurou contra a orelha dele, as mãos se entrelaçando nos fios loiros. "não se desculpe, kyojuro." o cheirou levemente, com as pálpebras pesadas pelo prazer. "você é forte, continua forte, meu alfa."
"...algo terrível poderia ter acontecido, deixei nosso bando em risco." murmurou contra o pescoço do ômega, contra a marca que havia feito a tanto tempo. o cheiro bom e calmante lhe atordoava. "eu devia nos proteger."
"você protege." ele o apertou contra si, descansando a bochecha em sua cabeça. "todos os dias, protegeu sua família, nos protegeu antes que kibutsuji fosse exterminado, nos protege agora." ele suspirou. "você está os ensinando a ser fortes, já está os protegendo o tempo todo."
um curto silêncio; "...acha que ainda posso ser um bom alfa para nós?" como você é um bom ômega?
giyuu abaixou o rosto, o afundando no pescoço do loiro. "você já é." murmurou calmo contra a pele dele, tão próximo da marca, seu cabelo se emaranhava com o dele.
kyojuro passou as mãos por dentro do tecido azul marinho, sentindo a pele, puxando o corpo do ômega contra o seu e liberando mais de seu cheiro nele. o de cabelos pretos apenas ronronou baixo, colocando as pernas sobre o colo dele, deitando a cabeça em seu ombro.
"nossos filhotes serão tão fortes quanto você e eu." rengoku disse, olhando para cima, admirando o céu escuro um pouco.
ele sabia. tomioka sorriu fraco, decidindo fechar os olhos apenas por alguns segundos.
"rezo por isso."
