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Na maioria das vezes as pessoas escolhem uma vida que possa ser o mais confortável possível, nem sempre é o que sonham ou desejam, apenas escolhem trabalhos que possam lhes garantir o básico pra sobreviver. Também não me refiro apenas a coisas materiais, o dinheiro pode comprar muita coisa e se engana quem diz que ele não traz felicidade.
Eu escolhi ser médica por que desejava ajudar as pessoas como um dia já me ajudaram, mas é claro que o salário também foi um fator decisivo pra começar a faculdade de medicina. No meu primeiro dia não criei tantas expectativas já que não era muito sociável de fato, mas não imaginei que isso se estenderia até depois de me formar.
Estava saindo de um dos quartos de paciente que me foi designado e analisando com calma a ficha dele, parecia que os remédios estavam começando a parar de fazer efeito "muitos acham que a pior parte da minha profissão é quando o paciente morre finalmente, mas eu digo que, com certeza, é tudo antes disso. É ter que vê-los sempre como uma pontinha de esperança de que um milagre possa acontecer, é ter que acompanhar todos os dias vendo-os se tornarem cada vez mais fracos, abatidos, cansados e sem esperança. É algo muito difícil, não é uma profissão pra todo mundo".
— Você já soube da novidade? — Escuto uma voz fina bem atrás de mim enquanto caminho pelo corredor concentrada em minha ficha, só que imediatamente reconheço quem é.
— Acho que vou descobrir agora, quando você me contar, Usagi — Minha melhor e única amiga nesse inferno de lugar, me olhava com seu sorriso de quem estava prestes a contar algo megainteressante "alguém adora uma fofoca"
Perfeitamente — Ela não levou como uma crítica — Temos carne nova no pedaço hehe.
— Hummm que interessante, conhece? — Finjo estar realmente interessada enquanto vejo os índices de glicemia na prancheta.
— Não, mas nós, com certeza, vamos! — Ela caminhava ao meu lado mantendo o sorriso então puxou a prancheta de mim.
— Obrigada, mas eu passo a oportunidade — Puxo minha prancheta das mãos dela com um pouquinho de força.
— Infelizmente você não tem escolha — Ela puxa novamente com mais vigor — Além do fato de ele ser um gatinho, ele vai fazer parte da equipe de pediatria.
De repente eu paro de andar ficando no meio do corredor com uma expressão um pouco surpresa que logo se transforma em uma mistura de raiva, irritação e exasperação.
— Outro cirurgião idiota? Não achei que fossem substituir tão rápido, aliás não achei que sequer fossem abrir novas vagas depois de toda merda que aconteceu, que está acontecendo...
— Bom, eu não sei exatamente que vaga ele preencheu — Ela disse cautelosa — Mas posso descobrir! — Agora estava animada novamente com aquele belo sorriso.
— Tanto faz — Dei de ombros e voltei a andar, indo em direção a minha saleta minúscula. Claro que ela me seguiu.
— O nome dele é Shuntaro Chyshia — Ela dizia enquanto virávamos o corredor quase chegando ao meu destino - Ele não parece ser ruim, pode ser que haja alguma mudança afinal.
— Ou pode ser que seja ainda pior — Suspirei voltando a indignação — Não sei por que você ainda tem alguma esperança, essa porcaria de hospital nunca se importou com como as coisas caminham por aqui, eles devem contratar qualquer mimadinho filhinho de papai que não quer nem trabalhar, sequer deve olhar pra cara do paciente, apenas os tratando como objeto. Nada aqui presta e se tivesse que apostar diria que esse novato não vai ser diferente.
— Caramba, isso que é recepção de boas-vindas — Eu escuto uma voz meio grossa atrás de nós duas e quando me viro pra ver quem é, noto apenas um garoto loiro calmo e com uma expressão quase neutra, apenas ameaçando um sorriso de canto — Prazer, Shuntaro Chyshia — Ele estende a mão em minha direção, eu estou estática no meu lugar tentando processar "ele é tão bonito", então me lembro das coisas que acabei de falar e ele provavelmente ouviu tudo "aí que vergonha meu Deus", mas não parece ter se importado nem um pouco tendo em vista sua expressão única. Tudo isso em alguns segundos o que pode ser visto pelos dois de fora como uma pequena hesitação que eu logo cessei ao apertar a sua mão.
— Kami Rysa — Mantive meu olhar para si apesar da vergonha.
— Yuzuha Usagi — Minha amiga falou após alguns segundos percebendo o silêncio e clima levemente tenso que se instalara ali - Bom, acho que já vou indo, o dever me chama - Ela disse rapidamente se virou e foi embora mais rápido ainda "Grande amiga hein, me abandona aos lobos na primeira oportunidade".
— Bom, acho que tenho que ir também, a gente se vê — Digo tentando fugir, ops, sair.
— Acho que mais cedo do que imagina, pediram pra que eu falasse contigo e que me mostrasse o hospital e como tudo funciona por aqui — Eu já estava indo para minha sala quando ele me interrompeu pra avisar sobre isso.
— Aff, fala sério e ainda vou ter que ser babá — Eu pensei alto sem perceber.
— Prometo me esforçar pra não ser tão mimadinho filhinho de papai — Solta com um ar levemente debochado mantendo o tom.
— Ah, sobre isso... — Eu pensei em me desculpar, mas não faria sentido, eu estava expressando minha opinião, podia não ser verdade, mas era o que eu pensava e não tinha como dar pra trás agora - Vamos ver se você consegue mesmo — Mudei o meu tom pra sarcasmo igual a ele.
— Adoro um bom desafio — Retribuiu, mantendo o rosto impassível.
Eu pedi pra que Chyshia me seguisse enquanto mostrava e explicava sobre tudo no hospital da maneira mais clara possível, por fim o levei para conversar com o nosso superior e deixei-o aos cuidados do mesmo. Ele não mudou nem por um momento sua maneira de olhar pras coisas, quase como se fizesse uma varredura em silêncio ao redor, tentando entender as pessoas e circunstâncias que se encontravam.
"Ele é interessante de fato, talvez não seja tão ruim".
