Chapter Text
Toda história tem um contexto. Todo personagem tem um passado. E toda maldição tem uma origem. Esta foi forjada não no vazio, mas na fornalha da crueldade e do desespero.
Era uma vez, em uma terra envolta por montanhas cinzentas, reinava um homem cruel. Hipócrita, egoísta e sádico, o rei extraia alegria genuína da agonia alheia, tanto no campo de batalha, quanto nas masmorras do seu castelo. Contudo, em tempos bélicos como aquele, seu povo era cegado pela promessa de proteção e vitória. O povo via sua brutalidade como força necessária, não como o pecado mortal que era.
Vil ironia do destino era a aparência daquele rei, pois ele era belo como o sol, como um deus antigo esculpido em mármore. Seu coração, no entanto, permanecia solitário. Recusava todas as noivas, fossem filhas de ricos burgueses ou nobres estrangeiros, ele se recusava a casar por política se a aparência da donzela não fosse tão imaculadamente bela quanto a sua própria. Seu narcisismo doentio só permitiria uma consorte capaz de gerar herdeiros que refletissem sua própria perfeição.
Certo dia, enquanto liderava sua infantaria para esmagar a resistência final do reino vizinho – uma disputa sobre direitos de passagem num rio insignificante, apenas uma chance de demonstrar a própria força – seus olhos percorreram a paisagem outonal. Terras que, mesmo que tecnicamente ainda fossem do vizinho ingrato, logo engrossariam seu domínio. No caminho, seus batedores avistaram uma caravana miserável.
Meio de meia dúzia de vacas magras puxava uma carroça cambaleante. Uma família de servos da gleba, desterrada, vagava em busca de refúgio. Seus poucos pertences eram bugigangas corroídas: panelas furadas, enxadas cegas, cobertores infestados. Não mais que vinte almas, suas roupas eram trapos despreparados para o inverno que logo viria. Seus rostos e mãos tão cobertos de sujeira que mal pareciam ser daquela região. Magros, pobres, aterrorizados, mas, para o rei, o pior era o fato de serem nauseantemente fétidos. Como tal escória ousa pôr-se diante de meus olhos?, pensou, com repulsa profunda. De onde vinham ou para onde iam, pouco importava. Só desejava que sumissem.
“Vossa Graça?”, indagou um capitão, aguardando ordens.
“Limpe minhas futuras terras dessa imundície”, comandou o rei, a voz cortante como o gelo. Mas, ao se voltar para sua carruagem de veludo, para longe da feiura, seus olhos viram ela. No meio do desespero lamacento, da pobreza aviltante, ele encontrou sua rainha. Piscou, duvidando da própria sanidade após tantos vinhos. Precisaria de um banho, evidentemente, mas... Sua estrutura, seus traços, sob a sujeira.
Lágrimas sulcavam seu rosto enquanto seus soldados abatiam um dos homens da caravana. Um bebê chorava, uma anciã gritava impotente. Seria rápido.
Com o breve aceno de uma mão, a donzela foi poupada do massacre. Deixou que seus homens pilhassem os míseros pertences; eram migalhas para ele. A moça enlouqueceu de horror, mas que importava? O rei sabia que sua gratidão viria ao ver seu luxo palaciano. Ordenou que a levassem para seu lar, que a esfregassem e deixasse pronta para quando voltasse.
A espera não foi longa. Por volta de 3 semanas, as terras foram anexadas ao seu reino e seu povo o aclamava como um herói merecido. Em sua mente distorcida, ele era um conquistador triunfante voltando para desfrutar seu espólio de guerra mais precioso. Tudo se justificava por um insulto a um direito de passagem. Ele seria imortalizado nas crônicas, um exemplo para seus netos: belo, impiedoso, vitorioso.
Ao adentrar sua fortaleza, suas primeiras palavras foram para ela. “Mostrai-ma. Quero ver se ela é verdadeiramente a mais bela de todas”.
Os soldados trocaram olhares cínicos. Não ousavam rir alto, mas duvidavam que aquela camponesa suja se tornaria uma rainha. Viram a moça como um passatempo efêmero, algo para ser usado e descartado. Ignoravam ou não reconheciam o quanto o rei era autocentrado e escravo da própria vaidade deturpada. Por mais cruel que fosse, havia sido sincero.
Para a jovem Klara, entretanto, tudo foi um pesadelo sem fim.
Aos 19 anos, ela bordava e costurava um enxoval para seu casamento com Thomas, filho do moleiro, na próxima primavera. Deveria ver seus irmãos crescerem, deveria ajudar na colheita da cevada. A guerra que destruíra sua realidade havia começado por um insulto entre nobres cujos nomes ela desconhecia. “Deixe assuntos de senhores com os senhores, o barão ai de nos proteger”, sua mãe dissera. Mas ele não os protegera.
Juntaram o que puderam carregar: sementes guardadas, mantas mais grossas, três animais. “Vamos para a capital, perto do rei será mais seguro”, dissera seu pai, já curvado pelos anos, liderando a fuga. A mãe e a avó rezavam dia e noite por segurança, por água, por força.
O barão que falhara em protegê-los servia aos nobres que serviam ao rei. O rei está no topo. Klara entendia esse conceito; o que não entendia era como estar perto dos monstros seria melhor para eles.
O primeiro a morrer foi o tio. Depois o pai. Os irmãos. Paralisada, Klara não gritou como a mãe, nem soluçou como os pequenos. Petrificou-se. Quando aquele nobre, vestido de linho fino e detalhes dourados, se aproximou para examiná-la como se avalia um cavalo, alguns murmuraram que ela fora “poupada”. Ao ver a fortaleza, com suas torres góticas perfurando o céu cinzento, imaginou masmorras, mãos sangrando na lavagem de roupa e lágrimas eternas. Só a última parte seria verdade.
Mulheres estranhas, teriam mais dinheiro que ela, mas a chamavam de senhora. Falavam um dialeto áspero quando a agarraram e esfregaram a pele até arrancar cada vestígio da sua terra natal. Encheram Klara com óleos de lavanda e camomila, queimaram seu vestido grosseiro, remendado, sua última lembrança da mãe, e a vestiram em linho e tecidos delicados. Ali, Klara descobriu que com paredes grossas e lareiras enormes, as roupas eram mais leves. Aqueles estranhos arrancaram Klara do seu próprio corpo e a trancafiaram em um aposento maior que sua casa.
Por três semanas, foi isolada. Por três semanas, rezou e chorou. Chorou pelos mortos, rezou pelo fim. Quando recusou comida, as criadas forçaram-na a se alimentar. Até que ele chegou. O carrasco de sua família, o demônio que a aprisionara. Segurou seu rosto com mãos frias de ferro. “Perfeita”, disse, com seu sotaque gutural.
Perfeita. Perfeitamente bela, perfeitamente sua. Perfeita para ser sua rainha, era isso que ele quis dizer. Um rosto à altura do seu.
Klara cuspiu nele.
Criadas e servos murmuraram, chocados. Mas o sorriso soberbo do rei não vacilou. Limpou o cuspe com sua mão enluvada por couro e viu nela uma chama a incendiar sua lanterna, ignorando que Klara não era uma chama da lareira, contida por grades, mas um incêndio florestal.
Nenhum sim saiu de seus lábios na cerimônia apressada, conduzida por um padre que desviava o olhar. O casamento seguiu. A crueldade do rei logo se mesclou a sua impaciência. Manchas roxas floresceram nos braços, nas costas, nas coxas de Klara – nunca no rosto. “Seu rosto é uma dádiva divina”, como o meu, dizia ele, “por isso não entendo por que não me agradecer pelas dádivas que dou a ti!”.
Por isso, um dia, ele trouxe um presente. Deixado sobre a penteadeira em seus aposentos. Com formato oval e quase meio metro de altura, um disco de bronze polido reluzia, incrustado com rubis sangrentos trazidos das terras distantes do Oriente. Na base de ébano, as palavras foram gravadas Para a Mais Bela de Todas. O reflexo deixou Klara aturdida.
Não conhecia a dama da corte que a encarava. Não conhecia a nobre pálida, sem marcas de sol, sem marcas de trabalho, vestida em sedas, com uma boca que esqueceu de como sorrir.
“Por isso, meu tesouro, eu a escolhi”, disse o rei, surgindo por trás dela como uma sombra venenosa, beijando-lhe o pescoço como uma víbora.
Nem o próprio rei saberia dizer se aquilo era uma ameaça ou um elogio. O presente desencadeou sua faísca. Amargura pura, ódio incontido, sufocaram o último suspiro de esperança no coração da jovem rainha. Olhou para o reflexo, não vendo beleza, mas o sangue de sua família, a lama de sua vida roubada, a prisão dourada.
Seus olhos se fecharam, com força.
“Não”, disse ele, segurando o queixo da consorte com aqueles mesmos dedos de aço gélido. “Olhe. Olhe e seja grata pelo que vê”
A boca da rainha tremeu, mas ela não disse nada. Não conseguia.
O rei se afastou, mas mantinha seu olhar nela pelo reflexo. “Você não vai sair daqui até sorrir para o que eu te dei”, ele disse, e sumiu.
Klara soltou o ar preso em seus pulmões, mas não se moveu. Procurou naquele reflexo alguma lembrança sua, mas não achou. Cada minuto após essa percepção cristalizava mais seu ódio e rancor até que as palavras finalmente se formaram.
“Que toda mulher forçada a este trono veja neste vidro não a beleza, mas o sangue que o sustenta. Que a vaidade que te trouxe até mim devore as que aqui se miram. Que este reflexo seja a prisão de suas mentes, como é a minha prisão. Até que o sangue inocente seja vingado!"
Foram suas últimas palavras.
E então ela riu. Não o sorriso de uma pombinha inocente, mas uma gargalhada histérica.
Um brilho sinistro, rubro como o sangue de seus irmãos, emanou das pedras incrustadas, solidificando sua maldição.
Klara não sabia voar. Mas sabia que não viveria mais um dia naquela gaiola dourada. Lançou-se contra os vitrais altos, levando consigo a jovem camponesa que um dia fora, mas deixando para trás sua fúria congelada no bronze e nos rubis.
O espelho sobreviveu. E a maldição de Klara, nascida da mais pura desesperança e sede de justiça pervertida, começou sua longa e sombria vigília, aguardando a próxima rainha forçada ao trono.
