Actions

Work Header

Minha presa preferida

Summary:

Você não sabia o motivo de estar tão interessado nisso, de estar tão curioso em saber sobre Hugo Vlad e quem ele realmente era. Sua caixa torácica queimou com uma sensação nostálgica, carregada com um pesar desagradável. Você não sabia o que era isso. Talvez, curiosidade? Ou a necessidade sufocante de provar que sempre esteve certo? Ou… só saudades? Isso era assustador.

Notes:

história escrita para doação da harumasa! obg pela capinha, amg <3

Chapter 1: 01. Mente vazia, oficina do diabo

Chapter Text

Era um estado espantoso. Você adorava o fato de estar certo, mesmo nas decisões mais surreais da sua vida, você sempre esteve certo. Mas, neste exato momento, havia uma confusão ocupando sua consciência, sua certeza e lucidez; correndo para se abrigar nas suas entranhas, assim contaminando tudo o que tocasse pela frente. Havia uma maré de dúvidas tentando rachar a imensa pedra que era você e suas convicções. Tudo isso causado pela descoberta recente que seus orbes presenciaram.

Você nunca foi de questionar sua própria intuição ou, ao menos, acreditar que o sobrenatural existisse. Porém, naquela terça, durante seus estudos para encerrar as provas com notas excelentes, você presenciou algo impossível.

Era natural que numa biblioteca você encontrasse documentos e artigos científicos sobre quaisquer assuntos, todavia, não era natural que esses documentos levassem a uma verdade absurda e difícil de mastigar. Talvez, no fundo do seu subconsciente, você sabia que a loucura e insônia finalmente o atingiram por completo. Manter-se acordado por longas horas não foi uma decisão sábia também — na verdade, isso sequer foi uma decisão sua. A faculdade quebrou o seu relógio mental, desamparando-o na montanha de tarefas que acabou crescendo cada vez mais. Mas, uma pessoa sã nunca iria acreditar que uma celebridade fosse uma criatura nada humana! Ou nunca seria encontrada nesse tipo de situação.

Você tinha um problema sério de acreditar numa bobagem dessa e ainda gastar o seu precioso tempo, que já era pouco, investigando a fundo o passado de Hugo Vlad. Você deveria focar nas suas tarefas acumuladas ao invés daquela página obsoleta que achou numa seção e livro qualquer.

Mas, a página parecia deteriorada com seu aspecto cinzento e amarronzado, desgastada e quase impossível de enxergar a numeração da folha; ela possuía uma foto que ainda era visível, apesar da imagem em tons de preto e branco e granulada — o que, de certo modo, apontava para uma notícia de décadas ou, no máximo, um século atrás. Seria um vexame não perceber essas coisas estando no quinto semestre da faculdade de jornalismo. Algumas letras nos parágrafos subsequentes ainda eram conspícuos, assim como o rosto principal na foto, que era impossível de não ser reconhecido. Pois, o rosto era belo demais, marcante nos traços que, particularmente, pareciam ser esculpidos por mãos etéreas; cabelos longos que foram escovados e repartidos no meio, e duas pintas abaixo do olho esquerdo, que davam um charme ao seu sorriso.

Não era possível que aquele homem, tão parecido com Hugo Vlad, fosse ele? Talvez, na sua árvore genealógica houvesse alguém que nasceu com a cara cuspida dele, que ele só fosse uma mera cópia de um parente passado. Contudo, acompanhado da imagem, o seu nome foi registrado na folha para agradecer uma doação daquela época, jogando um balde de água fria nesse pensamento. Existe alguma possibilidade de um ser humano viver tão saudável e com a aparência bem preservada por tanto tempo assim?

A resposta lógica e clara era que não.

A única resposta que invade sua cabeça — que se depara no limite total de pensamentos perspicazes e sãos pelas horas sem sono — foi que ele não era humano. Folheando cada página sobre a data marcada no papel quase acabado, você começou a repensar nos relatos que escutou dos seus colegas ou leu em qualquer canto nas redes sociais. Esses relatos eram naturalmente achados em qualquer canto da nossa tecnologia e revistas de fofocas, algo que as bibliotecas ainda conservavam numa seção específica e afastada. Ele era uma pessoa pública, então, era normal que ele não tivesse privacidade de ninguém e que ainda fosse exposto desse modo.

“As pessoas são horríveis mesmo”, sussurrou, possuindo um pouco de desdém na própria voz.

Apesar de estar sozinho, você ainda queria ser cauteloso; visto que, sem dúvidas, você seria repreendido ou até multado por andar sem autorização na biblioteca da cidade nesse horário. Maldita e azarada semana onde o gato da sua vizinha decidiu pular e derrubar o vaso de planta no seu falecido computador…

Não deu nem tempo para salvar o seu trabalho antes. Metade foi perdido no trágico acidente, sobrando só um bate-boca com sua vizinha e o seu gato enxerido. Foi um péssimo momento para perder aquele computador, dado que você era um procrastinador de primeira e que deixou seus trabalhos para a última semana de entrega. Só de lembrar disso o seu peito se encheu de amargura, trazendo uma carranca que pintou o seu rosto esgotado, enquanto lia o livro e vagava na linha de raciocínio.

Você não sabia o motivo de estar tão interessado nisso, de estar tão curioso em saber sobre Hugo Vlad e quem ele realmente era. Sua caixa torácica queimou com uma sensação nostálgica, carregada com um pesar desagradável. Você não sabia o que era isso. Talvez, curiosidade? Ou a necessidade sufocante de provar que sempre esteve certo? Ou… só saudades? Isso era assustador, assim como a dor de cabeça que se apossou de si.

Sua mão rapidamente largou o livro, parando aos lados da sua testa, onde a dor latejante atacou seus nervos. Neste exato momento, algo queria ocupar sua mente e acabar com tudo o que havia nela. Aquela agonia era familiar.

Uma luz ofuscou sua visão, pronta para derreter suas retinas sensíveis pela dor, juntamente com suas pálpebras escuras e pesadas pelas horas sem descanso. Você tentou ao máximo focar no que estava na sua frente, mas ao perceber o que e quem era, um medo se estampou no seu rosto, cortando o seu barato para, céus, seja lá o que diabos isso era para ser. Um aviso que sua mente tentou mandar através dessa dor horrível?

Tanto faz agora, isso era problema para o seu eu do futuro. Seu foco neste instante era como você ia responder o guarda furioso na sua frente, que apontava uma lanterna nada amigável para sua dor de cabeça e que, possivelmente, encontrou-o por conta do barulho que fez. Esperava que ele fosse paciente dessa vez e que não o segurasse na camisa de novo, mas ele estava pronto para chutar sua bela bunda para fora de lá, sem poder se explicar.