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Não Há Razão Pra Chorar

Summary:

Um pouco sobre Tomioka Tsutako até o momento de sua morte.

E um pouco do início de uma amizade.

 

Kimetsu no Yaiba | AU | Tsutako!centric

Notes:

Sim, uma fanfic da Tsutako, a irmã do Giyu, quem gostou bate palma, quem não gostou que se retire.

Acho que deveria haver mais fanfics sobre eles e como o povo imagina a relação deles, porque a gente nem sabe dos pais do Tomioka, e o pouco que a gente sabe da família dele é sobre sua irmã, então com base nisso, fiz essa história.

Enfim, como não é sobre shipp, se quiser ler leia, mas isso é sua escolha :3

Boa leitura caro leitor, bjs :3

Work Text:

Era um pequeno vilarejo, onde andava uma pequena garotinha de 8 anos. Seus olhos eram de uma tonalidade escura de azul, o que fazia com que seus olhos parecessem tão profundos quanto o oceano, mas ao mesmo tempo eles transmitiam alegria e gentileza pelo brilho que eles tinham. Era lindo de se ver e admirar.

Tomioka Tsutako, esse era o nome da garotinha, ela voltava da feira e por onde passava recebia cumprimento das pessoas que a viam e os retribuía, ela era uma menina muito educada e doce, além de ser bem esperta e responsável para alguém da idade dela. Também era elogiada por isso, normalmente diziam aquela frase.

"Você é muito esperta para sua idade" . Sua resposta normalmente era apenas sorrir, agradecer e seguir seu caminho.

Estava voltando da feira com as compras que sua mãe havia pedido, agora que sua mãe não poderia mais fazer qualquer tipo de esforço, quem cuidava da casa era ela mesma, mas não reclamava, estava satisfeita por estar ajudando sua querida mãe nessa fase que seria a mais difícil que uma mulher poderia passar. Mesmo jovem, Tsutako pode ver que, uma gravidez pode ser desafiadora.

Dando contexto, Tomioka Tsunade, mãe de Tsutako, está grávida, de 9 meses já, e Tsutako que sempre sonhou em ter um irmãozinho, estava se empenhando em ajudar sua mãe nessa última etapa, seja limpando a casa, fazendo compras, cuidando da mãe, fazendo a comida da casa, isso tudo com muito aprendizado e tempo com sua mãe nos primeiros meses da gravidez.

Chegando em casa, deixa seus sapatos na entrada e adentra o local, deixa as compras na cozinha e vai em direção até a varanda onde se encontra sua figura materna olhando para o céu enquanto acaricia sua enorme barriga, parecendo pensativa.

— Okaasan, cheguei! — exclamou a menina indo em direção a matriarca que olhou para a garotinha com um sorriso — como você está? Ainda está sentindo aquelas dores? — perguntava preocupada para com a maior, que apenas riu e colocou sua mão na cabeça da primogênita, fazendo um carinho em seu cabelo.

— Eu estou bem filha, estou sentindo sim algumas dores, o que significa que seu irmãozinho logo logo irá nascer — sorrindo para filha, assim como ela, tinha olhos azuis escuros, a única coisa que as diferenciavam era a cor mais castanha do cabelo da mais velha — ele se mexe mais ainda quando você está perto, parece que ele sabe quando você está por perto — a mulher solta uma risadinha meiga.

— Sério? Posso sentir?? — sua animação era perceptível nos olhos. A garotinha amava sentir seu irmãozinho se mexer.

— Claro que sim filha — a mulher sorriu e pegou a mão de Tsutako e colocou na sua barriga — consegue sentir? 

— Sim! Ele se mexe bastante! — falou a garota sorrindo, sua mãe a olhava com carinho e preocupação, sentindo algo no peito de forma adiantada. Saudades, como se soubesse que depois que teria o bebê, algo poderia acontecer. Estava preocupada.

—... Filha, me prometa uma coisa?... — seu tom de voz de repente sai mais melancólico, porém tentou disfarçar com um sorriso ainda em pé.

Tsutako a olhou ainda sorrindo também. 

— Claro, pode me pedir qualquer coisa Okaasan — e não parava de fazer carinho na grande barriga, rindo quando sentia o bebê lá dentro se mexer.

Tsunade olhou pra filha ainda com aquele sorriso que disfarçava suas reais emoções e pensamentos, mas agora revelaria um pouco deles.

— Me promete que... Não importa o que aconteça... você irá estar sempre com o seu irmão... — engoliu em seco enquanto se virava para a mais nova,  que a olhava com curiosidade no momento, achando suspeito o pedido por um momento até ela finalmente responder.

— Claro! Eu prometo que nunca irei deixá-lo! Sempre e pra sempre vou estar com o meu irmãozinho! — sorriu inocentemente, abraçando a mãe que obviamente retribui o carinho, ainda pensante.

Tsutako não sabia sobre as preocupações de sua mãe, não sabia que a mulher estava sentindo um mal pressentimento que envolvia a gravidez que enfraquecia sua mãe, o que seria, certo? Não no estado dela. Aquilo não era normal.

A mais velha sorriu, mesmo que sua mente estivesse certa em estar suspeitando de algo ruim, sabia que o bebê que carregava iria estar em boas mãos, e não tinha com o que se preocupar, puxou um pouco a menina para perto e a deu um abraço, o que deixou a menina por um momento confusa, mas ela aceitou.

— Eu te amo filha, cuide bem do seu irmão — e dessa vez que falou, não conseguiu esconder o tom aflito, então apenas abraçou mais a garota para que ela não veja a sua expressão de angústia.

— Eu também te amo, Okaasan! — retribuiu o abraço inocentemente, sorrindo, acariciando a barriga onde seu bem mais precioso estava para logo ir até seus braços.

Tsutako mal poderia imaginar o que, nos próximos dias que deveriam ser felizes, algo que mudaria sua vida poderia acontecer.

 

{3 dias depois}

 

A garota entrou no quarto, ela não tinha mais uma expressão alegre, tinha uma feição mais entristecida, já que acabou de digerir sobre a morte de sua mãe, bem no dia que era pra ser o mais feliz das suas vidas.

O corpo da mulher estava deitado em um futon, coberto por inteiro por um lençol e o pouco que a menina via de sua pele, ela poderia notar que estava mais pálida do que antes. Não podia ver seus olhos, mas sabia que estavam fracos, não, isso era um pingo de esperança de que aquela maldita notícia poderia ser mentira, ela sabia que os olhos de sua mãe estavam sem nenhuma vida, não fracos, apenas sem vida. 

 Tsutako nada dizia, ela olhava para o corpo coberto com seus olhos vermelhos de tanto que ela chorou ao receber a infeliz notícia. Não estava bem, e aquela cena à sua frente apenas contribuiu para isso.

— Foi por isso que a senhora disse para eu cuidar bem dele não foi?... — fungou, ficando de joelhos adjacente a falecida mãe, olhando-a com um olhar vazio e triste — não há como voltar atrás… — respirou fundo — Okaasan… Confiou a mim a segurança dele… Prometi e prometo de novo — lágrimas novamente se formavam em seu rosto já vermelho pelo choro anterior, ela abaixou a cabeça e respirou fundo mais uma vez — eu… Eu prometo que vou cuidar dele… Pra sempre!  — a primeira lágrima desceu, seguinte de outra, outra e outra — na-não importa se… Ele crescer, ou não precisar mais de mim! Vou cuidar dele Okaasan! Vou cuidar do meu irmãozinho até… — passou a manga de seu yukata nos olhos para secar suas lágrimas, mas logo voltou a chorar mais — até mesmo quando eu for te ver de novo… Vou estar cuidando dele! 

Não havia mais nada a se dizer ali além daquela promessa já feita, não era preciso dizer que sentiria a falta de Tsunade, não mesmo, era claro para as parteiras ali que a menina já estava sofrendo pela morte da mãe, dava para ver e sentir pelo tom de voz que ela usava para falar em meio ao choro. As mulheres ali não puderam deixar de se emocionar.

Não demorou mais de 15 minutos até que Tsutako saísse daquele quarto, dando de cara com as parteiras, com uma delas segurando um pacotinho que dormia tranquilamente sem ter a noção do que ocorria ao seu redor.

Tsutako apenas olhou para a mulher que segurava seu irmãozinho no colo enquanto se aproximava.

— Sinto muito querida… — disse a mulher em solidariedade para com a menina, que ergueu os braços pedindo que o bebê fosse para seus braços. Assim aconteceu, a parteira apenas entregou o menininho para a sua irmã.

Tsutako por uns instantes ficou olhando para o menino, de começo com um olhar vazio, mas no momento que o pequeno seu um singelo bocejo, sentiu seu peito tão ferido se encher de um calor reconfortante, ainda mais naquele momento em que a pequena estava tão machucada.

— Ele é… Tão pequeno… — comentou não tirando os olhos do pequeno pacotinho, ajeitando ele em seu colo e estendendo o dedo indicador para a bochecha rosada do recém-nascido, e como reação, o bebê todo enrolado em panos, se mexeu para tirar sua mão para fora, segurou o dedo da maior com força e puxou pra mais perto — e forte — deu um pequeno sorriso, um pouco mais reconfortada.

— … Qual será o nome dele? — uma das mulheres pergunta, se agachado para ficar da altura da menininha, com uma nítida cara de pena para Tsutako, essa que pensou bem em qual nome dar ao bebê em seus braços.

Olhou para ele, pensativa e admirada com tamanha pureza de um serzinho tão forte, pois o pequeno ainda segurava o dedo da mais velha com força, mesmo ainda dormindo.

Era forte… Ele seria forte junto a ela daqui para frente, bem, a partir daquele momento era somente ela e ele, Tsutako sabia disso… Ele teria que ser forte assim como ela teria que ser… Sua mente estava a milhão naquele momento.

Imaginava várias coisas, como ele seria, como gostaria que ele fosse, como ele poderia agir com as pessoas futuramente, futura profissão, até mesmo casamento, mas logo parou, pois ali estava um bebê de poucas horas que dormia sem se preocupar em atender às suas expectativas… Lembrou-se da promessa que fez a sua mãe.

Ela já estava errando com os dois.

Suspirou e sorriu mais para o bebezinho em seus braços. Ela queria que ele fosse muitas coisas, mas seja lá o que ele se tornar, como que ele é, ela estará lá para ele.

Isso é amor não é?

— Giyū — finalmente responde a mulher, com um sorriso continuamente direcionado ao bebê, agora começando a cutucar o rostinho dele, fazendo uma gracinha com ele — Tomioka Giyū…

As mulheres ali apenas olhavam a cena com dó, sorrindo para as crianças e suspiravam. Tsutako passaria por uma fase que nenhuma criança deveria passar, ao menos não no momento, por mais perto de estar para chegar no momento de se casar. De qualquer forma…

Uma olhou para a outra, numa conversa franca que iniciava um acordo entre as mulheres ali. Aquela criança não poderia ficar só com um bebê recém-nascido, não  mesmo 

 

{1 mês depois}

 

Havia se passado 1 mês desde o nascimento de Giyū e a morte da Tsunade, a morte da mulher pegou todos de surpresa, ela era amada por muitos, sua gentileza e seu carisma fazia muita falta, tanto que muitos foram para o seu funeral lamentar por sua morte, ficando ainda mais tristes pelo motivo. Agora duas crianças estavam a pura sorte do destino, mas aquele povo não poderia deixar assim.

Tentaram contatar familiares de fora dos Tomioka's, os especificamente por parte de pai, esse que havia morrido por um… Ataque de urso. Por mais odioso que o homem seja por ter abandonado sua família ao saber da segunda gravidez, talvez sua irmã tivesse um bom coração.

Bem, no final ela apenas seguiu as ordens do marido rico. As crianças foram deixadas de lado aos cuidados dos moradores, que vários davam pena e outros o possível que podiam pelas crianças.

Tsutako era grata a todos.

Ela, por sua vez, ainda estava comprido a promessa que fez a sua mãe com unhas e dentes, batalhando com seu corpo e alma para adquirir tempo e dinheiro para sustentar os dois, mas isso com a ajuda que vez ou outra vinha das parteiras, que se disponibilizavam para tomar conta do pequenino menino. Então meio que tudo estava nos trilhos.

Entretanto, isso não impedia de alguém dizer algo maldoso ou inconveniente.

Certa vez disseram que o melhor era ela deixá-lo em um orfanato e ela ir morar com um parente, ela simplesmente respondeu.

"meu irmão, minha responsabilidade"

E logo saía andando.

Mas agora, era madrugada, uma escura e fria madrugada quando começou uma tempestade. Trovões eram ouvidos e gotas grossas de chuva caiam sobre a terra e nas lajes das casas, fazendo bastante barulho.

Tsutako estava na cozinha na hora, bebendo uma água, quando começou a ouvir trovões e junto deles o choro de seu irmão. Assim que ouviu o choro, ela correu até o cômodo onde seu irmão dormia, ou estava dormindo, mas de toda forma, estava mais assustada com o medo na voz do menino.

— Giyū! — exclamou não muito alto para não assustar mais o pequeno que balançada os seus pequenos bracinhos em busca de alguém para pegá-lo, a garota foi para perto do bebê e o pegou no colo, deitou a cabeça do mais novo em seu peito para que ouvisse o bater de seu coração — shhh, já passou, já passou — repetia enquanto fazia carinho a cabeça no pequeno, o mesmo ainda chorava de medo, e isso fez a mais velha lembrar de quando era mais nova, sempre que caia uma tempestade ficava agarrada nós pais, e sua mãe cantava sempre a mesma canção, e ela cantava essa canção também durante toda a gestação, suspirou, sentia saudades de sua mãe, não tinha ela para lhe orientar sobre o que fazer e o que deve fazer, também sentia falta de seu pai, mesmo ele não sendo um das melhores pessoas, e mesmo ele tendo abandonado ela e sua mãe grávida, ela sentia uma certa falta.

Era complicado…

Suspirou mais uma vez, sem perceber já estava andando pelo cômodo com o bebê em seu colo que chorou mais alto se escondendo no yukata da irmã.

A menina pensou, pensou na canção que sua mãe cantava para ela e tentou lembrar-se de cada verso até que ela tivesse certeza, apesar do barulho que Giyū fazia. 

Ele era bem chorão.

— Giyū… — suspira o chamando e respira fundo, andando até o futon do quarto e se sentando, ajeitando o pequeno no colo — shh… Não tenha medo... Pare de chorar — tentou começar a cantar, resistindo ao chororô do mais novo — me dê a mão, venha cá — e pegou a mão do garotinho que deu um aperto em resposta, ele ainda chorava, mas agora seus olhinhos azuis estavam na mais velha — vou proteger-te de todo o mal, não há razão pra chorar... 

Em seu olhar eu posso ver

E com o passar dos anos, Giyū foi crescendo, tudo o que ele aprendia era com Tsutako e as mulheres que cuidavam deles, mas claro que tudo o que ele sabe ele aprendeu com sua irmã mais velha, que a cada ano ficava mais moça e linda. Giyū a admirava, isso já era óbvio no seu primeiro ano de vida.

A força pra lutar e pra vencer

Cozinhar, limpar a casa e até pentear o cabelo, como uma figura materna, Tsutako cuidou, ensinou e protegeu seu irmão, e mesmo com todas as dificuldades, eles eram felizes.

O amor nos une, para sempre

Seus primeiros passos foram para ela, sua primeira palavra foi "Nee-san" e tudo e toda a atividade e presente que ele fazia eram para ela, pois mesmo cuidado por outras pessoas que estavam ao seu redor, Tsutako sempre esteve lá para ele. 

Não há razão pra chorar

Quando chorava, era para ela que ele corria, ela era seu porto seguro e tudo o que ele tinha, já que naquele mundo era apenas ele e ela vivendo suas vidas sem mãe ou pai, apenas Giyū e Tsutako vivendo juntos.

Pois no meu coração

Mas mesmo assim, Tsutako podia lembrar de todas as vezes que se sentiu incapaz de continuar, incapaz de ficar em pé pelo cansaço e podia sentir a falta da vida antiga que tinha antes da morte de sua mãe. Sim, ela tinha apoio, mas o tamanho do trabalho que cuidar de um bebê era não era nenhum tipo de brincadeira, era real, não era uma coisa simples.

Você vai sempre estar

Porém olhar para aqueles olhinhos tão alegres, que sempre tinham essa alegria só por ela estar ali, já era o bastante para ela pensar que valia a pena, tudo pelo bem do pequeno que ela tanto amava.

O meu amor, contigo vai seguir

Se manteve forte todos os dias de sua vida, amando, lutando, trabalhando e aprendendo, agora seu objetivo era ser uma boa moça para que pudesse arranjar um bom marido. Tudo o que ela aprendia era por via das parteiras já casadas que estavam presentes no nascimento de Giyū, e ela absorvia tudo para a esperança de um bom futuro.

No meu coração, aonde quer que eu vá 

Eles não tinham muito dinheiro, recebiam o possível, e com isso Tsutako teve que se preocupar mais também com as despesas da casa, estudando tudo de possível para o sustento próprio e de seu irmão, que sempre que olhava, brincava com os brinquedos que ganhavam de presente de alguns carpinteiros que passavam pelo pequeno vilarejo.

Você vai sempre estar

Lembrava de um momento em que o viu brincar, ela estava se esforçando para ler um livro e entendê-lo quando ouviu o menor balbuciar algo, quando olhou, apenas o viu em seu próprio mundinho com os brinquedos de madeira novos que ganhou. E ela não resistiu em admirar a cena de seu irmão tão distraído em um mundo completamente dele.

Sempre…

Aqui foi motivação o suficiente para ela continuar a ler 

 

{9 anos depois}

 

Era de tarde, não tinha Sol e tinham várias nuvens no céu, estava tudo tranquilo naquele dia.

Uma moça jovem que usava um yukata vermelho, andava pelos corredores de sua casa. Ela parecia que procurava algo, ou melhor, alguém.

A mulher tinha seus grandes cabelos soltos, em sua mão estava um laço vermelho, ela sorria e ria vez ou outra enquanto olhava ao redor do corredor.

— Pra onde esse menino foi? — perguntou-se com um sorriso no rosto, bem divertida até o momento.

A situação era o seguinte, Giyū resolveu brincar de esconde- esconde, e cabe a Tsutako procurá-lo.

Ela andava pela casa toda e até mesmo procurava pelo pequeno jardim atrás da casa, porém o garoto não estava em lugar algum, e isso deixava Tsutako preocupada, seu irmão não havia saído de casa? Se sim, seria um problema.

— Giyū seja lá onde estiver, apareça, o almoço está quase pronto! — falou alto para que seu irmão, onde quer que ele esteja, ouça — fiz o seu preferido! — falou alto novamente — salmão com rabanetes! Do jeitinho que você gosta! — e assim que se virou de costas alguém pulou atrás de si e por reflexo se virou mas logo em seguida sentiu alguém o abraçar.

Suspirou de alívio, olhou para baixo e finalmente viu o serzinho que tanto procurava, com um grande sorriso no rosto, brilho nos olhos, vestido com um yukata azul claro. Tomioka Giyū abraçava a irmã com uma alegria surreal do dia a dia.

— Finalmente te achei pestinha! — falou brincando enquanto pegava a criança no colo pra depois fazer cócegas no garoto que deu uma risada gostosa de se ouvir.

— Nee-san! Para! — exclamava o garoto entre as risadas que dava.

— Certo, certo — riu parando as cócegas, mas não o soltando de seu colo — mas não some desse jeito, fiquei te procurando pela casa toda! Inclusive onde você tava? — curiosa ela pergunta pro mais novo enquanto seguiam para a cozinha.

— Ali em cima — apontou pro teto, mais especificamente para uma viga de madeira. Tsutako para um pouco para poder ver onde era.

— Lá... Em cima? — olhou para o teto e para a viga, ficando apreensiva — quem te ensinou isso? — perguntou curiosa e preocupada para o menor, voltando a andar até a cozinha.

— Ninguém, aprendi sozinho — deu um grande sorriso orgulhoso de si, enquanto a garota apenas ficava ainda mais preocupada.

— O como não vou nem perguntar — murmurou passando a mão na cara, ainda segurando o laço, e isso chamou a atenção do menino.

— Nee-san quer que eu penteie seu cabelo? — parecia mais um pedido que uma pergunta, afinal, o pequeno Tomioka amava pentear o cabelo de Tsutako desde que aprendeu. 

Tsutako riu e olhou pro irmão.

— Querer eu quero, mas primeiro temos que comer — disse ainda indo até a cozinha.

— Mas… Nee-san não gosta do cabelo solto, fica caindo na comida também e isso te irrita — pontuou a criança, olhando nos olhos da mais velha, que novamente parou na frente da porta da cozinha e olhou pro irmão — prometo ser rápido e te deixar bem bonita! — Tsutako não pode deixar de sorrir.

— Tudo bem, assim a comida esfria um pouco pra gente comer bem — suspirou e virou-se em direção ao seu quarto, colocando no chão a criança que, diga-se de passagem, estava bem pesadinho.

O Tomioka mais novo foi indo rapidamente até uma porta, que ele sabia que dava até o quarto de Tsutako, essa que o seguia calmamente. Giyū apenas parou para esperar a mais velha que logo chegou para abrir a porta.

Ao adentrarem foi possível ver um grande Shiromuku, um kimono matrimonial, especificamente para casamento, branco e detalhes em vermelho, bem tradicional, e ao seu lado estava o Wataboshi que Tsutako usaria no seu casamento.

Tsutako iria se casar.

Giyū olhou para o Kimono admirado imaginando a irmã nele, seus olhos chegavam a brilhar

— E então? O que achou? — perguntou se sentando em frente ao Shiromuku, ficando de joelhos, somente a espera de seu irmão para que ele fosse pentear seu cabelo.

— Acho que a nee-san vai ser a noiva mais linda do mundo! — exclamou entusiasmado, sua irmã iria se casar no dia seguinte e estava acompanhando todo esse processo. Era emocionante. Giyū estava feliz por sua irmã, que estava indo seguir uma nova etapa de sua vida, Tsutako deu um doce sorriso.

— Ai Giyū, você é único, sabia? — disse sorrindo enquanto olhava o pequeno se aproximando de si. Virou-se novamente pro Shiromuku. Giyū sorriu também, logo pegando um pente ali perto e começando a pentear o cabelo da mais velha, que soltou uma bomba como se fosse nada — espero acompanhar o seu casamento um dia.

Giyū trava parando o que fazia.

— A-ah?! — por alguns segundos o pequeno Tomioka pensou que sua irmã havia enlouquecido — eu não acho que um dia eu irei me casar nee-san... — respondeu com um biquinho nos lábios, que na opinião de sua irmã o deixou adorável.

— E porque não? Você é muito bom com garotas, e pelo o que eu ouvi você tem várias admiradoras por aqui — falou rindo, mais ainda pelas reações do garoto atrás de si — nenhuma delas desperta um interesse seu? 

— Hmm não — falou simplesmente enquanto voltava a penteava os grandes cabelos da irmã — quer dizer, elas são legais comigo, mas eu não poderia dizer q eu poderia sentir algo como vc sente pelo  Iori-san

— Entendi, mas mesmo assim você tem muito pra viver, então você tem tempo o suficiente pra, quem sabe, encontrar uma garota bonita e fazê-la minha cunhada — ela brinca, ou não,  com o mais novo que suspirou.

— Nee-san, ta lendo livros de romance de novo? — pergunta com cara de tacho, terminou a trança no cabelo da irmã e pegou o laço que lhe foi entregue pela mesma.

— Eu não, eu estou profetizando, e pode ter certeza que eu vou tá assistindo de camarote você se apaixonar pela primeira vez e lembrar de hoje — exclamou rindo um pouco mais alto agora.

Giyū também riu, não se sentia constrangido pelo assunto como alguns garotos da sua idade, pra ele esse assunto era só mais um entre milhões que ele tinha com sua irmã, terminou o nó no cabelo de Tsutako, quando a mesma notou que ele havia acabado de fazer o penteado se levantou, virou-se pra ele e sorriu.

Aquele sorriso... 

Tão lindo quanto qualquer um que havia visto…

Se ele soubesse… Se ele soubesse…

 

.

.

.

.

 

Agora era noite, os dois irmãos estavam em seus respectivos quartos, cada um dormindo tranquilamente, tendo seus sonhos respectivos.

Isso até um deles acordar, e foi Giyū, que ouviu um som estranho na casa que foi alto o suficiente para acordá-lo. Isso assustou a criança, que mesmo tentando, não se sentia seguro para dormir novamente, então só tinha uma coisa a se fazer perante a isso. 

Correr até o quarto de sua irmã e dormir com ela. 

Era isso ou um bixo ia puxar seu pé.

Bem, assim ele fez, saiu de seu futon e foi até o quarto de sua irmã mais velha, assustadinho ainda e indo silenciosamente até o quarto da mais velha, que era próximo ao seu.

A encontrou  adormecida, tranquila e linda como era e sempre foi. Não tardou mais em ir até seu amparo, fechando a porta para e logo indo até ela, se ajoelhando ao seu lado e mexendo um pouco na bochecha de Tsutako, cutucando na verdade, como ela fazia com ele.

— Nee-san… Nee-san… — chamava continuando a cutucar seu rosto — nee-san, acorda por favor… — pedia ainda com uma carinha de aflito, unicamente pelo temor em si. Outro barulho, só que mais baixo, esse que estranhamente foi capaz de acordar a mais velha, que olhou Giyū confusa por ser acordada naquele momento de sono tão profundo.

— Giyū?... O que tá fazendo? — perguntou nem se tocando que o de rabo de cavalo a cutucava, mas apenas olhou o rostinho assustado dele que já entendeu mais ou menos o que acontecia, então se levantou e ficou sentada no futon — medo do escuro? — o menino balançou a cabeça negativamente.

— Ouvi um barulho alto, me assustou e vim pra cá — falou e se aproximou da irmã — posso dormir com você nee-san? — pediu de uma forma tão doce que foi apelão demais para que Tsutako pudesse negar, então não tinha como para ela.

— Claro que sim meu bem… — suspira cansada, mas dando um sorriso para o mais novo que sorriu também e logo foi se enfiando embaixo dos lençóis como um furão até parar do lado da mais velha. Outro barulho, junto da voz de alguém desconhecido para os jovens, que travaram no momento. 

Tsutako ficou em choque mas logo pensou em algo, seu peito se apertou e olhou para Giyū que olhava a porta assustado.

Seu irmão estava assustado e havia alguém na casa no meio da noite. Ruim, ela sentia algo ruim.

— Giyū… — chamou baixo e logo o menino a olhou ainda com os olhinhos assustados. Tsutako se sentiu mais ruim ainda — se esconde… — olhou ao redor e se levantou e a passos lentos foi até um pequeno armário que ali tinha, mas cabia uma criança do tamanho de Giyū — aqui, vem, rápido! — a todo momento falava baixo, bem baixo para quer quem seja que estivesse na casa não ouvisse, mas alto para que seu irmão escutasse.

Giyū não entendeu de começo, mas logo foi silenciosamente até o armário, onde ela guardava seu típico Yukata vermelho que ela usava no dia a dia. Se enfiou ali e olhou para a irmã.

— Vou ver quem é… Não saia daqui em nenhuma hipótese, ok? — pediu com o indicador na frente dos lábios, indicando um pedido de silêncio para Giyū, que nada disse mas respondeu com um acenar relutante.

Ele sentiu algo ruim.

Sentiu algo ruim quando a mais velha sorriu para ele e fechou a porta daquele pequeno armário e viu por uma fresta ela sair do quarto, o deixando só e se sentindo ruim.

Bem, ele estava certo em se sentir ruim. Ainda mais ouvindo os gritos de sua irmã e passos de pessoas correndo.

Aqueles gritos fizeram ele querer correr dali e ajudar ela, Tsutako estava em perigo! Mas Giyū não conseguia se mexer… Não estava estático e trêmulo enquanto apenas… Viu toda a cena.

A porta foi com tudo por um corpo. Era Tsutako, que estava com uma faca em mãos e com a testa sangrando e a barriga também. Estava em choque e assustada, mas mesmo que suas costas tivessem atravessado a porta de seu quarto e tivesse caído com tudo, se levantou, olhando para quem fez aquilo com ela.

Giyū novamente quis fazer algo, mas tremeu, ainda mais quando quem fez aquilo com sua irmã apareceu.

Um homem de cabelos que iam até o ombro, da cor verde musgo, sua pele era acinzentada e seus olhos amarelos brilhantes. Suas unhas eram tão grandes que já poderiam ser consideradas garras e ele vestia trapos no corpo. Era alto e magro, sua língua estava para fora… Lambendo os próprios olhos.

— Parece que a bonequinha sabe brincar… — a voz era dele, era… Arreganhada, falha, não sabia como descrever mas não importava. O terror o impedia de pensar em qualquer coisa — quero ver se vai saber o que fazer contra um Oni! — e logo em seguida pulou em cima dela, com dentes enormes e garras afiadas em direção a Tsutako.

Ela gritou, mas em pé ficou com bravura e uma faca, avançando também mesmo sem nenhum tipo de experiência, apenas seguindo seu instinto protetor que dizia para ela acabar com aquele ser maldito que assustava seu irmão. Esse que… Viu tudo…

Giyū aos 9 anos viu sangue e violência ao vivo com seus próprios olhos, viu sua irmã lutando bravamente contra um demônio que a atacava com brutalidade, tirando sua carne e alimentando-se dela e rindo da dor da garota que persistia em ficar em pé. 

A luta ocorreu até o amanhecer e a esse ponto, Giyū já agarrado na roupa de sua irmã, já se encontrava desmaiado de tanto chorar. Mas uma hora ele tinha que acordar, não é? Bem, ele acordou, acordou para ver a pior cena de sua vida, a que obrigou ele a assimilar o que ocorreu ali, a luta, os gritos, o… Sangue…

O demônio foi morto, pulverizava perante a luz do sol. Giyū viu, assim como viu sua irmã caída no chão, em cima de seu Shiromuku que estava encharcado de seu sangue.

Só assim ele saiu, só assim ele foi maldito o suficiente para sair de seu esconderijo e correu até sua irmã, caida com o azul de seus olhos fracos. 

— Giyū… — chamou ao enxergar ele em meio ao sangue, e de repente a dor que sentia sumiu, mas o olhar de terror dele fez tudo voltar, pois isso era como um lembrete de que… Ela estava partindo.

Não, ela não pode, não podia, não poderia o deixar só, não era pra isso acontecer e… Aconteceu… 

— Nee-san! — voltou a atenção a ele que estava ajoelhado ao seu lado tremendo, podia ver que ele não sabia o que fazer, mas queria fazer. Tão pequenino… Seu pequenino estava chorando — nee-san… — ele chorava, olhando para os lados à procura de algo, até olhar o vestido e pegar um pedaço dele, por mais caro que tenha sido, a vida de sua irmã valia bem mais. 

Ela sorri vendo aquilo, vendo ele tentar estancar seu sangue de um jeito errado e desesperado para poder salvar sua vida, mas acabando por se sujar de sangue. Sangue do seu sangue.

— Giyū… — chamou mais uma vez, e agora Giyū viu o sorriso da irmã não entendendo nada além de que ela estava partindo. Não…

— Nee-san… Não me deixa… — pediu a criança suja do sangue de sua irmã, tremendo de medo e chorando mais ainda. Tsutako não segurou o choro que viria, mas também, nem tinha forças para isso. Ela chorou também. 

— Não tenha medo… Pare de chorar… — fraca, ela era fraca demais pra resistir no momento que estava tirando sua vida, e… Por que não aproveitar esse último momento de vida para fazer o que pode por ele? Somente por ele. Giyū olhava para a mais velha chorando aos prantos, se aproximando dela e se aninhando ao seu corpo quase frio — me dê a mão… — fez esforço para abrir a sua que estava em cima da barriga. Giyū fez o que ela indiretamente pediu e segurou a mão dela — venha cá… — ele fungou, se deixando entre seu corpo e braço — vou… — sentia mais ainda sua vida se esvaindo — proteger-te de… Todo mal… — era uma promessa, a ele, uma promessa a ele — não há razão pra chorar…

Ela chorou, indo para o outro plano e deixando seu irmãozinho. Ele chorou, pois agora se via sozinho, sem sua irmãzinha com ele para o proteger, sem Tsutako para retribuir o abraço que dava nela…

Ela se foi… Mas ela viu.

Não conseguiria descansar sem saber que seu irmãozinho ficaria bem, não conseguia ir, então ela ver o que acontecia com seu bem mais precioso foi inevitável. 

Ela viu tudo.

Chamaram ele de louco… Chamaram seu irmãozinho de louco enquanto o mesmo implorava pelo amparo dela, algo que mesmo tentando como espírito, não podia dar a ele.

Ela viu quando simplesmente jogaram ele em um cela dizendo que logo o tio deles viria buscá-lo, eles usaram a pena deles como desculpa para aquilo, mesmo sabendo que aquele homem não ligava nem para saber se eles estavam vivos.

Ela viu seu irmãozinho chorar de frio em uma cela onde não deveria estar, e sim no amparo de quem tanto dizia preocupado com ele.

Onde estavam aquelas mulheres que cuidaram dela e de Giyū? Bem, ela viu elas tentando cuidar dele, mas não fazerem algo por ele, no mínimo cada uma por dia tentava alimentar ele, mas logo o deixavam na cela.

Ela viu… Seu noivo brigar com Giyū pelo choro dele, dizendo que ela não gostaria daquilo. Seu noivo brigou com seu irmãozinho traumatizado que apenas chorava transtornado.

Quanta decepção…

Em nenhum momento ela deixou Giyū só, não, ela não era capaz disso, nas noites frias tudo o que ela poderia fazer era estar ali como espírito e abraçá-lo, mesmo que ele nunca a sentisse, ela estava ali com ele, sempre estava ali para ele…

Enquanto isso, a falta que Tsutako fazia na vida de Tomioka batia nele como uma viga de madeira. Tudo o que ele desejava era o abraço de sua irmã, ouvir a voz dela mais uma vez cantando pra ele… Ver seu sorriso…

Mas Giyū sabia que ele nunca mais iria vê-lo, por mais forte que seu desejo fosse, nunca mais pode ver aquele lindo sorriso que o deixava seguro.

Mas… Talvez se ele tivesse feito algo ele…

É... Talvez

 

{10 anos depois}

 

Tomioka-san...? 

 

Tomioka-san?

 

Tomioka-san!

 

— Olá Kanroji — abriu os olhos, logo após despertar de seu pequeno descanso, onde mais uma vez vagou por suas infelizes memórias. 

Tomioka estava encostado em uma árvore qualquer, aproveitando que não tinha recebido nenhuma missão, porém como sempre, pensava em sua irmã.

— Olá Tomioka-san, desculpe te acordar — Mitsuri diz docemente, e ao olhar para a pilar, Tomioka notou que os longos cabelos rosa e verde da mulher estavam soltos e um pouco bagunçados. 

Hm… Talvez…

— Senta aqui — chamou batendo no lugar a sua frente, na intenção de dizer para ela se sentar na frente dele. 

Ela não entendeu.

— o que? — perguntou confusa, olhando para Tomioka e depois pro lugar onde ele bateu de leve. 

— Sei que está com dificuldade para pentear o cabelo, posso te ajudar com isso — respondeu simplesmente já se ajeitando na grama, encostando mais na árvore. 

— Ah! Obrigada Tomioka-san! Vc é tão gentil! — exclamou sentindo-se na frente de Giyū, entregou um pente que carregava consigo e deu a ele. Estava genuinamente feliz, Kanroji talvez pudesse conversar mais com aquele homem tão misterioso.

— Você quer que eu faça as tranças de sempre ou outra coisa? — pergunta começando a pentear os grandes cabelos da mulher. 

— Pode fazer o que quiser, sei que vai ficar ótimo porque é você que está fazendo! — respondeu novamente com o seu jeito doce de ser, confiante na mão de Giyū e tentando passar confiança a ele. Bem, logo o homem começou o trabalho, mas como Mitsuri ama conversar com as pessoas, logo resolveu puxar assunto com o Tomioka, que dava breves respostas ou nem respondia, e raramente falava algo por inteiro, mas isso não era um problema pra ela e Giyū agradecia por isso, até porque mesmo não falando muito, ele gostava que as pessoas falassem muito com ele. Assim ele não se sentia só.

— Vai sair com o Obanai? — perguntou diretamente, notou que a Hashira estava mais ansiosa do que de costume então perguntou o que provavelmente seria a resposta. 

E bem, Mitsuri por sua vez travou com a indagação por dois motivos. Primeiro, Tomioka Giyū puxou assunto, peguem os fogos de artifício, decorem o país inteiro e preparem a comida, isso agora é feriado e patrimônio histórico! Agora o segundo motivo foi a pergunta, pois a resposta era sim. 

— Si-sim?! Como sabe? — questionou um pouco corada pela afirmação. Claro, de constrangimento por ser tão óbvio.

— Notei que estava um pouco ansiosa, então pensei que fosse algo haver com o Obanai — deu a resposta, concentrado na trança que tentava fazer, estava com um pouco de dificuldade pelo fato do cabelo de Kanroji ser mais volumoso do que estava acostumado, mas ele conseguiria!

— Oh entendi, mas, sim nós vamos sair pra comer em um restaurante que fica na cidade, mesmo que a gente quase sempre faça isso, eu sempre fico nervosa e nem sei o porquê, e mesmo se eu me arrumar toda, sempre fico meio insegura sabe? E mesmo assim ele sempre me elogia dizendo que eu sou bonita, porém pra mim parece que nunca é o suficiente. Aaah eu não sei oq eu faço — começou a choramingar, sabe aquele momento em que seu amigo/a tá falando e começa a falar demais e muito rápido e você não sabe o que fazer ou como reagir? Giyū estava desse jeito. Travado pensando no que fazer.

— Kan-kanroji-san se acalme, vai ficar tudo bem — nem ele sabia se ia ficar tudo bem, só falou no automático como um último recurso pois ele realmente não sabia o que fazer. Poxa, ele só queria ajudar a amiga na trança e agora seria psicólogo. Acontece né? — não acho que ele iria ligar pra aparência, e também ele gosta muito de você… 

— KYAAH! VC ACHA MESMO?! - exclamou emocionada, assustando um pouco o Tomioka que arregalou um pouco os olhos — mas... Você tem certeza?... É que, o Iguro-kun é tão legal comigo de uma forma que, sei lá, me deixa diferente, me sinto tão bem quando estou com ele, diferente dos outros que eu conheci, ele foi o meu primeiro... 

— Amor? — deduziu estranhamente prestando atenção no que ela falava.

— Sim... — suspirou, se acalmando já —  mas você acha que ele sente o mesmo? — Giyū fica um tempo em silêncio, pensativo.

Estava passando um filme das várias vezes que, desde que Kanroji virou Hashira, pegou o Hashira da Serpente a encarando como um apaixonado.

— Olha… — Obanai Iguro era um verdadeiro romântico na verdade — na verdade eu tenho certeza, por isso não se preocupe tanto com a sua aparência para agradar ele ou qualquer pessoa, se alguém realmente gosta de você não vai ser por aparência e sim por você ser você mesmo, e eu tenho certeza que ele se apaixonou por você por você ser você — e a esse ponto Mitsuri já se emocionada de novo, ao mesmo tempo que estava demasiada chocada com o tamanho do texto que, Tomioka Giyū, o Hashira mais quieto ao ponto de suspeitarem que era mudo, falou.

—... Uma vez o Oyakata-sama disse q eu deveria parar de me importar com a opinião alheia, na época eu tinha pintado o meu cabelo e não comia muito, porque o meu ex-noivo havia cancelado o casamento por minha causa, disse que só uma vaca ou javali se casaria comigo, e depois disso passei a apenas me concentrar em se cuidadosa com minha força, com minha aparência e meu jeito de ser, aí o Oyakata-sama me encontrou e me convidou pra entrar na corporação — falava nostalgia, Tomioka já havia terminado o penteado e só ouvia tudo com atenção. Vitória, aquele cabelo era meio difícil, mas ele fez um bom trabalho.

— Bem… Esse cara aí, o seu ex-noivo, apenas errou, você é bonita do jeito que é, não vai ser a opinião de alguém sobre você que vai mudar isso — falou de forma serena, quase sorrindo um pouco. Estava tendo visões de sua irmã na Hashira do amor.

— KYAAH! TOMIOKA-SAN VOCÊ É TÃO GENTIL! — emocionada, mas tão emocionada que ela pulou em cima de Giyū para o abraçar que não conseguiu calcular nenhuma reação a não ser travar por um momento enquanto seu cérebro trabalhava qual reação seria adequada.

— Ah… De nada?... Não… Precisa agradecer Kanroji-san — falou timidamente agora dando leves tapinhas na cabeça de Mitsuri, mas gradualmente notando que aquilo era um abraço, ele sentiu algo quente no peito.

Tão bom… 

Ele sentia falta disso.

— Agora eu entendo do porque as garotas da vila falam tanto de você, onde aprendeu a ser assim? — não o soltou do abraço, somente olhou pra ele se baixo com um sorriso. Outra visão de Tsutako.

Giyū engoliu seco.

— ... Bem... Acho que… Eu já tenho esse costume porque eu fui criado pela minha irmã — confessou questionando mentalmente se deveria ou não falar sobre aquilo com alguém, talvez ele precisasse disso, bastante…

— Você tem uma irmã?! E onde ela está? Você nunca falou nada sobre você, nossa ele deve ser linda como você! Ela não deve ser uma caçadora né, eu reconheceria se fosse uma parente sua, como ela é? Ela mora por aqui?— Mitsuri imaginava como seria a irmã de Tomioka, fazendo várias e várias perguntas a respeito da mulher, o que agora deixava o pobre Hashira da água desconfortável.

— Ela... Morreu... — em um suspiro respondeu, agora o ar estava um pouco mais pesado e Mitsuri parou de falar

— Oh Kami… Me desculpe Tomioka-san, não deveria ter sido tão invasiva assim, por favor me perdoe — pedia com peso na consciência, se sentindo mal pelo seu companheiro.

— Está tudo bem Kanroji-san, não precisa se desculpar com isso, e também foi a muito tempo atrás… — dizia coçando a nuca, olhando para a grama tentando manter sua expressão o mais neutra possível. Mas o assunto era sua irmã então…

— Mas... Você sente falta dela não é? O jeito que você falou foi tão triste… — falou soltando Tomioka, com empatia por ele e uma feição também triste.

— Sim, eu sinto muito a falta dela, é às vezes eu... Até me sinto culpado pela morte dela… — olhava para um canto e suspirou. Aquele assunto era deveras pesado demais pra ele, mas fazia tempo que não falava sobre isso com alguém. 

De repente a saudade de Urokudaki veio.

— Mas… Você não deve se sentir culpado por algo que você não teve culpa, eu não sei o que aconteceu de verdade mas seja lá o que aconteceu, ela com certeza não iria querer ver você falando isso, se fosse meu irmão falando isso eu puxaria o pé dele a noite – ela tenta botar um pouco de humor, na tentativa de melhorar o clima ali — você era uma criança não era? Eu não faço ideia do que aconteceu, mas por favor não se culpe por isso, tudo bem? — Mitsuri dizia tudo aquilo com toda a compreensão que tinha, olhando nos olhos de Giyū que até então estavam na grama, mas aí foi só ele a olhar de volta que… Ele pode ver Tsutako em Mitsuri, o jeito que ela falava, o sorriso, a trança que havia feito em seu cabelo e o que mais fez ele ver Tsutako nela foi o laço que sem perceber, colocou no cabelo da Hashira, e pela primeira vez desde que conheceu Tomioka, Mitsuri viu ele sorrir.

— Você…  Me lembra ela — Mitsuri travou um pouco, não sabia no que se concentrava, no sorriso ou na fala do Pilar. As duas coisas eram muito lindas — esse laço no seu cabelo era dela, acho que fica bem em você — e ele continua a sorrir, coçando a nuca parecendo sem graça.

— Ah?! Mas isso é uma lembrança que você tem dela! — e só agora ela viu que a trança havia sido feita, agora olhando o cabelo e pegando um espelho em seu bolso para se olhar. 

Céus, ela estava linda.

— Tá tudo bem, já tenho várias lembranças com ela — falou se levantando olhando para a mulher a sua frente, agora apenas vendo Kanroji, segurou as mãos da pilar e a ajudou a se levantar — obrigado pela conversa Kanroji-san, vc é uma boa amiga — ele disse ainda sorrindo.

—... Você… Me considera uma amiga? — questionou surpresa, chocada e estupefata, e ele apenas confirmou — Tomioka-san, eu… Posso te abraçar de novo? - perguntou timidamente ao mesmo tempo que parecia animada para isso, e como resposta Giyū abriu os braços sinalizando que sim, ela podia, e então Mitsuri o abraçou e Tomioka retribuiu e com um pouco de relutância fez um carinho na cabeça de Kanroji.

Naquele momento tão bom para Tomioka, que estava de olhos fechados no abraço,  pode sentir o quão bom ele era, o quanto que ele precisava daquilo, ainda mais vindo de uma amiga como Kanroji… É… Ela era sua amiga

E naquele momento, por pelo menos alguns minutos, Tomioka se sentiu leve, abraçou mais Mitsuri e fez mais carinho em seu cabelo.

Naquele momento ele se sentiu bem.



Fim...