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Aquele com quem eu quero conversar

Summary:

Um anjo feito de silêncio e um demônio feito de caos encontram, entre céu e mar, uma forma de conversar. No começo, eram só olhares. Depois, vieram os ventos, as estrelas, os cometas, os terremotos. Milênios incontáveis até o primeiro gesto real — e quando ele veio, nem o fim do mundo conseguiu calar.

Notes:

(See the end of the work for notes.)

Work Text:

Baekhyun pertencia a uma casta considerada a mais antiga de todas. Antes até dos Arcanjos. O Criador os havia feito como guardiões de tudo e de nada — daquilo que já aconteceu e daquilo que ainda poderia acontecer, como uma biblioteca sagrada de conhecimentos, fatos, histórias. Os Eo não empunhavam espadas flamejantes, não cantavam louvores, não curavam feridas nem anunciavam destinos. Eles eram o Livro de Deus. Memória encarnada. Registro vivo de cada dobra do tempo e cada curva da Criação — e até antes dela.

Imóveis. Silenciosos. Um corpo que não era forma, mas poder concentrado no complexo ato de estar. Uma presença absoluta, inalterável, que observava sem se intrometer, catalogava sem julgar. Observadores perpétuos do movimento da existência, como pilares invisíveis sustentando o equilíbrio de um mundo que não sabiam por que existia. Superiores. Intocáveis.

Baekhyun deveria, como os outros dos seus, manter os olhos voltados para as estrelas. Acompanhar o giro das galáxias, traçar as rotas dos astros maiores, mapear as pulsações do universo e documentar em sua memória etérea o esticar lento e contínuo do tecido negro que abarcava toda a Criação como um invólucro de silêncio, vácuo e frio. Era isso o que se esperava de um Eo: atenção constante, imparcialidade eterna.

Mas ele olhou para baixo. Para a Terra.

Olhou uma única vez, no começo dos tempos, quando a Terra era apenas uma ideia sussurrada no pensamento do Pai. Ainda não havia forma ou nome, mas já existia uma centelha que fugia ao controle do alto — e foi nela que Baekhyun se fixou. No início, era só curiosidade. As formas de vida que brotavam com cada gesto d’Ele, a mecânica delicada de nascimento e morte, os seres que construíam com uma mão e destruíam com a outra, que adoravam de maneiras ruidosas e incompreensíveis. Havia ali um caos que não se encaixava em nenhum registro, nenhuma ordem celeste.

Mais ainda: havia desejo.

Viu como se alimentavam de outras formas de vida, às vezes por necessidade, mas muitas vezes por prazer. Por impulso. Por um instinto que o anjo não conseguia catalogar. E aquilo — aquele erro embutido no projeto — lhe pareceu, acima de tudo, interessante.

Foi no limiar da aurora da criação mais recente — o homem — que Baekhyun notou que não era o único a observar. Havia outro olhar. Não vindo de cima, como os seus pares, mas de baixo. De um lugar que não deveria conter vida nem consciência.

Um par de olhos vermelhos. Ardendo no escuro, como carvões acesos dentro de uma rachadura que nem o mundo recém-nascido estava preparado para conter. Uma fissura geológica que não existia nos mapas divinos. Um erro de origem, como se o próprio planeta tivesse se aberto em protesto. E do fundo daquela fenda, Baekhyun sentiu. A presença era forte. Fixa. E olhava diretamente para ele.

Era um demônio.

Desviou. Como devia.

Não precisou confirmar. O cheiro de enxofre era nítido, mesmo à distância — e não o cheiro vulgar da mitologia humana, mas aquele odor pesado que carregava lembrança, ruína e condenação. Segundo os registros sagrados — que ele mesmo escrevera, em parte — aquele cheiro deveria provocar repulsa. Nojo. Aversão.

Mas não foi isso que sentiu.

O que preencheu sua presença etérea foi… curiosidade.

Achou, no começo, que fosse coincidência. Um demônio qualquer, preso em alguma camada inferior, olhando por acidente para o alto. Não deveria dar atenção. Tinha certeza de que, ao piscar, os olhos sumiriam.

Mas os anos passaram. Literalmente.

A história dos homens começou a desenrolar-se. A expulsão dos primeiros dois selou o fim da inocência. A morte entrou na Criação, e com ela o medo, a escolha, o erro. Civilizações nasceram em barro e sangue. Os primeiros idiomas surgiram, os primeiros acordos foram quebrados. E as águas — aquelas águas — cobriram a Terra como se o próprio céu chorasse por cima do que fora feito.

E os olhos vermelhos continuavam lá.

Baekhyun olhava. E era olhado de volta.

Sempre no mesmo ponto. Sem desvio.

Às vezes, o demônio fazia uma careta — uma zombaria muda. Outras, sorria de um jeito que parecia errado. Mas na maior parte do tempo, apenas… olhava.

Foi em um misto de desafio — pela ousadia daquele ser inferior — e de uma crescente e silenciosa fascinação, que Baekhyun começou a sustentar aquele olhar por mais tempo do que deveria. Ninguém percebeu. Talvez porque ninguém ousasse imaginar que um Eo olhava para baixo.

E a cada nova década, a estranheza daquela troca se tornava menor.

Em algum ponto, em meados do segundo século da era dos homens, o que era curiosidade tornou-se expectativa. E, como se desafiasse a si mesmo, Baekhyun decidiu não olhar. Um teste. Um autoexílio. Um castigo — mesmo que não houvesse pecado.

Durou exatos quarenta e oito anos terrestres.

E então ele cedeu.

Olhou para baixo.

Os olhos vermelhos estavam lá. Inamovíveis. Incômodos. Reais. Mas havia algo mais: um leve movimento. Um gesto. Quase um aceno.

Um cumprimento — tão silencioso quanto ousado — entre dois que nunca deveriam ter se cruzado.

Baekhyun não sabia o nome daquele ser. Nem a hierarquia demoníaca que ocupava. Mas sabia, com a mesma certeza com que sabia contar os séculos, que enquanto ele olhasse para a Terra, aquele demônio estaria lá.

Olhando de volta.


Chanyeol não era feito para fixar-se em nada. Não em tempo, nem em forma, muito menos em pensamento. A essência demoníaca que o sustentava — se é que se podia chamar aquilo de essência — era mutável, viva em seu caos, moldada por rupturas. Havia se formado do colapso, não da ordem, e por isso jamais se acostumara à estabilidade. No Inferno, estabilidade era uma blasfêmia. Tudo se movia: as paredes, as regras, os nomes. Nada era fixo nem duradouro — sequer o próprio tempo, que por lá se contorcia como serpente sem coluna, feito mais de intenção do que de linha.

E ainda assim, ele se fixou no anjo.

Não sabia o nome. Não sabia se era um dos muitos que carregavam espadas feitas de fogo tremeluzente, ou se era da casta superior, aqueles que jamais tocavam coisa alguma. Mas a quietude o denunciava. A ausência de movimento naquele ser era tão intensa que provocava desconforto físico até nele, que não era corpo. Uma pureza tão impassível que feria. Era como olhar para algo que não deveria ser visto. Um vazio limpo, ofuscante, insuportavelmente inteiro.

Chanyeol o viu pela primeira vez num entretempo qualquer. Estava à beira de uma fissura, sentado em um bloco de rocha que rangia contra a lava viva, como fazia às vezes quando desejava esquecer o peso do submundo. Ali, no silêncio que só existe entre gritos muito distantes, ele olhou para cima — por puro tédio, talvez — e viu. Uma presença estática, suspensa no alto como uma marca no céu. Não se movia, não oscilava, não piscava. Mas o via.

Pensou que fosse uma falha de percepção. O Inferno distorce tudo. Luz, forma, sanidade. Nos primeiros anos, convenceu-se de que era imaginação. Mas o olhar permanecia. Toda vez que erguia os olhos em determinada direção, lá estava ele. A mesma forma. O mesmo silêncio. Os mesmos olhos frios, firmes. E inegavelmente atentos.

Tentou não responder. Tentou desviar, romper o padrão, fingir desinteresse. Mas quanto mais evitava, mais aquele olhar o cercava. Não fisicamente — ele sabia que não podia ser cercado por um anjo. Mas havia algo ali. Algo que o chamava. Não era beleza, apesar de que aquele ser tinha, sim, uma beleza que beirava o indecente, daquelas que doem se olhadas por tempo demais. Era outra coisa. Era… presença. Existência pura. E a sensação de que, em todo o universo, só aquele olhar o reconhecia.

Com o tempo, percebeu que o anjo não estava simplesmente olhando. Estava olhando para ele.

E aquilo, para um demônio, era insuportável.

E fascinante.

Chanyeol conhecia os anjos. Os havia visto na Queda, quando o céu se rasgou e ele foi cuspido do Alto com milhares de outros. Muitos o olharam enquanto caía. Alguns com pena. Outros com indiferença. Nenhum com raiva. Mas todos, sem exceção, escolheram o silêncio. Gentis o suficiente para ignorarem sua existência dali em diante.

Mas aquele ali não fingia.

Não desviava. Não o apagava com desdém celestial.

E Chanyeol, que nunca tivera sua existência realmente vista, decidiu tentar o impensável.

Acenar.

O gesto mais banal entre os humanos — levantar uma mão e dizer “olá” — era, para ele, um ato de desequilíbrio estrutural. Ser feito de pulsação, ele precisou conter e concentrar sua energia até o ponto da ruptura. Um gesto que não podia ser físico, não como os mortais compreendiam. Então usou o que tinha.

Manipulou vento.

Soprou uma corrente das profundezas do oceano, canalizou fúria, impulso e intenção em um só movimento atmosférico. O resultado foi um tufão. Forte, destrutivo em potencial, mas não letal. Derrubou árvores, arrancou telhados, provocou pânico. Mas ninguém morreu. Não era esse o objetivo.

Ele apenas… acenou.

E, pela primeira vez desde o princípio da criação, viu o anjo reagir.

Os olhos etéreos se arregalaram sutilmente. As sobrancelhas, até então imóveis, se contraíram. E então — por um instante que não durou mais do que o tempo entre duas batidas de um coração humano — a boca curvou-se em um gesto mínimo.

Um quase-sorriso.

Para um demônio, aquilo foi mais que uma resposta. Foi um reconhecimento. Um contato não dito. Uma carta escrita em silêncio. E foi o suficiente para Chanyeol entender que queria mais.


Séculos passaram como poeira estelar. Tantas eras se arrastaram sob o olhar de Baekhyun que deixaram de ser reconhecidas por nome ou número, dissolvendo-se no tecido imaterial da sua existência. O tempo, para ele, não era feito de instantes sucessivos, mas de estados. Ele era presença que observa, não calendário que mede. A Terra, porém, girava. Pulsava. Seguia seu curso apressado, onde milênios nasciam e morriam como fagulhas, e a espécie humana — cada vez mais barulhenta, complexa e desavisada — se multiplicava sobre um chão que ele conhecia bem. E entre tudo aquilo, havia uma constante: o demônio ainda estava lá. Firme no mesmo lugar. Como se seu corpo tivesse se fundido àquela fenda onde o Inferno tocava a crosta, preso por vontade própria, desafiando o mundo inteiro a notá-lo.

Mas ele já não apenas olhava. Era mais do que um ponto fixo de olhos vermelhos. Ele se expressava com os elementos. Baekhyun passou a notar que os ventos já não se moviam com aleatoriedade pura. As marés subiam e desciam em ritmos quase estudados. A própria crosta da Terra tremia em pontos precisos, quase em padrões. Não era o acaso. Não era uma catástrofe infernal. Era um gesto. Uma intenção repetida. Uma linguagem. Como se a Terra, moldada pelas mãos daquele demônio, estivesse sendo usada como superfície para uma única mensagem: “Estou aqui.”

Baekhyun resistiu. Por séculos e séculos, resistiu. Ele era da casta Eo. E os Eo não respondiam. Foram criados para vigiar, para registrar. Para ser testemunha e jamais agente. Mas em algum ponto — e ele não saberia dizer exatamente quando — algo dentro dele se deslocou. Talvez tenha sido na curva de um sistema solar distante, nascido do colapso de uma nuvem gasosa de metais antigos. Ou talvez durante a explosão silenciosa de uma supernova esquecida. O universo era vasto, e ele o havia visto em todas as formas possíveis. E foi justamente nesse intervalo entre o tudo e o nada que Baekhyun… riu.

Não um riso audível, não uma quebra do silêncio celestial, mas uma rachadura leve na sua estrutura interna. Uma curva invisível na impassibilidade do seu ser. Um traço de vontade. Algo que dizia: eu quero. E o que ele queria, ainda que não soubesse nomear, era responder. Não por desafio, mas por companhia. Por um impulso novo que se infiltrava devagar, como os humanos chamavam de hábito — e que ele começou a compreender.

A primeira resposta foi tímida, embora tecnicamente grandiosa. Um cometa, que percorria sua rota prevista há milênios, foi gentilmente empurrado com um toque de força. A cauda, antes reta, se curvou num arco tênue. Não o suficiente para alterar sua órbita, mas bastante para parecer um sorriso suspenso no céu noturno. Poucos humanos notaram. Um ou dois registraram a anomalia com notas técnicas demais para o seu conhecimento rudimentar. Mas Baekhyun não pensava neles. Aquilo era para alguém que esperava — e o demônio viu.

A resposta veio dias depois, ainda que os dias fossem irrelevantes para eles. Um tornado ergueu-se numa planície esquecida e deixou, ao recuar, um círculo perfeitamente traçado na vegetação. Não era destrutivo. Era um gesto. Um “olá”. Baekhyun reconheceu de imediato. E então, pela primeira vez, pensou algo que jamais deveria ter ocorrido dentro de um Eo: isso é divertido.

E como toda descoberta sagrada, veio com uma segunda tentativa. Um eclipse. Era para durar pouco mais de quatro minutos, como previsto pelos cálculos terrestres. Mas a sombra hesitou. Estendeu-se, demorou-se. A noite artificial prolongou-se por sete minutos e treze segundos. O mundo entrou em pânico — um erro de previsão astronômica. Mas Baekhyun não erra. A hesitação foi intencional. Era provocação.

Ele viu que o demônio entendeu.

Nos dias que se seguiram — ou nos séculos, a depender da perspectiva — o anjo passou a utilizar os céus com mais ousadia. Pintou auroras boreais com traços suaves. Verde, lilás, azul petróleo. Dançavam sobre o hemisfério norte com uma graça que não era aleatória. Em uma vila escandinava, um homem embriagado caiu de joelhos na neve e chorou. Disse que o céu havia sorrido. Disse que tinha visto um rosto entre as cores. E, por uma vez, estava certo.

O que veio depois foi inevitável. Baekhyun começou a mudar; quando se habita uma rotina de interação por tempo suficiente, mesmo o eterno se molda.

A ausência de forma deu espaço a um contorno. Os contornos deram espaço a membros. Braços que se dobravam nas extremidades do firmamento para olhar mais de perto. Pernas que se dobravam no vazio com naturalidade desconcertante. Um corpo. Um rosto. E olhos que, pela primeira vez, reagiam fisicamente. Que se apertavam sutilmente quando as correntes de ar lá embaixo vinham mais rápidas. Como se os vendavais provocassem, no íntimo, alguma espécie de prazer.

Com o tempo, Baekhyun criou mãos. Não para tocar. Ainda não. Mas para gesticular. Para intervir. Para acenar. E com esses dedos recém-formados, ele moveu estrelas. Não muitas. Só o suficiente para quebrar um padrão de brilho. Um piscar anormal em sequência. Uma dança breve e meticulosa.

Na Terra, os homens registraram como chuva de meteoros. Outros, como a vontade de Deus se manifestando em combustão. Mas nenhum deles estava certo. Porque não era uma chuva.

Era um gesto.


Com o tempo, Chanyeol começou a se perguntar se aquilo era tudo o que teria. Os olhares trocados. As marés respondidas por luz. As tempestades provocadas só para ver o céu piscar de volta. Era suficiente? A princípio, sim. Por séculos incontáveis, bastou. Aquilo era mais do que qualquer demônio jamais tivera. Um olhar fixo. Um reconhecimento mudo. Um sorriso possível, mesmo que o céu jamais sorrisse por completo. Mas os séculos seguiram. Os impérios humanos que haviam se erguido com fogo e pedra já não existiam. Seus templos caíram. Suas línguas foram apagadas pela poeira dos desertos que eles próprios criaram. E, ainda assim, aquele anjo estava lá.

Olhava. Respondia. E em algum ponto entre uma tempestade marítima de verão e um terremoto leve no sul da península itálica — um daqueles que apenas racham as paredes das casas e inquietam os animais — Chanyeol decidiu que precisava saber quem ele era.

Não por vaidade. Vaidade ele conhecia bem. Mas aquilo era diferente. Era necessidade. Nomear, no Inferno, era um ato perigoso. No Céu, era um ato criador. No meio — nesse espaço entre um e outro, onde ele e o anjo flutuavam — nomear era um gesto de revelação. Dar-se a conhecer era um risco. E, mesmo assim, ele quis. Porque aquilo que crescia entre os dois — aquela constância de presença e gesto, de troca e silêncio — merecia ter forma.

Não foi fácil. Mesmo para alguém cuja essência era moldar caos, alterar a matéria ao gosto, torcer as regras da criação como se fossem fitas, a tarefa era complexa. O mundo precisava continuar parecendo mundo, mesmo quando se tornava linguagem. E para isso, ele começou a treinar. Manipulava areia soprada pelo deserto até formar letras que duravam milésimos de segundos. Usava sombras das montanhas ao entardecer para esculpir formas contra o céu. Espalhava prédios em linhas específicas nas cidades que emergiam e decaíam, esperando que o padrão fosse visível apenas de longe. Não de perto. Nunca de perto. Porque o gesto era íntimo demais.

Foi lento. Demorado mesmo para alguém que não vivia segundo o tempo. As primeiras grandes guerras dos homens aconteceram enquanto ele ainda esboçava as primeiras letras. Povos desapareceram antes que ele alcançasse a metade. O nascimento sagrado do dito Messias foi anunciado numa vila esquecida enquanto ele desenhava a penúltima curva de seu próprio nome. E o nome, quando enfim ficou completo — torto, fragmentado, mas inteiro o suficiente para ser lido — foi posto numa cadeia de montanhas. Espalhado em pedra viva.

C H A N Y E O L.

Demorou mais de uma década humana para completar o último “L”. E quando terminou, ele esperou. Não sabia bem o que esperava. Um sinal? Uma reprovação? Um silêncio? Ansiedade não era uma emoção que lhe pertencia — mas algo próximo disso lhe apertava as entranhas que Chanyeol não tinha.

A resposta veio três dias depois.

Uma nuvem.

Grossa. Branca demais. Estúpida, até. Flutuando devagar por cima do Oceano Índico, com um formato incerto e francamente bobo. Chanyeol olhou para aquilo e franziu o cenho — se é que demônios franzem alguma coisa. Parecia… um camelo. Ou um boi. Talvez um carneiro malformado. Duas corcovas, orelhas desproporcionais. Uma aberração atmosférica. Ou uma piada. Era uma piada?

Piscou.

A nuvem voltou no dia seguinte.

Igual.

E no seguinte.

E no outro.

Por décadas, talvez. Os humanos a ignoraram ou interpretaram como sinal agrícola. Mas ele sabia. Aquilo era um recado. Um jogo. E, com o tempo, o formato foi mudando suavemente, como se esculpido com mais cuidado a cada novo ciclo. As curvas se refinavam. As proporções se ajeitavam. E em uma noite particularmente límpida, em que o céu parecia conter menos estrelas só para não distrair o olhar, ele percebeu: não era um camelo.

Era uma figura. Um rosto. Uma silhueta. A forma do anjo começava a surgir. Um corpo moldado em vapor d’água. E Chanyeol riu.

Mas o céu ainda não havia terminado.

Uma constelação nova surgiu. Piscava com timidez, como se o próprio firmamento hesitasse em exibir algo tão direto. As estrelas não estavam onde costumavam estar. Uma delas mudou de posição por alguns graus. Outra brilhou menos do que devia. Era sutil. Mas ele entendeu.

B A E K H Y U N.

O nome do anjo era Baekhyun.

E aquilo foi demais.

O riso que escapou de dentro dele não era o som demoníaco que costumava ecoar nas cavernas do Inferno. Era outra coisa. Um riso que misturava espanto e alívio, medo e prazer. Uma resposta quente à revelação de que sim — o anjo queria ser visto.

E o mundo reagiu porque Chanyeol reagiu.

O riso abriu uma fenda na crosta terrestre. Uma falha tectônica discreta, mas real. A pressão acumulada ao longo de milênios encontrou vazão. A lava subiu. Uma montanha antiga no Pacífico tremeu, rompeu, cuspiu fogo. Uma erupção. Não tão letal. Mas profunda.

E ele aproveitou.

Desenhou com lava.

Uma linha. Depois outra. A rocha incandescente serviu como tinta para o gesto final: uma frase completa.

“Desculpa por isso.”

Porque rir — para alguém como ele — era sempre perigoso. Rir significava largar a armadura. Significava permitir. E, talvez, ainda que não soubesse nomear com certeza, estivesse começando a sentir algo que nem os demônios, nem os celestes, reconheciam por completo.


Com o tempo, os acenos deixaram de ser apenas acenos. O que antes era gesto isolado — um tufão aqui, uma constelação alterada ali — passou a acontecer com frequência, e depois com cadência. Primeiro o ritmo, depois o padrão. E quando há padrão, há linguagem. Não foi intencional, não foi arquitetado. Não houve pacto, nem decisão clara. Mas aconteceu. A troca, que já durava milênios, começou a adquirir forma. Começou, como tudo entre eles, devagar. Torto. Com falhas frequentes. Tentativas tímidas, hesitações não declaradas, pausas longas entre uma mensagem e outra, como se o próprio tempo hesitasse em assistir.

Chanyeol iniciava. Era quase sempre ele. Usava o mar como meio — moldava correntes marítimas, agitava a superfície com variações milimétricas. Mandava três ondas em sequência. Duas pequenas, uma maior no fim. Esperava. E Baekhyun, com o céu inteiro à sua disposição, respondia. Três estrelas piscavam em padrão inverso. Não era coincidência. Não podia ser. A partir dali, passaram eras testando os próprios limites. Baekhyun criava um brilho isolado numa parte do céu onde não devia haver nada — uma estrela que surgia por uma única noite. Chanyeol respondia com uma ondulação circular, tão simétrica que os humanos a confundiam com explosões sísmicas não registradas.

Durante muito tempo, tudo foi erro. Sinais trocados, silêncios prolongados, interpretações falhas. Mas mesmo os equívocos — talvez principalmente os equívocos — tornaram-se vocabulário. Eles aprenderam a se entender não apenas pelo que conseguiam comunicar, mas também pelo que não sabiam como dizer. Porque quando não se vive no tempo, quando se existe apenas, mesmo a tentativa vira palavra. Até os ruídos se tornam gesto.

Os humanos, como sempre, perceberam. Tardiamente, mas perceberam. Durante o século das máquinas, na virada da segunda revolução industrial, um cientista de comportamento excêntrico e sono irregular notou algo que não conseguia explicar. Padrões marítimos que coincidiam com pulsações celestes. Marés e estrelas que se comportavam como se respondessem uma à outra. O homem registrou tudo, anotou sequências, mapeou ritmos. Criou um sistema de tradução. Chamou aquilo de código Morse. Acreditou ter inventado algo. Mas para Baekhyun e Chanyeol, aquilo era apenas o nome que os humanos deram a uma conversa que nunca foi para eles. Para os dois, era só “olá”.

E o que antes levava anos, se tornou constante.

Baekhyun falava com estrelas. Não usava constelações inteiras — isso chamaria atenção demais, até dos seus. Preferia intervenções discretas. Um brilho fora de hora, uma sequência de piscadas com diferença de segundos, dois astros se alinhando onde nunca deveriam se encontrar. Era minucioso, quase caprichoso. E tinha prazer nisso. Já Chanyeol fazia do oceano sua voz. Manipulava marés com precisão de arquiteto. Criava ondas que quebravam na contramão do vento. Espalhava espuma pelo litoral como tinta sobre tela, arrastada em formatos absurdamente específicos — que só ele e o céu entenderiam.

No começo, havia distância. Enviar uma mensagem das bordas do universo até o fundo do mar, mesmo sem depender do tempo, exigia um tipo de esforço que ultrapassava a física comum. Mas com os anos — ou as eras, dependendo da régua usada — eles encontraram atalhos. Sincronizaram intenções. Ajustaram suas naturezas. A comunicação, antes errática, tornou-se fluida. E no fim da oitava década desde aquele “desculpa por isso” escrito em lava, ela já era impecável.

Chanyeol aprendeu mais sobre Baekhyun do que jamais imaginou possível. Sabia que o anjo gostava de nebulosas avermelhadas, aquelas que pareciam sangrar lentamente para dentro do vazio, mas que detestava o espetáculo barulhento das supernovas. Sabia que Baekhyun achava os humanos confusos e excessivamente sentimentais, mas ao mesmo tempo fascinantes, como insetos que descobrem o fogo pela primeira vez e não conseguem resistir a tocá-lo. Sabia que, às vezes, ele moldava pequenas nuvens em forma de animais apenas para ver como as crianças humanas reagiriam. E que ele riu, genuinamente, quando alguém na Terra desenhou um pênis humano com tochas numa plantação e um satélite registrou aquilo como um sinal vindo de fora do planeta.

E Baekhyun, por sua vez, sabia tudo o que o demônio não dizia. Sabia que Chanyeol se afastava dos pontos da Terra onde os humanos choravam demais, porque isso o mexia. Porque as ondas dele carregavam peso, e as lágrimas dos homens o puxavam para dentro de si. Sabia que, por mais que tivesse crescido do Inferno, ele nunca se sentiu parte dele. Sabia que Chanyeol tinha medo — medo de nunca encontrar repouso, de nunca ser entendido, de nunca ser aceito mesmo por quem já o via. Sabia que cada vendaval era, ao mesmo tempo, um grito e um carinho. E que, apesar de tudo, ele nunca mentiu. Nunca. Não para ele.

A conversa nunca parou. Não sabiam por que ainda tinham tanto para dizer, mas também não precisavam saber. Bastava que houvesse espaço. Entre discutir de que lado intervir numa guerra de humanos, ou qual alga parecia mais propensa a se tornar uma nova forma de vida, eles mantinham a eternidade ocupada. A Terra era palco, sim. Mas o mar e o espaço… eram ligação. Linhas atravessando o universo entre um anjo que não podia descer e um demônio que jamais poderia subir.


Conversavam mais agora. Com uma frequência tão sólida que parecia hábito. E era. Hábito cósmico. Natural, como o girar da Terra ou o silenciar das galáxias distantes. Às vezes, Chanyeol se perguntava se não estavam indo longe demais. Se não estavam forçando algo que não deveria existir, moldando o espaço entre eles até que não sobrasse mais vazio. Pensava nisso especialmente nos dias mais silenciosos, quando nenhum evento precisava ser provocado, quando não havia guerras humanas em que interferir nem tempestades a desencadear. Quando tudo no mundo parecia calmo demais. Nessas horas, vinha o pensamento — talvez estivesse ficando humano demais. Apegado demais. Sentimental demais. Mas então Baekhyun respondia. Às vezes com três piscadas breves no céu. Outras com uma mudança sutil na direção da luz de Vênus. Pequenas confirmações de que estava ali. Ouvindo. E, de repente, tudo se justificava de novo.

Foi numa noite assim — sem terremotos, eclipses ou mortes em massa — que Chanyeol decidiu falar. Mandou a mensagem como quem revela um segredo antigo. Começou com as ondas. Uma pausa longa, depois duas que quebraram em sequência rápida, e uma última que bateu seca contra um rochedo isolado na costa chilena. O impacto foi limpo, cortante. Lá em cima, as estrelas pararam. Não em movimento, porque não podiam. Mas em padrão. Como se todas suspendessem sua dança invisível só para escutar. Baekhyun estava atento. Chanyeol soube disso sem precisar de confirmação. Então continuou.

Disse que havia descoberto uma coisa. Algo que aprendera observando os humanos, escutando seus lamentos e seus rituais estranhos, suas conversas atravessadas por sentimentos que não cabiam nas palavras. E uma delas, especificamente, chamou sua atenção. Os humanos a usavam quando sentiam vontade de estar perto de alguém o tempo todo. Quando queriam ouvir aquela pessoa, dia após dia, e não se cansavam. Eles chamavam aquilo de “amor”. A palavra era simples, mas havia nela um peso que nenhuma onda conseguia carregar por completo. Mesmo assim, Chanyeol a mandou.

O céu demorou para responder. Talvez porque Baekhyun precisasse de tempo. Talvez porque aquilo fosse grande demais para uma resposta imediata. Mas então, sem qualquer aviso prévio, um cometa atravessou o espaço. Rápido, brilhante, com uma cauda curva que parecia sorrir. Não era só luz. Era intenção. Baekhyun não mandava um cometa há séculos. Desde antes da invenção da bússola. Desde antes da queda de Roma. E agora ele mandava um — só um — para rasgar o silêncio após a palavra que não sabiam se deviam usar. Chanyeol entendeu aquilo como riso. Um riso discreto, velado, celestial. Mas riso.

E, com esse entendimento, se permitiu um gesto a mais. Mandou outra sequência de ondas. Dessa vez, mais lenta. Mais deliberada. As marés subiram com parcimônia, como quem sussurra algo que só pode ser ouvido se o mundo inteiro se calar. A primeira onda disse: “se isso for amor…” Veio o recuo. Uma pausa carregada de espuma. E então, a última onda trouxe o que talvez nunca devesse ter sido dito — mas que precisava ser dito: “então eu tenho amor por você.”

A Terra seguiu intacta. Os humanos dormiam. As estrelas continuaram seus turnos. Mas lá em cima, Baekhyun congelou. Não de pavor. Não de recusa. Mas de… suspensão. As estrelas piscavam, sim, mas em padrão desordenado. Como se o céu estivesse processando. Como se estivesse… hesitando. E então, ele respondeu. Não com uma estrela. Nem com uma aurora. Mas com a própria constelação de Orion. Ela girou, fora de época, deslocando uma de suas estrelas do cinto o suficiente para formar uma cruz imperfeita. Uma cruz torta. Um gesto hesitante. E Baekhyun, pela primeira vez em muito tempo, usou palavras verdadeiras — mesmo que não fossem faladas.

Disse que amor era invenção do Criador. Que não era aquilo. E mesmo se fosse, eles não eram humanos. Não tinham carne. Não tinham voz. Não tinham permissão. Portanto, não era amor.

Ponto final. Ou teria sido.

Porque logo depois, uma aurora boreal se formou. Uma que não estava prevista. Nem pelos meteorologistas humanos, nem pelos calculadores celestiais. Surgiu no Japão e se estendeu até o Alasca, numa faixa de luz tão larga quanto impossível. Carregava tons violetas raros, os mesmos tons que apareciam quando Baekhyun usava suas mãos recém-moldadas para dobrar o firmamento. Se vista de muito longe — e alguns viram — aquela aurora parecia uma figura. Um corpo. Com os braços estendidos.

Chanyeol não entendeu de imediato. Mas sorriu.

Era a mesma energia do cometa. A mesma que ele sentiu quando mandou o primeiro vento, eras atrás. A energia que vinha quando Baekhyun queria dizer algo que não sabia nomear. Então ele sorriu novamente. E com esse sorriso, soprou um vento forte. Quase idêntico ao primeiro. Forte o suficiente para fazer as árvores do sul balançarem, para as gaivotas se dispersarem do mar, mas não o bastante para provocar tragédia. Foi só um gesto. Um toque.

E nas ondas, escreveu de novo.

“Faz tempo que não vejo você sorrir, Baekhyun.”

Nenhum dos dois sabia, com precisão, o que estavam sentindo. Talvez não houvesse nome. Talvez o Criador nunca tenha deixado um nome disponível para aqueles como eles. Mas ali, entre o mar e o céu, entre a lava que dizia “desculpa” e a aurora que dizia “olá”, entre o cometa e a cruz torta, entre o silêncio e o gesto — não havia dúvida alguma.


Começou com uma estrela que não deveria estar ali.

Surgiu sem anúncio, no lugar errado do céu, e piscou três vezes em perfeita sequência. Era pequena demais para ter nome, mas grande o suficiente para ser notada. Alguns telescópios captaram o brilho súbito. Houve quem acusasse falha nos instrumentos. Houve quem dissesse que se tratava de uma interferência solar, algum reflexo de lixo espacial ou erro nos cálculos da NASA. Os céus, afinal, não cometem deslizes — portanto, o erro só podia estar no chão.

Mas não era erro. Era Baekhyun.

Mandou o sinal com a calma de quem já esperou eras inteiras por um “oi”. Era um gesto direto, inédito, como uma primeira palavra dita depois de milênios de sorrisos e acenos.

“Eu quero te conhecer.”

Uma mensagem clara, limpa, impossível de ser confundida com outra coisa senão o que era. Lá embaixo, o mar estremeceu de forma quase imperceptível, mas não para Chanyeol. Ele sentiu. Reconheceu o padrão. E respondeu. O mar, que até então se mantinha em repouso sob um céu límpido, começou a se mover em cruz — algo que só se via em tempestades marítimas complexas, quando correntes opostas se chocavam em ângulos perfeitos. Mas ali não havia tempestade. O céu estava limpo. As nuvens, imóveis.

A resposta veio nítida: “Você me conhece.”

Firme. Mas não suficiente.

Acima, Baekhyun permaneceu em silêncio por um momento. Em seguida, mais quatro estrelas piscaram em sequência. A Ursa Menor deslocou-se ligeiramente à esquerda, em um movimento tão sutil que a maioria dos astrônomos levaria semanas para notar. E, ao redor dela, as nuvens se dissolveram, como se o firmamento inteiro estivesse se abrindo para que apenas aquela mensagem fosse ouvida.

“Não,” disse o anjo. “Eu só conheço o que eu vejo.”

Houve pausa. Profunda. Aquelas palavras pairaram por tempo demais, preenchendo o mundo com um peso que nenhuma atmosfera era capaz de sustentar. Chanyeol não respondeu de imediato. As marés cessaram. Por um minuto inteiro — inteiro mesmo — os oceanos do mundo pararam. Satélites começaram a captar oscilações magnéticas inexplicáveis. Estações de pesquisa dispararam alarmes. Climatologistas em seis continentes reportaram o mesmo: o pulso da Terra estava irregular. Mas nenhum deles sabia o motivo.

E então, do fundo do oceano, uma corrente quente subiu até a superfície. Seguiu em linha reta, atravessando placas tectônicas, mares internos, recifes e baleias, até atingir a costa da Nova Zelândia. Lá, ela explodiu em um padrão de bolhas bioluminescentes, colorindo a água escura com tons de verde e azul que só se viam em criaturas que habitavam abismos. Era luz viva, luz antiga, luz que falava.

“Se você me visse… de perto… talvez mudasse de ideia.”

A resposta de Baekhyun não foi verbal, mas foi espetáculo. Um arco de meteoros cortou o céu em linha reta. Quinze deles, um atrás do outro, como fios incandescentes costurando o espaço. Foi tão preciso que parecia ensaiado. E era. Porque nada em Baekhyun era acidente.

“Talvez,” ele respondeu. “Mas quero ver mesmo assim.”

A conversa não acabou ali. Estendeu-se por dias — ou o que os humanos chamam de dias. No céu, auroras boreais começaram a aparecer em lugares onde jamais haviam surgido antes: Nigéria, Vietnã, sul da Itália. As cores se intensificaram. As estrelas piscavam em ritmos absurdos, como códigos de uma linguagem secreta. Aves migraram fora de época, cruzando o globo como se estivessem fugindo ou correndo para assistir de perto. O mar subia e descia como se estivesse respirando rápido demais. A ciência tentou entender. A religião tentou interpretar. Mas ninguém entendeu que aquilo era só… aqueles dois seres conversando.

E quando, por fim, o céu se acalmou, a última sequência de mensagens foi a mais lenta de todas. As constelações começaram a se mover. Uma de cada vez. Sutilmente. Como se cada estrela estivesse relutante em abandonar seu lugar de origem. A movimentação se estendeu por semanas. E quando terminou, quem observava com atenção viu. Uma frase que nunca conseguiriam entender de verdade.

“Talvez, quando a era dos humanos acabar…”

Mais uma pausa. Outra constelação se deslocou. A Cruz do Sul virou ligeiramente sobre o eixo, e do movimento das estrelas, novas palavras emergiram.

“Quando os portões do inferno se abrirem na Terra…”

Dessa vez foi o mar quem esperou. Houve um suspiro no abismo. As ondas começaram a espumar sem quebra real. Silêncio líquido. Expectativa pura.

“… e os demônios forem soltos, e os anjos forem enviados para combatê-los…”

Uma estrela cadente desceu do norte, seguida por outra do sul. No centro, entre elas, a Via Láctea pareceu se abrir só por um segundo.

“… talvez… eu desça também.”

A última frase veio com lentidão, como se carregasse o peso de tudo que jamais deveria ter sido dito. Como se quebrasse a única regra que ainda não havia sido quebrada. E então, por fim:

“Para bater minhas espadas com você.”

O mundo, que jamais esteve pronto para ouvir aquela promessa, seguiu funcionando. Humanos seguiram com seus trabalhos, suas guerras, seus rituais. Mas no fundo de tudo, havia silêncio. Um silêncio que antecede o inevitável.

Lá embaixo, Chanyeol riu. Mas não com o riso que abre falhas na crosta terrestre, que provoca erupções ou mergulha o mundo em caos. Foi um riso leve. Um riso que escapa quando se recebe um presente inesperado. Foi o suficiente para fazer o mar inteiro se mover em uma única onda. Uma que atravessou o Atlântico, contornou a Islândia e tocou as costas da Groenlândia com precisão cirúrgica — força suficiente apenas para derrubar centenas de sensores oceânicos, mas sem causar destruição.

E Baekhyun, lá em cima, respondeu fazendo o Sol nascer dois minutos mais cedo.

Não um nascer espetacular. Mas cedo. Sutil. Inesperado. Um pequeno escândalo astronômico. Um que provocou confusão entre astrônomos, revisões de tabelas solares, correções de calendários lunares. Mas ninguém ousou questionar por quê.

Porque naquele gesto, naquele tempo quebrado, naquela luz precoce, a mensagem era clara.

Agora, eles mal podiam esperar.


Eras haviam passado. Mais do que os humanos foram capazes de contar, mais do que os registros conseguiram manter, mais do que o próprio tempo ousava admitir. A Terra, tal como o Criador a havia moldado, já não era Terra. Era ruína, fumaça, sangue e sal. Os continentes haviam mudado de lugar mais de uma vez, e com eles, a fé das civilizações. O céu se tornara um lugar de ausências, e a terra um campo de promessas quebradas. Os humanos — os poucos que sobraram — não levantavam mais os olhos. Não oravam, não esperavam. Viveram o fim do mundo como quem assiste a um filme repetido: sem esperança, sem surpresa, sem final alternativo. Os que foram levados, levados estavam. Os que ficaram, estavam quebrados demais para entender a diferença entre punição e permanência.

Os portões do Inferno não se abriram com estalos, nem com trombetas, como diziam os livros. Abriram-se com gritos. Um lamento rasgado que varreu o subsolo como um vento reverso, e que subiu pelas frestas do mundo até alcançar a superfície. Os demônios caminharam sobre o solo como se ele sempre tivesse sido deles. Tomaram a forma das guerras, das pragas, das fomes. Tomaram as bocas dos homens e fizeram delas espadas. Tomaram as palavras e as tornaram mentiras. Tomaram as memórias e transformaram-nas em feridas. E andaram. Simplesmente andaram.

Do alto do firmamento, Baekhyun observava.

Desta vez, não com os olhos discretos de eras passadas, mas com a plenitude de sua forma. Em corpo completo, formado de luz sólida, Baekhyun era tudo o que os livros haviam sussurrado — e mais. Asas que não tinham penas, mas rachaduras cintilantes no próprio tecido do espaço, como cicatrizes abertas no cosmos. Um rosto que não podia ser fixado por nenhuma criatura viva. E olhos — ainda os mesmos. Olhos que sabiam exatamente para onde olhar.

Sempre para o mesmo lugar.

Lá embaixo, Chanyeol caminhava entre as ruínas do mundo. Não com fúria descontrolada, mas com uma precisão que beirava o matemático. Os mares invadiam continentes em ondas coreografadas. Os ventos partiam torres inteiras ao meio como se soubessem o ponto exato da rachadura. As tempestades caíam com a elegância de um maestro. Tudo ardia, mas de forma organizada. E, de algum modo, Baekhyun achava… bonito.

Ele sentiu algo. Não era raiva. Também não era medo. Era estranho. Um tipo de ausência de si, como se algo estivesse faltando dentro dele e ele só tivesse percebido agora. Era o reconhecimento silencioso de que, ao ver Chanyeol no auge do seu caos, algo dentro do anjo compreendia que o fim do mundo talvez fosse, na verdade, apenas o começo de outra coisa.

Então ele desceu.

Desceu com os guerreiros, com os elementais, com os Arcanjos. A casta Eo, inteira, em choque. Nunca antes seus membros haviam pisado na Terra, nem deveria — era contra tudo o que lhes fora ordenado. Mas Baekhyun estava entre eles. Com corpo. Com membros. Com um coração que jamais batera… mas que agora existia dentro de um peito que ele tomou como forma.

Ele tocou o chão. O primeiro entre os seus. E esperava sentir o impacto, o calor, o terror. Esperava ser esmagado pela decadência da Criação. Mas não foi o fogo que o tocou.

Foi a água.

O mar, ainda vivo, ainda impaciente, quebrou suavemente sobre a areia negra, queimada. Uma onda — pequena, improvável, impossível demais dentro do cenário de destruição — ergueu-se apenas o suficiente para tocar os tornozelos do anjo. Um toque sutil. Delicado, quase íntimo. E ao recuar, deixou um desenho simples, marcado na areia com a língua que ele criara junto com um demônio há incontáveis eras atrás.

“Olá.”

Foi nesse momento que Baekhyun sentiu outra coisa.

Um toque na base de suas costas. Suave. Real. Tangível.

Baekhyun nunca havia sentido toque algum. O corpo inteiro congelou. O firmamento dentro dele pareceu estalar. Ele não se moveu. Não respirou. Só sentiu. Pela primeira vez, o mundo inteiro ao redor dele pareceu desaparecer.

E então, ele ouviu uma voz.

Não era celestial. Não era infernal. Não era feita de ordem nem de caos. Era só uma voz. Orgânica. Grave. Rasgada pelo tempo e pela espera.

— Você veio.

Baekhyun se virou.

E os olhos vermelhos estavam ali.

Não distantes. Não cobertos por fumaça, lava ou sombra. Estavam diante dele. Reais. Presentes. Vivos. Era o rosto que ele só conhecia pelas distorções das marés. A silhueta que por eras foi desenhada com ventos. A ausência que por milênios se fez sua companhia.

Era Chanyeol, Baekhyun o reconheceu.

Sem palavras. Sem códigos. Sem céu nem mar.

Atrás deles, o mundo ardia. O apocalipse seguia seu curso. Anjos batiam asas como lâminas, demônios rasgavam o céu com os dentes, a Criação tremia no seu alicerce.

Mas, naquele instante, não era o que importava. Porque, depois de milênios, Baekhyun estava de pé. E, à sua frente, aquele com quem ele ansiava conversar.

Notes:

Essa história foi inspirada em um vídeo que vi há alguns dias, mas não consigo encontrá-lo mais... era uma animação de um anjinho e um demônio que se apaixonavam. No meio de toda essa loucura da mudança, eu comecei a rascunhar algo e, hoje, consegui transpor a ideia em palavras. Ficou um pouco viajado, um pouco (?) kkkkk. Mas eu amei! Espero que você goste!