Work Text:
Will Graham não sabia ao certo como aquilo tinha acontecido. Uma aposta idiota com Beverly, um momento de fraqueza — ou de arrogância — e agora ele estava ali, parado de braços cruzados atrás da placa improvisada de “Barraca do Beijo”, enquanto as bandeirinhas coloridas balançavam acima de sua cabeça e o cheiro de milho verde e quentão se espalhava pelo ar frio da noite.
Ele não era exatamente conhecido pela habilidade social, e muito menos por gostar de ser o centro das atenções. Mas a festa junina da pequena cidade do interior de Minas Gerais onde ele e Beverly estavam passando uma temporada de trabalho parecia ter um poder magnético sobre todos, quebrando até as resistências mais ferrenhas.
— Você perdeu, Graham — tinha dito Beverly, rindo, enquanto o empurrava para o centro da praça, onde voluntários se organizavam para animar a festa comunitária. — E agora vai ter que cumprir. Barraca do beijo, coisa simples.
Simples. Will bufou, ajeitando o chapéu de palha que alguém insistira que ele usasse, e lançou um olhar discreto para a movimentação à sua volta. Homens, mulheres, crianças, todos circulando entre barracas de comidas típicas, pescaria, correio elegante... e ali, no canto, uma figura que ele conhecia bem demais: Hannibal Lecter.
Como sempre, impecável, mesmo vestido de maneira descontraída para a ocasião. A camisa quadriculada parecia ter sido feita sob medida, as mangas cuidadosamente dobradas até os cotovelos, e o olhar — aquele olhar clínico e faminto — fixo nele, como se Will fosse mais interessante do que qualquer pamonha ou canjica da festa.
Eles não eram namorados. Não oficialmente, pelo menos. Mas quem quer que observasse os dois juntos notaria a tensão silenciosa, o desejo não assumido, o jogo perigoso que ambos alimentavam sem nunca nomear.
E foi então que Will percebeu, com um arrepio gelado subindo pela espinha: Hannibal estava caminhando na direção da bilheteria da barraca. Com uma expressão serena, quase indiferente, como se fosse apenas mais um participante da festa. Mas Will conhecia bem o suficiente para saber — Hannibal não dava passos em falso.
Quando viu o outro homem estendendo a mão para comprar não um, mas todos os ingressos disponíveis para a barraca, Will sentiu o estômago afundar.
— Merda... — murmurou, baixinho.
E então, pela primeira vez naquela noite, Hannibal sorriu para ele. Aquele sorriso sutil, carregado de segundas intenções.
A festa mal tinha começado.
Will ficou paralisado por um segundo, os olhos fixos em Hannibal enquanto ele conversava tranquilamente com a senhora responsável pela bilheteria, como se estivesse apenas comprando fichas para um jogo qualquer. O estalo do papel sendo destacado uma, duas, três, quatro vezes — incontáveis — soou mais alto do que a música da quadrilha ao fundo.
— Beverly vai pagar por isso... — Will sussurrou para si mesmo, passando a mão nervosa pela barba por fazer.
Não havia como fugir. A barraca já estava decorada, com fitas coloridas, corações de cartolina e até um espantalho mal ajambrado ao lado. A fila que começava a se formar parecia animada, gente rindo, apontando, e Will sentia a pele esquentar de constrangimento sob os olhares curiosos. Alguns adolescentes cochichavam, senhoras comentavam sobre “o moço bonito da barraca” e crianças corriam ao redor.
Mas nada disso importava.
Porque Hannibal agora caminhava na direção dele, com a calma de quem tem todo o tempo do mundo e nenhuma dúvida sobre o que quer.
— Boa noite, Will. — A voz dele soou macia, cortando o som distante do forró e do estouro de uma bombinha. — Parece que a festa reservou uma atração... inesperada.
Will tentou rir, mas soou mais como um suspiro resignado. Estava vestido com uma camisa simples, calça jeans e aquele maldito chapéu de palha, que Hannibal parecia analisar com um brilho divertido no olhar.
— Não me provoca — Will respondeu, com aquele meio sorriso torto que ele não conseguia evitar na presença de Hannibal, ainda que tentasse.
Hannibal ergueu a mão, exibindo a generosa quantidade de ingressos coloridos, como se fosse um prêmio.
— Achei que seria... eficiente. Assim, evitamos que outros tomem meu lugar.
Will arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços, numa tentativa patética de manter a compostura.
— Você comprou todos os ingressos?
— Quase todos. — Hannibal inclinou levemente a cabeça, aquele gesto felino, observando cada nuance do rosto de Will. — Achei prudente deixar alguns para as outras almas corajosas que queiram experimentar.
Will soltou um riso seco, passando a língua pelos lábios, nervoso. O olhar de Hannibal seguiu o movimento, é claro. Sempre atento.
— Você é inacreditável.
— E você é... irresistível. — Hannibal respondeu sem hesitar, a voz suave, mas firme, como se estivesse apenas constatando um fato.
O coração de Will acelerou, e ele desviou o olhar por um segundo, fingindo ajeitar algo na bancada da barraca, tentando ignorar a pulsação descompassada.
— Tem regras, sabia? — Will falou, numa tentativa desesperada de colocar alguma estrutura naquela situação absurda. — Só um beijo por ingresso.
Hannibal sorriu, sereno.
— Não vejo problema. Tenho tempo. E... muitos ingressos.
Will soltou uma risada nervosa, balançando a cabeça, sem saber se queria que aquilo terminasse logo ou que nunca acabasse.
— Você é maluco.
Hannibal inclinou-se um pouco mais, as mãos apoiadas casualmente no balcão, a distância entre eles diminuindo perigosamente.
— Só por você, Will.
E naquele momento, com a música de Luiz Gonzaga embalando a noite fria, as luzes das bandeirinhas refletindo nos olhos de Hannibal e o cheiro de amendoim doce no ar, Will soube que estava perdido.
E que, como sempre, Hannibal já sabia disso há muito tempo.
Will respirou fundo, tentando ignorar o calor que subia pelo pescoço e queimava nas orelhas. O chapéu de palha parecia apertado demais, o ar abafado da festa mais denso do que o normal. Ele olhou para os ingressos nas mãos de Hannibal e depois para o rosto dele — sereno, quase divertido, mas com aquele brilho indecifrável no olhar.
— Vai ser um por um, então? — Will perguntou, já se arrependendo no instante em que terminou a frase.
— Naturalmente. — Hannibal respondeu, com a voz baixa, íntima demais para o contexto, como se estivessem sozinhos ali.
O primeiro beijo foi breve. Um roçar leve, quase casto, que durou menos de um segundo. Mas o suficiente para fazer Will esquecer onde estava. O cheiro de Hannibal, um toque discreto de lavanda e madeira, se misturava ao do quentão e do feno. Hannibal recuou devagar, ainda inclinado sobre o balcão, os olhos fixos nos de Will.
— Esse foi só o primeiro — disse ele, depositando calmamente um ingresso sobre a mesa.
Will piscou, sentindo o estômago revirar. Lá fora, algumas pessoas riam, outras cochichavam. Uma adolescente soltou um “Eita!” alto demais, arrancando gargalhadas de um grupo próximo. Um senhor mais velho, vestido de caipira completo, passou devagar e comentou, rindo:
— Esse aí vai sair beeeeem beijado hoje!
Will ignorou. Ou tentou. O sangue parecia pulsar nos ouvidos. Ele olhou para Hannibal de novo, com a expressão de quem não sabia se mandava o homem embora ou pulava o balcão para puxá-lo pela gola da camisa.
— Vai continuar com essa tortura?
— Se me permitir... — Hannibal murmurou, entregando o segundo ingresso.
O segundo beijo veio mais firme, com os lábios pressionando um pouco mais, mas ainda assim curto. Não havia pressa — não da parte de Hannibal, pelo menos. Ele recuou mais uma vez, mas desta vez sua mão roçou de leve o queixo de Will, como se estivesse saboreando o momento.
— Tá ficando quente aqui ou é só impressão minha? — alguém brincou do lado de fora da barraca.
Will empurrou o chapéu para trás e soltou um suspiro, encarando Hannibal como se quisesse estrangular e beijá-lo ao mesmo tempo.
— Você vai mesmo usar todos os ingressos?
— Até o último. — Hannibal respondeu com uma tranquilidade irritante. — A não ser que queira me poupar o trabalho... e me convide para um beijo de verdade.
Will deu uma risada seca, sem humor.
— Não começa.
Hannibal sorriu. Depois, entregou o terceiro ingresso.
O terceiro beijo demorou um segundo a mais. E Hannibal não se afastou de imediato. Ficou ali, a respiração quase tocando a de Will, os olhos nos olhos, como se estivesse esperando algo — um sinal, um impulso, uma confissão.
Will não disse nada. Só olhou de volta, os lábios entreabertos, o coração disparado, e pela primeira vez naquela noite, Hannibal pareceu satisfeito de verdade.
— A fila tá aumentando, viu? — Beverly apareceu do nada, encostada no lado da barraca com um copo de quentão na mão e um sorriso malicioso no rosto. — Vai ter gente reclamando se o cidadão monopolizar.
— Eu posso compensar depois — Hannibal disse, educadamente. — Tenho certeza de que os demais prefeririam um beijo do Will sem que ele esteja visivelmente tenso.
Will revirou os olhos.
— Você é um desgraçado.
— E você é fascinante mesmo quando está bravo.
A música mudou, agora um forró animado, e a noite parecia mais viva ao redor deles. Mas dentro da barraca, tudo estava suspenso no tempo — só eles dois, se testando em silêncio, como sempre fizeram. Só que agora, o jogo estava se tornando impossível de ignorar.
Will pegou o próximo ingresso das mãos de Hannibal sem dizer nada, inclinando-se levemente sobre o balcão.
— Próximo.
E Hannibal atendeu.
O tempo passou como num borrão. O entra e sai de gente pela festa, o cheiro de canjica e o som abafado do trio de forró, as brincadeiras no correio elegante… tudo foi ficando distante para Will.
Ele já tinha perdido a conta de quantos beijos Hannibal havia dado — ou melhor, arrancado dele, com aquela calma calculada, aquele olhar que não deixava espaço para fuga. A cada ingresso, Hannibal parecia avançar um pouco mais, não nos gestos — que sempre foram medidos, respeitosos até demais —, mas no terreno invisível entre eles, quebrando camada por camada da muralha que Will tanto se esforçava para manter.
Agora, Hannibal segurava o último ingresso.
A praça já começava a esvaziar um pouco, alguns grupos se dirigiam à fogueira que recém havia sido acesa, crianças corriam com estalinhos na mão, e Beverly — que em algum momento resolvera deixá-los a sós — apenas lançava olhares cúmplices de longe, se divertindo com o próprio plano.
Hannibal ergueu o ingresso, observando-o com um sorriso enviesado, antes de depositá-lo sobre o balcão, junto aos outros.
— Último. — A palavra soou definitiva, quase solene.
Will, que agora já tinha largado o chapéu em algum canto da barraca, esfregou a mão na nuca e soltou o ar lentamente, como quem se prepara para um salto. Olhou para Hannibal, os olhos castanhos fixos nos dele, e percebeu, com um certo espanto, que ele estava diferente. Não menos confiante, mas... mais atento. Como se o último beijo fosse mais importante que todos os outros juntos.
— Vai me torturar mais, ou... — Will começou, mas Hannibal interrompeu.
— Não. — A resposta foi firme, seca, e antes que Will pudesse pensar em qualquer coisa, Hannibal se inclinou.
Desta vez não houve hesitação. O beijo foi profundo, firme, e sem a encenação dos anteriores. Hannibal segurou suavemente o rosto de Will com uma das mãos, puxando-o para mais perto por cima do balcão, ignorando completamente o protocolo da “barraca do beijo”.
E Will... simplesmente cedeu.
Não havia mais plateia, nem regras, nem fichas. Só o calor daquele toque, o gosto discreto de vinho quente nos lábios de Hannibal, o perfume amadeirado misturado ao cheiro de fumaça da fogueira ao longe, e o coração disparado.
Quando Hannibal se afastou, foi só o suficiente para olhar nos olhos dele, a respiração entrecortada, o rosto ainda muito próximo.
— Will… — chamou, quase num sussurro.
Will engoliu seco, sem saber o que dizer. Podia jurar que a festa inteira silenciara ao redor, embora, claro, a música continuasse, o barulho seguisse, e a vida lá fora não tivesse parado.
— Você comprou todos esses ingressos… pra isso? — perguntou, num tom que oscilava entre a provocação e a rendição.
Hannibal sorriu, como quem responde “é óbvio” sem precisar dizer nada.
— Pra isso… e pra deixar claro que, quando você quiser, não vai precisar de fichas. — A mão dele deslizou da mandíbula até a ponta dos dedos de Will, num toque leve, quase reverente.
Will soltou uma risada fraca, balançando a cabeça, sem conseguir esconder o sorriso que surgia no canto da boca.
— Você é mesmo um filho da puta.
— E você, Will, é a melhor coisa dessa festa. — Hannibal respondeu, antes de se afastar devagar, pegando o chapéu de palha de Will da bancada e estendendo para ele, como se fosse um presente.
Will pegou o chapéu sem tirar os olhos dele.
E ali, entre bandeirinhas tremulando, fogueira crepitando ao longe e o cheiro doce da noite junina, ficou claro — mesmo que nenhum dos dois admitisse em voz alta — que aquela brincadeira boba tinha mudado tudo.
Ou, talvez, só tivesse finalmente revelado o que sempre esteve ali.
Depois do último beijo, Will ajeitou o chapéu de palha na cabeça com um sorriso meio torto — daquele tipo que só ele sabia dar quando algo o deixava desconcertado de um jeito bom. Hannibal ficou ao lado dele, a postura sempre elegante, com as mãos nos bolsos da calça jeans, observando o movimento da festa com um olhar que misturava curiosidade e paciência.
— Quer provar? — Hannibal disse, segurando um pedaço de pé de moleque que pegara na barraca ao lado, sem fazer alarde.
Will olhou para o doce, depois para ele, e aceitou o pedaço com um leve aceno de cabeça.
— Você sempre tão generoso, né? — brincou, mordendo o pé de moleque com cuidado.
— É uma arte que venho aprimorando. — Hannibal respondeu com um meio sorriso, sem perder a compostura.
Eles caminharam juntos, devagar, entre as barracas e grupos de pessoas que ainda aproveitavam a noite. Will sentia o calor do corpo de Hannibal próximo, mas nenhum dos dois cedia a gestos que pudessem entregar demais — o toque, quando vinha, era rápido e sempre carregado de uma tensão contida.
O som do forró embalava a festa, e a fumaça da fogueira misturava-se ao cheiro do milho assado e das castanhas. Will observava o jeito calculado com que Hannibal apreciava as coisas simples, enquanto Hannibal parecia fascinado pela naturalidade com que Will se movia naquele ambiente — tão diferente da vida agitada da capital paulista.
— Nunca imaginei que festa junina fosse tão... interessante — disse Hannibal, desviando o olhar para a roda de dança que começava a se formar.
— Minas é cheia dessas surpresas. — Will respondeu, com um sorriso meio travesso. — E, olha, se quiser, eu ensino a dançar quadrilha.
— Não quero ver você passando vergonha. — Hannibal respondeu, seco, mas com um brilho nos olhos que entregava que ele adoraria ver aquilo.
Eles seguiram caminhando em silêncio confortável, trocando olhares rápidos e observando as pessoas à volta. Sem pressa, sem palavras desnecessárias, só a companhia compartilhada — que para eles, naquele momento, já era suficiente.
Quando a fogueira crepitou mais alto e o céu ficou ainda mais escuro, Will se permitiu relaxar um pouco mais, sentindo-se estranhamente em casa — não pela festa, mas porque, por algum motivo, estar ali ao lado de Hannibal parecia fazer sentido.
E Hannibal, como sempre, observava, esperava, e talvez, só talvez, cuidava daquele homem do interior de Minas com uma atenção silenciosa que ninguém mais conseguiria entender.
O movimento na praça já começava a diminuir. As bandeirinhas coloridas tremulavam preguiçosas no vento morno da madrugada, e a fogueira crepitava, agora mais baixa, enquanto os últimos casais ainda arriscavam alguns passos de forró perto dela.
Will encostou-se numa cerca de madeira, ajeitando o chapéu de palha na cabeça enquanto observava Hannibal, que acabava de terminar mais um pedaço de pé de moleque, com aquela compostura absurda mesmo em meio à bagunça de uma festa junina no interior de Minas.
— Já está tarde — Hannibal comentou, com a voz baixa, como quem fala mais para si do que para o outro. Limpou os dedos num guardanapo e olhou para a estrada escura que sumia atrás da praça. — Não sei se é prudente dirigir até São Paulo a essa hora.
Will soltou um riso discreto, cruzando os braços e encarando Hannibal com aquele olhar que ficava entre o cético e o divertido.
— Desde quando você se preocupa com isso? — provocou.
Hannibal ergueu uma sobrancelha, como quem pondera com falsa seriedade.
— Não é uma preocupação... apenas uma constatação. Não seria prático. Além do mais… — Ele deu uma pausa calculada, deixando o olhar vagar pela noite — … as estradas daqui são traiçoeiras.
Will riu mais uma vez, balançando a cabeça.
— Você fala como se não soubesse exatamente o que tá fazendo.
Hannibal soltou um leve suspiro, quase teatral, e enfiou as mãos nos bolsos.
— Só estou considerando as opções.
Will ficou em silêncio por alguns segundos, observando a fogueira e escutando os últimos acordes do sanfoneiro. Depois virou o rosto de volta para Hannibal, fingindo não perceber o convite implícito.
— Se quiser, tem espaço lá em casa. — Disse com a maior naturalidade do mundo, como quem oferece café pra um conhecido. — Não é muita coisa, mas… dá pro gasto.
Hannibal virou-se para ele, o olhar atento, mas o sorriso contido, quase imperceptível.
— Não quero incomodar.
Will deu de ombros.
— Não incomoda. — E, depois de uma pausa, completou, com aquele jeito meio seco que usava pra disfarçar o quanto se importava: — Até porque, duvido que você vá embora mesmo.
Hannibal soltou um leve riso, o mais próximo que ele chegava de admitir qualquer coisa.
— Então aceito. Só por essa noite… — falou, deixando a última palavra suspensa no ar, como se soubesse que talvez fosse por mais do que isso.
Will não respondeu. Apenas deu um meio sorriso e começou a caminhar pela rua de paralelepípedos, tirando o chapéu e jogando-o casualmente sobre o ombro. Hannibal o seguiu, com aquele passo tranquilo e seguro, como se sempre tivesse pertencido àquele lugar.
E enquanto a festa sumia atrás deles, junto com as luzes e o som da sanfona, o silêncio que se formou entre os dois não foi desconfortável — foi, na verdade, exatamente o que eles sempre souberam fazer de melhor: ficar próximos, sem precisar dizer nada.
O caminho até a casa de Will foi silencioso, só o som abafado dos passos na estrada de terra, as cigarras cantando ao longe e, vez ou outra, um latido perdido vindo de alguma fazenda próxima.
A casa apareceu aos poucos, no meio do mato, com a varanda de madeira e as luzes amareladas acesas. Não era grande nem luxuosa, mas tinha aquele ar aconchegante e meio rústico, típico de quem prefere a solidão e não faz questão de impressionar ninguém.
Antes mesmo de Will abrir o portão de madeira, os cachorros já começaram a latir, ansiosos. Três deles — um vira-lata preto de orelha rasgada, uma cadela caramelo e um outro de porte maior, meio tonto de sono — apareceram correndo assim que ele entrou.
— Calma aí… — Will disse, abaixando-se pra afagar um deles, que pulava na perna dele como se não o visse há dias, embora tivesse saído só algumas horas antes.
Hannibal ficou parado, observando a cena com aquele olhar analítico, mas não indiferente. Deixou um dos cachorros aproximar-se, cheirar a barra da calça dele e se afastar satisfeito.
— Não sabia que você tinha tantos. — comentou, com a voz baixa, enquanto atravessava o portão.
— Resgatei. Uns aparecem por aqui e... ficam. — Will deu de ombros, como quem tenta parecer indiferente, mas o tom de voz suavizou sem que ele percebesse.
Hannibal seguiu-o até a varanda, onde Will pegou a chave embaixo de um vaso e abriu a porta. Lá dentro, o cheiro discreto de café velho misturado a madeira e terra molhada.
— Não repara a bagunça. — Will falou, largando as chaves sobre a mesa e tirando o chapéu, jogando-o em cima de uma cadeira.
Hannibal entrou devagar, observando tudo como fazia com qualquer lugar novo — os quadros antigos na parede, uma pilha de livros desorganizados em cima de um aparador, a rede pendurada no canto da sala.
— Achei… bastante organizado. Para alguém que vive dizendo que não é. — comentou, enquanto os cachorros se ajeitavam no canto, um deles já deitado no tapete, ressonando.
Will soltou uma risada seca, indo até a cozinha.
— Quer café? — perguntou, já pegando a chaleira sem esperar resposta.
Hannibal assentiu, andando devagar pela sala, como quem se acomoda num ambiente que já conhecia. Passou os dedos sobre a lombada de um livro qualquer, depois parou perto da janela, olhando a escuridão lá fora.
— É isolado. — comentou, não como uma crítica, mas como uma constatação.
Will, do outro lado da cozinha, acenou com a cabeça enquanto enchia a chaleira.
— É. Assim ninguém me enche o saco.
Hannibal virou-se para ele, com aquele meio sorriso discreto.
— Imagino que não seja sempre um incômodo… alguém vir te encher o saco.
Will soltou o ar devagar, como quem se esforça para não sorrir demais. Terminou de preparar o café e serviu duas canecas, estendendo uma para Hannibal, que aceitou com um aceno quase solene.
Os dois se sentaram à mesa, frente a frente, enquanto os cachorros iam se acomodando em pontos estratégicos da casa, como se soubessem que agora era hora de silêncio.
Lá fora, o barulho da festa já não alcançava, só o som das cigarras e, bem longe, um galo perdido que cantava fora de hora.
Will apoiou o cotovelo na mesa e olhou pela janela.
— Você vai embora amanhã? — perguntou, sem encarar Hannibal diretamente.
Hannibal girou a caneca entre os dedos, sem pressa.
— Não sei. — respondeu, sincero. — Depende.
Will ergueu uma sobrancelha, lançando aquele olhar de quem sempre suspeita das intenções dele.
— De quê?
Hannibal inclinou-se só um pouco para a frente, com aquele tom que não precisava subir o volume pra ser ouvido com clareza.
— De você.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável, nem surpreendente. Apenas denso, como tudo que existia entre eles.
Will soltou uma risada fraca, passando a mão pelo cabelo, e depois deu um gole no café, olhando para qualquer lugar, menos para ele.
E Hannibal, satisfeito, apenas se recostou na cadeira, como quem sabe que a noite ainda não acabou — e que não precisava de convite formal para permanecer ali.
Will soltou um suspiro irritado, jogou o lençol de lado e sentou-se na beira da cama, esfregando o rosto com as mãos. O café tinha ferrado tudo. Ou talvez fosse outra coisa. Levantou devagar, caminhou pelo corredor em silêncio, até parar na porta do quarto de hóspedes.
Hannibal estava sentado na beira da cama, exatamente do mesmo jeito, com os cotovelos apoiados nos joelhos, olhando para o chão como quem também ponderava demais.
Will encostou na lateral da porta, os braços cruzados, e ficou ali parado por um segundo.
— Também não consegue dormir? — perguntou, sem muita inflexão, mas a voz soou mais baixa do que o normal.
Hannibal ergueu o olhar, com aquele meio sorriso discreto.
— Parece que não.
Will assentiu, ficou mexendo na manga da camiseta por um momento, depois soltou o ar e falou, do jeito mais casual que conseguiu:
— Se quiser… pode dormir lá no meu quarto.
Hannibal arqueou uma sobrancelha, ligeiramente surpreso, mas o rosto não entregou mais do que isso.
— Tem espaço? — perguntou, com aquele tom seco, que disfarçava tudo que não precisava ser dito.
Will deu de ombros.
— Dá pra se ajeitar.
Eles ficaram se encarando por um segundo que pareceu mais longo do que realmente foi, até Hannibal levantar, ajeitar a barra da camisa com aquela calma irritante, e passar por Will, que abriu espaço na porta, como se aquilo fosse só mais um favor, e não o que realmente era.
Will virou e seguiu atrás dele pelo corredor até o quarto. Apagou a luz do corredor, deixando só a claridade fraca do abajur no quarto iluminando o espaço.
Sem cerimônia, Will deitou-se de lado na cama, puxando o lençol até a cintura, enquanto Hannibal fazia o mesmo, com a naturalidade ensaiada de quem sabe muito bem quando está sendo convidado, mesmo que o convite tenha vindo disfarçado.
Deitados lado a lado, ficaram em silêncio, ouvindo os cachorros respirando do outro lado da porta e os sons distantes da noite.
Will virou o rosto para a janela, os olhos quase fechados, e falou, sem olhar para Hannibal:
— Só não reclama se eu puxar o cobertor.
Hannibal soltou aquele quase-riso discreto, virando-se um pouco na direção dele.
— Jamais.
E ficaram assim, próximos, o calor dos corpos se espalhando devagar pelo quarto frio, sem que nenhum dos dois fizesse qualquer movimento precipitado. Só aquela tensão silenciosa, habitual, confortável, e impossível de ignorar.
Até que, enfim, o sono — ou algo parecido com ele — começou a pesar, não por falta de café, mas porque ali, naquela cama apertada, naquele quarto no meio do mato, nenhum dos dois tinha mais vontade de estar em outro lugar.
O sol mal tinha subido quando Will terminou de calçar as botas, pronto pra sair. Estava na cozinha, pegando as chaves, quando Hannibal apareceu, silencioso como sempre, encostado no batente da porta, observando-o com aquela atenção que nunca parecia distrair-se.
— Preciso ir até a praça. — Will disse, sem olhar diretamente, mais pra avisar do que pra convidar.
Hannibal assentiu, sem sair do lugar.
— Quer que eu vá junto?
Will soltou um riso seco, pegando a garrafa d’água e o celular.
— Não. Não precisa. — respondeu, automático, já prevendo que não adiantaria.
Hannibal inclinou a cabeça, aquele meio sorriso discreto nos lábios.
— Mesmo assim, vou.
Will bufou baixo, ajeitando o chapéu na cabeça, e saiu pela porta sem responder. Hannibal o seguiu, com o mesmo passo calmo, indiferente ao tom pouco acolhedor.
Dois dos cachorros decidiram acompanhar a dupla, trotando à frente deles pela estrada de terra. O caminho até a praça era tranquilo, margeado de mato e algumas cercas velhas, com o cheiro úmido da madrugada ainda pairando no ar.
— Não precisava. — Will comentou, depois de alguns metros, sem olhar pra trás.
— Eu sei. — Hannibal respondeu, e continuou andando ao lado dele, como se fosse um passeio comum.
Will lançou um olhar enviesado, sem parar de andar.
— Não sabe ficar quieto, né?
Hannibal arqueou uma sobrancelha, o olhar sereno.
— Pelo contrário. Sei perfeitamente.
Will soltou outro riso fraco, balançando a cabeça. Depois ficou em silêncio, aceitando a presença dele ali como quem aceita a inevitabilidade do calor ou da poeira do caminho.
Quando chegaram à praça, a cena era típica de pós-festa: bandeirinhas caídas, mesas desarrumadas, caixas vazias, palha espalhada pelo chão, e meia dúzia de pessoas começando, com má vontade, a organizar tudo.
Beverly estava entre elas, com a camisa xadrez amarrotada e o cabelo preso de qualquer jeito.
— Olha quem resolveu aparecer. — disse, rindo, ao ver Will se aproximar. Depois notou Hannibal, parado ao lado dele, impecável mesmo depois da noite mal dormida. — E trouxe reforço?
Will só revirou os olhos, largando a mochila perto de uma das mesas.
— Ele que insistiu.
Hannibal manteve aquele sorriso polido, dando um leve aceno para Beverly, como quem cumprimenta um conhecido, mas não pretende começar uma conversa.
Will começou a juntar algumas cadeiras, evitando olhar na direção dele, enquanto Hannibal ficou parado por um tempo, observando o movimento preguiçoso da cidade acordando, o som distante de uma moto passando, e os gritos de alguém mais ao fundo, provavelmente pedindo ajuda com outra barraca.
Depois, como se fosse a coisa mais natural do mundo, Hannibal começou a recolher algumas bandeirolas do chão, amarrando-as de volta nos fios.
Will percebeu, olhou de longe, e balançou a cabeça de novo, quase sorrindo, mas sem deixar escapar.
— Eu disse que não precisava. — murmurou, passando ao lado dele com uma pilha de cadeiras.
Hannibal olhou para Will rapidamente, depois continuou, com a mesma tranquilidade irritante de sempre:
— Eu sei.
E seguiu ajudando, com aquela eficiência silenciosa que parecia feita mais pra permanecer ao lado dele do que, de fato, consertar a bagunça.
Will não disse mais nada, só continuou o trabalho, aceitando — como sempre fazia — que, com Hannibal, as coisas nunca eram sobre necessidade. Era só uma questão de presença.
E, por alguma razão que ele ainda não tinha coragem de admitir, essa presença sempre acabava fazendo mais sentido do que ele gostaria.
O sol já estava mais alto quando terminaram de juntar a maior parte da bagunça. O chão da praça parecia menos caótico, mas ainda longe de estar impecável. O pessoal começava a dispersar aos poucos, alguns indo pra casa, outros sentando nas mesas restantes pra descansar e fofocar sobre a festa da noite anterior.
Will largou a última pilha de cadeiras ao lado da barraca desmontada e limpou as mãos na calça, soltando um suspiro cansado. Olhou em volta, procurando Hannibal, e o viu do outro lado da praça, em pé, ao lado de uma árvore, olhando qualquer coisa que só ele sabia o que era.
Will passou a mão na nuca, respirou fundo e caminhou até lá.
Parou ao lado dele, em silêncio por um segundo, só acompanhando o mesmo ponto no horizonte — a rua de terra batida que levava pro centro da cidade, vazia e quente naquela hora da manhã.
Depois falou, do jeito mais casual possível, sem olhar diretamente:
— Bora?
Hannibal virou o rosto devagar, com aquele meio sorriso discreto, como se soubesse desde o início que Will faria o convite.
— Pra onde?
Will soltou um riso fraco, balançando a cabeça e ajeitando o chapéu na cabeça, já se virando pra sair.
— Pra casa. Não vou te deixar plantado aqui no meio da praça.
Hannibal apenas assentiu e começou a acompanhá-lo, com aquele passo calmo e silencioso de sempre.
Enquanto andavam de volta pelo mesmo caminho de terra, os dois cachorros que tinham seguido Will mais cedo vieram atrás outra vez, trotando tranquilos, como se também soubessem que não havia pressa em nada naquela manhã.
O sol esquentava rápido, e Will tirou o chapéu por um momento pra passar a mão nos cabelos, depois o colocou de volta, sem olhar pra Hannibal, mas sentindo a presença dele ali do lado, constante, inevitável.
E, sem precisar de mais palavra nenhuma, os dois seguiram juntos, como sempre faziam — como se aquela cena já tivesse acontecido antes, ou fosse acontecer de novo, tantas outras vezes, sem nunca precisar ser dita.
O portão rangeu baixo quando Will o empurrou, deixando espaço pros dois cachorros passarem primeiro, abanando os rabos, correndo direto pra sombra na lateral da casa.
Will entrou logo depois, soltando as chaves sobre o caixote que usava de mesa na varanda. Olhou de lado e viu Hannibal fechando o portão atrás de si, com a mesma calma de sempre, como se já conhecesse aquela casa há anos, como se soubesse exatamente o barulho que cada tábua velha faria sob os pés.
Will puxou o chapéu da cabeça e largou em cima da cadeira, passando a mão pelos cabelos úmidos de suor. Hannibal ficou parado, olhando os cachorros se espalharem pelo quintal, deitando preguiçosos na sombra, arfando depois da caminhada de volta.
O ar ali era mais fresco, mais úmido, carregado do cheiro de mato, terra e ração. O silêncio quebrado só pelo som dos cães mexendo-se e dos galhos rangendo ao vento.
Will encostou-se no batente da porta, os braços cruzados, olhando de longe Hannibal se abaixar pra afagar um dos cachorros, que prontamente virou a barriga pra cima, pedindo carinho, como sempre fazia com Will — mas quase nunca com quem não conhecia.
Hannibal passou a mão devagar pelo pelo do bicho, como quem aprecia cada movimento, enquanto Will, do outro lado, observava sem dizer nada, só apertando um pouco mais o braço com a mão, meio sem perceber.
Quando Hannibal se levantou, virou o rosto na direção dele e perguntou, com aquela voz baixa, sóbria:
— Quer que eu vá embora?
Will soltou um suspiro, desviando o olhar pra o quintal por um segundo, como quem calcula as opções. Depois deu de ombros, seco, como sempre.
— Se quisesse, já tinha falado.
Hannibal assentiu levemente, aceitando a resposta pelo que ela era: uma permissão, ou talvez até mais que isso, mas dita do único jeito que Will sabia dizer.
Will então empurrou a porta, entrando na casa, com Hannibal logo atrás. Os cachorros seguiram eles até a sala, onde se jogaram sobre o tapete velho, espalhados pelos cantos, como se estivessem ajudando a criar aquela sensação de que ali, naquele espaço, só cabia o silêncio e o conforto estranho de não ter que explicar nada.
Will passou direto pra cozinha, pegou duas garrafas de água na geladeira e jogou uma pra Hannibal, que pegou no ar, com um aceno silencioso de agradecimento.
Sentaram-se ali mesmo, na varanda, as pernas esticadas, os cachorros deitados próximos, respirando pesadamente, o calor do dia aumentando, mas a sombra os protegendo.
Nenhum dos dois disse nada por um tempo, bebendo água, ouvindo o som abafado dos insetos e o farfalhar das folhas. O silêncio, longe de ser desconfortável, parecia a única coisa possível entre eles.
Um dos cachorros levantou a cabeça e se enfiou entre as pernas de Will, apoiando o focinho na coxa dele, de olho fechado, confortável demais.
Hannibal olhou a cena, depois virou os olhos para Will, com aquele quase sorriso, discreto, contido.
Will fingiu que não viu. Só passou a mão distraidamente pelo pelo do cachorro e ficou ali, quieto, como sempre fazia — mas sem vontade nenhuma de que Hannibal fosse embora.
E, naquele espaço preenchido só por cães sonolentos e respirações silenciosas, ficou claro, como tantas vezes já tinha ficado, que não precisava ser dito mais nada.
Will ficou passando a mão pelo pelo do cachorro, os olhos fixos em algum ponto indefinido do quintal, até que, de repente, sem aviso, quebrou o silêncio com a voz baixa, seca:
— Por que você fez aquilo ontem?
Hannibal, que bebia um gole d’água, pausou o movimento, mas não demonstrou surpresa. Apenas virou o rosto lentamente na direção dele, as sobrancelhas levemente arqueadas, como quem pede especificações, mas já sabe do que se trata.
Will não olhou diretamente, continuou mexendo distraidamente na coleira do cachorro, o tom impassível, como se estivesse falando sobre o tempo:
— Comprar todos aqueles ingressos.
O cachorro soltou um suspiro pesado e se aninhou ainda mais entre as pernas dele, alheio ao peso que ficou no ar.
Hannibal apoiou a garrafa ao lado da cadeira, cruzando uma perna sobre a outra, sem pressa.
— Achei que fosse evidente.
Will soltou um riso fraco, sem humor.
— Você não faz nada que não seja calculado.
Hannibal inclinou levemente a cabeça, como quem aceita a acusação sem protestar.
— E você não gostou?
Will apertou um pouco mais a coleira do cachorro, os dentes cerrados por um segundo, antes de soltar o ar e encará-lo, finalmente, direto, com aquele olhar que parecia atravessar tudo.
— Não foi isso que eu perguntei.
Hannibal sustentou o olhar, tranquilo, a voz baixa, mas firme:
— Quis que você soubesse.
Will franziu o cenho, confuso e impaciente:
— Quê?
Hannibal apoiou os cotovelos nos joelhos, inclinando-se um pouco mais, como quem não se importa de chegar mais perto, mesmo sabendo que Will sempre se afasta um pouco.
— Quis que você soubesse o que eu quero.
Will ficou imóvel, os olhos presos no rosto dele, como se aquela fosse a última coisa que esperava ouvir em voz alta, mas também a mais óbvia.
O cachorro, alheio ao clima denso, virou de barriga pra cima, pedindo carinho, como se nada estivesse acontecendo. Will abaixou o olhar, passando a mão automática pelo peito do bicho, tentando achar alguma coisa pra dizer, mas tudo parecia desnecessário.
Então só soltou um suspiro, virou o rosto de volta pro quintal e falou, no mesmo tom seco de sempre:
— Idiota.
Hannibal riu baixo, aquele riso discreto, controlado, e se recostou novamente na cadeira, como se a confissão tivesse sido feita, mas não houvesse urgência nenhuma em avançar mais do que aquilo.
E, entre eles, ficou só o som do cachorro respirando pesado, o barulho de uma folha arrastando no quintal, e o calor abafado daquela manhã que parecia não acabar nunca.
O silêncio ficou ali, suspenso entre os dois, até que Will soltou mais um suspiro, pesado, e murmurou, olhando para a frente, para o quintal:
— Era só ter pedido.
Hannibal virou um pouco o rosto, atento.
— E você teria deixado?
Will passou a mão pelo rosto, como quem tenta afastar o incômodo, ou a verdade. Depois soltou os braços ao lado do corpo, apertando a borda da cadeira com os dedos, respirando fundo.
Sem dizer nada, se inclinou levemente para o lado, fechando a distância entre eles, até o ombro dele encostar de leve no de Hannibal.
E, num movimento rápido, virou o rosto e segurou a gola da camisa dele com força, puxando-o de uma vez só para um beijo.
Diferente dos da noite anterior, cheios de tensão, provocação e a plateia ao redor, aquele foi mais silencioso, mais firme, mais cheio de tudo o que nenhum dos dois tinha conseguido — ou querido — dizer até agora.
Hannibal correspondeu imediatamente, sem hesitação, a mão indo parar na coxa de Will, puxando-o ainda mais para perto, aprofundando o beijo com aquela intensidade contida, exata, como tudo nele.
Will apertou ainda mais a mão na camisa dele, como se quisesse impedir que aquilo fosse embora, ou talvez que se tornasse só mais uma coisa não dita entre eles.
Quando se afastaram, só um pouco, Will manteve o rosto perto, a respiração irregular, os olhos presos aos de Hannibal, como se esperasse que ele fizesse piada, ou dissesse alguma coisa irritante.
Mas Hannibal apenas o olhou, sério, atento, e, pela primeira vez desde a festa, não disse absolutamente nada.
Will soltou a camisa dele devagar, se afastou um pouco, passando a mão pelos cabelos úmidos, já sem o chapéu, e virou o rosto para o quintal, respirando fundo.
O cachorro ao lado deles levantou a cabeça, curioso, e depois voltou a deitar, indiferente.
Will pegou a garrafa d’água, bebeu um gole e, ainda sem olhar pra ele, comentou, seco:
— Da próxima vez… só fala. Não precisa de teatro.
Hannibal sorriu, discreto, e, pela primeira vez naquela manhã, pareceu realmente satisfeito.
Depois recostou de novo na cadeira, tranquilo, como quem sabe que, dali em diante, as coisas já tinham mudado — mesmo que nenhum dos dois quisesse admitir isso em voz alta.
Will ficou ali, bebendo mais um gole de água, os olhos presos em algum ponto distante do quintal, como se a conversa tivesse acabado, ou como se nunca tivesse começado.
Hannibal não disse nada. Apenas ficou sentado ao lado dele, a perna quase encostando na dele, o braço solto sobre a cadeira, respirando tranquilo, como quem não precisava mais provar nada.
Os cachorros continuaram espalhados pelo chão, rendidos ao calor da manhã, respirando pesadamente, alheios à tensão que, mesmo mais leve agora, ainda pairava entre os dois.
Depois de um tempo, Will se levantou, passando a mão distraída pelos cabelos, e Hannibal o acompanhou, como se fosse natural, como se sempre tivesse feito aquilo.
Entraram juntos na casa, sem pressa, deixando a varanda vazia, o portão ainda meio aberto, os cães acomodados sob a sombra.
E foi assim que o dia seguiu, sem grandes gestos, sem declarações, sem pressa — só aquela certeza silenciosa de que, entre eles, o que precisava ser dito já tinha sido.
E o resto… o resto não precisava de palavra nenhuma
