Work Text:
Eu juro que não entendo por que ele ainda me tira do eixo. Johnny Lawrence, mesmo nome, mesma jaqueta de couro surrada, mesmo olhar de quem está sempre prestes a fazer alguma merda e, claro, o mesmo jeito de me olhar como se eu fosse um problema que ele quer resolver no soco — ou talvez de outro jeito que ele nem tem coragem de admitir.
Eu tenho uma concessionária de carros, uma família, uma vida construída com disciplina. E mesmo assim, basta ele aparecer pra tudo isso se balançar. Talvez tenha começado no torneio de oitenta e quatro. Talvez antes, no corredor da escola, quando ele me empurrou pela primeira vez. O mundo viu rivalidade. Eu vi outra coisa. Algo que crescia entre nós, sem nome, escondido sob o cheiro de suor, adrenalina e orgulho.
Não é ódio. Não é só raiva. É como se ele fosse o espelho distorcido do que eu poderia ter sido. E eu não sei se quero quebrar esse espelho ou atravessá-lo.
Outro dia, ele apareceu no dojo. Veio "falar com a Sam", mas ficou tempo demais. Ficou me encarando. O olhar demorava mais do que o necessário. Eu vi, eu senti.
— Você ainda tá tentando me superar? — ele provocou.
— Não preciso superar o que já deixei pra trás — eu retruquei.
Mentira. Ele nunca ficou pra trás. Johnny Lawrence vive em alguma parte mal resolvida da minha cabeça e do meu corpo. O jeito como ele segura os ombros, o jeito como a voz dele fica rouca quando está irritado... é insuportável. É irritante. É... bonito. Caralho, é bonito. A gente se odeia porque não sabe lidar com o que sente. Porque é mais fácil dizer que é raiva do que admitir que, às vezes, eu sonho com ele. Sonhos que não envolvem luta ou, se envolvem, acabam de um jeito que nenhum torneio de karatê permitiria.
Uma noite, depois de umas cervejas a mais na garagem do Miyagi-Do, ele me perguntou, com a voz baixa:
— Você nunca se perguntou como seria se a gente tivesse se encontrado de outro jeito?
Eu ri, tentando disfarçar o arrepio.
— Sei lá. Talvez eu não teria levado um chute na cara.
— Talvez — ele disse. — Ou talvez... teria me beijado.
O silêncio que ficou depois disso foi pesado. Cortante. Mas eu não neguei.
Porque talvez seja isso: entre todos os socos e confrontos, o que sempre existiu foi um desejo mal disfarçado. Um laço que não se rompeu com o tempo. Que ficou ali, esperando. E agora eu não sei mais se quero lutar com ele... ou por ele.
O que me irrita é que ele fala essas coisas e age como se fosse só mais uma piada. Mais uma provocação entre tantas. Só que não é. Não daquela vez.
Depois daquela noite, eu fiquei pensando mais do que devia. A cada vez que ele passava no dojo, que nossos filhos se cruzavam, que as palavras entre nós ameaçavam virar briga de novo — era como se tudo aquilo estivesse pulsando por trás da fachada. Hoje ele veio de novo. O dojo estava vazio. Só eu, varrendo o tatame, fingindo que não ouvi o carro dele lá fora. Mas ouvi. Sempre ouço.
Ele entrou com aquele jeito largado. Jaqueta meio aberta, cabelo bagunçado pelo vento.
— Só vim devolver a faixa do Robby — ele disse, jogando no banco. Mas não foi embora. Ficou parado ali, olhando pro chão, como se esperasse alguma coisa.
— Obrigado — respondi seco. Continuei varrendo. A tensão entre nós era tão densa que dava pra cortar com uma katana.
Silêncio.
— Você ficou estranho desde a última vez — ele disse, finalmente. — Aquilo que eu falei...
— Não precisa repetir — eu cortei. Mas minha voz saiu mais baixa do que eu queria. Quase como um sussurro.
Ele deu dois passos em minha direção. O chão rangeu sob os pés dele, e cada passo parecia pesar mais que o anterior.
— E se eu não estiver brincando, Daniel?
Eu parei. A vassoura ainda na mão, os olhos no chão.
— A gente não é assim, Johnny. Nunca foi.
Ele riu. Um riso pequeno, amargo.
— Não? Então por que você nunca me deixou em paz? Por que ainda olha pra mim como se estivesse tentando entender o que eu sou pra você?
Levantei o olhar devagar. A raiva antiga subiu à tona, mas por baixo dela tinha outra coisa. Uma dor. Um medo. E algo que eu nunca tinha tido coragem de encarar de verdade.
— Porque eu também não sei.
Ele chegou mais perto. Agora estávamos a um braço de distância. O dojo estava escuro, só a luz baixa do pôr do sol atravessando as janelas de papel. A respiração dele era pesada. A minha também.
— Me dá uma chance — ele disse, quase sem som. — Uma chance sem socos. Sem dojo. Sem ninguém olhando.
Meu coração batia no ritmo de uma luta, mas não havia ameaça. Só... desejo antigo, confuso e real.
Deixei a vassoura cair no canto. E, pela primeira vez desde que a gente se conheceu, não me defendi.
A vassoura já estava no chão, esquecida no canto do dojo. O som do impacto leve contra a madeira foi a última coisa que eu escutei antes de tudo dentro de mim se calar. Johnny estava ali, parado diante de mim, com aquele olhar que eu tinha aprendido a odiar e que agora, de perto, parecia implorar por algo que eu também queria.
— Me dá uma chance — ele repetiu, mais baixo. Mais certo.
Não sei quem se moveu primeiro. Talvez tenha sido ele. Talvez tenha sido eu. Ou talvez não tenha importado. Só sei que, de repente, nossas bocas se encontraram como se o tempo inteiro tivesse nos empurrado pra esse momento.
Não foi um beijo calmo. Não foi doce. Foi urgente.
Anos de raiva, de tensão, de palavras não ditas se encontraram ali, no choque de lábios, nos dedos que agarraram com força meu rosto, como se ele quisesse se certificar de que eu era real. De que estava ali. Eu retribuí com a mesma fome, puxando a jaqueta dele pela gola, trazendo-o mais perto, sentindo o calor do corpo dele colar no meu.
Ele tinha gosto de cerveja e confusão. Eu tinha gosto de medo e desejo contido. Nossas respirações se misturaram entre um beijo e outro, e quando nossas bocas se separaram por um segundo, só pra respirar, ele encostou a testa na minha.
— Você não faz ideia do quanto eu pensei nisso, LaRusso — ele sussurrou, a voz rouca, trêmula.
— Eu pensei. E odiei ter pensado — respondi. — Mas agora...
Eu não terminei a frase. Em vez disso, empurrei-o com força leve até a parede do dojo, e o beijei de novo. Com mais vontade. Mais raiva. Mais verdade.
As mãos dele se perderam nas minhas costas, subindo pela camiseta, sentindo minha pele quente. As minhas seguravam firme na cintura dele, como se eu tivesse medo que esse momento escapasse. Não era só desejo. Era tudo o que a gente segurou por tempo demais.
Ele mordiscou meu lábio inferior. Eu gemi baixinho, contra a boca dele. O som fez os olhos dele escurecerem de um jeito que me arrepiou inteiro.
— A gente tá quebrando todas as regras agora, né? — ele disse, sorrindo torto.
— A gente nunca seguiu nenhuma — eu respondi.
E o beijei de novo.
Ali, entre as sombras do dojo, no mesmo lugar onde eu aprendi a me defender... pela primeira vez, eu me permiti ceder.
E Johnny Lawrence, me segurou como se nunca fosse me deixar cair.
