Work Text:
Lembro-me de uma ocasião em específica que Sherlock Holmes havia me irritado profundamente. Não que esses momentos fossem raros, mas aconteceu algo singular dessa vez.
Não sei dizer ao certo qual foi o motivo da briga. Ele foi brutalmente honesto sobre sua opinião com uma possível namorada minha ou algo assim. Ou talvez tenha ridicularizado minha postagem mais recente, afirmando tê-la odiado. De qualquer forma, fiquei naturalmente ofendido com sua rispidez e desci as escadas bufando de aborrecimento.
"Sherlock Holmes é impossível de lidar!" Exclamei com Sra. Hudson, que fazia um chá na cozinha.
"Não seja bobo," ela gargalhou da minha raiva "Ele é a pessoa mais simples que existe."
Sua resposta só me irritou mais. Não entendia como ela podia dizer isso do ser mais estranho que já conheci na face da Terra.
Sabendo exatamente o que eu estava pensando, ela continuou sua explicação: "Ele gostou de alguém? Vai encará-la fixamente e sorrir feito bobo. Ele não gostou de alguém? Vai fazer questão de demonstrar. Viu um erro? Vai corrigir. Viu um crime? Vai solucionar."
Ela se senta ao meu lado na mesa da cozinha, segurando minha mão carinhosamente "Nós somos os complicados. Enquanto nos enrolamos em explicações sobre o que pensamos, omitindo e insinuando mil coisas, ele simplesmente diz o que sente e o que precisa."
Isso virou uma chave na minha cabeça.
Claro que Sherlock sabe mentir e sabe quando é vantajoso mentir e blefar contra um criminoso, mas simplesmente fala a verdade quando não há um objetivo prático para tal.
Quando quer que Anderson cale a boca, só fecha a porta na cara dele para não escutar mais o som de sua voz.
Quando ele viu meu bigode, não elogiou por educação ou deixou subentendido que não gostou - muito pelo contrário, disse com todas as letras que achou patético.
Como eu poderia ousar o chamar de complexo?
Claro que isso não significa que Sherlock pode dizer o que quiser sem consequências, mas muita coisa passou a fazer sentido.
Bastava se comunicar claramente, dizendo o que eu gostei e desgostei, além de entender que era exatamente isso que ele sempre fez.
E, surpreendentemente, funcionou muito bem.
[...]
"Sem toques" o detetive recuou do meu avanço para um abraço de bom dia. Isso não significava uma falta de respeito ou chateação de sua parte. Ele só não queria ser tocado.
"Certo. Recomeçando:" concordei com a cabeça, substituindo o abraço por um aceno "Oi. Como foi seu dia?"
"O Lestrade me levou para uma cena de crime. Caso de assassinato seguido de roubo." ele narrou com um sorriso, se esparramando no sofá "Era tão óbvio que a culpa era do dono da padaria que a mulher frequentava! Quem diabos usa aquele tipo de meia, senão um criminoso? Eles são muito burros mesmo."
"Sorte que eles tem a você." Sentei-me na poltrona, de frente para ele.
"É, muita sorte." Sorriu, orgulhoso de seus feitos e um pouco desconcertado com o elogio. Minha vontade era de segurar seu rosto e lhe dar um beijo, mas teria que me conter por hoje. É torturante, mas quando ele estiver bem com toque físico novamente, poderei descontar toda a vontade armazenada.
"Você está me encarando, sabia?" Ele se inclina para trás, risonho "Eu te amo."
"Eu te amo mais."
"Não, eu amo mais."
Uma conversa tão simples, com muito significado e completamente sincera.
É assim que as coisas podem funcionar.
