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O Idiota que Eu Odeio Amar

Summary:

Izuku Midoriya odeia tudo. Odeia os colegas de escola, odeia festas, odeia sorrir, odeia drama… e odeia, com fervor especial, Katsuki Bakugo — o explosivo e popular bad boy que parece viver para irritá-lo. Inteligente, sarcástico, antissocial e fechado para balanço emocional, Izuku se recusa até mesmo a pensar em romance.

Mas o destino (ou melhor, um acordo suspeito) tem outros planos.

Quando Shinso, um garoto quieto e misterioso que tem uma queda por Tsuyu, a irmã mais nova de Izuku, percebe que não poderá convidá-la para sair até que o "insuportável irmão mais velho" arrume um namorado, ele faz uma proposta ousada: pagar Katsuki para conquistar Izuku. Fácil, certo? Só que não.

Katsuki acha que vai ser só mais um jogo. Izuku acha que pode continuar odiando o mundo. Mas nenhum dos dois esperava por sentimentos reais. O que começa com ódio vira fogo. E o fogo? Bem… pode queimar ou iluminar.

Work Text:

O corredor do colégio parecia uma pista de obstáculos: mochilas jogadas, adolescentes gritando, celulares tocando e um leve cheiro de desodorante barato no ar. Era mais uma segunda-feira no Colégio UA, onde as reputações valiam mais que boletins e barcos se espalhavam mais rápido que o Wi-Fi.

Hitoshi Shinso andava com passos precisos entre o caos. Alto, sempre com o capuz puxado e uma expressão de tédio peculiar no rosto, parecia invisível para a maioria. Mas, para ele, só uma pessoa importanteva. Ou melhor, uma garota.

Tsuyu Midoriya.

Ela estava sentada no fundo do pátio, os fones no ouvido e o olhar perdido no céu nublado. Usava seu casaco verde favorito, o mesmo que Hitoshi sempre associava ao cheiro de menta e chuva. Ela era calma, direta, inteligente. E inacessível.

Ele respirou fundo, ensaiando mentalmente algo casual. Nada muito meloso. Talvez um "Oi, Tsuyu. Legal esse livro. Gosta de 'Crônicas Egípcias'?" Mas antes que você pudesse se aproximar, um aviso ecoou em sua mente: Izuku.

A muralha intransponível.

Izuku Midoriya — irmão mais velho de Tsuyu, quase 18 anos e dono de um olhar que podia congelar até lava. Ele não falava com ninguém. Tinha fama de gênio maluco, andava com um caderno de anotações para tudo e já tinha discutido com um professor sobre a “inutilidade do sistema educacional moderno”. Ninguém ousava chegar perto de Tsuyu sem antes receber uma olhada na morte de seu irmão superprotetor.

Shinso já tinha ouvido a regra clara da boca da própria garota:

— "Meu pai é rígido. Ele só deixa eu sair se meu irmão estiver namorando também. Boa sorte com isso."

Foi então que surgiu uma ideia. Maluca. Arriscada. Mas... possível.

___

— Isso é idiota — disse Katsuki Bakugo, jogado na cadeira ao fundo da sala. Estava com as pernas em cima da carteira, mascando chiclete com uma expressão que dizia claramente: "não me enche".

— É um favor — Shinso insistiu, com um tom tão calmo que chegava a irritar. — Bem pago, por sinal.

Katsuki arqueou uma sobrancelha, jogando a cabeça para o lado.

— Você quer que eu... namore o Midoriya?

Kirishima, que estava ali perto, começou a rir tanto.

— Cara... o Izuku? O nerd esquisito que odeia todo o mundo?

— Que você odeia especialmente — acrescentou Kaminari, se divertindo. — Ele te chama de “Cérebro de hamster” quando acha que ninguém está ouvindo.

— Que se foda o que ele me chama. —Katsuki bufou. — Eu só não entendi por que eu ?

Shinso deu de ombros, enfiando as mãos no bolso da jaqueta.

— Porque você não liga pro que os outros pensam. Porque não vai desistir fácil. Porque sabe lidar com gente difícil. E, convenhamos... tem aquela cara de delinquente sexy que deve confundir até o cérebro mais racional.

Katsuki riu. Uma risada seca, baixa, perigosa.

— Você está me chamando de irresistível?

— Estou dizendo que ele talvez odeie você menos do que odeia o resto do mundo.

Houve um momento de silêncio. Katsuki encarou o nada, tamborilando os dedos na mesa. Era idiota. Ridículo. E ainda assim… interessante. Izuku não era como os outros. Era refinado, direto, misterioso. E insuportavelmente bonito quando ficava irritado.

— Quanto você está oferecendo? — Katsuki disse, finalmente.

Shinsou engano.

— Razoável o suficiente para você ter gasolina pro resto do semestre. E talvez um tênis novo.

Katsuki ficou na língua.

— Eu quero grana e liberdade criativa.

— O que isso significa?

— Significa que eu vou conquistar ele do meu jeito. Nada de bilhetinhos fofos ou merda assim. Eu vou fazer ele me notar. Nem que seja eu odiando mais um pouco antes de me querer.

Kirishima abriu a boca, estou prestes a falar algo, mas Katsuki o calou com um olhar. O loiro se manifestou com um estalo de cadeira, enfiou as mãos no bolso e deu um meio sorriso torto — o tipo que fazia metade da escola suspirar e a outra metade rolar os olhos.

— Isso vai ser divertido.

___

Izuku estava sentado no chão do quarto, cercado por livros abertos, cadernos rabiscados e um gato preto dormindo em cima de um dicionário de latim. O pôster do filme O Clube dos Cinco decorava a parede ao lado de um quadro com as restrições rabiscadas de Nietzsche.

Ele ouvia The Cure no fone de ouvido enquanto escrevia algo em seu caderno. Sua expressão era dura, técnica. A raiva parecia uma camada permanente em sua pele.

A porta se abriu sem bater. Tsuyu espiou com cautela.

— Você vai fazer janta?

— Você sabe cozinhar — ele respondeu sem olhar.

— Sim, mas quando eu faço você reclamação do arroz.

— Porque você não sabe fazer arroz — ele rebateu, frio.

Ela revirou os olhos, entrou no quarto e deixou um travesseiro do chão, jogando nele.

— Você precisa sair, Izuku.

— Sair pra quê? Ser obrigado a sorrir num ambiente onde ninguém tem mais de dois neurônios? Não, obrigado.

Tsuyu se jogou na cama dele, olhando para o teto.

— Um dia, alguém vai fazer você parar de odiar o mundo, sabia?

— E eu vou odiar essa pessoa também — ele respondeu, sem hesitar.

___

Katsuki observava Izuku do outro lado do pátio. O garoto andava sozinho, os livros pressionados contra o peito, a cara fechada como sempre. Quando alguém tentou falar com ele, ele simplesmente ignorou e seguiu em frente.

Katsuki estalou o pescoço e caminhou até lá, os olhos fixos como se estivesse indo caçar. Kirishima e Kaminari ajudaram de longe, quase fazendo apostas.

—Midoriya! — ele chamou a atenção, alto o suficiente pro pátio inteiro ouvir.

Izuku parou. Virou-se devagar, como se esperasse uma piada de mau gosto. Quando viu Katsuki, estreitou os olhos.

-Bakugo. Não. Agora. — disse, entredentes, virando-se para ir embora.

— Não disse nada ainda — Katsuki respondeu, andando ao lado dele. — Tá com medo de gostar?

— Tenho medo de perder minha paciência e te enfiar esse livro onde o sol não bate.

— Sexy — Katsuki riu. — A gente devia sair algum dia.

Izuku parou. Encarou-o como se fosse um interesse.

— Você tá me zoando?

— Não. Tô te chamar pra sair.

— Prefiro engolir vidro.

Katsuki inveja uma mensagem.

— Isso é um talvez.

E com isso, foi embora.

Izuku ficou parado ali, os olhos arregalados, o coração batendo mais rápido — de raiva, com certeza. Só poderia ser raiva. E talvez… uma leve, muito leve curiosidade.

___

Na manhã seguinte chegou com o típico barulho estridente do sinal da escola e o murmúrio abafado das conversas no corredor. Izuku Midoriya estava encostado na parede perto da porta da sala 3-B, com a mochila em um ombro e o olhar distante, perdido em seus pensamentos que, naquela hora, eram apenas proporcionais e sarcasmo.

“Por que aquele idiota do Bakugo tem que me perseguir como se eu fosse um troféu que ele acabou de ganhar?” Pensei, cruzando os braços.

Ele não era o tipo que se importava com festas, popularidade ou qualquer drama adolescente barato. Izuku prefere passar seu tempo lendo, analisando, fazendo anotações sobre os hábitos alheios para um projeto secreto de sociologia. Mas agora, por algum motivo que ainda não compreendia, Katsuki Bakugo fez parte do seu dia de um jeito... desconfortável.

Katsuki apareceu de repente, como sempre — com aquela aura explosiva e o sorriso malicioso estampado no rosto.

— Ei, Midoriya! — chamou, tão alto que vários alunos olharam.

Izuku revirou os olhos e tentou ignorar, mas o moreno não parecia disposto a desistir tão fácil.

— A gente precisa conversar — ​​​​Katsuki contínuo, cruzando os braços, imponente.

Izuku suspirou, consciente de que, de novo, acabaria numa encrenca. Tentou se afastar, mas Katsuki foi mais rápido e bloqueou a passagem.

— Fala logo, qual é a tua? — Izuku falou, voz cortante, os olhos faiscando exigentes.

— Você vai sair comigo — respondeu Katsuki, direto, com aquele tom de quem está oferecendo um ultimato.

Izuku abriu a boca para protestar, mas antes que pudesse, Kirishima e Kaminari apareceram na cena, cercando o Bakugo como escudos leais.

— Relaxa, Midoriya! — Kirishima sorriu largo. — Vai ser divertido.

— Você vai gostar — Kaminari acrescentou, piscando para Izuku de um jeito desajeitado.

Izuku deu um passo para trás, sentindo o estômago embrulhar. Não era nem o fato do convite em si, mas a ideia de que tudo aquilo tinha sido orquestrado, que ele era o prêmio de um jogo que nem entendia direito.

— Eu não quero sair com vocês — resmungou, cruzando os braços. — Eu odeio festas, odeio barulho e odeio, especialmente, esse tipo de coisa idiota.

— Pois é exatamente por isso que vai ser interessante — Katsuki descontou, sorriso arqueado, aproximando-se o suficiente para que só Izuku pudesse ouvir — Você vai ver que eu não sou aquele idiota que você odeia. Se você tiver coragem.

Izuku arregalou os olhos, surpreso com a intensidade daquela voz tão próxima.

— Eu não sou covarde — respondeu, tentando não deixar a voz tremer.

— A gente vê — Katsuki murmurou, e deu as costas, desaparecendo no meio da multidão.

___

Naquela tarde, Izuku se concentrou no professor Aizawa, que explicou pacientemente um exercício de química, mas a presença invisível de Katsuki parecia grudar em sua pele. Era como se, mesmo sem querer, ele estivesse sempre ali, observando, esperando o momento certo para atacar.

Tsuyu, sua irmã mais nova, vive a mudança no irmão.

— Você tá estranho hoje — comentou, enquanto dividiam o caminho para casa.

— Eu tô sempre estranho — respondeu Izuku, franzindo a testa.

— Não, é diferente. É... Katsuki?

Izuku bufou, mas não respondeu.

— Cuidado com ele — contínuo Tsuyu, mais sério. — Ele sabe o que faz.

Izuku suspirou, balançando a cabeça.

— Eu não sou tão fraco assim.

___

No final da semana, Shinso entregou a Katsuki o dinheiro combinado. Katsuki não parecia nem um pouco arrependido de aceitar o trabalho. Para ele, era um desafio, uma distração e, claro, um ótimo investimento para o tênis novo que queria comprar.

O primeiro “encontro” foi marcado para o sábado, em um café próximo à escola, um lugar meio descolado, frequentado por adolescentes que queriam se sentir adultos.

Izuku chegou com seu habitual olhar sério e a mochila pesada, pronto para terminar o que perdeu ser um erro ridículo.

Katsuki, por outro lado, veste uma jaqueta de couro preta, o cabelo bagunçado de propósito, e o sorriso mais provocador que pode.

— Você está atrasado — reclamou Katsuki, ajeitando o capuz.

— Você que tá adiantado demais — retrucou Izuku, cruzando os braços.

Eles se enfrentaram, uma tensão quase palpável no ar, feita de desafios silenciosos e olhares que diziam muito mais do que palavras poderiam.

Durante o encontro, as provocações voavam como faíscas.

— Eu odeio café — Izuku resmungou quando o garçom trouxe um expresso.

— Eu sei. Por isso pedi chocolate quente — Katsuki respondeu com um sorriso torto.

Izuku murmurou um simples obrigado. 

E assim que o garçonete voltou, ele trouxe o chocolate quente de Izuku. E o mesmo não demorou pra tomar. Izuku queria algo para distrair a intensidade do olhar de Katsuki.

— Sabe, meus amigos vão dar uma festa e... — dizia Katsuki até Izuku interrompido 

— Para fora! 

— Vamos, é só uma festa — disse Katsuki sorrindo — Assim podemos passar mais um tempo juntos.

— Já estou fazendo bastante esforço só por ter vindo aqui, hoje — disse Izuku antes de dar um gole em seu chocolate quente.

— Assim me magoa... — Katsuki fingiu uma falsa tristeza em seu tom de voz

— Morre que passa — Izuku revirou os olhos.

— Achei que não fosse covarde — provocou Katsuki.

Izuku olhou para Katsuki como se fosse matá-lo a qualquer momento. 

— Você está realmente me irritando.

— Acho que isso deve significar que você vai na festa — invejoso Katsuki de forma provocativa.

A conversa oscilava entre trocas de farpas e momentos estranhamente sinceros.

Izuku, pela primeira vez em muito tempo, sentiu uma parte de si relaxar. Não seria possível admitir isso em voz alta.

E no fundo, Katsuki começou a perceber que talvez aquele nerd durão seria mais interessante — e mais atraente — do que qualquer aposta que já tivesse feito.

___

A noite estava abafada, típica do verão que começou a se anunciar, mesmo com o céu parcialmente encoberto por nuvens escuras. O ar carregado carregava uma mistura inconfundível de cheiro de grama molhada, fumaça de cigarro (proibido, mas sempre presente) e música pulsando no fundo, atravessando portas e janelas.

A casa onde a festa acontecia não era das maiores, mas estava lotada. Luzes coloridas piscavam na sala, garrafas vazias se amontoavam em cantos e risos, gritos e conversas se embaralhavam num ruído ensurdecedor que fazia o chão vibrar sob os pés.

Kaminari tinha organizado tudo com a diversão típica dele, garantindo que a lista de convidados fosse exatamente o tipo de gente que poderia tirar Izuku do seu caso. E, claro, Shinso e Katsuki estavam lá, esperando o momento certo para fazer seu plano funcionar.

Izuku entrou na casa como quem pisa numa armadilha. O olhar rígido vasculhava o ambiente em busca de uma rota de fuga.

— Eu não devia estar aqui — murmurou para si mesmo, enquanto evitava os olhares curiosos dos presentes.

Foi quando senti uma presença atrás dele, um perfume levemente adocicado misturado ao cheiro forte de suor e de colônia barata.

— Você não vai embora tão cedo, né? — a voz de Katsuki é perto do seu ouvido, rouca e cheia de provocação.

Izuku suportou os músculos, mas não virou para encarar. Sabia que, se isso fosse feito, não conseguiria controlar o que sentia.

— Que ótimo — respondeu seco, tentando soar indiferente.

Katsuki passou o braço pelo ombro dele, puxando-o para mais perto.

— Relaxa. Hoje a festa é minha arena.

Izuku queria puxar o braço, mas a mão dele era firme, segura, e havia algo no jeito que Katsuki o segurava que fazia o coração do garoto acelerar — e não só de nervoso.

O barulho da música parecia uma batalha de filhos dentro da cabeça de Izuku. A luz piscava, criando sombras e realces que tornavam tudo meio surreal.

Katsuki andava ao seu lado, quase grudado, falando coisas que Izuku escutava malva direito. O perfume, o calor, a proximidade — tudo começava a provocar uma mistura de medo e desejo.

Em determinado momento, Katsuki encostou a mão no braço de Izuku, num toque casual, mas que fez o garoto arrepiar da nuca aos pés.

— Tá tudo bem? — Katsuki disse com uma voz que, pela primeira vez, não era zombeteira.

Izuku queria responder “sim”, mas sua garganta parecia travada.

— Eu… tô bem — consegui dizer, olhando para o chão.

Katsuki inclinou-se e sussurrou:

— Eu posso te proteger aqui. Se você quiser.

Aquelas palavras, simples e inesperadas, mexeram com uma parte de Izuku que ele tentou esconder até de si mesmo. Era como se, pela primeira vez, ele pudesse baixar a guarda.

Eles chegaram perto da cozinha, onde o barulho diminuiu um pouco. A luz amarela, fraca, batia no rosto de Katsuki, deixando visível a umidade leve na testa e a intensidade do olhar.

Izuku respirou fundo, sentindo o cheiro de Katsuki invadir suas narinas. Quase consegui sentir o calor da pele dele contra a sua.

Katsuki deu um passo para frente, tão perto que Izuku pudesse ver cada detalhe de seus olhos âmbar.

— Quer sabre? — Katsuki disse, a voz rouca, cheia de uma promessa silenciosa — Eu estou cansado de brigar com você.

Izuku retira o olhar, paralisado.

Por um segundo, o mundo inteiro pareceu desacelerar.

Os lábios de Katsuki se moveram, lentamente, se aproximando. E, simplesmente beijou ele. Izuku fechou os olhos, sentindo o coração disparar, a pele formigar. 

As mãos de Katsuki foram parar na cintura do Izuku e rapidamente puxaram o garoto mais para perto. Izuku não estava no ponto de deixar levar aquele momento. Isso, até Katsuki divulgou o beijo com sua língua e Izuku afastá-lo com as mãos rapidamente.

— O que você pensa que é para sair beijando as pessoas? — falou Izuku com a voz transmitida de raiva.

Katsuki ficou atordoado por um momento.

— Eu... eu só pensei...— tentei dizer Katsuki.

— Pensei errado — disse Izuku se afastando ainda mais de Katsuki.

Katsuki não sabia direito o que estava sentindo, mas não queria que Izuku se afastasse. 

— Izuku — chamou Katsuki e Izuku olhou em sua direção — Esse beijou foi... — Katsuki expressou em palavras.

Mas, naquele instante, a porta da cozinha foi aberta com um estrondo, e Tsuyu entrou, interrompendo o que parecia ser o começo de algo impossível.

Katsuki se afastou, respirando fundo, o sorriso sarcástico voltando para seus lábios.

— Depois a gente termina essa conversa — murmurou, e saiu.

Izuku ficou parado ali, o corpo quente, a mente em turbilhão, a certeza incômoda de que, naquela noite em diante, nada seria igual.

___

O sinal da escola ecoou pelas paredes da UA com aquele som seco que avisava o fim das aulas e o início de uma batalha silenciosa.

Izuku Midoriya fechou seu caderno com um clique metálico e se preparou para enfrentar o que considerava seu pior pesadelo: trabalhar em dupla com Katsuki Bakugo.

Depois do beijo que rolou na festa, como forma de afastar Katsuki. Izuku Vivia discutindo com ele sempre que o outro tentava qualquer abordagem ou tentativa de puxar o assunto.

O professor Aizawa, com aquela cara cansada e olhos profundos, havia decidido que a única maneira de fazê-los parar de brigar seria forçá-los a uma parceria num projeto importante para a matéria de sociologia — que, ironicamente, tratava sobre relações humanas e convivência.

— Midoriya, Bakugo — Aizawa chamou, jogando as pastas em cima da mesa — Vocês vão trabalhar juntos no projeto sobre “Dinâmica de grupo e resolução de conflitos”.

Izuku engoliu em seco. Katsuki revirou os olhos, mas não disse nada, encarando o quadro-negro com uma mistura de tédio e desafio.

— Ótimo — continue o professor, jogando uma folha com as instruções na mesa deles — Quero um trabalho bem feito e uma apresentação em duas semanas. Sem brigas, sem desculpas.

Izuku e Katsuki trocaram um olhar que dizia claramente: “Isso vai ser um inferno”.

Eles marcaram de se encontrar no parque perto da escola, um lugar meio escondido, onde poderiam falar sem o barulho dos colegas.

Izuku chegou antes, sentado no banco, com o laptop aberto, anotações espalhadas e uma posturalhas. Quando Katsuki apareceu, com sua jaqueta preta e o olhar feroz, o ar pareceu pesar.

— Vamos logo — Katsuki falou, sem cerimônia, sentando no banco.

Izuku fechou o laptop com força.

— A gente precisa dividir as tarefas, se não vai dar tudo errado.

Katsuki bufou.

— Você que faz as anotações e escreve. Eu faço o que preciso, tipo uma apresentação.

— Ótimo. Eu vou planejar a parte teórica, você a prática.

Eles ficaram em silêncio por um instante, como se a simples proximidade já fosse um desafio. Izuku encarava o horizonte, evitando olhar para Katsuki, que parecia mais concentrado em mexer no celular do que no projeto.

Depois de algum tempo, Katsuki falou.

— Sabe... eu não sou tão ruim assim, não é?

Izuku o encarou, surpreso pela frase fora de contexto.

— Você só não faz questão de mostrar — respondeu, sem esconder o sarcasmo.

Katsuki riu, um som baixo, quase um desafio.

— Talvez eu só goste de ver como você fica irritado.

Izuku fez uma careta, mas não conseguiu evitar um sorriso.

— Isso é cruel.

— E você é idiota o suficiente para continuar aqui comigo.

Por um momento, eles riram, um som estranho para quem os conhecia como rivais eternos.

Enquanto discutiam ideias para a apresentação, Izuku viu algo diferente em Katsuki. O tom de voz estava menos agressivo, os gestos menos bruscos.

Katsuki, por sua vez, viu que Izuku não era apenas aquele “nerd durão” cheio de teorias e neuras. Ele tinha um olhar intenso, cheio de sentimentos guardados, que às vezes escapavam na forma de palavras afiadas.

Sem perceber, os dois foram se aproximando fisicamente. Um toque de mão para pegar o mesmo papel. Um esbarrão “acidental” quando tentamos olhar a mesma página.

Izuku sentiu o calor que subia pelo corpo, misturado com a intensidade habitual.

— Você tá suando — Katsuki comentou, numa mistura de provocação e preocupação.

Izuku tentou se afastar, mas Katsuki segurou seu braço.

— Relaxa. Não vou te morder. — O sorriso do moreno foi meio solicitado, meio sincero — Há não ser que gostaria disso.

O coração de Izuku acelerou.

— Eu não disse que ia gostar disso — respondeu, a voz mais baixa.

Quando o sol começou a se pôr, eles fecharam o computador e guardaram as coisas.

— A gente não é tão ruim em dupla — Katsuki admitiu, olhando nos olhos de Izuku.

— Eu também não achei que fosse aguentar você por tanto tempo — Izuku retrucou, com um sorriso torto.

Katsuki deu um passo mais perto, o rosto iluminado pela luz morna do entardecer.

— Talvez a gente precise de mais encontros como esse.

Izuku ficou em silêncio, sentindo o peito apertado.

— Talvez — murmurou.

Eles se despediram com um aceno seco, mas com a promessa silenciosa de que aquele projeto não seria só sobre sociologia.

____

A noite caiu lenta e preguiçosa sobre a cidade, espalhando um manto escuro que parecia esconder segredos e desejos. A luz da lua filtrava-se entre as folhas das árvores, projetando sombras dançantes no chão da pista de skate abandonada onde Katsuki havia marcado para encontrar Izuku.

Izuku chegou com o coração batendo acelerado, uma mistura inquietante de ansiedade, raiva e curiosidade o consumia por dentro. Não era um lugar comum para um “encontro”, mas Katsuki sempre gostou de fazer as coisas do seu jeito.

Ele encontrou Katsuki encostado no corrimão, o olhar fixo no horizonte iluminado pelos postes amarelados da rua.

— Você demorou — disse Katsuki sem virar para ele.

— Eu tive que fazer um esforço pra vir — Izuku respondeu, tentando esconder o nervosismo na voz.

Katsuki riu, um som rouco e baixo que fez Izuku arrepiar.

— Sabe, eu odeio como você é difícil.

Izuku lançou-lhe um olhar atravessado.

— E eu odeio sua cara.

Mas havia algo diferente na forma como Katsuki dizia isso. Menos provocação, mais sinceridade.

Eles se sentaram lado a lado na borda do corrimão, as pernas balançando no vazio. O silêncio entre eles não era desconfortável; era carregado de significados.

— Por que você me odeia tanto? — Katsuki disse de repente, o tom era quase uma sugestão.

Izuku respirou fundo, olhando para as mãos apoiadas no joelho.

— Porque eu odeio o mundo. E você é o mundo que eu não consigo evitar, em última análise.

Katsuki virou o rosto para encará-lo, os olhos vermelhos brilhando com uma intensidade inesperada.

— Eu sempre quis que você me visse como alguém mais que um badboy babaca.

Izuku feliz, um sorriso triste e pequeno.

— Eu nunca quis ver você como alguém tão importante. E prefiro assim.

Mas a verdade era outra. No fundo, havia uma atração que queimava com mais força do que a raiva.

Katsuki deu um passo mais perto, o calor do corpo dele era um convite silencioso que Izuku não conseguiu recusar.

— E se eu te mostrar que você está errado?

Izuku fechou os olhos quando os lábios de Katsuki se moveram devagar, colando-se nos seus. O beijo era tenso, carregado de todas as emoções reprimidas — raiva, desejo, medo, curiosidade.

O corpo de Izuku respondeu antes da mente, tremendo sob o toque firme e, ainda assim, cuidadoso. Katsuki lambeu os lábios de Izuku pedindo passagem. Izuku entreabriu os lábios quando suspirou e Katsuki se aproveitou disso para aprofundar o beijo e enfia sua língua na boca de Izuku, que por causa da intensidade do beijo se agarrou a Katsuki como se sua vida dependesse disso.

Quando se separaram, os olhos de Katsuki procuraram os dele, esperando um fato.

Izuku ficou em silêncio, o coração a mil, a respiração ofegante.

— Isso não muda nada — murmurou, tentando se afastar.

Mas Katsuki segurou sua mão.

— Só muda tudo.

Eles ficaram ali, presos num momento que deixaram eternos, sabendo que as barreiras estavam começando a cair.

___

Na manhã seguinte chegou cinzenta, como se o céu refletisse o peso que carregava no coração de Izuku Midoriya. Ele andava pelos corredores da UA com passos pesados, a cabeça cheia de pensamentos que se embaralhavam em um turbilhão difícil de controlar.

Katsuki Bakugo não estava lá para provocá-lo. Isso, por si só, já era estranho.

Tsuyu, a irmã mais nova de Izuku, notou o olhar distante do irmão e resolveu perguntar, mesmo sabendo que não teria uma resposta fácil.

— Você está bem? — ela disse, com a voz baixa e preocupada.

— Eu vou sobreviver — respondeu Izuku, evitando o olhar dela.

Mas no fundo, ele não sabia se sobreviveria à tempestade que estava prestes a se formar.

Foi Kaminari quem, sem querer, deixou escapar.

— Bakubrô tá apaixonado pelo visto — disse Kirishima.

— Cara, o Bakugo está fazendo isso só porque o Shinso pagou. Tipo, é tudo um plano! — disse ele, rindo, como se fosse a coisa mais engraçada do mundo.

Izuku parou no meio do corredor, o mundo girando ao redor. A sensação de traição queimava em suas veias.

Ele se trancou no banheiro, o ar abafado apertando o peito. As lágrimas ameaçaram cair, mas ele não deu esse luxo para si mesmo. Muito menos daria esse luxo para Bakugo.

— Então tudo foi uma mentira... — murmurou, a voz embargada.

No intervalo, Izuku decidiu enfrentar Katsuki.

— Por que você fez isso? — Disse, a voz cortante como lâmina. — Foi somente uma aposta?

Katsuki franziu o cenho, surpreso pela intensidade do olhar de Izuku.

— Eu... não sei o que você quer ouvir — respondeu, desviando o olhar por um instante.

— Queria ouvir que era mentira. Queria que fosse real. Que não fosse só uma aposta por dinheiro.

Katsuki engoliu em seco, tentando encontrar as palavras certas.

— Eu me divirto com você, Izuku. Isso é verdade. Mas a apósta... — ele hesitou, as palavras se perdem no ar.

Izuku deu um passo para trás, sentindo o chão se abrir sob seus pés.

— Então eu sou só um jogo pra você?

— Não. Você é muito mais complicado do que qualquer jogo — Katsuki confessou, os olhos ardendo com sinceridade.

A tensão explodiu como uma tempestade. Palavras afiadas foram trocadas, ferindo mais que qualquer soco. Izuku chamou Katsuki de babaca, o acusou de falso. Katsuki respondeu da boca pra fora no momento de raiva, que a culpa não era dele do Izuku ser tão ingênuo.

No fim, ficaram ali, frente a frente, a raiva consumindo o que ainda poderia ter sido carinho.

Tsuyu assistia de longe, com o coração apertado, sem saber como ajudar. Izuku saiu sem olhar para trás, os olhos ardendo com uma mistura de dor e confusão.

No quarto, Izuku encarou o teto, tentando juntar os pedaços do que sentia.

— Eu não sei o que eu sinto — sussurrou para o escuro.

E talvez, no fundo, ele não quisesse saber mais.

___

Choveu por dois dias seguidos.

O tipo de chuva fina, persistente, que não inunda nem alivia — só molha o mundo e o deixa cinza. E era exatamente assim que Izuku se sentia: encharcado por dentro, pesado por fora, como se cada passo carregasse litros de mágoas que ele se recusava a escoar.

Desde a descoberta da mentira, ele se fechou.

Ignorava mensagens. Passava pelos corredores como um fantasma. Parou de discutir com os professores — o que assustou Aizawa mais do que qualquer surto. Em casa, trancava-se no quarto e evitava até mesmo Tsuyu, que batia na porta vez ou outra com chá quente e olhos cheios de culpa silenciosa. 

No terceiro dia de silêncio, o professor Aizawa tinha que a turma escrevesse um pedido. Izuku enviou-se à escrivaninha. Folhas rabiscadas cobriram a superfície. Citações arriscadas, palavras cúspides com raiva, ideias inacabadas.

Então, respirando fundo, ele começou a escrever.

Quando chegou na escola no dia seguinte, sem que o professor pedisse. Izuku disse que iria ler o poema que ele fez. Aizawa deu espaço a ele em frente à sua mesa. E então Izuku começou a ler:

"O que eu odeio em você"

Eu odeio o jeito como você entra na sala e tudo gira em torno de você.
Ódeio o jeito como você sorri como se já tivesse ganhado.
Odeio o som da sua voz na minha cabeça quando eu tento dormir.

Eu odeio como você me entende com um olhar.
Como me irrita com uma palavra.
Como faz meu coração correr e minha mente trabalhar.

Odeio que você tenha me beijado como se eu importasse.
Odeio que tenha sido bom.
Odeio que eu quisesse mais.

Eu te odeio.
Mas odeio ainda mais o fato de que…

Eu não consigo te odiar de verdade.

Depois que leu, Izuku sentiu o peito apertar e, num gesto abrupto, rasgou a folha ao meio. Depois mais uma vez. É mais uma. Até que os pedaços estavam espalhados pelo chão, como se pudessem levar com eles os sentimentos que se recusavam a morrer.

Ele saiu da sala sem falar nada, somente com lagrimas nos olhos, a qual ele não queria que ninguém visse. Muito menos Bakugo, que durante toda a recitação do poema pareceu ter sido petrificado pelo choque que sentiu ao ouvir aquelas palavras.

___

Katsuki caminhava pelos corredores da escola com os punhos cerrados e o olhar sombrio. Desde o confronto, algo nele havia mudado. A arrogância ainda estava lá, mas agora misturada a uma inquietação crua, real. 

Ele decidiu o resto do dinheiro de Shinso. Jogou no armário dele com um bilhete:
"Se quiser pagar por uma idiota, procure outro."

Depois do poema de Izuku na sala, Katsuki realmente sentiu uma merda. Ele tinha vontade de se socar.

Os amigos estranharam. Kaminari começou a conversar. Kirishima disse se ele precisava de ajuda. Katsuki tirou todos. Tinha decidido que seria feito algo por Izuku, seria sozinho. Sem máscaras. Sem atalhos.

Naquela tarde, ele subiu ao palco vazio do auditório. O local estava escuro, silencioso, exceto pela chuva batendo no telhado de vidro. Ele andou até o centro do palco, olhou para as fileiras de cadeiras vazias e imaginou Izuku sentado ali.

— Você sempre odiou multidões — murmurou, os olhos fixos no fundo da sala — Mas talvez odeie ainda mais quando alguém mente pra você.

Ele respirou fundo, como quem se prepara para saltar de um penhasco.

— Eu sou um babaca. Eu aceitei dinheiro. Eu fui covarde. E você... — ele mordeu a língua, os olhos ardiam — Você foi a única pessoa que me fez querer ser melhor. Sem me pedir nada em troca.

Silêncio.

— Eu não tenho mais nada pra te oferecer. Só a verdade. Eu gosto de você, nerd. Com todo seu drama, suas frases complicadas e seu ódio do mundo. E se você nunca me desculpe... bem, eu mereço.

Katsuki ficou ali, parado, como se deixasse parte de si naquele lugar vazio.

O que Katsuki não sabia era que, no fundo da placa, na última fileira, Izuku estava ali.

Quieto.

Com o coração partido e as mãos apertadas no colo.

Ele ouviu tudo.

E senti algo dentro dele ceder — como um nó sendo desfeito. Mas ainda não era o momento do perdão. Ainda não.

Ele primeiro sente aquilo mais um pouco. Precisava deixar fazer antes de decidir. Mas naquele momento, mesmo que não admitisse, ele não odiava mais Katsuki.

Nem um pouco.

___

A escola estava mais barulhenta que o normal. Murmúrios corriam pelos corredores, cochichos entre alunos, celulares em punho. Algo já aconteceu. E todo mundo parecia saber — menos Izuku Midoriya.

Ele caminhava entre os alunos com os fones nos ouvidos e o cenho franzido. O mundo ao seu redor podia estar fervendo, mas dentro dele tudo ainda estava em ruínas silenciosas.

Ou quase tudo.

Porque desde a noite no auditório, alguma coisa dentro de si tremia. Não era raiva. Não mais. Era medo — do que sentia, do que ainda queria sentir.

Foi então que ouvi o nome.

“Bakugo… vai cantar?”

Izuku parou no meio do corredor.

Tirou os fones.

Olha em volta.

— O quê?

O auditório estava lotado. A turma inteira, professores, até gente da sala dos fundos apareceu. No centro do palco, sob um único foco de luz, estava Katsuki Bakugo . De jeans rasgados, camiseta preta e um microfone na mão.

— Isso vai ser uma merda — ele resmungou no microfone, e todos riram.

Mas Katsuki não sorri.

— Eu não canto. Eu não declamo. Eu não faço declarações públicas porque não sou idiota. Mas… — ele olhou diretamente para o fundo da sala, onde Izuku estava parado, congelado — tem coisas que a gente precisa fazer quando percebe que amar alguém não é fraco. É coragem.

Silêncio absoluto.

Katsuki investiu fundo. A base de uma música começou a tocar — lenta, crua, e ele começou a recitar um poema, não cantar, com a voz rouca e trêmula:

"Você me odeia, e eu mereço.
Você fugiu, e eu deixei.
Você chorou por minha culpa, e eu não impedi.

Mas eu voltei.
E dessa vez, não por dinheiro.
Nem por desafio.
Só por você.

Eu odeie. Eu bata.
Mas me escute."

Quando terminou, o silêncio foi maior que os aplausos. Porque a maioria não sabia o que estava acontecendo. Mas Izuku sabia. E isso bastava.

Ele saiu do auditório sem dizer uma palavra.

Mas Katsuki o seguiu.

A chuva caía fina do lado de fora da escola. Izuku estava parado perto do bicicletário, os olhos fixos no chão.

— Izuku — a voz veio de trás, abafada pela chuva.

Izuku não se virou.

— Você é insistente — disse, a voz firme.

— E você é cabeça-dura. Mas a gente combina assim.

Silêncio.

— Você mentiu pra mim — Izuku finalmente virou. Os olhos verdes estavam marejados.

— Eu sei.

— Você me usou.

— No começo… sim.

— E depois?

Katsuki deu um passo à frente. Depois outro. A chuva molhava seus cabelos, escorria pelas têmporas, encharcava a camiseta. Mas ele não ligava.

— Depois, eu me apaixonei por você. Mesmo quando você me odiava. Mesmo quando eu me odiava.

Izuku respirou fundo, lutando contra o que sentia.

Mas naquele instante, olhou para Katsuki e viu tudo: a verdade crua, a dor, o arrependimento. E algo mais. Algo que ele conhecia bem, porque era o mesmo que sentia.

Amor.

Izuku avançou de repente, segurou Katsuki pela gola da camiseta e o beijou com força.

Foi um beijo urgente, molhado pela chuva, carregado de todas as palavras que nunca foram ditas.

Quando se separaram, Izuku sussurrou:

— Eu te odeio por me fazer sentir isso.

Katsuki encostou a testa na dele, respirando ofegante.

— Eu também te odeio. Principalmente por estar completamente fodido por você.

E sorriram. Pela primeira vez em muito tempo, sorriram juntos.

Horas depois, o silêncio reinava no quarto de Izuku. Lá fora, a chuva batia suave contra a janela. A luz do abajur lançava um brilho dourado sobre os dois corpos sentados lado a lado na cama.

Katsuki tirou lentamente a camisa, revelando a pele molhada e os músculos tensos. Izuku o observava com os olhos arregalados, mas não recuava. Seu peito subia e descia rápido, os lábios entreabertos.

— Tem certeza? — Katsuki murmurou, a voz baixa, carregada de respeito e desejo.

Izuku assentiu, se aproximando. Tocou o peito de Katsuki com a ponta dos dedos, traçando o caminho da clavícula até o abdômen. Os toques eram leves, quase tímidos, mas cheios de intenção.

— Eu quero sentir você — sussurrou, quase sem voz.

Katsuki puxou-o com cuidado, deitando-o sobre os lençóis. Seus corpos se encaixavam como peças moldadas uma para a outra. As mãos exploravam com calma, como quem descobre um território sagrado.

Beijos suaves no pescoço, suspiros entrecortados. As respirações se misturavam enquanto roupas eram retiradas com cuidado, sem pressa. Cada toque, cada gesto, era uma entrega.

Izuku arfava sob o toque de Katsuki, os dedos enterrando-se nos lençóis enquanto a boca do outro explorava cada centímetro da sua pele com reverência. O prazer vinha devagar, denso, junto com a vulnerabilidade que nunca haviam compartilhado com ninguém.

— Olha pra mim — Katsuki pediu, a voz grave, quando Izuku desviou o olhar.

Izuku obedeceu.

E ali, com os olhos grudados, as peles quentes e os corações acelerados, fizeram amor. Sem máscaras. Sem provocações. Só eles — cheios de falhas, medo e paixão.

E quando terminaram, Izuku chorou em silêncio. Não de tristeza, mas de alívio. Pela primeira vez, ele havia deixado alguém entrar.

E Katsuki ficou. Abraçado a ele. Inteiro.

Sem precisar dizer mais nada.

___

O sol da manhã entrava preguiçoso pela janela do quarto de Izuku. A luz dourada batia em seus cabelos bagunçados enquanto ele se espreguiçava, ainda debaixo do lençol, nu. O cheiro de Katsuki ainda estava ali — na roupa amassada no chão, no travesseiro do lado esquerdo, e na pele dele.

Na mesa ao lado da cama, um caderno meio rasgado esperava. Era o mesmo onde Izuku tinha escrito e destruído o poema. Mas, naquela noite, ele havia reescrito tudo.

E agora, enquanto o quarto ainda guardava ecos do que haviam feito — os gemidos abafados, o suor na pele, os corpos colados —, Izuku pegou o papel dobrado com mãos trêmulas e leu.

Eu odeio como você me olha quando eu tô bravo,
Odeio como você sorri quando sabe que venceu.

Odeio o jeito como você finge que não se importa,
E odeio ainda mais quando você realmente se importa.

Odeio que você saiba exatamente o que dizer pra me deixar louco.
E odeio o fato de que eu quero que você diga.

Eu odeio o seu cheiro, porque agora ele tá grudado na minha cama.
Odeio seu toque, porque agora é o único que eu quero.

Eu odeio você, Katsuki Bakugo.

Mas eu amo te odiar.

E talvez...

Talvez eu só ame você mesmo.

Izuku suspirou, dobrando o papel com cuidado. Deixou-o sobre a mesa, como se fosse uma confissão deixada para o universo.

E então ouviu a batida na janela.

— Nerd — rosnou a voz do outro lado — Abre essa merda antes que eu quebre.

Izuku sorriu. Puxou o zíper da cortina e deu de cara com Katsuki Bakugo, descabelado, com uma jaqueta jeans aberta sobre uma camiseta cinza amassada, e um papel amassado na mão.

— Eu li seu novo poema. Isso é pra você, nerd — ele jogou o papel para dentro.

Izuku pegou o bilhete e desdobrou.

“SEU POEMA É UMA MERDA.
Mas é a sua merda, e eu AMO essa porra.

Odeio que você chore com raiva.
Odeio que me faça querer ser gentil.

Odeio quando você me beija como se não existisse mais nada no mundo.

Odeio que, agora, eu precise disso.

E foda-se.

Eu te amo, nerd dramático.
Não vou repetir. Tá escrito aqui. Já é demais pra mim.”

Izuku encostou o bilhete no peito e riu. Chorando. De leve. Rindo com lágrimas. Porque era isso que eles eram.

Confusão e alívio.
Dor e desejo.
Grito e silêncio.

Mas reais.

Depois que Katsuki entrou pela janela, empurrou Izuku na cama com a força que só ele sabia dosar, e disse:

— Hoje eu te beijo até você parar de pensar.

Izuku não reclamou.

Eles se despiram com familiaridade. Não houve pressa. As mãos se reconheciam. Os toques suaves percorriam a pele com precisão de quem decorou um mapa íntimo.

— Eu ainda te odeio — Izuku murmurou, entre suspiros.

— Continua repetindo isso, enquanto eu te fodo. — Katsuki respondeu, com a voz rouca e quente na nuca dele.

E Izuku obedeceu. Com um sorriso.
Porque às vezes, amar alguém doía.
Mas às vezes, só… faz sentido.

 

"A gente não é perfeito.
A gente briga, se empurra, grita.
Mas a forma como você me toca...
Me cala.
Me prende.
Me salva.

Eu odeio você.

Mas te amar é a coisa mais real que eu já fiz.”