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Vi pelo canto do olho. Primeiro, achei que fosse só mais um borrão qualquer, uma dessas sombras que se formam quando a luz fluorescente pisca num ritmo meio estranho. Mas não. Era ela. De novo. Parada entre os armários e o ventilador engasgado, mais presente que a realidade ao meu redor.
A pele pendia dos ossos como massa derretida, enrugada como papel que secou torto depois da chuva. A camisola rosa que usava parecia ter sido lavada em água de esgoto e deixada pra secar num varal de poeira — um tecido transparente de tão gasto, salpicado com florzinhas que, à primeira vista, pareciam inocentes, mas que agora mais pareciam pequenas caveiras rindo. O cabelo dela era um ninho de caos: embaraçado, eriçado, como se dezenas de mãos nervosas tivessem tentado pentear ao mesmo tempo e desistido no meio.
Normalmente, eu ignoraria. Qualquer um com dois neurônios funcionando sabe que dar muita atenção — ou nenhuma — pra um fantasma é pedir pra virar brinquedo de assombração. Mas o timing dela foi, de longe, o pior possível. Porque, naquele momento específico, eu estava deitado na cama, celular em mãos, encostado no travesseiro com a foto de Mogari Shishikuno aberta na galeria. E sim, eu estava fazendo exatamente o que você está imaginando.
Eu provavelmente vou direto pro inferno. Isso se ele for real — e, honestamente, com minha sorte, é, sim, real, e tem fila, senha, roleta e gerente. Porque, convenhamos, bater uma pensando no seu melhor amigo não é exatamente algo que os anjos incentivariam. A velha sabe. Me assiste como se fosse a gerente do purgatório em horário de pico, com aquele olhar que mistura julgamento e deboche. Um olhar que diz: “Sério? É com esse que você perde a cabeça?”.
E então vem o gesto.
Aquele gesto maldito.
Ela levanta os braços finos como galhos secos e, sem nenhuma vergonha na cara, faz o movimento universal do sexo: dedo indicador entrando e saindo de um círculo feito pela outra mão. Lento. Didático. Ousado. Meu rosto queima na hora, o calor subindo pelo pescoço como uma febre de vergonha. E é nesse instante que ela sorri. Um sorriso torto, cheio de gengiva, desdentado e satisfeito. Ela gostou de ter sido vista. Gostou da minha reação.
E o pior? Não parou por aí.
Na noite seguinte, apareceu um velho.
Um maldito velho.
Pálido, olhos saltados, uma calvície brilhante que refletia a luz como farol num nevoeiro. Ele repetia o gesto da velha, só que com mais... entusiasmo. Como se os dois tivessem ensaiado aquilo. Como se fosse parte de um show particular. Os dois se revezando, zombando, debochando, transformando meu quarto num circo obsceno.
A privacidade morreu ali. Dormir virou um exercício de sobrevivência. Respirar virou um luxo. E tudo isso porque, em um momento de carência e desespero hormonal, achei que era seguro me deixar levar pela imagem do Shishikuno.
Erro de principiante.
Agora, mesmo nas provas, eles me seguem. É aula de literatura japonesa. Eu deveria estar concentrado, respondendo com calma, lembrando dos detalhes minuciosos do Genji Monogatari . Mas não. Os fantasmas estão ali, na minha frente, sarrando o ar, fazendo caras e bocas como dois mímicos infernais.
A velha inclina a cabeça como se estivesse sentindo prazer. O velho... o velho põe a língua de fora. Com convicção. E eu estou aqui, tentando não gritar. Lanço um olhar desesperado para Tamon, duas carteiras à frente. Ele está sereno. Concentrado. Como se nada estivesse acontecendo. Não vê nada. Não sente nada. Isso deveria me aliviar, mas só aumenta a sensação de que estou preso num pesadelo personalizado.
E juro: se um deles, em algum momento, se erguer e gritar "Ei, tem um viadinho aqui querendo dar pro melhor amigo!", eu morro ali mesmo. O espírito sai do meu corpo em velocidade supersônica, causando um tornado na sala. E eu, com certeza, volto como assombração só pra me vingar do universo.
Suspiro. Um daqueles suspiros de quem já aceitou o colapso como rotina. Marco as alternativas da prova como quem escolhe números da loteria da vergonha. A, C, B, foda-se. Suor escorrendo pelas costas, grudando a camisa na cadeira dura, enquanto tento parecer centrado. Endireito a coluna. Finjo que estou refletindo sobre metáforas. Mas na real? Estou apenas tentando sobreviver à humilhação.
Termino a prova com mãos trêmulas. Entrego como se fosse uma carta de rendição. A professora nem levanta os olhos. Talvez já tenha se acostumado com meu desespero crônico. Ou talvez só prefira não se envolver.
Saio da sala com passos rápidos. Quase uma fuga. O corredor está vazio, só o zumbido das lâmpadas e o eco dos meus próprios passos me acompanham. Meu destino? A única ilha de sanidade no prédio inteiro: a sala do clube.
Digito a senha da porta no automático. Quatro dígitos que minha mente gravou mesmo quando o resto do cérebro parece ter derretido. Tudo que eu queria era me afundar entre almofadas rasgadas, fingir que o mundo não existe e tentar esquecer que sou, simultaneamente, assombrado e apaixonado.
Mas claro que não. Porque, ao abrir a porta, dou de cara com ele.
Mogari Shishikuno.
Deitado de lado sobre a mesa do canto, como se o lugar fosse dele. Um mangá apoiado no peito, um pé balançando no ar, o cabelo bagunçado pela brisa que entra pela janela. O sol da tarde o envolve como uma moldura dourada. Ele parece... parte da sala. Como se sempre estivesse ali.
Eu congelo.
Penso em fechar a porta e fingir que não vi nada. Mas já é tarde. Ele me nota. Baixa o mangá com calma e sorri. Um sorriso tranquilo, sonolento, meio torto. O tipo de sorriso que poderia derreter o chão sob meus pés.
— Yo — ele diz, como se meu coração não tivesse acabado de cair pela garganta.
Posso até parecer calmo por fora — mantenho a expressão neutra, a postura ereta, até ajeito a alça da mochila no ombro com aquele gesto automático de quem tem tudo sob controle. Uma mentira convincente. Porque por dentro... por dentro meu coração está em pânico, socando meu peito como um prisioneiro em surto tentando arrombar a própria cela. Ele sorri, distraído, casual, e meu corpo inteiro se retrai como se aquele gesto tivesse sido disparado direto na minha espinha. Como se ele soubesse. Como se estivesse brincando.
Ele é tão radiante. Não do tipo óbvio, ensaiado — mas como uma fogueira acesa no meio da madrugada, quente e inesperada. Uma luz que atrai mesmo quando você sabe que vai se queimar se chegar perto demais. Ele tem aquele tipo de beleza que não parece consciente de si mesma, e é exatamente por isso que é tão perigosa. Tão letal.
E eu odeio estar apaixonado.
Odeio porque começou com algo pequeno. Uma coisa boba, até. Um dia qualquer em que ele apareceu do nada e perguntou sobre o meu mangá favorito — aquele que todo mundo achava esquisito, incompreensível ou “de nicho demais”. Mas Mogari não. Ele quis saber. Leu. Comentou. Discutiu os personagens comigo como se sempre tivesse feito parte daquilo. E quando eu perguntei por que, ele deu de ombros e disse que queria entender as coisas que eu gostava. “Se vamos ser amigos, preciso saber o que te faz brilhar os olhos, né?” — ele disse isso como se não fosse nada demais. Como se não tivesse, ali mesmo, acendido um incêndio dentro de mim.
A partir daquele dia, tudo mudou. A forma como eu olhava pra ele. Como eu esperava por nossas conversas. Como eu passava tempo demais ensaiando respostas idiotas pra perguntas que ele nem fazia. Não foi um raio. Foi uma construção lenta. Intensa. Quase cruel. Porque ele se aproximou pra ser meu amigo. E eu deixei, mesmo quando percebi que queria muito mais.
E agora aqui estou. Fingindo estabilidade. Fingindo que estar na mesma sala que ele, com aquela luz de fim de tarde desenhando os contornos do rosto dele como uma pintura viva, não me arranca pedaços por dentro. Perto dele, qualquer máscara que eu consiga vestir racha com o tempo. Com o silêncio. Com aquele maldito sorriso que ele joga no ar sem saber o que provoca.
Quando ele sorri daquele jeito, é impossível fingir que não sinto tudo ao mesmo tempo — desejo, culpa, pânico, e uma vontade desesperada de desaparecer no carpete ou, talvez, dizer alguma coisa estúpida o suficiente pra que ele nunca mais fale comigo, só pra acabar logo com essa tortura.
Mas tudo que faço é fechar a porta atrás de mim. Lenta e silenciosamente. Fingindo que é só mais uma tarde qualquer. Fingindo que não estou prestes a implodir com a presença dele, ali, tão perto. Tão à vontade.
Mesmo sabendo que não é.
Mesmo sabendo que, pra mim, nunca é.
Me sento longe. Não longe o suficiente pra parecer antissocial, mas estrategicamente afastado — escolho uma cadeira perto da mesa central, onde a luz não bate diretamente e onde posso fingir, com alguma dignidade, que não estou prestes a explodir por dentro. Tiro um mangá da bolsa e começo a folhear sem foco. As páginas passam diante dos meus olhos como se estivessem em outra língua. Fingir concentração é quase um talento agora.
Do outro lado da sala, os fantasmas continuam com seu show particular. A velha aponta descaradamente para Mogari, enquanto o velho faz um gesto com as mãos simulando um beijo bem exagerado — bochechas infladas, estalo sonoro, um teatrinho lamentável que me faz ranger os dentes. Não sei o que me irrita mais: o gesto, o fato de estarem certos, ou o medo absurdo de que Mogari, com seus sentidos aguçados de exorcista, perceba alguma coisa que eu mal consigo esconder de mim mesmo.
Mas antes que eu possa bufar — ou pior, gritar — ele se move.
Mogari fecha o mangá, se levanta com aquele jeito despreocupado, felino, e cruza a sala até mim. Senta-se ao meu lado, sem pedir licença, como se fosse o lugar dele desde sempre. E talvez seja. Encosta levemente o ombro no meu, um toque breve, natural, como quem apenas se acomoda. Mas para mim é um raio direto na espinha. Eu travo. Tento disfarçar, mas sinto o sangue subindo tão rápido para o rosto que até minha orelha esquenta.
Ele não diz nada de imediato. Apenas olha sério — não pra mim, mas para o canto da sala onde os fantasmas se revezam entre piadas obscenas e risadinhas silenciosas. Mogari encara o que deveria ser vazio com olhos apertados.
Ele vê.
Ele sente.
Porque está me tocando.
— É como pensei — ele solta, num tom tranquilo, mas firme. — Você tá abatido porque eles são um pé no saco, né?
Ele pergunta, mas não está realmente perguntando. Já sabe a resposta. É só olhar pra minha cara. É só sentir o peso no ar. Mas acho que eu não digo nada porque, naquele exato momento, nossos rostos estão perigosamente próximos. Tipo, pontas dos narizes quase encostando. A respiração dele bate leve na minha pele, e o cheiro de sabonete cítrico invade meu cérebro feito gás. Paralisante.
Se eu não conhecesse ele tão bem — se não soubesse que esse é simplesmente o jeito dele —, diria que ele estava prestes a me beijar. Porque ele tem esse talento maldito de atravessar todas as barreiras sociais como se elas fossem papel fino. Ele se aproxima com uma naturalidade assustadora, com aquele carinho bruto que não pede permissão, mas também não machuca.
Mogari é assim. Te ama intensamente sem nunca usar essa palavra. Se aproxima até o limite exato do que é permitido — ou talvez até ultrapasse, mas sem parecer ciente disso. Ele toca, encosta, olha fundo, e faz tudo parecer normal, como se fosse apenas parte de ser amigo.
E é por isso que dói tanto. Porque pra ele é natural. Mas pra mim... pra mim é o inferno. Um inferno doce e lento, com cheiro de manga verde e olhos carmesins demais pra eu fingir que não sinto nada.
Eu deveria responder. Dizer algo sarcástico, ou pelo menos inteligente. Mas minha garganta está seca, meu cérebro falhou e tudo que eu consigo fazer é continuar fingindo que estou lendo, enquanto o corpo inteiro grita pela proximidade que ele nem percebe ter.
E os fantasmas? Os malditos fantasmas continuam olhando. Apontando. Rindo.
— Eu vou engolir todos os seus problemas, não se preocupe, Kanzaki. — ele diz, com a mesma serenidade com que alguém diria “vou ali pegar um copo d’água”.
E então ele vai. Literalmente.
Sem hesitação, atravessa a sala como se estivesse indo bater um papo qualquer, mas seus olhos estão escuros — não de raiva, mas de foco. De uma fome quase cerimonial. Quando ele para diante dos fantasmas, não há aviso, nem preparação. Só a súbita distorção do ar ao redor dele, como se a realidade tremesse. E aí... ele os devora. Em silêncio. Um puxão invisível, seco, brutal. Como se sugasse as almas deles por um canudo invisível. É grotesco, meio absurdo, mas funciona.
Não seria a primeira vez. Nem será a última.
Eu assisto em silêncio, porque apesar da cena parecer saída de um filme amaldiçoado do fim dos anos 90, há algo... reconfortante. Quase fofo. Como se ele fosse um cão raivoso destroçando um cadáver só porque ele ameaçou meu sono — uma criatura faminta que morde primeiro e pergunta depois, mas que faz isso por mim. Por mim . Tem algo de infantil e feroz nisso, uma dedicação silenciosa que me deixa sem jeito.
Quando termina, ele esfrega a barriga com uma cara amarga, como se tivesse comido um miojo vencido.
— Você podia ter me chamado, né? — ele comenta, voltando devagar até onde estou. — Tinha prometido que lidaria com isso. Se fosse algo muito pior, você teria ficado todo fodido.
Senta ao meu lado, como se não tivesse acabado de engolir dois espectros indigestos. Reclama da sensação estranha no estômago e arrota baixinho, envergonhado, antes de rir de si mesmo. Eu suspiro. Tento conter o sorriso, porque sorrir muito perto dele é perigoso — ele nota. Sempre nota.
Mas, dessa vez, me dou um pequeno luxo: bocejo sem culpa. Deixo meus ombros relaxarem, e minha cabeça escorrega, devagar, até repousar sobre o dele. É leve, mas firme. Como quem finalmente se permite ceder um centímetro. Ele não se move. Nem recua. Pelo contrário.
— Pode dormir. — ele diz baixinho, como quem embala. — Tô de olho em tudo por aqui.
E então sorri. Aquele sorriso torto, leve, que mostra só um pedacinho dos caninos — os mesmos dentes que segundos atrás rasgaram o vazio pra engolir os fantasmas que não me deixavam em paz. Um sorriso que não combina com a cena absurda de agora, mas combina perfeitamente com ele.
É estranho como me sinto seguro. Encostado no ombro de um exorcista que mastiga entidades como petiscos, num clube escolar vazio, num fim de tarde qualquer.
Mas a verdade é que, se for pra ter paz, eu aceito o mundo do jeito que ele vier — grotesco, estranho, e silenciosamente cheio de cuidado.
Desde que seja com ele por perto.
